Expedição Extremo Oriente

CARAMUJOS, COBRAS, POLÍCIA E MUITA TRADUÇÃO POR CELULAR

em 4 novembro, 2017

Sabe aquela conversa animada com os amigos, quando queremos compartilhar impressões, trocar informações e novas experiências? Foi assim um dos meus finais de semana aqui na China, só que os novos companheiros não sabiam qualquer palavra fora do idioma deles, o mandarim. Toda a interação se deu baixo aplicativo de tradução – chinês/inglês e vice-versa. Dá para imaginar?

Minha estada, e esta aventura, começaram apartadas dos habituais trajetos de viagem ao país. Do lado de fora da estação de trem era a escuridão, e uma fileira de táxis. Onde estavam as avenidas de acesso, os pontos de ônibus? Com cerca de 400 mil habitantes, nada para os padrões do país, Deqing é uma cidade pequena e sem metrô. Eu deveria estar a uns 10 quilômetros do centro.

Noite jovem, o jeito era recorrer ao táxi, sempre minha última opção de transporte. Taxistas – em muitíssimos países onde tenho andado – superfaturam corridas, tentam levar vantagem, dificilmente falam inglês e, por vezes, ameaçam e até sequestram estrangeiros. Lá se juntou uma rodinha ao meu redor para ler a direção que eu trazia, em chinês, se divertir comigo e negociar o preço, nos dedos.

Sem debate, consegui fazer o motorista ligar e seguir o taxímetro. Essa é a primeira malandragem na carreira dos profissionais desonestos do país. Partir com a bandeira desligada e pedir valor acima do padrão. Muitos dos motoristas chineses berram, como se o idioma asiático fosse invadir os meus ouvidos e assim levar a compreensão ao cérebro. A corrida custou 40 yuans, ou US$5. A viagem de poucos minutos, em trem-bala, saiu por US$2, e nem foi possível atingir a velocidade máxima: 320 km/h.

A prova de que não haveria estrangeiros por perto se deu já na recepção da guest house. A dona me cumprimentou em inglês e esboçou um sorriso internacional. Desatei a falar, mas fui freado pelo gesto com a palma da mão esticada. Ela agarrou o celular e escreveu no aplicativo de tradução, estava para começar uma longa jornada digital.

Cidade do interior é sempre igual, ficamos amigos rapidamente. Saí para jantar, a mulher junto. Sentia-se a minha guia e anfitriã.  No balcão de iguarias, os pratos montados: algo que não identifiquei; casulos de bicho da seda; vegetais insuficientes; peixes caros; alguma coisa que não sei o que era; insetos variados; carne tresnoitada e amanhecida; e um prato que parecia adequado, por US5, minha pedida. Normalmente as sopas ou fritadas de noodles, com legumes e alguma carne de porco, custam entre US$2,50 e 3,50. Comida local é bem barata no país.

Os restaurantes chineses geralmente não oferecem guardanapos. Estou falando dos comedores locais, não de lugares turísticos. A louça fica na mesa, embrulhada em filme plástico. Estava difícil de identificar exatamente qual seria a comida: molho amarelo, várias bolotinhas escuras, de porte médio, algum legume e uma tigela de arroz. Depois de algumas mordidas, reconheci os caramujos da minha infância no quintal. Eram para dar gosto, nada mais. Um pedaço entalou lá pelo molar inferior esquerdo.

Deqing está a uma hora de carro de Moganshan, região de montanhas e vilas ancestrais. Corrida negociada pelo aparato tecnológico, a dona da pousada me deixou na entrada do parque nacional para um dia de caminhada na mata, entre pequenas lagoas, trilhas naturais, algumas pavimentadas, e vilas com casarões em rocha. Natureza forte.

Hora e meia antes do horário marcado para retorno, descobri uma bela floresta de bambu. Entrei, conduzia a um vale. Dali facilmente chegaria a qualquer vilarejo e poderia sair para a entrada do parque. Pelo meu cálculo, estava a uma distância média do ponto de encontro com a mulher da pousada.

Não estava. Descida contínua, trilha interminável, escuridão chegando. Eram quase cinco e meia da tarde e havia marcado às 18h com a pequena empresária do ramo de hospedagem. Meia volta, resolvi retornar ao ponto de partida. Mas onde seria mesmo? Tinha perdido a conexão com o mundo exterior no emaranhado de caminhos tortos.

A experiência ensina que jamais se deve deixar a trilha e ingressar na floresta cerrada. Porém, ao ver ao longe um casebre, diminuta base para corte de bambu, era a minha melhor alternativa. Então me desapeguei da trilha e, raspando a vegetação, alcancei a casinha abandonada. Dali era buscar rastros e pegadas até avistar os primeiros pontos luminosos. Daria para rodar um filme de terror em alguns casarões abandonados.

Suado, cansado e preocupado, encontrava um hotel, dentro do parque. As indicações, por gestos e sinais, mostravam que eu estava exatamente do lado oposto ao meu ponto de encontro. Sentei à mesa do computador, no hotel, para pedir uma carona, paga. Nenhum carro poderia entrar mais na área a partir daquele horário, entendi. Mas se eu esperasse uns 20 minutos, talvez…

Sentei, obediente. Ansioso pela mulher que me aguardava a alguns quilômetros de distância. Um carro estacionou na porta, pediu 40 yuans e depois de rodar algum tempo, entrou em uma vila iluminada. Tudo dentro do parque nacional. Às 19h não era ali que eu deveria estar. Instruções com uma menina que entendia algum inglês, mas, o que me salvou, foram as fotos da entrada do parque, exibidas na minha câmera.

Seguimos. Até o motorista sinalizar para eu descer, pedir mais dinheiro e me indicar uma trilha. Ali, no meio do nada, na imensidão escura da mata, como desvendar o caminho para o meu ponto de encontro? O homem subiu comigo. Andamos rápido, morro acima, arfávamos. Lanternas de celular como guias.

Após a subida forte, reconheci algumas construções. Agora caminharia sozinho pela estrada noturna. Mas, depois da segunda curva, alguém no meu encalço gritava, luz do celular à mão. Era o mesmo motorista. Logo agora que estava chegando, reclamaria mais yuans?

Pediu para eu esperar, mostrou luzes com sinais de mão. A polícia? Sim, minuto depois parava a viatura, a mulher da pousada dentro. Preocupada, não tinha simplesmente ido embora, mas acionado socorro. Explicações pelo tradutor. Fotos para os guardas. A polícia capitalizou o “resgate”, agora já devo estar em algum registro ou gráfico de salvamento na China.

No dia seguinte, quando despertei, Lu Mao Dan me aguardava, em trajes de domingo. Estava bonita, acompanhada do marido e do filho. Sairiam comigo, em visita à fazenda de criação de cobras, para uso medicinal.

