Caminhada à Cidade Perdida (parte I)

Publicado em: 22/01/ 13

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Às 4h da manhã o céu começa a mudar de tom, numa policromia encantadora e surpreendente: do vermelho ao laranja; do amarelo ao azul, cercado pelo verde da floresta. Observo o espetáculo da minha rede, pendurada na primeira cabana do Parque Arqueológico Cidade Perdida, na Serra Nevada de Santa Marta, norte da Colômbia.

É o primeiro amanhecer de uma jornada que dura seis dias pelo interior da selva. São praticamente 50 quilômetros, por caminhos que atravessam terras de colonos e aldeias indígenas, e se estreitam para invadir a mata fechada até a cidade construída pelos Taironas, há pelo menos mil anos.

Um trekking difícil. Aventura que, além do esforço físico, exige grande adaptação ao ambiente, às rústicas estruturas compartilhadas e à larga amplitude térmica, que faz o dia de verão terminar em uma noite de inverno.

Primeiros passos

Mamey ou Machete , onde a caminhada começa, é desses lugares onde o pessoal anda com o facão na cinta, preso por adornada bainha. Estamos em 13 pessoas: seis colombianos, três australianos, um casal do México, um francês e este brasileiro, além de um guia local, um ajudante e um cozinheiro.

Os guias costumam dizer que o primeiro dia é o mais difícil, pela subida íngreme de quatro quilômetros, geralmente debaixo de sol forte e calor intenso.

Todos os dias há subida. Todos os dias há forte calor e muita umidade. O viajante passa o tempo todo molhado: de suor ou pelos revigorantes mergulhos no rio Buritaca, que nos acompanha por todo o caminho.

O cordial Ricardo Reyes, dono da cabana Vista Hermosa, folheia o livro que relata as distintas espécies de aves, insetos e animais que habitam a floresta. Ao tentar compreender o inglês, mais parece que conta uma estória para crianças.

A cabana abriga sob o mesmo teto pouco mais de uma dezena de redes, mesas e bancos de madeira e uma cozinha com fogão à lenha. É o local onde passamos a primeira noite.

Perto dali, pelo menos quatro habitantes já morreram de picada de cobra, conta o senhor de sotaque rouco, voz que ecoa a cada final de frase. “O problema é que levam os picados a curandeiros e assim não tomam soro”, lastima.

Além de cobras, aranhas e escorpiões, a região abriga pumas, jaguares, veados, porcos do mato, lontras, macacos e diversas espécies de aves e borboletas.

Kogis e Wiwas

A comunidade indígena aparece no segundo dia de caminhada. A maior parte são Kogis, que no povoado Mutanzhi reúne cerca de 90 famílias. A distância, a dificuldade de acesso e, principalmente o terreno acidentado, faz com que a cultura primitiva ainda se mantenha preservada.

Os índios não são aculturados, conservam seus trajes e costumes originais e ritos xamânicos. Exemplo é o uso do “poróro”, objeto manuseado nas pausas do trabalho, quando se encontram em reflexões e mascam folhas de coca.

Depois de um ano de uso e de muitos pensamentos, entregam para análise e percepção dos chefes da tribo. Os “Mamos”, como são chamados esses caciques e líderes espirituais, avaliam sensitivamente o “poróro” e oferecem orientações.

A rede que cai

Na cabana Wiwa, após dois dias de caminhada, escuto o baque surdo, seguido de forte impacto e muita dor. Não tive tempo de reagir. A rede que escolhi para descansar, pendurada absurdamente a 1,60 m do solo, se desprende da estrutura do telhado e eu caio, com meus 100 kg de peso, direto no chão.

Atingido fortemente no cóccix, fico imóvel por algum tempo, recusando ajuda para me levantar. O nó que conectava a rede ao seu ponto de apoio desamarrou, provocando o acidente.

Os próximos dias de caminhada seriam mais difíceis – especialmente o terceiro – e uma radiografia na volta se mostraria bastante apropriado, o que fiz ao retornar a Santa Marta, junto à costa, semana depois.

Árvores que tocam o céu

Três cabeças de peru me observam no caminho. Pequeno índio Kogi, aparentando no máximo seis anos de idade, sobe a selva com vigor. Nas costas, ensacadas até o pescoço, as aves que criam nas fazendas indígenas.

A selva se impõe, à medida que avançamos pelo sendeiro. De dia, a energia da floresta densa, marcada de verde. À noite, a magia dos diferentes sons da natureza.

As “mastres” são árvores gigantes que atingem facilmente os 90, 100 metros de altura. Deixam o solo e aparecem por cima das demais espécies vegetais, abundantes na selva da Colômbia.

