De Mochila pelas Américas

A vida em El Salvador – litoral sul

em 30 abril, 2013

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Crônica do viajante

Impossível qualquer privacidade na lancha. A comunidade é uma só, viajando em conjunto para as ilhas atacadas por piratas no final do século XVII e abandonadas por quase 250 anos.

Todos riem e participam das piadas em conjunto, no país alegre, apesar de devastado por guerra e terremotos. Gritam, da proa à popa. É povo expansivo e feliz o salvadorenho.

A embarcação faz água, removida com esponja grossa e velha por um dos membros da tripulação. Melhor dizer que o mar ultrapassa o casco da canoa a motor e precisa ser retirado aos borbotões pelo amigo do piloto.

É um “chicken boat”: transporta refrigerantes, água, frutas, comida, vassoura e até flores. Carregamento para a ilha Meanguera, no Golfo de Fonseca. O barco passa ao largo de Honduras, bordeando a linha imaginária da fronteira com El Salvador.

A lancha também carrega o vendedor de cds, filmes piratas e controles remoto para televisão, rumo a sua peregrinação mensal, de casa em casa, pelo povoado. Bem informado sobre o Brasil, a conversa sai fácil, assim como a pregação ensinada na igreja.

O barco transita com a mulher que recém deu à luz no continente e agora volta para casa, novo bebê nos braços, barriga flácida, esparadrapo do hospital no dorso da mão esquerda.

Leva a moça que não se acanha em juntar direitinho as sobras de comida e o material plástico do almoço. Guarda tudinho na bolsa plástica e lança ao mar, sem qualquer vergonha ou educação.

A canoa de fibra conduz a esperança do morador de San Miguel, segunda maior cidade do país, que instigado por familiares da ilha, foi buscar melhor sorte fora do continente.

O menor e menos visitado país da América Central é, sem dúvida, pitoresco. O povo é gentil, mas por vezes expansivo demais na região litorânea. Até invasivo, se pode dizer.

O país faz jus à fama de ser uma nação armada. Nas cidades não é difícil encontrar uma loja para comprar balas e revólveres ou uma oficina de conserto de armamentos.

O comércio mais sofisticado mantém no mínimo um segurança armado à porta. Com escopeta. Conhece bem os grupos de bandidos e as “maras”, gangues que imperam no país desde a década de 90. Sucederam a violência da guerra civil dos anos 80 e geralmente estão em busca do dinheiro fácil das drogas, da extorsão ou do cruel tráfico de pessoas.

Na cidade portuária, ruas desertas e portas fechadas assim que escurece. Alguns taxistas fazem ponto nas esquinas e tipos suspeitos marcam passo no parque. A noite é sombria, escura e perigosa.

O sonho americano

Na ilha Meanguera, Firmin montou o negócio há 10 anos, depois que tudo já estava mais organizado nos Estados Unidos. Primeiro foi um filho, com a esposa. Aos poucos todos foram se revezando e cruzando a fronteira, clandestinamente.

Os três varões picam uva e maça em Seattle. A moça é gerente de hotel em Nova Iorque. Anistiados ou casados, hoje todos moram legalmente.

A construção, na ilha, tem quarto para todos. Como as visitas são raras tentaram estabelecer um hotel, mas agora apenas alugam espaço para os viajantes.

Os quartos são velhos e oferecem a opção de cama ou rede, que já vem com pequenos casulos de vespa grudados no trançado de nylon colorido. A mesa, onde um dia havia uma televisão, e o chão, de lajotas azuladas com desenhos rajados, são empoeirados.

A janela do quarto dá para o curral, com vacas e sujeira de animais. A venda, que se transformou em ponto de encontro de todo final de tarde, domina o piso da entrada. Oferta o mais típico prato local, a pupusa, tortilla frita e recheada com queijo e feijão.

Há um balde grande e uma pequena bacia no banheiro. A descarga não funciona e a porta não tem trinco. Do cano, na parede, a água sai naturalmente quente e não refresca o calor de 32 C. Do azulejo fogem em procissão as formigas.

Da rede de descanso, acordo com outra procissão na comunidade. No sábado foram enterrar José Alípio, antigo morador do lugar. Cantando, o cortejo deixa a casa preparada para o velório e sobe até o cemitério, algumas quadras adiante.

Na praia, o pescador carrega o botijão com 30 litros de água nas costas. Sobe e desce encostas desde o povoado, a 45 minutos de caminhada. A maré está enchendo e os poços são inundados com água salgada, explica.

É domingo, dia de gente bêbada na vila. Sou sempre amigável e já hábil o suficiente para me desembaraçar rapidamente, antes que consigam pronunciar o pedido de ajuda ou de dinheiro.

Alguns metros dali, na pequena casinha branca, sem cruz nem nada, fiéis acompanham a missa. O país é absolutamente católico.

As primeiras chuvas da América Central explodem no céu, sem cerimônia. Trazem um cheiro forte de mofo que impregna no ambiente e gruda ardido nos pulmões.

Na ilha vizinha, estrondos do baile de final de semana.

Geral na estrada

A caminhonete coletiva para na estrada, a caminho de El Espiño. “Desçam todos, mãos acima dos ombros, em fila, a partir daqui”, ordena o avantajado policial de uniforme escuro. Dizem que a polícia salvadorenha não é de todo confiável, lembrei na hora.

“De costas, mãos na cabeça”, continua. Viro-me com a mochila de ataque presa às costas. Mais carregada do que de costume, por ser dia de deslocamento. Saco de dormir atado abaixo.

“Agora levantem a camisa”, continua o policial. Já havia levado geral antes, na época da adolescência, nas madrugadas vazias da Curitiba dos anos 80. Nada que alarmasse mais. Só que agora era diferente. Ladeado por trabalhadores rurais, era o único estrangeiro num terra estranha e má afamada.

“O que carrega na mochila?”, achega-se a mim. “Objetos pessoais, máquina…” “Máquina?”, confunde o policial com a gíria para designar arma. “Câmera fotográfica”, respondo, enquanto ele enfia o nariz para dentro. Remexo o conteúdo. “Temos que cuidar bem de vocês”, orgulha-se.

Subimos todos outra vez na caminhonete: vaqueiros salvadorenhos com seus longos facões e dentes emoldurados a ouro, motorista e cobrador. As mulheres aguardavam na caçamba. Sento outra vez no batente duro do veículo e seguimos viagem.

Hoje é terça-feira, dia em que as pessoas bebem no litoral de El Salvador.

 

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