Antes uma vila de pescadores, Zisiqiao começou a criar serpentes na década de 70. A medicina tradicional chinesa – baseada no uso de vegetais, minerais, ervas, raízes e partes dos animais – aproveita o veneno, a pele e o óleo da cobra. Bom, não é à toa que o réptil aparece no símbolo que representa a Medicina – o bastão de Esculápio.

Nas fazendas, víboras, najas e pítons. Há serpentes ao ar livre, em poços de concreto; guardadas em caixas de madeira, empilhadas uma sobre as outras; e até dezenas ensacadas. Yang Hongchang é um dos precursores da iniciativa na vila. Quando jovem recorreu às cobras para tratar da artrite que ninguém conseguia sarar. A cura se transformou em um negócio.

Com cerca de três milhões de cobras, a região se tornou uma indústria.  Vende para dezenas de companhias farmacêuticas e exporta para a Coreia do Sul e Japão, além de produzir licor para consumo doméstico, bom para o sistema imunológico.

A família não me deixou pagar o almoço na área histórica de Xinshi, vila de canais fluviais e pontes semicirculares. Ainda me convidaram para jantar, regado a forte destilado chinês e longa conversa por plataforma digital, noite adentro.

Para agradecer a amigos tão amáveis, comprei flores e pequenas tortas. Agora você pode imaginar a cena, o único estrangeiro na cidade, com quase dois metros de altura, circulando pelas ruas com um buquê de girassóis. Realmente, não são necessários restaurantes sofisticados e hotéis caros para se divertir muito e viver maravilhosas aventuras no exterior.

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A VILA DO TIGRE E DO DRAGÃO

em 29 outubro, 2017

A China é uma combinação de lugares históricos, vilarejos ancestrais, paisagens exuberantes e cidades modernas. Alguns dos cenários mais pitorescos estão na região de Huizhou, na província de Anhui. A região floresceu com a riqueza dos comerciantes de madeira, chá e sal.

A história era severa. Com apenas 13 anos os meninos eram lançados para fora de casa para se envolver no mundo dos negócios. Ficavam ausentes a maior parte do tempo, muitas vezes retornando ao lar apenas uma vez por ano. O resultado foram vilas com edificações esplendorosas, portas esculpidas e janelas entalhadas, pavilhões decorados, bonitos pátios e jardins internos.

Hóngcún é um exemplo. Construída no segundo período da Dinastia Song (960 a 1.279), é um charmoso cenário com pontes, vielas, becos e ruas labirínticas em meio à área rural e montanhosa.

Conta a história que mais tarde a vila foi remodelada, ganhou o formato de um boi. Resultado da consulta a um guru de Feng-Shui, feita por alguns anciãos, fundadores do lugar.  O sistema de canais, ainda em funcionamento, representa as entranhas do animal e o lago, no centro da aldeia, o estômago do bicho.

O estilo arquitetônico da região de Huizhou simboliza bem a classe de mercadores que dominou os vilarejos durante as dinastias Ming e Qing. Muros de pedra, paredes caiadas em branco com cabeças de cavalo nos flancos. Pátios internos iluminados por aberturas retangulares nos telhados. Decoração sofisticada e janelas diminutas – para prevenir ladrões e também para afastar as esposas solitárias das tentações.

Eram ainda obcecados por arcos decorados, construídos por decreto imperial para homenagear algum feito excepcional dos indivíduos. Apesar de ser lugar histórico e declarado como Patrimônio Mundial, pela Unesco, ainda há algumas vivendas nas cercanias, na área rural próxima aos limites do vilarejo. Muitos ainda trabalham no comércio, com a venda de especiarias, carcaças de pato dissecadas e outras iguarias bizarras da China.

Mas, talvez esteja na entrada, um dos pontos mais famosos de Hóngcun. A pequena ponte usada como locação para a cena de abertura do filme “O Tigre e o Dragão” (2000), do diretor Ang Lee. O drama, de artes marciais, é poético e revela outras estupendas paisagens da China como florestas de bamboo e as montanhas de Huangshan. Gravado em mandarim, é obra prima do cinema asiático.

A beleza do lugar atrai, além de visitantes, estudantes de arte, desenhistas e pintores que retratam a paisagem relaxante e inspiradora. Sem dúvida, um ponto alto da expedição Extremo Oriente pela China.

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A PROPAGANDA E O CULTO POLÍTICO-RELIGIOSO (PARTE 3)

em 22 outubro, 2017

Estávamos em filas. Alinhadas quatro a quatro, formando um retângulo. Imperfeito, um tanto desordenado. Os coreanos que vinham atrás se posicionavam em blocos simétricos, vestiam-se praticamente iguais e se movimentavam de maneira uniforme. Marchavam, atrás de nós. Todos em direção aos mausoléus dos líderes.

Kumsusan, o Palácio do Sol, em Pyongyang, é para mim a maior representação da propaganda governamental. Sim, os cartazes, estandartes, telões, vídeos, placas com informação e estímulo institucional estão em toda parte, nos lugares menos imaginados. Em um parque aquático ou nos vidros de uma panificadora, por exemplo.

Mas, é no Palácio, em formato de museu, tumbas e salas de exibição que a mensagem repercute de forma mais solene e, muito provavelmente, mais profunda, capaz de penetrar em cada célula do cidadão local.

Os celulares haviam sido deixados no ônibus. As câmeras fotográficas, guardadas junto com bolsas, sacolas e mochilas. Apenas carregar dinheiro era permitido, mas nunca moedas e nem um outro papel sequer. Na sala de espera, sem nada nas mãos ou nos bolsos, recebemos as últimas instruções – desta vez seriam três reverências a cada um dos líderes, quando diante de seus corpos embalsamados.

Primeiro, um corredor ao ar livre, depois, escova-pés e área de checagem e controle de segurança. A longa esteira rolante – que atravessava área de fosso e jardins – tem degraus e corrimão vermelho. Dois de nós foram suavemente repreendidos por descansar o corpo sobre o braço ou a mão apoiada. A postura deveria ser com os braços ao longo do corpo, estilo militar. Marchamos.

Há uma barreira invisível entre a população local e os estrangeiros, em DPRK. Além da timidez e da dificuldade com o inglês, algo mais impede a comunicação, mesmo quando autorizada. A fiscalização é contínua. Para tudo é preciso pedir autorização, mesmo para se deslocar dentro do país. Não dá simplesmente para sair da tua cidade e viajar à praia porque está calor. Sempre fui inclinado à esquerda, mas para mim essa falta de liberdade é letal.

A propaganda governamental acorda e vai dormir conosco. Além do aparato externo, nos hotéis, bares e restaurantes sempre há um televisor exibindo Karaokê. Isso mesmo, aqueles vídeos de música, com legendas embaixo, feitos para cantarmos junto. A temática é repetitiva, gira em torno de arte e beleza ou de luta, guerra e formação militar.

