De Mochila pelas Américas

Aventura do viajante

em 17 agosto, 2013

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Crônica 

A cobra, de escamas negras e pontos coloridos, rasteja ligeira à minha frente, cruza o caminho, toma impulso e se embrenha de uma vez na vegetação rasteira. Logo abaixo, o riacho de águas congelantes serpenteia a mata e, sob o brilho do sol, se contorce ao longo do vale.

Pequenos insetos, semelhantes a grilos, assumem a forma de borboletas amarelas para produzir sons metálicos enquanto voam, parece que aturdidos. O barulho desperta a recordação das disputas infantis de “bolimbolachos”, nos anos 70.

O brinquedo, um cordão com duas bolinhas significativamente duras, que fazíamos se chocar repetidamente, foi proibido em algum momento da década de 80.

Caminho só, 20 quilômetros mata adentro. As estatísticas dizem que 99% dos visitantes do Parque Nacional de Yellowstone não avançam mais do que três quilômetros pela floresta.

Tenho que cuidar dos répteis, na trilha, e acompanhar, ao longe, os grandes mamíferos: bisontes, elkes, veados. As pegadas confirmam presença de bichos grandes. O volumoso excremento é bem maior do que o pé de um adulto.

Irrompe a sensação de estar atravessando o sonho de criança, enfrentando a floresta, espingarda de ferro à mão à procura de caça. A fantasia ultrapassa a barreira da imaginação e atinge a realidade.

Vaga pela lembrança a obra juvenil “A cabana na grande floresta”, da antiga Edições de Ouro, livro de cabeceira da meninice.

Yellowstone tem um das maiores e mais diversificadas populações de vida selvagem do planeta. O mágico é que não dá para saber qual será o próximo cenário à frente ou qual animal pode aparecer.

A paisagem naturalmente se modifica: de vales para florestas; de rios a lagos e riachos; montanhas.

O trajeto oferece constantes pistas inesperadas da vida selvagem: ossadas de mamíferos já devorados, coelhos alvoroçados, bisontes solitários.

Apuro o ouvido. Caminho só.

Soube de um aparelho que serve para contar passos. Diz que para não nos enquadramos na categoria de sedentários temos que dar 10 mil passadas por dia. Seria interessante saber quanto caminhei nesses quase nove meses de expedição.

Teria que atar o aparelho ao corpo, antes de levantar, e só iria me livrar dele à noite, antes de dormir. Não, prefiro a liberdade do vagar sem rumo, ao controle da tecnologia.

Caminho em silêncio, contrariando a orientação dos guarda-parques de circular em grupos, batendo palmas e fazendo barulho. Sem qualquer tipo de proteção, fabrico curto e pontiagudo cajado, de eficácia mais psicológica do que física.

A água transparente do riacho raso faz doer pés e pernas, apesar de eu estar acostumado com temperaturas congelantes.

Adiante, o encontro, fortuito, que poderia significar a preservação de uma vida. Neste caso, a minha vida. Ter me deparado com o grupo de três pesquisadores de espécies selvagens foi momento interessante.

Curioso o fato de um deles ter me encontrado em outra das incontáveis trilhas do parque nacional, dias atrás, e ter me reconhecido. Deixei o cartão da expedição. Sai com um spray contra ataque de urso atado à cintura.

Meu único medo me encontra em uma área descampada: perder a trilha. Ando por vários minutos tentando decifrar o caminho, disfarçado em meio à vegetação rala do vale.

Nunca fui escoteiro, mas desde cedo acampava em lugares isolados, sem qualquer estrutura. De criança aprendi que quando perdemos o caminho o melhor é retroceder, tentar achar o rastro inicial, do ponto onde paramos.

Difícil. Assaltava-me a preocupação de estar seguindo floresta adentro. Pior, percebia que o longo dia de verão dava mostras de cansaço. O sol já escorria por detrás das montanhas de pinus.

Na procura da trilha, encontro o sonho.

Foco a vista e maravilhado confirmo a presença do grande urso negro, empurrando o corpanzil pela mata. Não estava a mais do que 700 metros de distância. Sentiu minha presença, mas não avançou.

No imenso vale eram só o urso e eu, a quase 10 quilômetros da estrada que corta o parque. Outra vez o conselho oficial: quando vir um urso, não corra. Ele chega a 50 km por hora.

Não nos alteramos, mantivemos o curso. Admiração e respeito mútuos. Segui com a expectativa – e ao mesmo tempo o receio – de presenciar uma caçada selvagem durante o tempo do meu regresso. O cair da tarde é hora do despertar desses mamíferos que passam dos dois metros de comprimento e chegam a pesar 350 quilos.

Enxergo a mais ao escurecer, a penumbra desperta formas amedrontadoras na vegetação. O búfalo gigante, pastando, parece bicho selvagem a correr em minha direção. O rugido da madeira seca me faz dar um pulo à frente.

Quando o sol me deixou, segui com a lua, que formava um semicírculo perfeito e alaranjado, no céu escuro. Colho então mais um cajado, seco, e inicio o retumbar que ecoa pela floresta. Senhor da trilha.

Nenhum sinal da estrada, apenas barulhos da noite e alguns tropeções em pedras e raízes. Direciono o facho da lanterna em busca de olhos faiscantes na escuridão. A presença apenas de um domesticável veado.

Caminho, pés úmidos. Não perdi mais a trilha, nem usei o spray de pimenta. Mas me senti tremendamente mais confortável de poder tê-lo preso na cinta.

O céu começa a exibir estrelas quando atinjo a rodovia. Passa das dez da noite.

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