De Mochila pelas Américas

Cañón del Colca 2

em 28 novembro, 2012

Trilha Colca 1
Trilha Colca 2
Trilha Colca 3
Trilha Colca 4
Trilha Colca 5
Trilha Colca 6
Trilha Colca 7
Trilha Colca 8

O esforço e a superação

“O homem que removeu a montanha começou por carregar a primeira pedra”. A inspiração me veio à mente e trouxe força para percorrer, durante três dias, as trilhas áridas e rochosas do Valle del Colca. Classificada como média/difícil, a caminhada é sim um baita esforço, em vários sentidos, não recomendada para quem não tem um mínimo de preparo.

Já começa pela partida: 3h da madrugada saímos da cidade com destino a Chivay, capital de uma das oito províncias de Arequipa. Em outra oportunidade vou contar como é a divisão político-geográfica do Peru. De van, entramos no vale regional para apreciar os condores. Tudo maravilhoso, alguns condores sobrevoam o lugar e a temperatura, pouco menos de 10 C, não assusta quem nasceu e vive em Curitiba.

Não é costume dos guias locais detalhar o trajeto, então não fazia ideia de como seria a trilha. No primeiro dia uma descida íngreme, de três horas, que faz qualquer panturrilha latejar. Na minha pequena mochila de ataque levei coisas demais. Dispensaria a metade, cortaria roupas, trocaria as sandálias por um chinelo de dedos, incluiria esparadrapo, para evitar bolhas.

Logo abaixo, ainda nos esperava a parte mais difícil: subida intensa, durante uma hora. A fraca refeição foi devorada sem dificuldade na pequena pousada local. Momentos de reflexão e uma cama simples, na agradável choupana.

O clima da montanha e o ar rarefeito ainda pesavam quando nos precipitamos para a caminhada do segundo dia, até o oásis. Sim, um verdadeiro oásis, florido, com árvores frutíferas, muito verde e piscinas naturais. Depois do esforço, uma bela tarde de descanso, contemplação e reflexão.

A dificuldade aproxima da humildade; o esforço, da superação. Ali ninguém é mais, ninguém é menos. Todos são viajantes ou moradores a vivenciar a paz, a desfrutar da magia e da espiritualidade do local.

Assim estávamos, em um pequeno grupo. Uma guia de 22 anos, um pouco acima do peso, mas acostumada a fazer a trilha pelo menos uma vez por semana; um peruano divorciado, pai de dois filhos adolescentes e nascido nas altitudes; um jovem francês “old fashion”, com uma pequena câmera descartável, recém-saído das forças armadas e este viajante, apaixonado pela natureza e pelas aventuras.

Enfim, no terceiro dia, o receio da saída. Depois do coração palpitar forte, pela emoção e pelo exercício intenso, como seria a subida? Recusei a oferta das mulas, que sobem e baixam carregando mercadorias e apoiando os necessitados. Longe de qualquer competição, queria me superar.

Para evitar o calor do sol, acordamos às 4h30 e já às 5h forçávamos a musculatura das coxas. Apenas com água e uma barra de chocolate, que dividi com o peruano. Não nos foi servido café da manhã, antes da despedida.

Algumas passadas equivalem a um subir dois degraus de uma escada, só que nas rochas irregulares, muitas soltas. Encontrei o meu ritmo e empreendi passos lentos, porém seguros. Conscientizei a respiração. Não perdi a paisagem.

Consegui, foi o melhor dia de caminhada. Em três horas e meia atingíamos o topo, a 3,2 mil metros de altitude e caminhávamos por meio das plantações de trigo, ao lado da agricultura implantada no antigo sistema de “terrazas”, aprendizado da cultura Incaica.

O almoço foi o mais forte que tive nesta primeira semana de viagem: legumes, “tortillas”, “papa a la ocopa” (batatas com molho local), “rocotto relleno” (espécie de pimentão muito picante), rés (carne dura de boi), pastel de “papa” (batata), caldo (sopa) e um “postre” (sobremesa) de flan.

Todos felizes.

 

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