O interior do Palácio do Sol é exuberante: pisos e paredes inteiras em mármore, enormes tapetes com pontas triangulares e formatos geométricos, quadros dos líderes. Sim, tudo no país gira em torno da personalidade das lideranças que já se foram, o presidente Kim Il-Sung e o seu sucessor e filho, Kim Jong-Il. Ou então do atual, Kim Jong-un, o “líder supremo”, como é intitulado.

Há uma espécie de culto, de adoração mística. Por isso talvez a ausência de religião na Coreia do Norte. Pelas ruas, há estátuas gigantescas dos dois primeiros e lugares especiais de celebração. Os monumentos também estão espalhados pela nação, não se restringem apenas à capital. Oferecer flores não é obrigatório, mas bastante recomendado.

Trajávamos nossas melhores roupas. Alguns, terno e gravata. A princípio a contragosto, enfiei calça social, camisa e sapatos pretos na mochila, conforme recomendação prévia. Atravessamos um curto corredor de expiração, onde jatos de ar deveriam remover poeira e qualquer outra partícula de sujeira, antes de adentrarmos ao hall principal.  A contemplação dos corpos preservados, dentro de caixas de vidro, é o momento mais solene e surpreendente da visita. Nosso grupo, dividido em pequenos subgrupos, cumpriu com as três saudações – à frente e de cada lado. É impressionante a devoção dos norte coreanos. “Os líderes são como nossos pais”, explicou a guia.

Dali para um salão repleto de condecorações, diplomas e medalhas. Reconhecimentos, de vários países, à história e ao trabalho do presidente falecido. Nada vi do Brasil, mas identifiquei homenagens do Peru e do Equador, na América do Sul. Por último, um espaço com vagão que transportou a autoridade em algumas viagens, bem como rotas de itinerários percorridos.

O mesmo processo, idêntico rito, para a figura do segundo líder: mausoléu, condecorações e viagens. O Palácio é da década de 70, servia de residência oficial e escritório do presidente Kim Il Jung. Foi aberto ao público em 1995, um ano após sua morte. O segundo líder faleceu em 2011.

Dois ou três dias depois visitamos a Sala dos Tesouros, lugar preparado para guardar todos os presentes que receberam, igualmente de muitas nações e governos. Os quatro andares abrigam peças bonitas, exorbitantes e bizarras: cadeira feita com chifres de alces, inclusive os pés de apoio; belas pinturas de tigre, o animal nacional; vaso com duas mil peças em madeira. Não são poucos os agrados: oito mil, ao todo!

Além do culto político-religioso, é forte o controle no país. Toda informação é supervisionada, o jornal é propaganda institucional, assim como toda a comunicação, em qualquer espaço. Há cinco canais de televisão acessíveis, informou o outro guia local. Sim, como sabemos, eles vivem uma realidade distinta, isolados do resto do mundo.

Nós, brasileiros, estamos muito distantes desse cotidiano. Em verdade, de todo a vida asiática, um outro mundo. Gosto de viajar com profundidade, geralmente fico um mês em cada país que percorro. Na Coreia do Norte, não é possível, os trajetos geralmente duram entre três e cinco dias. Fiquei oito, acima da média. Foram dias muito movimentados e intensos, acredito que pude tomar o pulso da nação.

Por fim, dizer que o comunismo puro, autêntico, é muito bem intencionado em seu conceito. Quão maravilhoso seria um mundo em que todos colaborassem, contribuíssem e desfrutassem. Com igualdade. Um universo sem miséria, onde cada um teria o seu trabalho e não haveria criminalidade. Seria pedir demais, com liberdade? Na prática, talvez esse sistema ainda seja uma utopia. Ao menos, com a humanidade atual.

FIM

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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A VIDA NO PAÍS COMUNISTA (PARTE 2)

em 15 outubro, 2017

“Somos um país comunista, aqui tudo é de graça: casa, saúde e educação”, declarou a guia local, nos meus primeiros dias em terras norte coreanas. Reflexivo, me calei, ainda tentando tocar a realidade com as mãos. Agora poderia sentir um pouco, na prática, essa cotidiano socialista. Longe do dogmatismo teórico ou de poses esquerdistas.

De fato, não se vê miséria em Pyongyang e nem nos arredores, não há moradores de rua, mendigos e o país parece ser perfeitamente seguro.  No entanto, em vilas mais simples e em áreas rurais, a uma distância de três ou quatro horas da capital, mulheres lavam roupas em riachos de águas poluídas. Bom, nada tão diferente assim das regiões pobres do Brasil.

Talvez a maioria das pessoas more em edifícios, os prédios estão em toda parte. Mesmo em áreas isoladas, onde só se vê campos e agricultura, lá está uma construção vertical, por vezes no meio do nada, bem diferente. De longe, os prédios parecem mais bonitos do que de fato se revelam, com a aproximação.

Tudo no cotidiano norte coreano está relacionado à função que se desempenha. Conforme o trabalho se recebe uma casa e um salário, além de uma ração (espécie de cesta básica), a cada duas semanas. Nas fazendas cooperativas ganha-se também cota da produção.

Professores, pesquisadores e cientistas estão melhor instalados, geralmente na área moderna da capital, em construções imponentes. Se tiverem a oportunidade e a sorte, podem passar algum tempo fora do país, em estudo e desenvolvimento técnico-profissional.

A ocupação depende do perfil do sujeito e da conexão familiar. O cidadão pode se candidatar para ser guarda de trânsito ou guia turístico, mas dificilmente alguém de origem rural irá trabalhar na cidade ou conseguir um posto de destaque. É complicado se movimentar para cima, neste sistema. A aposentadoria chega aos 60 anos para homens e aos 54 anos para mulheres, segundo informação de um dos guias coreanos.

A comida é muito barata e a compra de utilidades domésticas, facilitada. Na única oportunidade que tivemos de conhecer um mercado local, adquiri lanche, biscoitos, sucos e refrigerantes por menos de R$10, pagos na moeda local, o Won. Artigos importados vem normalmente da China e do Japão. O câmbio era de 8 mil Wons para US$1.

Carros, porém, são produtos de luxo, pouco acessíveis â população em geral. A maior parte dos veículos pertence ao governo ou às Forças Armadas. Em uma semana no país vi apenas um automóvel de uso particular, indicado pela placa de cor amarela.

De acordo com o guia ocidental, o país reserva 13 hotéis para abrigar estrangeiros. O nosso tinha 47 andares e oito elevadores, um deles, panorâmico. Todos com câmeras de vigilância. Como tudo na Coreia do Norte, os estabelecimentos pertencem ao governo, oficialmente não há propriedade privada.

Apesar disso, veículos britânicos como o jornal The Guardian e a rede de televisão BBC, informam que o país vem implantando reformas voltadas à economia de mercado. Apesar das casas não pertencerem a seus moradores, existe a venda de “direitos de residência”, de acordo com o jornal. Igualmente, há alguns empreendimentos do governo que, na prática, são administrados por gerentes que absorvem a maior parte dos resultados financeiros. Seriam, segundo a imprensa internacional, empresas de ônibus e companhias de carvão, por exemplo. Diferente do que ocorreu na China, as mudanças não são acompanhadas de qualquer abertura política.

