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Expedição Extremo Oriente

SONGDO, CIDADE ESPERTA EM UM PAÍS INTELIGENTE

em 4 dezembro, 2017

A face exposta do Distrito Internacional de Songdo é a do turismo, dos parques e das áreas verdes, da beleza arquitetônica moderna, dos negócios e do entretenimento. Em uma visita comum, caminhando pelas ruas – sem destapar os mecanismos ocultos da cidade – é difícil saber o quão inteligente é o lugar, construído especialmente para ser uma Smart City.

A proposta dos sul coreanos é extremamente ousada. Songdo é apenas um, dentre os três distritos estabelecidos na Zona de Livre Comércio do município de Incheon (Free Economic Zone), criada para atrair investimento estrangeiro e estimular a atividade econômica.

Os demais são Yeongjong, voltado para Logística e Turismo, e Cheongna, destinado a Finanças e Lazer. Os distritos estão conectados pela Ponte de Incheon, a sétima em comprimento do mundo, com 21 quilômetros de extensão.

O principal foco de Songdo são os negócios internacionais e o turismo marítimo, cultural e histórico, mas o complexo prevê ainda o fortalecimento da indústria do conhecimento e da informação; biotecnologia e desenvolvimento industrial de alta tecnologia, além de um novo porto. Sempre estabelecendo conexão entre a indústria e a academia, além de outras instituições.

A Free Economic Zone compreende ainda um porto, já existente, e um moderno aeroporto internacional, concluído em 2009, que recebe em torno de 50 milhões de passageiros/ano, está entre os mais movimentados mundo, e ocupa a segunda posição em transporte de carga.  As 70 companhias aéreas conectam 170 cidades, em 60 nações. Está aberto 24 horas e disponível para decolagens nos quatro sentidos a mesmo tempo – Norte, Sul, Leste e Oeste.

O plano do governo sul coreano é para tornar a região um influente centro de negócios e estabelecer um hub econômico no nordeste asiático, ancorado também pelas economias do Japão e da China, todas entre as mais fortes do mundo. O tempo de voo até Shanghai, a cidade chinesa mais moderna, e até Tóquio, uma das mais desenvolvidas do planeta, é de duas horas. Até Hong Kong, outro exemplo de modernidade inteligente, é de pouco menos de quatro horas.

Para compreender melhor a estratégia sul coreana e as principais diretrizes de Songdo, bom ponto de partida é a Compact Smart City, interessante centro de exibição sobre o planejamento da região. Mostra maquetes com as áreas edificadas e projeções para as próximas décadas.

Senti falta, porém, de informações concretas e corriqueiras sobre a vida na cidade: número de residências já ocupadas, população, e o funcionamento de equipamentos e serviços urbanos como de iluminação, coleta e reciclagem de resíduos e aproveitamento de água, por exemplo.

Com muita boa vontade e um inglês razoável, a funcionária do centro de turismo não soube me informar sobre os coletores automáticos instalados em uma avenida próxima. Com pesquisa prévia – e alguma instrução exposta no aparato – imagino que devem integrar o sistema de coleta inteligente. O cidadão tem uma chave que aciona o dispositivo e onde estão gravados os seus dados. Ao depositar o lixo reciclável, recebe pontos que servem para desconto de impostos.

Nas ruas há pouquíssimas pessoas. Isso explicaria a absoluta falta de lixeiras comuns? Precisei carregar as embalagens de lanche vazias na minha mochila, não havia onde descartar. A situação se repete em outras cidades coreanas e também do Japão, onde o cidadão acaba levando para casa o lixo do cotidiano. Os asiáticos dificilmente jogam sujeira no chão, mas esse é um aspecto a se repensar quando outros governos tentarem replicar o modelo de Cidade Inteligente.

A estrutura urbana é composta por elevados edifícios de alta tecnologia, torres com decks de observação, pontes estaiadas, largas avenidas, calçadas planas e amplas e um rio maravilhoso, por onde circulam táxis náuticos, mais voltado ao turismo do que ao transporte local. Convidativa para circular de bicicleta, especialmente fora do inverno e de alguns dias de outono, quando é varrida por ventos gelados.

As três enormes conchas, do centro de apresentações artísticas, simbolizam a conexão entre os sistemas de transporte (terrestre, aéreo e marítimo) e representam os três distritos inteligentes. Quase 20% da energia consumida pela torre onde funciona a sede da Zona de Livre Comércio (G Tower) de Songdo vem de fontes renováveis, aquecimento solar e geotérmico. Aproveitamento energético igual ao da prefeitura de Seoul. O complexo tem planejamento inteligente para reter e reutilizar a água; reduzir a emissão de gases tóxicos e aumentar a eficiência energética.

O tráfego é pequeno, uma das espertezas de Songdo é a sincronização dos semáforos, via internet. O metrô está conectado ao sistema que atende toda a Região Metropolitana de Seoul, com 21 linhas, benefício para 25 milhões de habitantes, a metade da população da Coreia do Sul. Aliás, todo o sistema de transporte sul coreano é muito eficiente e representa bem a inteligência da nação.

O cartão de transporte, comprado e carregado em qualquer das múltiplas lojas de conveniência, pode ser usado para metrô, ônibus e táxi, de qualquer cidade do país. Os trens, ônibus entre cidades e até os metropolitanos são bem pontuais e cobrem todo o território. Há ferrys conectando pelo mar os países mais próximos – Japão e China.

Diferente do que acontece no Brasil, as áreas entorno das estações de ônibus ou de trem, na Coreia do Sul, não são perigosas, abandonadas e nem devem ser evitadas. Pelo contrário, ter uma pousada próxima das paradas de transporte coletivo é uma vantagem que favorece os viajantes. É possível desembarcar a qualquer hora, dia e noite, caminhar sossegadamente, em segurança, e inclusive sem o assédio de vendedores e taxistas, tão irritante e costumeiro nos países latinos ou do Sudeste Asiático.

A área central de Songdo gira em torno do Central Park, nome inspirado na tradicional área de lazer, encontro e recreação de Nova Iorque. Tem cinco jardins botânicos. Songdo começou a ser idealizado em 1995 e ainda segue sendo um projeto em construção, há vazios urbanos, áreas mais isoladas e espaços fechados. A previsão era de finalizar a construção de todo o complexo em 2020.

Se é assim no Extremo Oriente, região de economias pujantes, cultura rica e caracterizada pelo respeito ao próximo, quanto tempo levaria para o desenvolvimento de um projeto desses em nosso país?

Cidade Inteligente não se forma quando simplesmente resolvemos adotar o conceito e usá-lo como marketing político ou institucional. Não se trata apenas de chamar uma cidade de “inteligente”. Curitiba, por exemplo, sem dúvida é uma das melhores cidades para se viver no Brasil. Bonita, com parques e áreas verdes e que já foi inovadora, num passado longínquo. Mas, na minha avaliação, está longe de ser considerada uma Smart City.

A realidade, de fato, depende de visão de futuro, planejamento e de pesados investimentos; de tecnologia urbana eficiente, políticas públicas adequadas e de governantes inovadores e honestos; além de precisar contar com a participação cidadã e com uma sociedade mais respeitosa, digna e livre da criminalidade, o que também significa evolução cultural. É pedir demais?

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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Expedição Extremo Oriente

O COTIDIANO DO VIAJANTE E A POUSADA FANTASMA

em 23 novembro, 2017

A minha primeira impressão da Coreia do Sul foi como a da imagem acima – muita poluição visual. Letras, placas, painéis e cartazes cobriam as fachadas dos edifícios, era difícil identificar cada ponto de comércio. Acabava de desembarcar no porto internacional de Incheon, uma viagem de 17 horas de ferry boat, atravessando o Mar Amarelo, desde a China.

