Expedição Extremo Oriente

A PROPAGANDA E O CULTO POLÍTICO-RELIGIOSO (PARTE 3)

em 22 outubro, 2017

Estávamos em filas. Alinhadas quatro a quatro, formando um retângulo. Imperfeito, um tanto desordenado. Os coreanos que vinham atrás se posicionavam em blocos simétricos, vestiam-se praticamente iguais e se movimentavam de maneira uniforme. Marchavam, atrás de nós. Todos em direção aos mausoléus dos líderes.

Kumsusan, o Palácio do Sol, em Pyongyang, é para mim a maior representação da propaganda governamental. Sim, os cartazes, estandartes, telões, vídeos, placas com informação e estímulo institucional estão em toda parte, nos lugares menos imaginados. Em um parque aquático ou nos vidros de uma panificadora, por exemplo.

Mas, é no Palácio, em formato de museu, tumbas e salas de exibição que a mensagem repercute de forma mais solene e, muito provavelmente, mais profunda, capaz de penetrar em cada célula do cidadão local.

Os celulares haviam sido deixados no ônibus. As câmeras fotográficas, guardadas junto com bolsas, sacolas e mochilas. Apenas carregar dinheiro era permitido, mas nunca moedas e nem um outro papel sequer. Na sala de espera, sem nada nas mãos ou nos bolsos, recebemos as últimas instruções – desta vez seriam três reverências a cada um dos líderes, quando diante de seus corpos embalsamados.

Primeiro, um corredor ao ar livre, depois, escova-pés e área de checagem e controle de segurança. A longa esteira rolante – que atravessava área de fosso e jardins – tem degraus e corrimão vermelho. Dois de nós foram suavemente repreendidos por descansar o corpo sobre o braço ou a mão apoiada. A postura deveria ser com os braços ao longo do corpo, estilo militar. Marchamos.

Há uma barreira invisível entre a população local e os estrangeiros, em DPRK. Além da timidez e da dificuldade com o inglês, algo mais impede a comunicação, mesmo quando autorizada. A fiscalização é contínua. Para tudo é preciso pedir autorização, mesmo para se deslocar dentro do país. Não dá simplesmente para sair da tua cidade e viajar à praia porque está calor. Sempre fui inclinado à esquerda, mas para mim essa falta de liberdade é letal.

A propaganda governamental acorda e vai dormir conosco. Além do aparato externo, nos hotéis, bares e restaurantes sempre há um televisor exibindo Karaokê. Isso mesmo, aqueles vídeos de música, com legendas embaixo, feitos para cantarmos junto. A temática é repetitiva, gira em torno de arte e beleza ou de luta, guerra e formação militar.

O interior do Palácio do Sol é exuberante: pisos e paredes inteiras em mármore, enormes tapetes com pontas triangulares e formatos geométricos, quadros dos líderes. Sim, tudo no país gira em torno da personalidade das lideranças que já se foram, o presidente Kim Il-Sung e o seu sucessor e filho, Kim Jong-Il. Ou então do atual, Kim Jong-un, o “líder supremo”, como é intitulado.

Há uma espécie de culto, de adoração mística. Por isso talvez a ausência de religião na Coreia do Norte. Pelas ruas, há estátuas gigantescas dos dois primeiros e lugares especiais de celebração. Os monumentos também estão espalhados pela nação, não se restringem apenas à capital. Oferecer flores não é obrigatório, mas bastante recomendado.

Trajávamos nossas melhores roupas. Alguns, terno e gravata. A princípio a contragosto, enfiei calça social, camisa e sapatos pretos na mochila, conforme recomendação prévia. Atravessamos um curto corredor de expiração, onde jatos de ar deveriam remover poeira e qualquer outra partícula de sujeira, antes de adentrarmos ao hall principal.  A contemplação dos corpos preservados, dentro de caixas de vidro, é o momento mais solene e surpreendente da visita. Nosso grupo, dividido em pequenos subgrupos, cumpriu com as três saudações – à frente e de cada lado. É impressionante a devoção dos norte coreanos. “Os líderes são como nossos pais”, explicou a guia.

Dali para um salão repleto de condecorações, diplomas e medalhas. Reconhecimentos, de vários países, à história e ao trabalho do presidente falecido. Nada vi do Brasil, mas identifiquei homenagens do Peru e do Equador, na América do Sul. Por último, um espaço com vagão que transportou a autoridade em algumas viagens, bem como rotas de itinerários percorridos.

O mesmo processo, idêntico rito, para a figura do segundo líder: mausoléu, condecorações e viagens. O Palácio é da década de 70, servia de residência oficial e escritório do presidente Kim Il Jung. Foi aberto ao público em 1995, um ano após sua morte. O segundo líder faleceu em 2011.

Dois ou três dias depois visitamos a Sala dos Tesouros, lugar preparado para guardar todos os presentes que receberam, igualmente de muitas nações e governos. Os quatro andares abrigam peças bonitas, exorbitantes e bizarras: cadeira feita com chifres de alces, inclusive os pés de apoio; belas pinturas de tigre, o animal nacional; vaso com duas mil peças em madeira. Não são poucos os agrados: oito mil, ao todo!

Além do culto político-religioso, é forte o controle no país. Toda informação é supervisionada, o jornal é propaganda institucional, assim como toda a comunicação, em qualquer espaço. Há cinco canais de televisão acessíveis, informou o outro guia local. Sim, como sabemos, eles vivem uma realidade distinta, isolados do resto do mundo.

Nós, brasileiros, estamos muito distantes desse cotidiano. Em verdade, de todo a vida asiática, um outro mundo. Gosto de viajar com profundidade, geralmente fico um mês em cada país que percorro. Na Coreia do Norte, não é possível, os trajetos geralmente duram entre três e cinco dias. Fiquei oito, acima da média. Foram dias muito movimentados e intensos, acredito que pude tomar o pulso da nação.

Por fim, dizer que o comunismo puro, autêntico, é muito bem intencionado em seu conceito. Quão maravilhoso seria um mundo em que todos colaborassem, contribuíssem e desfrutassem. Com igualdade. Um universo sem miséria, onde cada um teria o seu trabalho e não haveria criminalidade. Seria pedir demais, com liberdade? Na prática, talvez esse sistema ainda seja uma utopia. Ao menos, com a humanidade atual.

FIM

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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