Apesar de todo o desenvolvimento armamentista, a tecnologia não é exatamente parte da vida do cidadão. A internet, apesar de existir, não está disponível para pessoas comuns, mas restrita ao governo, diplomatas e a alguns visitantes estrangeiros. Há um sistema de intranet local, usado nas universidades, mas que não se conecta à rede mundial de computadores.

O primeiro serviço de internet móvel (3G), obviamente restrito, foi lançado em associação entre uma empresa egípcia de telecomunicação e estatal coreana. Alguns habitantes usam telefones celulares, mas apenas para efetuar e receber chamadas.

O hotel onde fomos instalados preserva duas cabines telefônicas e um guichê para envio de cartas ou cartões postais. O imenso rádio do quarto não transmite qualquer estação e a área de música da biblioteca pública tem diversos equipamentos, ainda com toca-fitas.

Inevitável não mencionar, a decoração é sempre kitsch, em qualquer lugar. Arcos de flores, lustres esquisitos, maçanetas e acabamentos de gosto duvidoso, mobiliário ultrapassado, vasos entre vidros de portas giratórias. Quadros enormes em espaços gigantescos. Definitivamente os norte coreanos não acreditam em ambientes pequenos.

A sociedade é bastante conservadora, os casamentos são normalmente arranjados e a regra é não praticar sexo antes do matrimônio. O divórcio não é ilegal, mas tampouco comum. É evidente o comportamento reservado, tímido e respeitador do povo norte coreano. As crianças são extremamente disciplinadas e agradavelmente inocentes.

Há atitudes impossíveis de se controlar a todo momento e a peraltice é um delas. Estivemos com crianças nas ruas, em áreas de recreação e até em um parque aquático. A gurizada, sempre obediente. Outro mérito do país é a educação artística. Os pequenos são incentivados desde cedo a cantar, dançar e a tocar instrumentos.

Assim como na Ásia, em geral, a gastronomia é, por si só, uma outra viagem, muito saborosa. Maravilhosos churrascos de pato, rabanetes ultra apimentados, conchas na brasa e, claro, bastante arroz e vegetais. A economia estatizada é baseada na agricultura e os produtos industrializados que tive a oportunidade de provar são horríveis: refrigerantes, chocolates e doces em geral.

Há as cervejas e os licores locais, perfeitamente adaptáveis ao nosso paladar, e os pratos típicos e polêmicos, como a sopa de cachorro. Evitei, apesar de estar sempre tentado a novas experiências. Optei pela consciência de preservação, ainda mais conhecendo algumas atrocidades feitas contra os cães, enjaulados em praças públicas, na China.

Entre as especialidades tradicionais está o noodles frio, prato tradicional em casamentos pois simboliza a união eterna. “Quando vai receber o seu noodles frio?”, perguntam os locais, numa alusão à data em que os noivos, ou namorados, pretendem se casar (ou serem casados).

Depois de transitar por três cidades, a visita, para ser completa, precisava percorrer a zona desmilitarizada (DMZ). Essa é a área que separa as duas Coreias, do Norte e do Sul. O corredor, perfeitamente demarcado, tem 257 quilômetros de extensão. Na área estratégica, dois quilômetros para dentro de cada nação, são permitidas apenas armas leves. Apesar de todo o controle, esse é o único local onde fotos com guardas e soldados são permitidas.

A Coreia do Norte fala em reunificação e existe até um monumento em prol do retorno a uma só grande nação. Pela minha ótica – e provavelmente na visão da maioria das pessoas – hoje seria uma missão quase impossível. A Coreia do Sul jamais aceitaria o regime estabelecido em DPRK. Para a Coreia do Norte, abrir as fronteiras e deixar o mundo entrar seria o equivalente a uma bomba em uma comunidade totalmente alheia ao mundo exterior.

(CONTINUA. TERCEIRO CAPÍTULO: A PROPAGANDA E O CULTO POLÍTICO-RELIGIOSO).

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A ÚLTIMA FRONTEIRA (PARTE 1)

em 10 outubro, 2017

Parecia ter desembarcado em um cenário de filme, com poucos atores. Talvez pelas construções coloridas, em tons suaves, contrastando com os trajes cinzas, marrons, verdes ou azuis, sempre escuros, dos norte coreanos. Talvez pela ausência de publicidade, painéis, placas ou neons, tão comuns na China e no mundo ocidental. À primeira vista, Pyongyang, a capital, é uma cidade de brinquedo.

É muito complexo descrever uma visita à Coreia do Norte, ou República Popular Democrática da Coreia (DPRK), como foi batizada a nação comunista. Comum acreditar em imagem baseada em chavões ou paixões políticas. Nem sempre coincide exatamente com o que me alertavam os amigos ou me escreviam os conhecidos, momentos antes da partida.

Só se entra na Coreia do Norte pela China e, sempre, em grupos organizados, não é possível viajar de forma independente. É necessário contratar um operador autorizado por alguma das agências estatais, no nosso caso a “Korea International Travel Company”.

Não tinha certeza se iria conseguir o visto chinês pela segunda vez em menos de dois anos, já que a condição imposta pelo consulado de São Paulo é a de uma espera de 24 meses, entre um visto de turismo e outro. Por isso organizei minha estada na China com a autorização de trânsito – poderia ficar em Beijing por 72 horas, até a partida à Coreia. O passaporte, devidamente carimbado, me foi devolvido apenas um dia e meio antes de sair do Brasil. A emoção já começava. O visto coreano seria entregue no dia anterior ao início da visita.

Após dois dias em solo asiático, aterrissava no mais fechado país do mundo, cercado de cuidados e orientado sobre a legislação a seguir. Não poderia tirar fotos sem autorização prévia dos guias; nenhuma câmera fotográfica com lentes de mais de 250 mm seria permitida; em todo o trajeto teríamos sempre a companhia de dois guias coreanos e um ocidental; nenhum guia de viagem, livro sobre a Coreia, impresso ou documento religioso entraria no país.

Saudações em sinal de respeito aos líderes do país eram fortemente recomendadas; perguntas mais delicadas ou questionamentos políticos deveriam ser submetidos primeiramente ao guia ocidental e conversas com os locais poderiam ocorrer, brevemente e em locais específicos; mapas e GPS teriam que ser deletados dos celulares.

Seria necessário, ainda, assinar um acordo relacionado à publicação de imagens, vídeos e textos sobre o país. Conteúdos para mídias sociais e blogs pessoais foram permitidos. Jornalistas em cobertura de imprensa, só com autorização especial.

À primeira vista as recomendações acima, e outras sugestões de comportamento, me soaram um tanto bizarras. Porém, circulando pelo mundo, aprendi que é preciso ter a mente aberta e a sensibilidade para aceitar as particularidades, os costumes, as restrições e até mesmo as imposições de cada país.