Com três milhões de habitantes, Incheon é a terceira maior cidade do país e um hub de transporte do Extremo Oriente, com conexões aeroviárias, marítimas e terrestres. Desde aqui a Coreia se abriu para o mundo, com a instalação do porto industrial, em 1883.

Vieram então o primeiro hotel, o sistema postal, a Igreja Metodista, o mercado de arroz e as companhias internacionais, já presentes na China. Por haver dificuldade de acesso a Seoul, começou, em 1899, a construção da estrada de ferro. No início foi um desastre, as pessoas continuavam buscando transporte em cavalos, barcos, liteiras ou em palanquins.

Por dois dias exploraria a cidade e visitaria os projetos de Cidades Inteligentes instalados na região (você vai ver no próximo post). Para me instalar, levei em conta referências de outros viajantes e o preço, já que a Coreia do Sul é um país mais caro para viajar.

No Sudeste Asiático e na América Latina gastava em média US$30 por dia, tudo incluído: hospedagem, alimentação, água, transporte interno, visitas a museus ou a locais com entrada paga e qualquer custo extra. Faço viagens econômicas, de longo prazo, com despesas inferiores à vida cotidiana no Brasil.

Na China consegui manter a marca, apesar dos locais de visitação – vilas históricas e parques nacionais – geralmente cobrarem ingressos, caros. Na Coreia do Sul o orçamento diário foi ampliado, do contrário passaria fome ou não poderia circular pela nação. Já era previsto.

Em minhas expedições, jornalísticas, culturais e de aventura, sempre há um certo esforço para conhecer tudo, explorar novos lugares e manter o orçamento restrito. Não é a moleza de jantar em restaurantes caros, dormir em hotéis, circular de táxi, contratar guias ou viajar de avião.

O cotidiano do viajante inclui lavagem de roupas e até alguns consertos, como o do meu tênis que estava com a sola despegando. Achei um sapateiro de rua na cidade chinesa de Qingdao, onde esse tipo de ofício segue preservado.

A Better Guest House ficava longe do terminal – duas linhas de metrô, uma de ônibus e mais uma caminhada. Lugar impecável: sala ampla, assoalho brilhando, cozinha organizada, vasilhames distintos para separação do lixo e internet eficiente. Além disso, um bom ponto de partida para conhecer os arredores da cidade, região residencial.

Apesar da Coreia do Sul ser um país pequeno em extensão, 100 mil quilômetros quadrados, e ter população em torno de 50 milhões, é demorado transitar dentro das grandes cidades. Levava mais de hora e meia desde a pousada até o centro de Incheon. Após duas noites, resolvi mudar o pouso.

A guest house seguinte estava perto de importante estação de metrô, economizaria uns 40 minutos por dia. “Siga caminhando após a avenida, você vai ver uma fazenda do lado esquerdo e edifícios à direita”, era a orientação da hospedaria. Um pouco esquisito, mas de fato havia plantações de alfaces e outros vegetais em uma faixa estreita entre um e outro lado da rua. Uma pequena fazenda urbana.

“Toque a campainha, estamos no quinto andar”, explicava o dono. Atendi, mas nada. Uma, duas, três vezes. Esperei. Passaram duas mulheres, de meia idade. Acenaram, puxaram conversa. Nas duas maiores cidades da China – Beijing e Shanghai – isso é muito comum, em tentativas de golpe. As mulheres se aproximam, iniciam conversa e convidam para um chá ou drink. Uma vez dentro do estabelecimento, tem que pagar quando os comparsas apresentam uma conta exorbitante.

Não, não seria o mesmo aqui na Coreia do Sul. Mostraram um vídeo, em português, após perguntar de onde eu vinha. Queriam apenas me converter a alguma religião que falava em “Deus Mulher” e mostrava golfinhos, leões e pinguins.

Voltei a tocar a campainha e resolvi apelar para o vizinho, com gestos e sinais. Pedi por chamada telefônica. Apesar da maioria das pessoas – principalmente das gerações mais novas – estudar inglês nas escolas, são poucos os cidadãos aptos a estabelecer uma conversação fluente no idioma estrangeiro. É mito achar que nos países desenvolvidos todos falam inglês, bem.

O improviso funcionou e logo recebi instruções para entrar na casa. Lá dentro, o caos, lembrei dos acumuladores compulsivos. Meu cantinho era no sótão. O apartamento até poderia ser um daqueles cools de Nova Iorque, conceito “open space”, ambiente de artista. Não fosse a mobília velha, a geladeira cheirando comida vencida e os trastes sem utilidade espalhados.

“Hoje haverá mais um hóspede. Volte a hora que quiser, mas não feche a porta com muita força”, instruía o dono da guest house. “E deixe o pagamento debaixo do travesseiro, quando sair”, finalizou. Pedido diferente, mas cada cultura, uma prática.

Achei que estaria em um lugar de passagem, transitório, mas a cidade de Incheon é surpreendente. O centro antigo combina história, arquitetura, arte, design, entretenimento, parques e área verde, tudo com muito charme. Como sabemos, a cultura ocidental e o vínculo com os Estados Unidos é muito forte na nação.

O general norte americano, Douglas MacArthur, que comandou as forças aliadas no Pacífico, durante a II Guerra Mundial, e apoiou a Coreia do Sul na luta contra o comunismo, ganhou estátua no município. Incheon foi ponto estratégico durante a Guerra da Coreia.

O dia se faz extenso, nas longas expedições. Costumo ficar fora por 10 horas e depois trabalhar por outras quatro ou cinco horas, baixando e organizando fotos e vídeos; escrevendo, postando e respondendo mensagens; pesquisando sobre lugares, trajetos e fazendo algumas reservas; e ainda ajustando algum assunto ou pendência do Brasil.

Regressei às 22h, com ar gelado e o vento uivando atrás da porta do quarto. Tudo deserto, nenhum vestígio de que mais alguém tivesse passado a noite ali. Pensei que ao menos o dono morasse no apartamento.

Procurei câmeras escondidas, parecia estar sendo vigiado, a imaginação voava. Era uma pousada abandonada. Sensação interessante, de mistério, mas também de aconchego, por estar só. Viajar assim é interessante aprendizado, uma maravilhosa vivência.

O ar condicionado não me respeitou e insistiu em lançar ar fresco sobre o meu colchão. A noite seria uma escolha entre me esticar e abrigar os pés com o acolchoado fino e curto.

O dinheiro ainda debaixo do travesseiro.

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Expedição Extremo Oriente

CARAMUJOS, COBRAS, POLÍCIA E MUITA TRADUÇÃO POR CELULAR

em 4 novembro, 2017

Sabe aquela conversa animada com os amigos, quando queremos compartilhar impressões, trocar informações e novas experiências? Foi assim um dos meus finais de semana aqui na China, só que os novos companheiros não sabiam qualquer palavra fora do idioma deles, o mandarim. Toda a interação se deu baixo aplicativo de tradução – chinês/inglês e vice-versa. Dá para imaginar?

Minha estada, e esta aventura, começaram apartadas dos habituais trajetos de viagem ao país. Do lado de fora da estação de trem era a escuridão, e uma fileira de táxis. Onde estavam as avenidas de acesso, os pontos de ônibus? Com cerca de 400 mil habitantes, nada para os padrões do país, Deqing é uma cidade pequena e sem metrô. Eu deveria estar a uns 10 quilômetros do centro.

