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De cabeça para baixo

Publicado em: 08/04/ 13

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Reportagem do viajante

Um belga radicado na Costa Rica se esforça para destruir a imagem de que os morcegos são roedores, bebem sangue ou são animais execráveis. Instalado nas colinas de Monteverde, próximo à costa do Pacífico e ao centro da Costa Rica, o pesquisador Bino explica que os morcegos combatem pragas, fazem polinização de plantas e que comem mil mosquitos por hora.

O estudioso herdou o conhecimento de um senhor que se especializou no tema e hoje luta para manter ativo um museu dedicado exclusivamente ao estudo, conservação e criação de morcegos.

No museu, além de fotografias, gráficos e informações, há cabeças de madeira para o visitante sentir a formação e viscosidade dos animais e duas orelhas gigantes, que imitam os sons captados pelos bichos. Exibe ainda um esqueleto de uma das maiores espécies da Costa Rica, com envergadura de um metro.

Como praticamente tudo na Costa Rica, país que absorveu significativamente a influência norte americana, o museu tem nome em inglês: “The Bat Jungle”.

Forma de vida

Em todo o mundo há 1250 espécies de morcegos. A Costa Rica tem 113 espécies enquanto que o Brasil tem 140. Em alguns lugares em que o animal corre o risco de extinção, há leis severas de proteção. É o caso da Inglaterra, conta Bino, onde as famílias devem conviver com os morcegos que têm em casa e jamais maltratá-los ou eliminá-los.

Os morcegos são mamíferos que tem um filhote por ano, que nasce com um terço do peso da mãe. “Enormes, é como se um bebê humano viesse ao mundo com 20 kg”, compara o pesquisador.

Podem dormir até 20 horas por dia e, em regiões muito frias, chegam a hibernar por meses. Diferente da crença popular, os morcegos não são cegos, têm excelente visão noturna e utilizam localização por sonar, emitido pela boca. É a chamada “eco localização”.

Curiosamente, quando voam em círculos, não estão perdidos, “mas sim de boca fechada, para não entrar mosquito”, explica Bino. Aí o sonar não está ativo.

Em bosques, livres, podem voar a 100 km/h. Bino explica que os morcegos dormem de cabeça para baixo porque “encontram mais facilmente lugares para se abrigar e que quando acordam usam a gravidade, se soltam e já começam a voar. É prático”.

As fezes do animal, chamadas de guano, são potente fertilizante, pelo alto nível de nitrogênio. No século XIX, foi matéria-prima muito exportada pelo Peru.

Tequila e vampiros

Uma das espécies que vive no Estado de Jalisco, no México, é responsável pela polinização do agave-azul, principal ingrediente na fabricação da Tequila, famosa bebida alcoólica, apreciada em todo o mundo.

O Leptonycteris nivalis habita florestas temperadas e é encontrado também nos Estados Unidos e na Guatemala. O centro do agave-azul é removido quando a planta atinge 12 anos de idade, limpo de folhas e aquecido para extrair a seiva que é fermentada e destilada.

Existem apenas três espécies de morcegos “chupa-sangue” no mundo. Todas são pequenas, em torno de 25 gr. Em geral, os morcegos comem insetos frutos ou néctar, apenas 1% se alimentam de sangue, pássaros ou peixes.

Serviço:
The Bat Jungle
Localização: na estrada entre Santa Helena e Monteverde, na Costa Rica
Preço: US$12 (adulto) e US$10 (estudante). Desconto para população local.
Site: www.batjungle.com


O melhor hiking da Costa Rica

Publicado em: 03/04/ 13

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Relato do viajante

O sol estala na superfície da água e, no fundo, se multiplica e espalha em feixes luminosos. Mergulha no poço de água puríssima para fazer brilhar as folhas amareladas. O vento, encorpado, balança igualmente a estrutura frágil das plantas raquíticas e as copas verdes das árvores seculares.