Tudo aceito, estava preparado para um mergulho em uma cultura absolutamente distinta da ocidental, tão mitificada e, dificilmente compreendida. Não se trata apenas de uma nação de mísseis, disposta a guerrear contra os Estados Unidos. Sim, eles detestam o governo norte americano, mas dizem nada ter contra o povo do país.

Demorei alguns dias para entender melhor a satisfação que sentem pelo desenvolvimento bélico. Não sem me chocar antes, diante do impacto provocado pelas imagens em um telão gigantesco, instalado atrás de inocentes crianças entre oito e 10 anos de idade, cantando doces melodias em apresentação artística.

Sim, aconteceu, de fato. Ao ver tanta propaganda institucional pelas ruas e na mesma tela do teatro, eu pensava, minutos antes da cantoria: “impossível os mísseis aparecerem por aqui, bem neste momento”. Mas lá estavam eles, bombas projetadas aos céus, enquanto a piazada se alternava, talentosa, entre os vocais e diferentes instrumentos musicais.

Para os moradores de DPRK os pesados armamentos são motivos de orgulho. “A nação é poderosa, capaz de se defender de qualquer ameaça de superpotências”, assim acreditam, dessa maneira pensam e deste modo foram educados. “Não se trata de querer matar pessoas, mas de ser capaz de autodefesa”, explica o gentil e comunicativo guia australiano.

Havia tensão na chegada ao aeroporto. Provocada mais pelo temor de certos turistas, como o jovem Alex, inglês de 25 anos que depois se confessou aterrorizado ao passar pelos sistemas de controle. Após colocar a mala na esteira de raio-X, o rapaz errou o trajeto e simplesmente foi de encontro com o fiscal, duas vezes seguidas.

Nervosismo talvez decorrente de haver mais policiais do que passageiros no desembarque. Alguns marchando lá fora. Um guarda se aproximou do estrangeiro que filmava a chegada e pediu que apagasse todos os registros. Prontamente obedecido. Não tive problemas, minha mochila sequer foi aberta, apenas foram separados os equipamentos eletrônicos – laptop, câmera fotográfica e celular.

Difícil também é conhecer com exatidão a vida local e distinguir a realidade do cenário apresentado aos estrangeiros. Passei por áreas rurais, estive em lugares públicos, observei gente nas ruas, visitei uma fábrica de vidro e até uma fazenda de produção cooperativa. Dava para perceber o cotidiano em movimento, de forma crível e espontânea. Pessoas caminhando para o trabalho sobre calçadas impecavelmente limpas, ou se deslocando em bicicletas pelas ciclovias. Imensas avenidas com pouco trânsito e construções modernas.

Outros momentos, no entanto, pareciam ter sido construídos somente para os viajantes que chegavam e encontravam uma plateia de teatro lotada de gente, em plena quarta-feira à tarde. Ou grupos de estudantes de inglês, na biblioteca, aguardando para interagir com os estrangeiros.

Seja como for, os principais mitos, histórias e temores são diferentes do que estamos habituados a escutar. Alguns, simplesmente não existem. É o caso da proibição de fotografar o país. Algumas áreas tem restrições severas, caso de alfândega, aeroporto e certos palácios e espaços do governo.

De resto é viável registrar o país, nas mais diversas formas. A maior parte das pessoas é arredia, não gosta de ser fotografada. No entanto, uma aproximação cautelosa e delicada pode tornar possível o registro.  Seja como for, entre o real e o imaginário, sem dúvida uma viagem à Coreia do Norte é uma experiência única, extraordinária e surpreendente.

(CONTINUA. SEGUNDO CAPÍTULO: A VIDA NO PAIS COMUNISTA).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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MULTIDÃO CELEBRA DIA NACIONAL DA CHINA

em 2 outubro, 2017

Quatro e quarenta da madrugada toca o despertar e eu acordo animado, após menos de três horas de sono, e depois de 51 horas de viagem, quatro voos, um trem, um ônibus e breve caminhada até o hostel onde me hospedaria, no coração de Beijing.

Mergulhei na escuridão das vielas e ruas estreitas do Hutong, bairro animado da capital, que fervilha até o início da madrugada. Antes do amanhecer, é completamente deserto, mas totalmente seguro. Não sinto saudades do Brasil.

É 1 de Outubro, a data mais importante do calendário Chinês, ao lado do Ano Novo. Comemora-se o dia da República Popular da China, um feriado que dura mais de uma semana e abarrota o país com intensa circulação de pessoas. Todos estão de folga na chamada “Semana de Ouro” e viajam pelo país.

Metrô ainda fechado, buscava um táxi na avenida principal, ao lado de minha nova amiga, a alemã Nina, jovem estudante universitária gordinha e muito simpática. Não gosto de táxis, principalmente em países da Ásia e da América Latina. Os motoristas resistem em usar o taxímetro e costumeiramente querem superfaturar as corridas. Em muitos casos, há inclusive risco de sequestro e assalto, mesmo na China.

Logo ali, um casal chinês parecia tentar o mesmo. Com gestos, sem qualquer palavra, conseguimos nos comunicar e compartilhar o transporte. Um carro negro, acionado por celular, chegava em instantes. Poderia ser um táxi do mercado paralelo. O mais provável era ser de empresa de transporte por aplicativo. A Didi Chuxing comprou a operação da Uber no país em 2016 e anunciou no início deste ano o investimento de US$100 milhões na brasileira 99 Táxi. É o maior aplicativo de transporte urbano da China.

Os arredores da Tiananmen Square já anunciavam a multidão que se preparava para a comemoração oficial. Está entre as 10 maiores praças do mundo com 440 mil metros quadrados (880 m X 500 m). Famosa mundialmente pelos protestos contra o governo e o massacre de civis, em Junho de 1989.

De máscara antipoluição, e sem dizer palavra, a chinesa recusa minha oferta de contribuir com o transporte. Seguimos juntos. O casal não desgrudaria de nós nem um momento, parecia sentir-se responsável pelos estrangeiros. Assim é o povo chinês, tem perfil de bom anfitrião.

Atravessamos o sistema de segurança e afundamos na multidão. Mar de gente. Alguns com patrióticas bandeiras vermelhas, outros com adesivos nas bochechas. Crianças nos ombros dos pais tentando ver o invisível. Oceano de celulares.

Atualmente a celebração é muito simples. Alguns tambores, que escutamos à distância, o hasteamento da bandeira e revoada de pássaros. Apesar da Independência da China ter ocorrido em 21 de Setembro, foi em 1 de Outubro de 1949 a formação do Governo Central, assim esta data é anunciada formalmente como da criação da República Popular da China.

Tudo começa e termina rapidamente, logo após clarear, ainda com neblina incessante. Todos veem pouco. O mais interessante é sentir o pulso da capital, interagir com as pessoas por sorrisos e acenos, registrar o momento, sentir-se comprimido pela massa humana.