Noite jovem, o jeito era recorrer ao táxi, sempre minha última opção de transporte. Taxistas – em muitíssimos países onde tenho andado – superfaturam corridas, tentam levar vantagem, dificilmente falam inglês e, por vezes, ameaçam e até sequestram estrangeiros. Lá se juntou uma rodinha ao meu redor para ler a direção que eu trazia, em chinês, se divertir comigo e negociar o preço, nos dedos.

Sem debate, consegui fazer o motorista ligar e seguir o taxímetro. Essa é a primeira malandragem na carreira dos profissionais desonestos do país. Partir com a bandeira desligada e pedir valor acima do padrão. Muitos dos motoristas chineses berram, como se o idioma asiático fosse invadir os meus ouvidos e assim levar a compreensão ao cérebro. A corrida custou 40 yuans, ou US$5. A viagem de poucos minutos, em trem-bala, saiu por US$2, e nem foi possível atingir a velocidade máxima: 320 km/h.

A prova de que não haveria estrangeiros por perto se deu já na recepção da guest house. A dona me cumprimentou em inglês e esboçou um sorriso internacional. Desatei a falar, mas fui freado pelo gesto com a palma da mão esticada. Ela agarrou o celular e escreveu no aplicativo de tradução, estava para começar uma longa jornada digital.

Cidade do interior é sempre igual, ficamos amigos rapidamente. Saí para jantar, a mulher junto. Sentia-se a minha guia e anfitriã.  No balcão de iguarias, os pratos montados: algo que não identifiquei; casulos de bicho da seda; vegetais insuficientes; peixes caros; alguma coisa que não sei o que era; insetos variados; carne tresnoitada e amanhecida; e um prato que parecia adequado, por US5, minha pedida. Normalmente as sopas ou fritadas de noodles, com legumes e alguma carne de porco, custam entre US$2,50 e 3,50. Comida local é bem barata no país.

Os restaurantes chineses geralmente não oferecem guardanapos. Estou falando dos comedores locais, não de lugares turísticos. A louça fica na mesa, embrulhada em filme plástico. Estava difícil de identificar exatamente qual seria a comida: molho amarelo, várias bolotinhas escuras, de porte médio, algum legume e uma tigela de arroz. Depois de algumas mordidas, reconheci os caramujos da minha infância no quintal. Eram para dar gosto, nada mais. Um pedaço entalou lá pelo molar inferior esquerdo.

Deqing está a uma hora de carro de Moganshan, região de montanhas e vilas ancestrais. Corrida negociada pelo aparato tecnológico, a dona da pousada me deixou na entrada do parque nacional para um dia de caminhada na mata, entre pequenas lagoas, trilhas naturais, algumas pavimentadas, e vilas com casarões em rocha. Natureza forte.

Hora e meia antes do horário marcado para retorno, descobri uma bela floresta de bambu. Entrei, conduzia a um vale. Dali facilmente chegaria a qualquer vilarejo e poderia sair para a entrada do parque. Pelo meu cálculo, estava a uma distância média do ponto de encontro com a mulher da pousada.

Não estava. Descida contínua, trilha interminável, escuridão chegando. Eram quase cinco e meia da tarde e havia marcado às 18h com a pequena empresária do ramo de hospedagem. Meia volta, resolvi retornar ao ponto de partida. Mas onde seria mesmo? Tinha perdido a conexão com o mundo exterior no emaranhado de caminhos tortos.

A experiência ensina que jamais se deve deixar a trilha e ingressar na floresta cerrada. Porém, ao ver ao longe um casebre, diminuta base para corte de bambu, era a minha melhor alternativa. Então me desapeguei da trilha e, raspando a vegetação, alcancei a casinha abandonada. Dali era buscar rastros e pegadas até avistar os primeiros pontos luminosos. Daria para rodar um filme de terror em alguns casarões abandonados.

Suado, cansado e preocupado, encontrava um hotel, dentro do parque. As indicações, por gestos e sinais, mostravam que eu estava exatamente do lado oposto ao meu ponto de encontro. Sentei à mesa do computador, no hotel, para pedir uma carona, paga. Nenhum carro poderia entrar mais na área a partir daquele horário, entendi. Mas se eu esperasse uns 20 minutos, talvez…

Sentei, obediente. Ansioso pela mulher que me aguardava a alguns quilômetros de distância. Um carro estacionou na porta, pediu 40 yuans e depois de rodar algum tempo, entrou em uma vila iluminada. Tudo dentro do parque nacional. Às 19h não era ali que eu deveria estar. Instruções com uma menina que entendia algum inglês, mas, o que me salvou, foram as fotos da entrada do parque, exibidas na minha câmera.

Seguimos. Até o motorista sinalizar para eu descer, pedir mais dinheiro e me indicar uma trilha. Ali, no meio do nada, na imensidão escura da mata, como desvendar o caminho para o meu ponto de encontro? O homem subiu comigo. Andamos rápido, morro acima, arfávamos. Lanternas de celular como guias.

Após a subida forte, reconheci algumas construções. Agora caminharia sozinho pela estrada noturna. Mas, depois da segunda curva, alguém no meu encalço gritava, luz do celular à mão. Era o mesmo motorista. Logo agora que estava chegando, reclamaria mais yuans?

Pediu para eu esperar, mostrou luzes com sinais de mão. A polícia? Sim, minuto depois parava a viatura, a mulher da pousada dentro. Preocupada, não tinha simplesmente ido embora, mas acionado socorro. Explicações pelo tradutor. Fotos para os guardas. A polícia capitalizou o “resgate”, agora já devo estar em algum registro ou gráfico de salvamento na China.

No dia seguinte, quando despertei, Lu Mao Dan me aguardava, em trajes de domingo. Estava bonita, acompanhada do marido e do filho. Sairiam comigo, em visita à fazenda de criação de cobras, para uso medicinal.

Antes uma vila de pescadores, Zisiqiao começou a criar serpentes na década de 70. A medicina tradicional chinesa – baseada no uso de vegetais, minerais, ervas, raízes e partes dos animais – aproveita o veneno, a pele e o óleo da cobra. Bom, não é à toa que o réptil aparece no símbolo que representa a Medicina – o bastão de Esculápio.

Nas fazendas, víboras, najas e pítons. Há serpentes ao ar livre, em poços de concreto; guardadas em caixas de madeira, empilhadas uma sobre as outras; e até dezenas ensacadas. Yang Hongchang é um dos precursores da iniciativa na vila. Quando jovem recorreu às cobras para tratar da artrite que ninguém conseguia sarar. A cura se transformou em um negócio.

Com cerca de três milhões de cobras, a região se tornou uma indústria.  Vende para dezenas de companhias farmacêuticas e exporta para a Coreia do Sul e Japão, além de produzir licor para consumo doméstico, bom para o sistema imunológico.

A família não me deixou pagar o almoço na área histórica de Xinshi, vila de canais fluviais e pontes semicirculares. Ainda me convidaram para jantar, regado a forte destilado chinês e longa conversa por plataforma digital, noite adentro.

Para agradecer a amigos tão amáveis, comprei flores e pequenas tortas. Agora você pode imaginar a cena, o único estrangeiro na cidade, com quase dois metros de altura, circulando pelas ruas com um buquê de girassóis. Realmente, não são necessários restaurantes sofisticados e hotéis caros para se divertir muito e viver maravilhosas aventuras no exterior.

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO, E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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A VILA DO TIGRE E DO DRAGÃO

em 29 outubro, 2017

A China é uma combinação de lugares históricos, vilarejos ancestrais, paisagens exuberantes e cidades modernas. Alguns dos cenários mais pitorescos estão na região de Huizhou, na província de Anhui. A região floresceu com a riqueza dos comerciantes de madeira, chá e sal.

