A hospedaria sem pia

Publicado em: 29/03/ 13

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Crônica do Viajante

O empurrão no ombro esquerdo, seguido de um estrondo, não me incomodava. Deixei que a porta de ferro se fechasse, sacudida pelo vento quente de Libéria. Continuei, satisfeito, a tarefa de fotografar os estábulos que fazem às vezes de duchas e banheiros.

Hotel com ar condicionado por US$35 ou a hospedagem anexa, com ventilador de teto, por US$16? Alguma dúvida?

À porta de entrada da região de Guanacaste, a Costa Rica se faz mais pobre. Ao sopé das montanhas, se mostra extremamente aquecida, na manhã que já avança, querendo logo alcançar o almoço.

Acabara de chegar à cidade, após a tradicional jornada de algumas horas – prensado entre bancos desconfortáveis de ônibus – seguida do trajeto urbano, quadras a pé, mochila às costas e calor saturando a fronte.

Descubro rápido as diferenças entre as acomodações. Espaços semelhantes, localização praticamente idêntica e a já anunciada substituição do ar pelo ventilador, que dá rasantes circulares muito próximos de minha cabeça.

A hospedagem não tem pia. Sim, o quarto tem até banheiro, além de um televisor de tubo. Mas não tem pia. O banheiro se resume ao box, desses  imundos, que já conhecemos, e ao vaso sanitário.

Compreensível, se considerar que o quarto da pensão em Monteverde não tinha tomada.

A única pia do anexo fica no quintal dos fundos, ao lado das estrebarias transformadas em banheiros. Libéria é conhecida por ser a cidade costarriquenha dos vaqueiros e ostentar festas de cowboys e desfiles de cavalos.

Daí a sessão de fotos e o estrondo.

Trancado ao lado da pia externa

A porta de ferro que se fechara às minhas costas não tinha trinco. Estava devidamente lacrada, isolando o pátio do anexo da hospedaria. Do lado de dentro, minha chave, mochila e dinheiro. Estava preso no quintalzinho, só com a câmera fotográfica.

Às vésperas do feriado de Páscoa, hotel e hospedaria estavam completamente vazios. No caso da minha acomodação, é claro, não havia funcionários ou qualquer tipo de atendimento ao cliente. Lá estava, ilhado em meio ao que um dia poderia ter sido uma estabulagem para cavalos. Sozinho, junto à única pia do estabelecimento.

Criado subindo em árvores, escalando pedras e saltando muros e telhados das casas na praia, seria fácil sair dali. Se não fosse a platibanda projetada para dentro do pátio, o que impedia qualquer acesso ao telhado. Experimentei a grade da janela. Frágil, viria abaixo com meus quase 100 quilos de peso, alguns já perdidos com as caminhadas da viagem.

Quando guri, aos nove ou 10 anos de idade, pus abaixo o telhado da escola. Liderei grupo de meninos que precisava invadir a cantina para destruir os copos plásticos mal lavados, retirados do lixo, para servir outra vez o suco no recreio.

Espiei as telhas, enxerguei a calha e recordei da cena. Outro telhado que não suportaria o meu peso. E, desta vez, não poderia me sujeitar ao risco de quebrar o braço ou deslocar o joelho.

Uma das portas do pátio dava para um minúsculo quartinho onde encontrei parafuso, arames e prego. Iniciei o aprendizado de abrir fechaduras. Desconhecedor do ofício e pouco afeito às artes manuais, jamais obteria sucesso.

Colho uma vassoura do quarto que mais parece um armário. Em vão bato nas telhas e grito para me fazer escutar pelos vizinhos. Estava num local tranquilo o bastante para descansar. Impossível de ser perturbado ou escutado.

Mergulho no chuveiro

Creio que já se passara mais de uma hora quando resolvo repetir a vistoria, desta vez de forma mais minuciosa. Paciência nunca foi um dos meus maiores atributos.

Tão surpreso quanto do momento em que descubro que a acomodação não tem pia, encontro uma janela de vidro escondida atrás da porta do quartinho. Dava para o mesmo banheiro de box sujo e só com vaso sanitário. Se conseguisse retirar o vidro, alcançar o batente e projetar o corpo, estaria de regresso ao meu quarto.

Já realizara essa façanha, há quase 20 anos e 20 quilos mais magro. Na missão de salvar minha filha criança, trancada do lado de dentro do banheiro, quebrei o vidro e consegui comprimir o corpo em apenas uma das folhas da janela-basculante, também voltada a um pátio interno.

Com a faca torta, encontrada entre os destroços do quarto-armário, removi a armação de madeira. O último prego enferrujado custava a sair. O vidro rajado deslizou intacto.

Era a hora da prova do preparo e da condição física. Pé em uma e outra parede do quarto felizmente estreito, enfiei a cabeça e logo cheguei com os ombros para dentro do box, cabeça perto do chuveiro e corpo resvalando nos pedaços de sabonete deixados por outros clientes na esquadria de madeira. Restos certamente esquecidos pela dona da limpeza.

Um mergulho semelhante ao de duas décadas passadas e ganhei o banheiro sem pia. Estava livre.