O hiking no Parque Nacional Rincón de La Vieja, região de Guanacaste, é dos melhores da Costa Rica. Adentra vegetação de savana e de floresta tropical seca e permite encontrar todas as etapas de uma atividade vulcânica: fumarolas, poças de água fervente ou de barro ardente.

Na pequena, mas absolutamente profunda lagoa, a água aquecida pelo vulcão borbulha a 100 C e exala para longe o cheiro ardido de enxofre. O acesso à cratera está fechado, a última erupção ainda não se perdeu no tempo, foi em 1991.

A região foi objeto de disputa entre a Costa Rica e a Nicarágua, no começo do século XIX.

Com o tempo a vista de acostuma a encontrar espécies na mata fechada. Pizotes, da família dos guaxinins, fuçam as folhas e cavocam buracos à beira do rio, à procura de comida. Os morphos são borboletas azuis que decoram a paisagem.

Os latidos que se escutam ao cair da tarde dão a impressão de que uma matilha de cães selvagens se aproxima. São macacos-aranha, saltando alto, nos galhos dos cedros, figueiras e guanacastes.

No chão, as árvores montam degraus, oferecendo a trilha. Cipós e caules se entrelaçam arriscando esculturas, como a cabeça de anfíbio, e criando diferentes formas, como de argolas. As raízes riscam o solo e lembram garras de répteis.

Na mata, a natureza humana também dá seu exemplo de beleza e vitalidade. O alemão Kal, 86 anos e bengala em punho, avançou sobre pedras, troncos e raízes e completou o circuito de três quilômetros ao longo da base do vulcão Rincón de la Vieja. Exemplo de vontade e perseverança.


A hospedaria sem pia

Publicado em: 29/03/ 13

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Crônica do Viajante

O empurrão no ombro esquerdo, seguido de um estrondo, não me incomodava. Deixei que a porta de ferro se fechasse, sacudida pelo vento quente de Libéria. Continuei, satisfeito, a tarefa de fotografar os estábulos que fazem às vezes de duchas e banheiros.

Hotel com ar condicionado por US$35 ou a hospedagem anexa, com ventilador de teto, por US$16? Alguma dúvida?

À porta de entrada da região de Guanacaste, a Costa Rica se faz mais pobre. Ao sopé das montanhas, se mostra extremamente aquecida, na manhã que já avança, querendo logo alcançar o almoço.

Acabara de chegar à cidade, após a tradicional jornada de algumas horas – prensado entre bancos desconfortáveis de ônibus – seguida do trajeto urbano, quadras a pé, mochila às costas e calor saturando a fronte.

Descubro rápido as diferenças entre as acomodações. Espaços semelhantes, localização praticamente idêntica e a já anunciada substituição do ar pelo ventilador, que dá rasantes circulares muito próximos de minha cabeça.

A hospedagem não tem pia. Sim, o quarto tem até banheiro, além de um televisor de tubo. Mas não tem pia. O banheiro se resume ao box, desses  imundos, que já conhecemos, e ao vaso sanitário.

Compreensível, se considerar que o quarto da pensão em Monteverde não tinha tomada.

A única pia do anexo fica no quintal dos fundos, ao lado das estrebarias transformadas em banheiros. Libéria é conhecida por ser a cidade costarriquenha dos vaqueiros e ostentar festas de cowboys e desfiles de cavalos.

Daí a sessão de fotos e o estrondo.

Trancado ao lado da pia externa

A porta de ferro que se fechara às minhas costas não tinha trinco. Estava devidamente lacrada, isolando o pátio do anexo da hospedaria. Do lado de dentro, minha chave, mochila e dinheiro. Estava preso no quintalzinho, só com a câmera fotográfica.

Às vésperas do feriado de Páscoa, hotel e hospedaria estavam completamente vazios. No caso da minha acomodação, é claro, não havia funcionários ou qualquer tipo de atendimento ao cliente. Lá estava, ilhado em meio ao que um dia poderia ter sido uma estabulagem para cavalos. Sozinho, junto à única pia do estabelecimento.