A história era severa. Com apenas 13 anos os meninos eram lançados para fora de casa para se envolver no mundo dos negócios. Ficavam ausentes a maior parte do tempo, muitas vezes retornando ao lar apenas uma vez por ano. O resultado foram vilas com edificações esplendorosas, portas esculpidas e janelas entalhadas, pavilhões decorados, bonitos pátios e jardins internos.

Hóngcún é um exemplo. Construída no segundo período da Dinastia Song (960 a 1.279), é um charmoso cenário com pontes, vielas, becos e ruas labirínticas em meio à área rural e montanhosa.

Conta a história que mais tarde a vila foi remodelada, ganhou o formato de um boi. Resultado da consulta a um guru de Feng-Shui, feita por alguns anciãos, fundadores do lugar.  O sistema de canais, ainda em funcionamento, representa as entranhas do animal e o lago, no centro da aldeia, o estômago do bicho.

O estilo arquitetônico da região de Huizhou simboliza bem a classe de mercadores que dominou os vilarejos durante as dinastias Ming e Qing. Muros de pedra, paredes caiadas em branco com cabeças de cavalo nos flancos. Pátios internos iluminados por aberturas retangulares nos telhados. Decoração sofisticada e janelas diminutas – para prevenir ladrões e também para afastar as esposas solitárias das tentações.

Eram ainda obcecados por arcos decorados, construídos por decreto imperial para homenagear algum feito excepcional dos indivíduos. Apesar de ser lugar histórico e declarado como Patrimônio Mundial, pela Unesco, ainda há algumas vivendas nas cercanias, na área rural próxima aos limites do vilarejo. Muitos ainda trabalham no comércio, com a venda de especiarias, carcaças de pato dissecadas e outras iguarias bizarras da China.

Mas, talvez esteja na entrada, um dos pontos mais famosos de Hóngcun. A pequena ponte usada como locação para a cena de abertura do filme “O Tigre e o Dragão” (2000), do diretor Ang Lee. O drama, de artes marciais, é poético e revela outras estupendas paisagens da China como florestas de bamboo e as montanhas de Huangshan. Gravado em mandarim, é obra prima do cinema asiático.

A beleza do lugar atrai, além de visitantes, estudantes de arte, desenhistas e pintores que retratam a paisagem relaxante e inspiradora. Sem dúvida, um ponto alto da expedição Extremo Oriente pela China.

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A PROPAGANDA E O CULTO POLÍTICO-RELIGIOSO (PARTE 3)

em 22 outubro, 2017

Estávamos em filas. Alinhadas quatro a quatro, formando um retângulo. Imperfeito, um tanto desordenado. Os coreanos que vinham atrás se posicionavam em blocos simétricos, vestiam-se praticamente iguais e se movimentavam de maneira uniforme. Marchavam, atrás de nós. Todos em direção aos mausoléus dos líderes.

Kumsusan, o Palácio do Sol, em Pyongyang, é para mim a maior representação da propaganda governamental. Sim, os cartazes, estandartes, telões, vídeos, placas com informação e estímulo institucional estão em toda parte, nos lugares menos imaginados. Em um parque aquático ou nos vidros de uma panificadora, por exemplo.

Mas, é no Palácio, em formato de museu, tumbas e salas de exibição que a mensagem repercute de forma mais solene e, muito provavelmente, mais profunda, capaz de penetrar em cada célula do cidadão local.

Os celulares haviam sido deixados no ônibus. As câmeras fotográficas, guardadas junto com bolsas, sacolas e mochilas. Apenas carregar dinheiro era permitido, mas nunca moedas e nem um outro papel sequer. Na sala de espera, sem nada nas mãos ou nos bolsos, recebemos as últimas instruções – desta vez seriam três reverências a cada um dos líderes, quando diante de seus corpos embalsamados.

Primeiro, um corredor ao ar livre, depois, escova-pés e área de checagem e controle de segurança. A longa esteira rolante – que atravessava área de fosso e jardins – tem degraus e corrimão vermelho. Dois de nós foram suavemente repreendidos por descansar o corpo sobre o braço ou a mão apoiada. A postura deveria ser com os braços ao longo do corpo, estilo militar. Marchamos.

Há uma barreira invisível entre a população local e os estrangeiros, em DPRK. Além da timidez e da dificuldade com o inglês, algo mais impede a comunicação, mesmo quando autorizada. A fiscalização é contínua. Para tudo é preciso pedir autorização, mesmo para se deslocar dentro do país. Não dá simplesmente para sair da tua cidade e viajar à praia porque está calor. Sempre fui inclinado à esquerda, mas para mim essa falta de liberdade é letal.

A propaganda governamental acorda e vai dormir conosco. Além do aparato externo, nos hotéis, bares e restaurantes sempre há um televisor exibindo Karaokê. Isso mesmo, aqueles vídeos de música, com legendas embaixo, feitos para cantarmos junto. A temática é repetitiva, gira em torno de arte e beleza ou de luta, guerra e formação militar.

O interior do Palácio do Sol é exuberante: pisos e paredes inteiras em mármore, enormes tapetes com pontas triangulares e formatos geométricos, quadros dos líderes. Sim, tudo no país gira em torno da personalidade das lideranças que já se foram, o presidente Kim Il-Sung e o seu sucessor e filho, Kim Jong-Il. Ou então do atual, Kim Jong-un, o “líder supremo”, como é intitulado.

Há uma espécie de culto, de adoração mística. Por isso talvez a ausência de religião na Coreia do Norte. Pelas ruas, há estátuas gigantescas dos dois primeiros e lugares especiais de celebração. Os monumentos também estão espalhados pela nação, não se restringem apenas à capital. Oferecer flores não é obrigatório, mas bastante recomendado.

Trajávamos nossas melhores roupas. Alguns, terno e gravata. A princípio a contragosto, enfiei calça social, camisa e sapatos pretos na mochila, conforme recomendação prévia. Atravessamos um curto corredor de expiração, onde jatos de ar deveriam remover poeira e qualquer outra partícula de sujeira, antes de adentrarmos ao hall principal.  A contemplação dos corpos preservados, dentro de caixas de vidro, é o momento mais solene e surpreendente da visita. Nosso grupo, dividido em pequenos subgrupos, cumpriu com as três saudações – à frente e de cada lado. É impressionante a devoção dos norte coreanos. “Os líderes são como nossos pais”, explicou a guia.

Dali para um salão repleto de condecorações, diplomas e medalhas. Reconhecimentos, de vários países, à história e ao trabalho do presidente falecido. Nada vi do Brasil, mas identifiquei homenagens do Peru e do Equador, na América do Sul. Por último, um espaço com vagão que transportou a autoridade em algumas viagens, bem como rotas de itinerários percorridos.

O mesmo processo, idêntico rito, para a figura do segundo líder: mausoléu, condecorações e viagens. O Palácio é da década de 70, servia de residência oficial e escritório do presidente Kim Il Jung. Foi aberto ao público em 1995, um ano após sua morte. O segundo líder faleceu em 2011.

Dois ou três dias depois visitamos a Sala dos Tesouros, lugar preparado para guardar todos os presentes que receberam, igualmente de muitas nações e governos. Os quatro andares abrigam peças bonitas, exorbitantes e bizarras: cadeira feita com chifres de alces, inclusive os pés de apoio; belas pinturas de tigre, o animal nacional; vaso com duas mil peças em madeira. Não são poucos os agrados: oito mil, ao todo!