Suor do esforço e da temperatura abrasante do norte da Costa Rica retirado pela ducha que domina o sanitário da hospedaria. Agora entendo porque havia uma chave pendurada do lado de fora da porta do banheiro.


25 Comentários

  1. Ricardo Takiguti disse:

    Caro Ike
    Antes de mais nada , feliz pascoa.
    Realmente a chave pendurada na porta era um aviso.
    Que bom que conseguiu contornar a situação.
    Pelo visto o sol tem sido seu companheiro nas jornadas.
    Grande abraço
    Ricardo Takiguti

  2. Silveira disse:

    Cara, seu texto da pia foi hilário. Seu espírito de sair dessa foi ótimo, mas fotografar o passo a passo, foi muito engraçado.

    Ainda bem que vc teve este senso de humor e não meteu o pé na porta.

    abraço e que Deus continue cuidando de sua viagem.

    Silveira

  3. Josiane disse:

    Olá Ike,

    Situação cômica essa, para quem está de fora… é claro!
    Parabéns pela paciência e eficácia no retorno ao quarto!
    Feliz Páscoa!
    Estamos adorando os relatos!

    Josiane,
    Professora de Biologia do Colégio SESI – Umuarama / PR.

  4. Tiziana disse:

    Lembro-me bem desta mesma façanha há 20 anos atrás! 😉

  5. Rafael Turra disse:

    História sensacional Ike!!

  6. Lucas Gabriel Cieslak disse:

    Olá Ike
    Estou acompanhando sua viagem pelos países esta muito interessante continue nos mandando novidades
    Abraço Lucas Gabriel Cieslak Sise Guarapuava

  7. Victória disse:

    ike,
    acho muito interessante o que divulga em seu blog e tenho a dizer que você não está simplesmente fazendo turismo, está explorando cada local por onde passa… desde as maravilhas até os piores sufocos! Creio que seja realmente gratificante deixar pra traz cada apuro que passa. É uma aventura em que me espelho e procuro sinceramente fazer algo do tipo para escapar deste marasmo…
    O senhor é uma pessoa de coragem e merece adimiração e por mais que seja difícil acredito que a admiração admiração tem pelo que faz é conveniente

    • Victória disse:

      O senhor é uma pessoa de coragem e merece admiração e por mais que seja difícil acredito que a admiração pelo que faz seria conveniente, deve ser muito gostoso 🙂 *
      Victória Galletti, COLÉGIO SESI- Cianorte

  8. Bentes disse:

    Fala Ike
    A “busca da pia perdida”, foi ótima, ainda bem que não te pegaram em fuga e pediram explicações.
    divirta-se!!!
    bentes

  9. Rafael Cruz Lima disse:

    Socializar o banheiro inteiro tudo bem, mas só a pia é brincadeira!!! Esse post realmente foi hilário!!!!

  10. Amanda Luisa disse:

    Olá Ike.
    Este post seu foi realmente muito engraçado, e já passei por situações bem parecidas.
    Reparei que a hospedaria é bem modesta mas também bem suja e mal cuidada, e gostaria de perguntar ao senhor, muitas pessoas se hospedam nesse “hotel”?
    Abraços e boa sorte no restante da viajem!
    Colégio SESI- Marechal Cândido Rondon

    • ikeweber disse:

      Sim, é um anexo do hotel principal. Mais econômico.

      Quando estive não havia mais ninguém, mas tem uso normal, frequente.

      Abço, Ike.

  11. Giordano disse:

    Olá Ike,achei o seu comentário muito engraçado,e gostaria de te perguntar se esse hotel é bem movimentado.
    Boa sorte no restante da viagem
    Colégio SESI-Marechal Cândido Rondon-PR

    • ikeweber disse:

      É na verdade um anexo de um hotel. Para quem quer ficar em área mais econômica. Tem movimento normal, pelo que dizem. Mas quanto estive lá fiquei sozinho no lugar, não havia mais ninguém.

      Abço, Ike.

  12. Aline tainá peixoto Colégio SESI marechal cândido rondon disse:

    Oi, adorei esse post, foi muito engraçado, deve ter sido muito estranho, não é todo banheiro que não tem pia, gostei das fotos também, lendo parece que vivenciamos isso também, boa sorte para o resto da viagem!

  13. Louise Martins - Colégio SESI-PR - M.C.RONDON disse:

    Nossa que situação complicada, eu teria me desesperado, não iria saber o que fazer. Acho que ia começar a gritar como uma doida para achar alguém… rsrsrs’

  14. larissa matte disse:

    nossa para min seria muito estranho ter que sair do estabelecimento para poder simplesmente lavar as mãos e escovar os dentes ,e tambem o chuveiro la parece ser muito baixo,mais foi um fato muito engraçado que ocorreu.

  15. Bruna Garibotti disse:

    E ai Ike, haha *-*
    Se deparando com situações difíceis, como esta da pia, não encontrar lugares para passar a noite, transportes, etc, fica a vontade de desistir?

    • ikeweber disse:

      Nunca, todas as situações fazem parte da viagem.

      Vim preparado para isso, é a característica da expedição e minha natureza.

      Abço, Ike.


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