À uma hora da Cidade Perdida, o terceiro acampamento parece um campo de refugiados. Ao menos 80 mochileiros, de diversos países, tentam se acomodar entre redes, barracas e beliches construídos como caixas, com finos colchões.

Dividimos quatro ou cinco banheiros rústicos e um pavilhão de refeições. O inglês é a língua predominante, à frente do francês e do espanhol. Nenhum outro brasileiro presente.

Os cozinheiros, dos seis diferentes grupos de andarilhos, trabalham juntos para servir comida igual para todos. O rio Buritaca está ao lado, convidando para o banho. Mas o dia se faz curto, antes das 6h já começa a escurecer. Sem energia elétrica, a noite é breu.

Dia seguinte, ainda noite fechada às 5h da manhã, os guias começam a acordar os viajantes no campo de refugiados. É hora de conhecer a Cidade Perdida dos índios Taironas.

(Continua no próximo capítulo)

 

 


17 Comentários

  1. Elvira Fantin disse:

    As paisagens são maravilhosas. As estruturas nem tanto. Bem ao estilo aventureiro Ike Weber de ser. Imagino que rica viagem está fazendo, descobrindo lugares, pessoas, histórias. Tá td bem com vc? Um grande abraço.Saudade de vc. Elvira.

    • ikeweber disse:

      Obrigado, Elvira, saudades. Sigo caminhando, enfrentando obstáculos e curtindo a viagem. Realmente está sendo uma jornada impressionante, Elvira, que consigo descrever parcialmente aqui. Bj, Ike.

  2. fhabyo disse:

    Ike, tá de gala o blog e a viagem. aproveite essa experiência única e continue compartilhando. gde abs e se cuida por onde tiver.

  3. Felipe disse:

    Ike, muita gente tem falado, que vários lugares onde você tem passado, são lugares de muita pobreza, e que tem muito assalto, por ser pobre. Queria saber você já foi assaltado ai, já roubaram algo seu por onde tem andado?

    • ikeweber disse:

      É verdade, Felipe, há regiões extremamente pobres nos países onde tenho passado. No Panamá um pouco menos, mas na América do Sul bastante. Graças a Deus não tive esse tipo de problema. Mas tem que ter extremo cuidado, estar atento aos lugares onde vai, a seus pertences etc. Há uma série de atitudes que precisam ser levadas em conta pelo viajante. Talvez possa ser esse o tema de um post, um capítulo de livro ou um momento de interação entre nós. Abço.

  4. Mateus disse:

    ike eu gostaria de conhecer o pais de honduras!!! tire batantes fotos de la blz? flw !!! se cuida

  5. tiago disse:

    eu sou do Sesi de Assaí e estou costado muito mas queria saber se vc vai passar pelo Brasil e por quais estados e cidades

  6. Marcela Andrade disse:

    Óla tambem sou do Colegio Sesi de Assai-PR… estou gostando muito dessa sua trajetoria,esta nos ajudando muito em nossos estudo, ja estou esperando a parte 2 da cidade Perdida =) esta espetacular essas fotos, muito linda !!! Ate mais tchau tchau

  7. larissa matte disse:

    Somos el equipo 2 : Larissa Matte, Marina Cristina,Marsueli,Cauê,Gabriel,Daniel -Marechal Cândido Rondon -PR.
    escribiste sobre su aventura a la ciudad perdida y la emoción que le tomó cuenta al entrar en contacto con la naturaleza ¿lo qué piensas de la cultura de los pueblos de la ciudad perdida ?

    • ikeweber disse:

      Larissa y equipo,

      Si duda la civilización Tayrona fue un grand pueblo, con sus tradiciónes y mucha espiritualidad.

      Increibles arquitetos y construtores, se le vê por la edificación isolada, en el meio de la selva mismo.

      Inteligentes, no hizo falta fortificaciónes, una vez que el aceso a la ciudad era cosa mui dificil.

      Dominavan ciências distintas y compreendian mui bien la naturaleza.

      Entonces lo que se puede decir és que como cultura mui antigua, eran por supuesto mui sábios y desarrolados.

      Saludos a todos, Ike.

  8. larissa matte disse:

    isso foi uma aventura e tanto caminhar muita para chegar a cidade perdida, a emoção deve ter tomado conta ,estar em contato com a natureza ,animais ,sem estarem presos em jaulas, dormir ouvindo o som da natureza foi realmente um grande espetáculo.

  9. Fernanda Rosa disse:

    Olá Ike, estou indo esta semana para a Cidade Perdida. Será minha primeira viagem de ecoturismo e de contato com a natureza. Você teria alguma dica importante com relação ao clima, comida, trajes, remédios pra levar, etc.?
    Obrigada, abraço!


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