Além do culto político-religioso, é forte o controle no país. Toda informação é supervisionada, o jornal é propaganda institucional, assim como toda a comunicação, em qualquer espaço. Há cinco canais de televisão acessíveis, informou o outro guia local. Sim, como sabemos, eles vivem uma realidade distinta, isolados do resto do mundo.

Nós, brasileiros, estamos muito distantes desse cotidiano. Em verdade, de todo a vida asiática, um outro mundo. Gosto de viajar com profundidade, geralmente fico um mês em cada país que percorro. Na Coreia do Norte, não é possível, os trajetos geralmente duram entre três e cinco dias. Fiquei oito, acima da média. Foram dias muito movimentados e intensos, acredito que pude tomar o pulso da nação.

Por fim, dizer que o comunismo puro, autêntico, é muito bem intencionado em seu conceito. Quão maravilhoso seria um mundo em que todos colaborassem, contribuíssem e desfrutassem. Com igualdade. Um universo sem miséria, onde cada um teria o seu trabalho e não haveria criminalidade. Seria pedir demais, com liberdade? Na prática, talvez esse sistema ainda seja uma utopia. Ao menos, com a humanidade atual.

FIM

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A VIDA NO PAÍS COMUNISTA (PARTE 2)

em 15 outubro, 2017

“Somos um país comunista, aqui tudo é de graça: casa, saúde e educação”, declarou a guia local, nos meus primeiros dias em terras norte coreanas. Reflexivo, me calei, ainda tentando tocar a realidade com as mãos. Agora poderia sentir um pouco, na prática, essa cotidiano socialista. Longe do dogmatismo teórico ou de poses esquerdistas.

De fato, não se vê miséria em Pyongyang e nem nos arredores, não há moradores de rua, mendigos e o país parece ser perfeitamente seguro.  No entanto, em vilas mais simples e em áreas rurais, a uma distância de três ou quatro horas da capital, mulheres lavam roupas em riachos de águas poluídas. Bom, nada tão diferente assim das regiões pobres do Brasil.

Talvez a maioria das pessoas more em edifícios, os prédios estão em toda parte. Mesmo em áreas isoladas, onde só se vê campos e agricultura, lá está uma construção vertical, por vezes no meio do nada, bem diferente. De longe, os prédios parecem mais bonitos do que de fato se revelam, com a aproximação.

Tudo no cotidiano norte coreano está relacionado à função que se desempenha. Conforme o trabalho se recebe uma casa e um salário, além de uma ração (espécie de cesta básica), a cada duas semanas. Nas fazendas cooperativas ganha-se também cota da produção.

Professores, pesquisadores e cientistas estão melhor instalados, geralmente na área moderna da capital, em construções imponentes. Se tiverem a oportunidade e a sorte, podem passar algum tempo fora do país, em estudo e desenvolvimento técnico-profissional.

A ocupação depende do perfil do sujeito e da conexão familiar. O cidadão pode se candidatar para ser guarda de trânsito ou guia turístico, mas dificilmente alguém de origem rural irá trabalhar na cidade ou conseguir um posto de destaque. É complicado se movimentar para cima, neste sistema. A aposentadoria chega aos 60 anos para homens e aos 54 anos para mulheres, segundo informação de um dos guias coreanos.

A comida é muito barata e a compra de utilidades domésticas, facilitada. Na única oportunidade que tivemos de conhecer um mercado local, adquiri lanche, biscoitos, sucos e refrigerantes por menos de R$10, pagos na moeda local, o Won. Artigos importados vem normalmente da China e do Japão. O câmbio era de 8 mil Wons para US$1.

Carros, porém, são produtos de luxo, pouco acessíveis â população em geral. A maior parte dos veículos pertence ao governo ou às Forças Armadas. Em uma semana no país vi apenas um automóvel de uso particular, indicado pela placa de cor amarela.

De acordo com o guia ocidental, o país reserva 13 hotéis para abrigar estrangeiros. O nosso tinha 47 andares e oito elevadores, um deles, panorâmico. Todos com câmeras de vigilância. Como tudo na Coreia do Norte, os estabelecimentos pertencem ao governo, oficialmente não há propriedade privada.

Apesar disso, veículos britânicos como o jornal The Guardian e a rede de televisão BBC, informam que o país vem implantando reformas voltadas à economia de mercado. Apesar das casas não pertencerem a seus moradores, existe a venda de “direitos de residência”, de acordo com o jornal. Igualmente, há alguns empreendimentos do governo que, na prática, são administrados por gerentes que absorvem a maior parte dos resultados financeiros. Seriam, segundo a imprensa internacional, empresas de ônibus e companhias de carvão, por exemplo. Diferente do que ocorreu na China, as mudanças não são acompanhadas de qualquer abertura política.

Apesar de todo o desenvolvimento armamentista, a tecnologia não é exatamente parte da vida do cidadão. A internet, apesar de existir, não está disponível para pessoas comuns, mas restrita ao governo, diplomatas e a alguns visitantes estrangeiros. Há um sistema de intranet local, usado nas universidades, mas que não se conecta à rede mundial de computadores.

O primeiro serviço de internet móvel (3G), obviamente restrito, foi lançado em associação entre uma empresa egípcia de telecomunicação e estatal coreana. Alguns habitantes usam telefones celulares, mas apenas para efetuar e receber chamadas.

O hotel onde fomos instalados preserva duas cabines telefônicas e um guichê para envio de cartas ou cartões postais. O imenso rádio do quarto não transmite qualquer estação e a área de música da biblioteca pública tem diversos equipamentos, ainda com toca-fitas.

Inevitável não mencionar, a decoração é sempre kitsch, em qualquer lugar. Arcos de flores, lustres esquisitos, maçanetas e acabamentos de gosto duvidoso, mobiliário ultrapassado, vasos entre vidros de portas giratórias. Quadros enormes em espaços gigantescos. Definitivamente os norte coreanos não acreditam em ambientes pequenos.

A sociedade é bastante conservadora, os casamentos são normalmente arranjados e a regra é não praticar sexo antes do matrimônio. O divórcio não é ilegal, mas tampouco comum. É evidente o comportamento reservado, tímido e respeitador do povo norte coreano. As crianças são extremamente disciplinadas e agradavelmente inocentes.

Há atitudes impossíveis de se controlar a todo momento e a peraltice é um delas. Estivemos com crianças nas ruas, em áreas de recreação e até em um parque aquático. A gurizada, sempre obediente. Outro mérito do país é a educação artística. Os pequenos são incentivados desde cedo a cantar, dançar e a tocar instrumentos.

Assim como na Ásia, em geral, a gastronomia é, por si só, uma outra viagem, muito saborosa. Maravilhosos churrascos de pato, rabanetes ultra apimentados, conchas na brasa e, claro, bastante arroz e vegetais. A economia estatizada é baseada na agricultura e os produtos industrializados que tive a oportunidade de provar são horríveis: refrigerantes, chocolates e doces em geral.

Há as cervejas e os licores locais, perfeitamente adaptáveis ao nosso paladar, e os pratos típicos e polêmicos, como a sopa de cachorro. Evitei, apesar de estar sempre tentado a novas experiências. Optei pela consciência de preservação, ainda mais conhecendo algumas atrocidades feitas contra os cães, enjaulados em praças públicas, na China.

Entre as especialidades tradicionais está o noodles frio, prato tradicional em casamentos pois simboliza a união eterna. “Quando vai receber o seu noodles frio?”, perguntam os locais, numa alusão à data em que os noivos, ou namorados, pretendem se casar (ou serem casados).