Pouco depois da madrugada ter abandonado a praça, guardas dão a ordem de retirada por alto-falante e fazem a multidão se mover. Fácil de compreender. O local permanece bloqueado pelo cordão humano de soldados, com idades a partir dos 14, 15 anos. Impecáveis em suas posturas, são jovens que optaram pela carreira militar.

 

Seguimos nosso caminho, tudo muito fluido e ordenado, apesar do excesso de gente e do hábito chinês de empurrar as pessoas para conquistar espaço ou passagem. Estava na expectativa de como seria chegar ao país em pleno feriado prolongado, apesar de tantos alertas para evitar a “Semana Dourada”.

Sim, os chineses congestionam mesmo as ruas e vão à visitação e às compras. Caminham pelos calçadões, alternam-se entre as lojas de quinquilharias, mercados de rua e as gigantes boutiques com famosas marcas internacionais.

Já havia estado aqui em data festiva, há um ano e meio, na expedição De Mochila pela Ásia. Era o Dia do Trabalho, 1 de Maio.  Sempre divertido, acolhedor e instigante. Pode ser difícil se transportar pelo país, mas, para um mochileiro solitário, não é preciso evitar as multidões na capital da China.

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO, E SEMPRE CITAR A FONTE).

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Expedição Extremo Oriente

Ike Weber inicia nova expedição pela Ásia

em 29 setembro, 2017

Íntegra de matéria do jornal Gazeta do Povo.

Em sua terceira expedição, curitibano conta como “largar tudo” e viajar pelo mundo

Jornalista, fotógrafo e viajante curitibano Ike Weber se prepara para uma jornada de três meses pela China, Coreia do Norte e do Sul, Japão e Taiwan.

Foto: Daniel Caron/Gazeta do Povo.

Ike Weber vai ao Extremo Oriente. O jornalista, fotógrafo e viajante curitibano se prepara para uma jornada de três meses pela ChinaCoreia do Norte e do SulJapão e Taiwan.

É sua terceira grande viagem. Na primeira, ele levou 11 meses para ir do Peru ao Alascaentre 2012 e 2013. Na segunda, foi de Hong Kong à Rússia em um itinerário de sete meses, de 2015 a 2016.

Elas importam porque não servem só pra matar a vontade de fazer passeios longos e sem data para terminar, desejo que Weber tem desde que fazia mochilões na adolescência. São “expedições jornalísticas e culturais”, como ele gosta de chamar, que depois viram um monte de histórias contadas em livros, palestras, exposições e oficinas.

O formato também foge do turismo usual. Weber viaja sempre sozinho, usando o meio de transporte que tiver à mão. Num dia pode ser trem; no outro, bicicleta e até cavalo.

Ike na China, em 2016. Foto: Acervo pessoal

A relação com os lugares é de imersão: o jornalista tenta se aproximar das pessoas que moram lá e conhecer a vida que levam. E documenta tudo para produzir reportagens e conteúdo (uma parte pode ser vista em seu site).

A expedição ao Extremo Oriente começa nesta quinta-feira (28). O ponto de partida será Pequim, capital da China, de onde Weber seguirá para a Coreia do Norte — um de seus principais interesses nesta viagem.

“Sempre vou muito aberto [para as expedições]. Vou para as regiões mais variadas pelo interesse que tenho em conhecer tudo. Mas tenho interesses específicos nessa região. A realidade bizarra da Coreia é um deles e, coincidentemente, estou indo em um momento de bravata ou possível guerra”, conta, em entrevista ao Viver Bem.

As exigências que o jornalista teve de cumprir para visitar o país foram a etapa mais trabalhosa do planejamento.

Da Coreia do Norte, o jornalista volta para a China. Ele vai percorrer a costa oriental do país, de onde seguirá, por água, para a Coreia do Sul.

Em seguida, ruma para o Japão, também por mar, antes passar por Taiwan e encerrar a viagem, novamente, em Pequim.

Weber conta que também está particularmente interessado em estudar, durante a viagem, as inovações das chamadas “cidades inteligentes” na Ásia.

Serão cinco em sua rota: Seul e Songdo (Coreia do Sul), Tóquio (Japão), Taipei (Taiwan) e Hong Kong (China).

A volta está marcada para as vésperas da virada do ano.

Escolha

Em sua primeira expedição, entre 2012 e 2013, Weber levou 11 meses para ir do Peru ao Alasca, passando por Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Guatemala, México e Estados Unidos. Foto: Acervo pessoal

Juntando tudo até aqui, são mais de dois anos fora de casa. “Meu objetivo é ter um cotidiano de viagem”, diz, contando como concilia o projeto com a família e o trabalho. “Quando você viaja a longo prazo, sua vida é a viagem”, explica.

Quem está lendo isso de crachá e com vista para uma divisória deve estar se perguntando quanto custa ser um “viajante”, e quem é que pode fazer algo assim.

Pelos cálculos de Weber, a conta dá uma média de 30 dólares por dia em países em desenvolvimento na Ásia e na América Latina, incluindo hospedagem, alimentação e transporte terrestre. Em lugares mais caros, como Estados Unidos, Japão, Hong Kong e Coreia, gasta-se uns 50.

Esse valor não inclui as passagens de avião e é suficiente apenas para uma viagem padrão aventura (hospedagem é em hostel e comida, às vezes, é de supermercado).

O custo total também inclui abrir mão do emprego e, em geral, não saber como vai ser retomar a carreira na volta.

Weber não deu exatamente um salto no escuro. Em 2012, quando deixou o cargo de diretor de Comunicação do Sistema Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) para ter seu período sabático, tinha portas abertas para voltar.

A expedição, no entanto, acabou engrenando como projeto profissional — cerca de 70% do que Weber gastou na primeira viagem voltou por meio de editais, parcerias, palestras e conteúdo jornalístico. A segunda já começou com 50% do custo financiado desse jeito.

Alasca, ponto final da primeira expedição de Ike Weber, em 2013. Foto: Acervo pessoal

O jornalista nunca voltou ao emprego. “Não me arrependo. Fiquei nove anos lá. Poderia ter ficado 20, mas o que teria feito?”, reflete Weber, que tem 50 anos e duas filhas — uma de 27 e uma de 1 ano e 4 meses.

Ele diz que perder um salário fixo e estar “do lado de fora” é mais difícil, mas que as experiências que esta forma de viver propicia acabam compensando. “Viajar ajuda a dar sentido ao que realmente vale a pena”, filosofa.