Criado subindo em árvores, escalando pedras e saltando muros e telhados das casas na praia, seria fácil sair dali. Se não fosse a platibanda projetada para dentro do pátio, o que impedia qualquer acesso ao telhado. Experimentei a grade da janela. Frágil, viria abaixo com meus quase 100 quilos de peso, alguns já perdidos com as caminhadas da viagem.

Quando guri, aos nove ou 10 anos de idade, pus abaixo o telhado da escola. Liderei grupo de meninos que precisava invadir a cantina para destruir os copos plásticos mal lavados, retirados do lixo, para servir outra vez o suco no recreio.

Espiei as telhas, enxerguei a calha e recordei da cena. Outro telhado que não suportaria o meu peso. E, desta vez, não poderia me sujeitar ao risco de quebrar o braço ou deslocar o joelho.

Uma das portas do pátio dava para um minúsculo quartinho onde encontrei parafuso, arames e prego. Iniciei o aprendizado de abrir fechaduras. Desconhecedor do ofício e pouco afeito às artes manuais, jamais obteria sucesso.

Colho uma vassoura do quarto que mais parece um armário. Em vão bato nas telhas e grito para me fazer escutar pelos vizinhos. Estava num local tranquilo o bastante para descansar. Impossível de ser perturbado ou escutado.

Mergulho no chuveiro

Creio que já se passara mais de uma hora quando resolvo repetir a vistoria, desta vez de forma mais minuciosa. Paciência nunca foi um dos meus maiores atributos.

Tão surpreso quanto do momento em que descubro que a acomodação não tem pia, encontro uma janela de vidro escondida atrás da porta do quartinho. Dava para o mesmo banheiro de box sujo e só com vaso sanitário. Se conseguisse retirar o vidro, alcançar o batente e projetar o corpo, estaria de regresso ao meu quarto.

Já realizara essa façanha, há quase 20 anos e 20 quilos mais magro. Na missão de salvar minha filha criança, trancada do lado de dentro do banheiro, quebrei o vidro e consegui comprimir o corpo em apenas uma das folhas da janela-basculante, também voltada a um pátio interno.

Com a faca torta, encontrada entre os destroços do quarto-armário, removi a armação de madeira. O último prego enferrujado custava a sair. O vidro rajado deslizou intacto.

Era a hora da prova do preparo e da condição física. Pé em uma e outra parede do quarto felizmente estreito, enfiei a cabeça e logo cheguei com os ombros para dentro do box, cabeça perto do chuveiro e corpo resvalando nos pedaços de sabonete deixados por outros clientes na esquadria de madeira. Restos certamente esquecidos pela dona da limpeza.

Um mergulho semelhante ao de duas décadas passadas e ganhei o banheiro sem pia. Estava livre.

Suor do esforço e da temperatura abrasante do norte da Costa Rica retirado pela ducha que domina o sanitário da hospedaria. Agora entendo porque havia uma chave pendurada do lado de fora da porta do banheiro.


As cores e as carretas de Sarchi

Publicado em: 25/03/ 13

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Tudo é colorido em Sarchi. Principalmente a estrutura de madeira das carretas, que têm desenhos caleidoscópicos. A tradição, que começou em preto e branco nas rodas dos carros de boi, no final do século XIX, ganhou graça e foi transferida para outros objetos e peças de artesanato.

Agora as cadeiras, as mesas, bandejas, galões de leite e até as lixeiras recebem pintura artesanal. As casas exibem detalhes graciosos em muros e paredes. As flores que enfeitam os jardins são vermelhas, brancas e amarelas.

As carretas existem em todos os tamanhos: minúsculo, pequeno, médio, grande e, na praça da cidade, foi orgulhosamente instalada a maior do mundo. Satisfação para os pouco mais de 10 mil habitantes do povoado onde tudo são cores.