Depois de transitar por três cidades, a visita, para ser completa, precisava percorrer a zona desmilitarizada (DMZ). Essa é a área que separa as duas Coreias, do Norte e do Sul. O corredor, perfeitamente demarcado, tem 257 quilômetros de extensão. Na área estratégica, dois quilômetros para dentro de cada nação, são permitidas apenas armas leves. Apesar de todo o controle, esse é o único local onde fotos com guardas e soldados são permitidas.

A Coreia do Norte fala em reunificação e existe até um monumento em prol do retorno a uma só grande nação. Pela minha ótica – e provavelmente na visão da maioria das pessoas – hoje seria uma missão quase impossível. A Coreia do Sul jamais aceitaria o regime estabelecido em DPRK. Para a Coreia do Norte, abrir as fronteiras e deixar o mundo entrar seria o equivalente a uma bomba em uma comunidade totalmente alheia ao mundo exterior.

(CONTINUA. TERCEIRO CAPÍTULO: A PROPAGANDA E O CULTO POLÍTICO-RELIGIOSO).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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A ÚLTIMA FRONTEIRA (PARTE 1)

em 10 outubro, 2017

Parecia ter desembarcado em um cenário de filme, com poucos atores. Talvez pelas construções coloridas, em tons suaves, contrastando com os trajes cinzas, marrons, verdes ou azuis, sempre escuros, dos norte coreanos. Talvez pela ausência de publicidade, painéis, placas ou neons, tão comuns na China e no mundo ocidental. À primeira vista, Pyongyang, a capital, é uma cidade de brinquedo.

É muito complexo descrever uma visita à Coreia do Norte, ou República Popular Democrática da Coreia (DPRK), como foi batizada a nação comunista. Comum acreditar em imagem baseada em chavões ou paixões políticas. Nem sempre coincide exatamente com o que me alertavam os amigos ou me escreviam os conhecidos, momentos antes da partida.

Só se entra na Coreia do Norte pela China e, sempre, em grupos organizados, não é possível viajar de forma independente. É necessário contratar um operador autorizado por alguma das agências estatais, no nosso caso a “Korea International Travel Company”.

Não tinha certeza se iria conseguir o visto chinês pela segunda vez em menos de dois anos, já que a condição imposta pelo consulado de São Paulo é a de uma espera de 24 meses, entre um visto de turismo e outro. Por isso organizei minha estada na China com a autorização de trânsito – poderia ficar em Beijing por 72 horas, até a partida à Coreia. O passaporte, devidamente carimbado, me foi devolvido apenas um dia e meio antes de sair do Brasil. A emoção já começava. O visto coreano seria entregue no dia anterior ao início da visita.

Após dois dias em solo asiático, aterrissava no mais fechado país do mundo, cercado de cuidados e orientado sobre a legislação a seguir. Não poderia tirar fotos sem autorização prévia dos guias; nenhuma câmera fotográfica com lentes de mais de 250 mm seria permitida; em todo o trajeto teríamos sempre a companhia de dois guias coreanos e um ocidental; nenhum guia de viagem, livro sobre a Coreia, impresso ou documento religioso entraria no país.

Saudações em sinal de respeito aos líderes do país eram fortemente recomendadas; perguntas mais delicadas ou questionamentos políticos deveriam ser submetidos primeiramente ao guia ocidental e conversas com os locais poderiam ocorrer, brevemente e em locais específicos; mapas e GPS teriam que ser deletados dos celulares.

Seria necessário, ainda, assinar um acordo relacionado à publicação de imagens, vídeos e textos sobre o país. Conteúdos para mídias sociais e blogs pessoais foram permitidos. Jornalistas em cobertura de imprensa, só com autorização especial.

À primeira vista as recomendações acima, e outras sugestões de comportamento, me soaram um tanto bizarras. Porém, circulando pelo mundo, aprendi que é preciso ter a mente aberta e a sensibilidade para aceitar as particularidades, os costumes, as restrições e até mesmo as imposições de cada país.

Tudo aceito, estava preparado para um mergulho em uma cultura absolutamente distinta da ocidental, tão mitificada e, dificilmente compreendida. Não se trata apenas de uma nação de mísseis, disposta a guerrear contra os Estados Unidos. Sim, eles detestam o governo norte americano, mas dizem nada ter contra o povo do país.

Demorei alguns dias para entender melhor a satisfação que sentem pelo desenvolvimento bélico. Não sem me chocar antes, diante do impacto provocado pelas imagens em um telão gigantesco, instalado atrás de inocentes crianças entre oito e 10 anos de idade, cantando doces melodias em apresentação artística.

Sim, aconteceu, de fato. Ao ver tanta propaganda institucional pelas ruas e na mesma tela do teatro, eu pensava, minutos antes da cantoria: “impossível os mísseis aparecerem por aqui, bem neste momento”. Mas lá estavam eles, bombas projetadas aos céus, enquanto a piazada se alternava, talentosa, entre os vocais e diferentes instrumentos musicais.

Para os moradores de DPRK os pesados armamentos são motivos de orgulho. “A nação é poderosa, capaz de se defender de qualquer ameaça de superpotências”, assim acreditam, dessa maneira pensam e deste modo foram educados. “Não se trata de querer matar pessoas, mas de ser capaz de autodefesa”, explica o gentil e comunicativo guia australiano.

Havia tensão na chegada ao aeroporto. Provocada mais pelo temor de certos turistas, como o jovem Alex, inglês de 25 anos que depois se confessou aterrorizado ao passar pelos sistemas de controle. Após colocar a mala na esteira de raio-X, o rapaz errou o trajeto e simplesmente foi de encontro com o fiscal, duas vezes seguidas.

Nervosismo talvez decorrente de haver mais policiais do que passageiros no desembarque. Alguns marchando lá fora. Um guarda se aproximou do estrangeiro que filmava a chegada e pediu que apagasse todos os registros. Prontamente obedecido. Não tive problemas, minha mochila sequer foi aberta, apenas foram separados os equipamentos eletrônicos – laptop, câmera fotográfica e celular.

Difícil também é conhecer com exatidão a vida local e distinguir a realidade do cenário apresentado aos estrangeiros. Passei por áreas rurais, estive em lugares públicos, observei gente nas ruas, visitei uma fábrica de vidro e até uma fazenda de produção cooperativa. Dava para perceber o cotidiano em movimento, de forma crível e espontânea. Pessoas caminhando para o trabalho sobre calçadas impecavelmente limpas, ou se deslocando em bicicletas pelas ciclovias. Imensas avenidas com pouco trânsito e construções modernas.

Outros momentos, no entanto, pareciam ter sido construídos somente para os viajantes que chegavam e encontravam uma plateia de teatro lotada de gente, em plena quarta-feira à tarde. Ou grupos de estudantes de inglês, na biblioteca, aguardando para interagir com os estrangeiros.

Seja como for, os principais mitos, histórias e temores são diferentes do que estamos habituados a escutar. Alguns, simplesmente não existem. É o caso da proibição de fotografar o país. Algumas áreas tem restrições severas, caso de alfândega, aeroporto e certos palácios e espaços do governo.

De resto é viável registrar o país, nas mais diversas formas. A maior parte das pessoas é arredia, não gosta de ser fotografada. No entanto, uma aproximação cautelosa e delicada pode tornar possível o registro.  Seja como for, entre o real e o imaginário, sem dúvida uma viagem à Coreia do Norte é uma experiência única, extraordinária e surpreendente.

(CONTINUA. SEGUNDO CAPÍTULO: A VIDA NO PAIS COMUNISTA).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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MULTIDÃO CELEBRA DIA NACIONAL DA CHINA

em 2 outubro, 2017

Quatro e quarenta da madrugada toca o despertar e eu acordo animado, após menos de três horas de sono, e depois de 51 horas de viagem, quatro voos, um trem, um ônibus e breve caminhada até o hostel onde me hospedaria, no coração de Beijing.