Link original: http://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/turismo/ike-weber-coreia/

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De Mochila pela Ásia

Moscou: histórica, culta e bela

em 19 maio, 2016
Maio é a melhor época para descobrir a cidade

Fonte iluminada em praça da capital russa

O clima de Maio convida para desfrutar das praças de Moscou, mesmo à noite

São onze e meia da noite de uma sexta-feira de primavera em Moscou. Os pais levam o menino de menos de cinco anos à praça para praticar na minúscula bicicleta, sem rodinhas de apoio. O garoto se empacota após a rampa de calçamento, protegido pelo capacete. Levanta-se com a ajuda paterna e segue para a descida menos íngreme.

Além dessa pequena família, várias outras passeiam pelo iluminado centro da capital russa. Dividem espaço com estrangeiros de diversas origens, senhoras de idade, casais de namorados e grupos de amigos. O ponteiro do Kremlim chega perto da meia noite e algumas lojas de rua seguem abertas, portas escancaradas.

Na escuridão da alameda, o motorista desce e deixa o carro ligado enquanto compra o cartão de rua para estacionamento. Casais se embalam em balanços duplos, a cobertura de um dos inúmeros teatros pisca e as estátuas e monumentos estão impávidos, destacados pelo céu escuro. Mulheres rumam sozinhas para o lar na solidão do início da madrugada. A capital é segura, limpa e encontra-se serena.

As luzes enfeitam, sem exagero

O prédio do Ministério da Defesa é hoje um moderno centro de controle das Forças Armadas

O cenário colorido pelas luzes revela o bom gosto de uma nação que um dia já esteve fechada ao mundo. Sem os excessos do neon, brilham em harmonia as construções históricas e religiosas, nesse importante centro político, econômico, cultural, financeiro e científico.

Tá, se você realmente circular por Moscou vai encontrar bêbados pedindo dinheiro e até homens de meia idade, sacolas à mão, trajados melhor do que este viajante, esmolando com insistência e talvez com alguma agressividade repentina ao falar. Certo incômodo, mas esporádico. Irrelevante em um lugar dos mais bonitos que já conheci.

Maio é a melhor época para descobrir a cidade

Os imensos parques da cidade oferecem opções de esportes, descanso e entretenimento

Esta época começa a esquentar, mas o ar permanece fresco e a temperatura, durante o dia, fica em torno dos vinte graus. Bastante agradável para descobrir a cidade, costumeiramente gelada. Como o sol se põe bastante tarde há claridade até oito e meia da noite, pelo menos.

O centro histórico se enche de gente, decoração e vida, em Maio

No Festival de Páscoa, a cidade é enfeitada com flores, guirlandas e outros adereços

O mês de maio é de comemorações. Há um intenso festival de Páscoa e celebrações pela vitória do país sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. A metrópole se apresenta enfeitada com flores e adornada por guirlandas.

O 9 de Maio é das mais importantes datas festivas em Moscow

Crianças são costumeiramente uniformizadas na celebração do dia da vitória contra os nazistas, na Segunda Guerra Mundial

Moscou é a terra do ballet Bolshoi e de diversos teatros; da gigantesca Praça Vermelha e do mausoléu de Lênin. Tem pelo menos 60 museus de conteúdos variados: história, guerra, literatura, artes, teatro e música, carros, robótica, técnicos e científicos. O catolicismo ortodoxo é forte, então é comum encontrar igrejas e catedrais em toda parte, frequentadas por mulheres de cabeça coberta. Aliás, quanto à beleza todos sabemos ser muito difícil rivalizar com a mulher brasileira, mas, me desculpem, as russas são fenomenais.

A capital da Rússia tem a arquitetura bem preservada

Arquitetura secular, monumentos e prédios históricos preenchem todo o centro de Moscou

O metrô é outro espetáculo. Nos primeiros momentos apresenta apenas seus rudes ares soviéticos, é cinza e lembra o passado comunista. Aos poucos descortina a beleza de estações decoradas com pinturas e murais, adornadas com destaques em gesso e lustres requintados, revestidas em mármore e pavimentadas com granito. É o mais profundo do mundo, boas dezenas de metro baixo terra.

Enquanto nossa Curitiba se debate entre a polêmica e a incapacidade de construir eficiente transporte público subterrâneo, o metrô de Moscou passa dos 80 anos com 182 estações e linhas que permitem o deslocamento por toda a cidade. A maior parte do atendimento nos guichês é realizada por pessoas de certa idade, boa oportunidade de ocupação e permanência no mercado de trabalho.

Cada parada do metrô é uma surpresa e uma nova descoberta

As estações do metrô são uma galeria de arte

O caminhão passa repetidamente lançando água no asfalto e praças. É metrópole limpa, de 12 milhões habitantes, a segunda mais populosa da Europa. Logo acima a furgoneta aciona esfregões sobre as calçadas. As lixeiras respeitam a arquitetura secular.

A capital russa tem extensa malha ferroviária, é equipada com quatro aeroportos e concentra centros comerciais e prédios fabulosos, em formatos ousados. A moeda local, o rublo, tem cotação média de 65 para um dólar.

É impactante a modernidade da capital russa

Os edifícios da área moderna ousam no formato e tamanho

Apesar do tamanho, é uma cidade prática. Sim, já estive nas principais e mais charmosas cidades do mundo, das de visitação obrigatória como Paris, Londres, Roma e Nova Iorque: exóticas como Atenas e Cairo;  contemporâneas como são Vancouver, Milão e Chicago: até à requintada Viena; à imensa Cidade do México e à inteligente Barcelona, para citar algumas.

Será que me esqueci da magia das outras ou a capital da Rússia é mesmo extremamente cativante?

Moscou é uma metrópole completa

O rio Moskva acompanha o centro da cidade e permite passeios de barco, na temporada de calor

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China

Três momentos em uma grande muralha

em 8 maio, 2016
Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

O paredão passa por área de fazendas

O trecho não restaurado está em terras áridas, na província de Shanxi

O primeiro cenário é da Grande Muralha da China em seu espaço e com características originais, sem ter sido restaurada nos tempos modernos e longe de qualquer atividade comercial ou exploração turística. Está no meio de áridas montanhas, perto de comunidade rural em uma das vilas mais pobres do país, na província de Shanxi, no centro-norte.

A área está mais próxima do que um dia foi a autêntica estrutura militar, na China Imperial. A muralha começou a ser construída há dois mil e duzentos anos, na Dinastia Qin (221 a 207 a.C.), e seguiu em transformação até o período Ming (1.368 a 1.644). A obra é na verdade um conjunto formado por diversas muralhas edificadas separadamente e depois unificadas.

A Grande Muralha começou a ser construída há 2,2 mil anos

A muralha é formada pela unificação de diversos paredões seculares

O tamanho aproximado – segundo o último levantamento de arqueólogos do próprio governo chinês – indica que pode ser de 21 mil quilômetros de extensão. A estimativa de 2009 acusava comprimento de 8.851 quilômetros.

Essa diferença e a falta de exatidão quando à dimensão da obra deve-se ao fato de que boa parte da fortificação foi erguida com terra batida – e não com pedras e tijolos – que desapareceu com o passo dos anos. Outra parte da estrutura deve ter sido utilizada como material de construção em aldeias próximas. Conta a lenda que até ossos de trabalhadores mortos estão entre a argamassa do paredão.

