Expedição Extremo Oriente

A ÚLTIMA FRONTEIRA (PARTE 1)

em 10 outubro, 2017

Parecia ter desembarcado em um cenário de filme, com poucos atores. Talvez pelas construções coloridas, em tons suaves, contrastando com os trajes cinzas, marrons, verdes ou azuis, sempre escuros, dos norte coreanos. Talvez pela ausência de publicidade, painéis, placas ou neons, tão comuns na China e no mundo ocidental. À primeira vista, Pyongyang, a capital, é uma cidade de brinquedo.

É muito complexo descrever uma visita à Coreia do Norte, ou República Popular Democrática da Coreia (DPRK), como foi batizada a nação comunista. Comum acreditar em imagem baseada em chavões ou paixões políticas. Nem sempre coincide exatamente com o que me alertavam os amigos ou me escreviam os conhecidos, momentos antes da partida.

Só se entra na Coreia do Norte pela China e, sempre, em grupos organizados, não é possível viajar de forma independente. É necessário contratar um operador autorizado por alguma das agências estatais, no nosso caso a “Korea International Travel Company”.

Não tinha certeza se iria conseguir o visto chinês pela segunda vez em menos de dois anos, já que a condição imposta pelo consulado de São Paulo é a de uma espera de 24 meses, entre um visto de turismo e outro. Por isso organizei minha estada na China com a autorização de trânsito – poderia ficar em Beijing por 72 horas, até a partida à Coreia. O passaporte, devidamente carimbado, me foi devolvido apenas um dia e meio antes de sair do Brasil. A emoção já começava. O visto coreano seria entregue no dia anterior ao início da visita.

Após dois dias em solo asiático, aterrissava no mais fechado país do mundo, cercado de cuidados e orientado sobre a legislação a seguir. Não poderia tirar fotos sem autorização prévia dos guias; nenhuma câmera fotográfica com lentes de mais de 250 mm seria permitida; em todo o trajeto teríamos sempre a companhia de dois guias coreanos e um ocidental; nenhum guia de viagem, livro sobre a Coreia, impresso ou documento religioso entraria no país.

Saudações em sinal de respeito aos líderes do país eram fortemente recomendadas; perguntas mais delicadas ou questionamentos políticos deveriam ser submetidos primeiramente ao guia ocidental e conversas com os locais poderiam ocorrer, brevemente e em locais específicos; mapas e GPS teriam que ser deletados dos celulares.

Seria necessário, ainda, assinar um acordo relacionado à publicação de imagens, vídeos e textos sobre o país. Conteúdos para mídias sociais e blogs pessoais foram permitidos. Jornalistas em cobertura de imprensa, só com autorização especial.

À primeira vista as recomendações acima, e outras sugestões de comportamento, me soaram um tanto bizarras. Porém, circulando pelo mundo, aprendi que é preciso ter a mente aberta e a sensibilidade para aceitar as particularidades, os costumes, as restrições e até mesmo as imposições de cada país.

Tudo aceito, estava preparado para um mergulho em uma cultura absolutamente distinta da ocidental, tão mitificada e, dificilmente compreendida. Não se trata apenas de uma nação de mísseis, disposta a guerrear contra os Estados Unidos. Sim, eles detestam o governo norte americano, mas dizem nada ter contra o povo do país.

Demorei alguns dias para entender melhor a satisfação que sentem pelo desenvolvimento bélico. Não sem me chocar antes, diante do impacto provocado pelas imagens em um telão gigantesco, instalado atrás de inocentes crianças entre oito e 10 anos de idade, cantando doces melodias em apresentação artística.

Sim, aconteceu, de fato. Ao ver tanta propaganda institucional pelas ruas e na mesma tela do teatro, eu pensava, minutos antes da cantoria: “impossível os mísseis aparecerem por aqui, bem neste momento”. Mas lá estavam eles, bombas projetadas aos céus, enquanto a piazada se alternava, talentosa, entre os vocais e diferentes instrumentos musicais.

Para os moradores de DPRK os pesados armamentos são motivos de orgulho. “A nação é poderosa, capaz de se defender de qualquer ameaça de superpotências”, assim acreditam, dessa maneira pensam e deste modo foram educados. “Não se trata de querer matar pessoas, mas de ser capaz de autodefesa”, explica o gentil e comunicativo guia australiano.

Havia tensão na chegada ao aeroporto. Provocada mais pelo temor de certos turistas, como o jovem Alex, inglês de 25 anos que depois se confessou aterrorizado ao passar pelos sistemas de controle. Após colocar a mala na esteira de raio-X, o rapaz errou o trajeto e simplesmente foi de encontro com o fiscal, duas vezes seguidas.

Nervosismo talvez decorrente de haver mais policiais do que passageiros no desembarque. Alguns marchando lá fora. Um guarda se aproximou do estrangeiro que filmava a chegada e pediu que apagasse todos os registros. Prontamente obedecido. Não tive problemas, minha mochila sequer foi aberta, apenas foram separados os equipamentos eletrônicos – laptop, câmera fotográfica e celular.

Difícil também é conhecer com exatidão a vida local e distinguir a realidade do cenário apresentado aos estrangeiros. Passei por áreas rurais, estive em lugares públicos, observei gente nas ruas, visitei uma fábrica de vidro e até uma fazenda de produção cooperativa. Dava para perceber o cotidiano em movimento, de forma crível e espontânea. Pessoas caminhando para o trabalho sobre calçadas impecavelmente limpas, ou se deslocando em bicicletas pelas ciclovias. Imensas avenidas com pouco trânsito e construções modernas.

Outros momentos, no entanto, pareciam ter sido construídos somente para os viajantes que chegavam e encontravam uma plateia de teatro lotada de gente, em plena quarta-feira à tarde. Ou grupos de estudantes de inglês, na biblioteca, aguardando para interagir com os estrangeiros.

Seja como for, os principais mitos, histórias e temores são diferentes do que estamos habituados a escutar. Alguns, simplesmente não existem. É o caso da proibição de fotografar o país. Algumas áreas tem restrições severas, caso de alfândega, aeroporto e certos palácios e espaços do governo.

De resto é viável registrar o país, nas mais diversas formas. A maior parte das pessoas é arredia, não gosta de ser fotografada. No entanto, uma aproximação cautelosa e delicada pode tornar possível o registro.  Seja como for, entre o real e o imaginário, sem dúvida uma viagem à Coreia do Norte é uma experiência única, extraordinária e surpreendente.

(CONTINUA. SEGUNDO CAPÍTULO: A VIDA NO PAIS COMUNISTA).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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