Mergulhei na escuridão das vielas e ruas estreitas do Hutong, bairro animado da capital, que fervilha até o início da madrugada. Antes do amanhecer, é completamente deserto, mas totalmente seguro. Não sinto saudades do Brasil.

É 1 de Outubro, a data mais importante do calendário Chinês, ao lado do Ano Novo. Comemora-se o dia da República Popular da China, um feriado que dura mais de uma semana e abarrota o país com intensa circulação de pessoas. Todos estão de folga na chamada “Semana de Ouro” e viajam pelo país.

Metrô ainda fechado, buscava um táxi na avenida principal, ao lado de minha nova amiga, a alemã Nina, jovem estudante universitária gordinha e muito simpática. Não gosto de táxis, principalmente em países da Ásia e da América Latina. Os motoristas resistem em usar o taxímetro e costumeiramente querem superfaturar as corridas. Em muitos casos, há inclusive risco de sequestro e assalto, mesmo na China.

Logo ali, um casal chinês parecia tentar o mesmo. Com gestos, sem qualquer palavra, conseguimos nos comunicar e compartilhar o transporte. Um carro negro, acionado por celular, chegava em instantes. Poderia ser um táxi do mercado paralelo. O mais provável era ser de empresa de transporte por aplicativo. A Didi Chuxing comprou a operação da Uber no país em 2016 e anunciou no início deste ano o investimento de US$100 milhões na brasileira 99 Táxi. É o maior aplicativo de transporte urbano da China.

Os arredores da Tiananmen Square já anunciavam a multidão que se preparava para a comemoração oficial. Está entre as 10 maiores praças do mundo com 440 mil metros quadrados (880 m X 500 m). Famosa mundialmente pelos protestos contra o governo e o massacre de civis, em Junho de 1989.

De máscara antipoluição, e sem dizer palavra, a chinesa recusa minha oferta de contribuir com o transporte. Seguimos juntos. O casal não desgrudaria de nós nem um momento, parecia sentir-se responsável pelos estrangeiros. Assim é o povo chinês, tem perfil de bom anfitrião.

Atravessamos o sistema de segurança e afundamos na multidão. Mar de gente. Alguns com patrióticas bandeiras vermelhas, outros com adesivos nas bochechas. Crianças nos ombros dos pais tentando ver o invisível. Oceano de celulares.

Atualmente a celebração é muito simples. Alguns tambores, que escutamos à distância, o hasteamento da bandeira e revoada de pássaros. Apesar da Independência da China ter ocorrido em 21 de Setembro, foi em 1 de Outubro de 1949 a formação do Governo Central, assim esta data é anunciada formalmente como da criação da República Popular da China.

Tudo começa e termina rapidamente, logo após clarear, ainda com neblina incessante. Todos veem pouco. O mais interessante é sentir o pulso da capital, interagir com as pessoas por sorrisos e acenos, registrar o momento, sentir-se comprimido pela massa humana.

Pouco depois da madrugada ter abandonado a praça, guardas dão a ordem de retirada por alto-falante e fazem a multidão se mover. Fácil de compreender. O local permanece bloqueado pelo cordão humano de soldados, com idades a partir dos 14, 15 anos. Impecáveis em suas posturas, são jovens que optaram pela carreira militar.

 

Seguimos nosso caminho, tudo muito fluido e ordenado, apesar do excesso de gente e do hábito chinês de empurrar as pessoas para conquistar espaço ou passagem. Estava na expectativa de como seria chegar ao país em pleno feriado prolongado, apesar de tantos alertas para evitar a “Semana Dourada”.

Sim, os chineses congestionam mesmo as ruas e vão à visitação e às compras. Caminham pelos calçadões, alternam-se entre as lojas de quinquilharias, mercados de rua e as gigantes boutiques com famosas marcas internacionais.

Já havia estado aqui em data festiva, há um ano e meio, na expedição De Mochila pela Ásia. Era o Dia do Trabalho, 1 de Maio.  Sempre divertido, acolhedor e instigante. Pode ser difícil se transportar pelo país, mas, para um mochileiro solitário, não é preciso evitar as multidões na capital da China.

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO, E SEMPRE CITAR A FONTE).

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Expedição Extremo Oriente

Ike Weber inicia nova expedição pela Ásia

em 29 setembro, 2017

Íntegra de matéria do jornal Gazeta do Povo.

Em sua terceira expedição, curitibano conta como “largar tudo” e viajar pelo mundo

Jornalista, fotógrafo e viajante curitibano Ike Weber se prepara para uma jornada de três meses pela China, Coreia do Norte e do Sul, Japão e Taiwan.

Foto: Daniel Caron/Gazeta do Povo.

Ike Weber vai ao Extremo Oriente. O jornalista, fotógrafo e viajante curitibano se prepara para uma jornada de três meses pela ChinaCoreia do Norte e do SulJapão e Taiwan.

É sua terceira grande viagem. Na primeira, ele levou 11 meses para ir do Peru ao Alascaentre 2012 e 2013. Na segunda, foi de Hong Kong à Rússia em um itinerário de sete meses, de 2015 a 2016.

Elas importam porque não servem só pra matar a vontade de fazer passeios longos e sem data para terminar, desejo que Weber tem desde que fazia mochilões na adolescência. São “expedições jornalísticas e culturais”, como ele gosta de chamar, que depois viram um monte de histórias contadas em livros, palestras, exposições e oficinas.

O formato também foge do turismo usual. Weber viaja sempre sozinho, usando o meio de transporte que tiver à mão. Num dia pode ser trem; no outro, bicicleta e até cavalo.

Ike na China, em 2016. Foto: Acervo pessoal

A relação com os lugares é de imersão: o jornalista tenta se aproximar das pessoas que moram lá e conhecer a vida que levam. E documenta tudo para produzir reportagens e conteúdo (uma parte pode ser vista em seu site).

A expedição ao Extremo Oriente começa nesta quinta-feira (28). O ponto de partida será Pequim, capital da China, de onde Weber seguirá para a Coreia do Norte — um de seus principais interesses nesta viagem.

“Sempre vou muito aberto [para as expedições]. Vou para as regiões mais variadas pelo interesse que tenho em conhecer tudo. Mas tenho interesses específicos nessa região. A realidade bizarra da Coreia é um deles e, coincidentemente, estou indo em um momento de bravata ou possível guerra”, conta, em entrevista ao Viver Bem.

As exigências que o jornalista teve de cumprir para visitar o país foram a etapa mais trabalhosa do planejamento.

Da Coreia do Norte, o jornalista volta para a China. Ele vai percorrer a costa oriental do país, de onde seguirá, por água, para a Coreia do Sul.

Em seguida, ruma para o Japão, também por mar, antes passar por Taiwan e encerrar a viagem, novamente, em Pequim.

Weber conta que também está particularmente interessado em estudar, durante a viagem, as inovações das chamadas “cidades inteligentes” na Ásia.

Serão cinco em sua rota: Seul e Songdo (Coreia do Sul), Tóquio (Japão), Taipei (Taiwan) e Hong Kong (China).

A volta está marcada para as vésperas da virada do ano.

Escolha

Em sua primeira expedição, entre 2012 e 2013, Weber levou 11 meses para ir do Peru ao Alasca, passando por Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Guatemala, México e Estados Unidos. Foto: Acervo pessoal

Juntando tudo até aqui, são mais de dois anos fora de casa. “Meu objetivo é ter um cotidiano de viagem”, diz, contando como concilia o projeto com a família e o trabalho. “Quando você viaja a longo prazo, sua vida é a viagem”, explica.