Boa parte desapareceu ou foi aproveitada em aldeias vizinhas

O material utilizado era variado, de terra e barro à pedras e tijolos

A altura é variável, em média 7,5 metros. Sempre se imaginou que a barreira começou a ser levantada para proteger os antigos impérios das tribos vizinhas, vindas do Norte. No entanto, historiadores acreditam que a dinastia Qin não corria grande perigo quando a obra foi iniciada, seria então uma preparação para ameaças futuras.

Centenas de milhares de homens foram recrutadas para o trabalho, entre soldados, camponeses e prisioneiros. Como primeiro unificador da China, Qin Shi huang começou a conectar a muralha, ampliada depois pelos sucessivos reinos.

A Grande Muralha da China era intercalada por milhares de torres de observação e vigia. De cada ponto os guardas observavam a movimentação e estabeleciam comunicação por fumaça, fogo e bandeiras. Transpor a muralha até poderia ser possível, mas sem muita rapidez, e nunca a cavalo. Apesar do tamanho e da vigilância, a imensa parede não conteve o avanço mongol, a partir do século XIII, e sua consequente dominação.

Desde as torres, a comunicação era feita com fumaça e bandeiras

O paredão era composto de várias torres de vigia para reforçar a segurança

O segundo cenário é de Badaling, um dos mais importantes trechos da Grande Muralha, totalmente restaurado e com quase quatro quilômetros abertos ao trânsito de visitantes. É sem dúvida o ponto mais turístico da edificação, com áreas de restaurantes, lojas de souvenires, hotéis e multidões diárias de turistas.

Badaling é área restaurada e famosa

No trecho mais turístico, multidões abarrotam as paredes da muralha

Foi restaurada nos anos 50 e reconstruída na década de 80, a 70 quilômetros de Beijing, a capital chinesa. Optei por conhecer esse trecho para vivenciar o contraste entre as duas distintas partes da mesma muralha.

A terceira imagem é de trecho restaurado, porém absolutamente tranquilo. Em hiking sobre o paredão é possível se afastar facilmente dos grupos de turistas, em sua grande maioria chineses, pouco dados ao esforço físico ou caminhadas em trajetos íngremes e longas distâncias.

Os chineses não são dados a esforço físico

Após meia hora de caminhada é possível se ver livre das multidões de turistas

O paredão é tão impressionante que se acreditava possível o avistamento desde a lua, ou por astronautas em órbita da Terra, o que depois foi desmistificado.

Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

É mito dizer que a Grande Muralha é visível desde o espaço

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China

O Feriado do Trabalho na China

em 1 maio, 2016
A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Essa talvez seja a maior praça do mundo

A Praça da Paz Celestial é centro de visitação bem procurado no Dia do Trabalho

É normalmente moroso se movimentar em Beijing, a capital da China. Porém, nada complicado, apesar do tamanho e de seus 22 milhões de habitantes. A metrópole tem um eficiente sistema de transporte público que inclui 15 linhas de metrô, o que torna possível ir a qualquer parte da cidade por baixo da terra. São Paulo, outra cidade gigante e com densidade demográfica semelhante, oferece apenas cinco linhas de transporte subterrâneo.

É eficiente o sistema de transporte público da capital

O metrô de Beijing conta com 15 linhas que cobrem toda a cidade

O cotidiano é de filas, ruas cheias e estações de metrô, ônibus e de trem, sempre movimentadas. Nada passa perto, no entanto, das multidões do Dia do Trabalho, um dos três grandes feriados do calendário chinês. Os outros dois são o Dia Nacional, em primeiro de Outubro, e o Ano Novo Chinês, em Fevereiro.

O feriado do Dia do Trabalho é uma festa de confraternização, mas principalmente de passeio para os chineses. Acostumados a curtos períodos de férias, é nas datas festivas que ganham as ruas ou se deslocam pelo país. As filas, sempre grandes, aumentam consideravelmente. Dobram quarteirões para pegar ônibus até a região da Grande Muralha. Transformam-se em ondas de gente nos pontos turísticos.

Os pontos turísticos ficam abarrotados no Dia do Trabalho

Multidão atravessa um dos portões da Cidade Proibida

Para caminhar em meio à massa é preciso tranquilidade e paciência. Necessário saber ocupar cada espaço vago a sua frente. O povo é extremamente pacífico e, diferente de boa parte dos latinos, jamais cria confusão. Em um mês viajando pela China não vi qualquer manifestação de agressão física ou verbal. No entanto, a maioria é pouco educada, empurra, não respeita fila e tem pouca consideração com os demais. Não fazem por mal, é a cartilha da sobrevivência no país mais populoso do mundo.

Escolhi um dos dias mais congestionados para visitar a principal atração da China, a Cidade Proibida. Bem, não foi exatamente uma escolha, no dia anterior os ingressos estavam esgotados. O número de visitantes é limitado a 80 mil pessoas por dia, o que pode não significar muito em um país com 1,4 bilhão de pessoas.

No interior dos pavilhões e praças, as multidões se dissipam

Depois de vencer as ondas humanas, é possível encontrar sossego na Cidade Proibida

Saí às 10 h da manhã do meu hostel e demorei uma hora para entrar na atração, após pegar duas linhas de metrô e vencer todos os procedimentos: área de segurança, centro de visitantes, centro de serviço e portões de acesso. Isso porque havia comprado meu ingresso antecipadamente, pela internet. Ainda bem que o lugar é imenso e no interior das praças, palácios e pavilhões, as multidões se dissipam.

A Praça da Paz Celestial é ponto central no feriado do trabalho. Além de circular pela possivelmente maior praça pública do mundo, com 440 mil metros quadrados, os chineses apreciam as construções em estilo soviético e, principalmente, a formação e marcha das guardas governamentais. Tian´anmén, como é chamado o local, é o centro simbólico do universo chinês, concebido pelo controverso líder nacionalista Mao Tse Tung para projetar o Partido Comunista.

A movimentação da guarda governamental atrai a atenção dos chineses

Guarda em formação na Praça da Paz Celestial

Na história recente, a Praça da Paz Celestial ficou marcada pelo massacre promovido pelo próprio governo, ao reprimir com força os protestos contra o regime político. Liderada por estudantes, em 1989, a manifestação pacífica se opunha ao regime e à situação econômica da época. A imagem que correu o mundo foi a do desconhecido invadindo a praça e se postando em frente aos tanques de guerra. Foi considerado uma das pessoas mais influentes do século XX, pela revista americana Time.

A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Um dos portais voltados para a Praça da Paz Celestial destaca o rosto do líder Mao Tse Tung

Ainda que cansativa, é única a experiência de estar na capital da China numa data tão importante e movimentada. Talvez um momento para se vivenciar apenas uma vez na vida.

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