Quem está lendo isso de crachá e com vista para uma divisória deve estar se perguntando quanto custa ser um “viajante”, e quem é que pode fazer algo assim.

Pelos cálculos de Weber, a conta dá uma média de 30 dólares por dia em países em desenvolvimento na Ásia e na América Latina, incluindo hospedagem, alimentação e transporte terrestre. Em lugares mais caros, como Estados Unidos, Japão, Hong Kong e Coreia, gasta-se uns 50.

Esse valor não inclui as passagens de avião e é suficiente apenas para uma viagem padrão aventura (hospedagem é em hostel e comida, às vezes, é de supermercado).

O custo total também inclui abrir mão do emprego e, em geral, não saber como vai ser retomar a carreira na volta.

Weber não deu exatamente um salto no escuro. Em 2012, quando deixou o cargo de diretor de Comunicação do Sistema Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) para ter seu período sabático, tinha portas abertas para voltar.

A expedição, no entanto, acabou engrenando como projeto profissional — cerca de 70% do que Weber gastou na primeira viagem voltou por meio de editais, parcerias, palestras e conteúdo jornalístico. A segunda já começou com 50% do custo financiado desse jeito.

Alasca, ponto final da primeira expedição de Ike Weber, em 2013. Foto: Acervo pessoal

O jornalista nunca voltou ao emprego. “Não me arrependo. Fiquei nove anos lá. Poderia ter ficado 20, mas o que teria feito?”, reflete Weber, que tem 50 anos e duas filhas — uma de 27 e uma de 1 ano e 4 meses.

Ele diz que perder um salário fixo e estar “do lado de fora” é mais difícil, mas que as experiências que esta forma de viver propicia acabam compensando. “Viajar ajuda a dar sentido ao que realmente vale a pena”, filosofa.

Link original: http://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/turismo/ike-weber-coreia/

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De Mochila pela Ásia

Moscou: histórica, culta e bela

em 19 maio, 2016
Maio é a melhor época para descobrir a cidade
Fonte iluminada em praça da capital russa

O clima de Maio convida para desfrutar das praças de Moscou, mesmo à noite

São onze e meia da noite de uma sexta-feira de primavera em Moscou. Os pais levam o menino de menos de cinco anos à praça para praticar na minúscula bicicleta, sem rodinhas de apoio. O garoto se empacota após a rampa de calçamento, protegido pelo capacete. Levanta-se com a ajuda paterna e segue para a descida menos íngreme.

Além dessa pequena família, várias outras passeiam pelo iluminado centro da capital russa. Dividem espaço com estrangeiros de diversas origens, senhoras de idade, casais de namorados e grupos de amigos. O ponteiro do Kremlim chega perto da meia noite e algumas lojas de rua seguem abertas, portas escancaradas.

Na escuridão da alameda, o motorista desce e deixa o carro ligado enquanto compra o cartão de rua para estacionamento. Casais se embalam em balanços duplos, a cobertura de um dos inúmeros teatros pisca e as estátuas e monumentos estão impávidos, destacados pelo céu escuro. Mulheres rumam sozinhas para o lar na solidão do início da madrugada. A capital é segura, limpa e encontra-se serena.

As luzes enfeitam, sem exagero

O prédio do Ministério da Defesa é hoje um moderno centro de controle das Forças Armadas

O cenário colorido pelas luzes revela o bom gosto de uma nação que um dia já esteve fechada ao mundo. Sem os excessos do neon, brilham em harmonia as construções históricas e religiosas, nesse importante centro político, econômico, cultural, financeiro e científico.

Tá, se você realmente circular por Moscou vai encontrar bêbados pedindo dinheiro e até homens de meia idade, sacolas à mão, trajados melhor do que este viajante, esmolando com insistência e talvez com alguma agressividade repentina ao falar. Certo incômodo, mas esporádico. Irrelevante em um lugar dos mais bonitos que já conheci.

Maio é a melhor época para descobrir a cidade

Os imensos parques da cidade oferecem opções de esportes, descanso e entretenimento

Esta época começa a esquentar, mas o ar permanece fresco e a temperatura, durante o dia, fica em torno dos vinte graus. Bastante agradável para descobrir a cidade, costumeiramente gelada. Como o sol se põe bastante tarde há claridade até oito e meia da noite, pelo menos.

O centro histórico se enche de gente, decoração e vida, em Maio

No Festival de Páscoa, a cidade é enfeitada com flores, guirlandas e outros adereços

O mês de maio é de comemorações. Há um intenso festival de Páscoa e celebrações pela vitória do país sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. A metrópole se apresenta enfeitada com flores e adornada por guirlandas.

O 9 de Maio é das mais importantes datas festivas em Moscow

Crianças são costumeiramente uniformizadas na celebração do dia da vitória contra os nazistas, na Segunda Guerra Mundial

Moscou é a terra do ballet Bolshoi e de diversos teatros; da gigantesca Praça Vermelha e do mausoléu de Lênin. Tem pelo menos 60 museus de conteúdos variados: história, guerra, literatura, artes, teatro e música, carros, robótica, técnicos e científicos. O catolicismo ortodoxo é forte, então é comum encontrar igrejas e catedrais em toda parte, frequentadas por mulheres de cabeça coberta. Aliás, quanto à beleza todos sabemos ser muito difícil rivalizar com a mulher brasileira, mas, me desculpem, as russas são fenomenais.

A capital da Rússia tem a arquitetura bem preservada

Arquitetura secular, monumentos e prédios históricos preenchem todo o centro de Moscou

O metrô é outro espetáculo. Nos primeiros momentos apresenta apenas seus rudes ares soviéticos, é cinza e lembra o passado comunista. Aos poucos descortina a beleza de estações decoradas com pinturas e murais, adornadas com destaques em gesso e lustres requintados, revestidas em mármore e pavimentadas com granito. É o mais profundo do mundo, boas dezenas de metro baixo terra.

Enquanto nossa Curitiba se debate entre a polêmica e a incapacidade de construir eficiente transporte público subterrâneo, o metrô de Moscou passa dos 80 anos com 182 estações e linhas que permitem o deslocamento por toda a cidade. A maior parte do atendimento nos guichês é realizada por pessoas de certa idade, boa oportunidade de ocupação e permanência no mercado de trabalho.

Cada parada do metrô é uma surpresa e uma nova descoberta

As estações do metrô são uma galeria de arte

O caminhão passa repetidamente lançando água no asfalto e praças. É metrópole limpa, de 12 milhões habitantes, a segunda mais populosa da Europa. Logo acima a furgoneta aciona esfregões sobre as calçadas. As lixeiras respeitam a arquitetura secular.

A capital russa tem extensa malha ferroviária, é equipada com quatro aeroportos e concentra centros comerciais e prédios fabulosos, em formatos ousados. A moeda local, o rublo, tem cotação média de 65 para um dólar.

É impactante a modernidade da capital russa

Os edifícios da área moderna ousam no formato e tamanho

Apesar do tamanho, é uma cidade prática. Sim, já estive nas principais e mais charmosas cidades do mundo, das de visitação obrigatória como Paris, Londres, Roma e Nova Iorque: exóticas como Atenas e Cairo;  contemporâneas como são Vancouver, Milão e Chicago: até à requintada Viena; à imensa Cidade do México e à inteligente Barcelona, para citar algumas.

Será que me esqueci da magia das outras ou a capital da Rússia é mesmo extremamente cativante?

Moscou é uma metrópole completa

O rio Moskva acompanha o centro da cidade e permite passeios de barco, na temporada de calor

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