O piso da praça central imita as rodas dos carrinhos. Os bancos copiam os enfeites das casas. As placas que indicam as ruas do lugarejo mostram também rodas de carretas. Pintadas em laranja, azul, amarelo e verde.

Até a singela ponte de concreto se adorna para atravessar o mundo enfeitado.

No comércio, as sacolinhas de papel kraft, decoradas com temas da Costa Rica, apresentam traços infantis. As cores marcam os relógios de parede. O estilo kitsch responde pelas horas.

A sujeira dos cinzeiros é aliviada pelos tons delicados, no metal enfeitado. Em Sarchi, centro da Costa Rica, tudo é colorido.


Misteriosas esferas da Costa Rica

Publicado em: 20/03/ 13

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Portas Multidimensionais. Alinhamento com os planetas do nosso Sistema Solar. Legado da longínqua Civilização Atlante. Fontes de energia.

Coisa de extraterrestres ou trabalho especializado de antigos povos pré-colombianos, que habitaram a região entre 400 e 1.500 d.C. O fato é que as esferas perfeitas do delta do Diquis, no sudoeste da Costa Rica, são, de fato, intrigantes.

Bolas moldadas da pedra bruta, algumas com dois metros e meio de diâmetro, foram encontradas na região, no início da década de 40. Pesam de alguns quilos até 15 toneladas.

O enigma surgiu com o cultivo de banana no país, explorado pela companhia americana United Fruit Company, em terras da América Central e do Caribe. À medida que preparava a terra, em fazendas dos povoados de Palmar Norte e Palmar Sul, a multinacional desenterrava as esferas.

Foram catalogadas 300, mas os pesquisadores do Museu Nacional acreditam que haja cerca de 500 esferas, algumas ainda enterradas e outras nas mãos de colecionadores.

Há esferas abandonadas no campo ou em fazendas, outras estão à beira de estradas. Algumas foram explodidas ou tiveram o topo decepado pelos caçadores de tesouros que acreditavam poder encontrar ouro em seu interior.

Muitas foram descobertas alinhadas, como se representassem antigos calendários ou ciclos agrícolas. Outras trazem marcas ou desenhos na superfície.

Várias foram colocadas no parque da cidade de Palmar Sul. Todas são protegidas pelo governo que luta para manter o patrimônio arqueológico. Uma vez ao ano, bem neste mês de março, a tradição é celebrada em festa regional.


Muito além da bandeira dois

Publicado em: 17/03/ 13

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Seis ou sete picaretas gritam alvoroçados e fazem gestos largos, a uma distância de 200 metros, logo após meu desembarque. Não dou atenção e prossigo com a já costumeira tarefa de pegar a mochila do bagageiro, meio corpo enfiado para dentro do ônibus.

Nunca gostei de táxis ou de taxistas. Talvez pela lembrança dos tempos de exploração daqueles que faziam ponto na rodoviária de Curitiba, final dos anos 80, começo da década de 90.

Mas no Brasil o serviço é decente. Caro, mas honesto. De longe o melhor que conheço de todas as Américas.

Esganiçados, os motoristas proibidos de caçar corridas dentro de um dos tantos terminais de ônibus da capital da Costa Rica, projetam-se como podem para alcançar os clientes. Meio corpo para dentro da área privada.

Não há qualquer organização prévia, fila de carros ou algum tipo de acordo entre eles. Leva quem puder convencer o passageiro.

Difícil estar confortável em táxis de qualquer um dos países que tenho percorrido. Todos tem um ou outro defeito, ou a combinação de diversos problemas.

No Peru existe a constante ameaça de sequestro. Fora da capital muitos dos carros circulam à paisana, sem identificação e nunca com taxímetros. A primeira atitude é levantar referência em estabelecimentos comerciais ou com algum policial, sempre.

Nas zonas mais quentes também circulam as motos. Cobertas com toldos, assentos anexados, não se parecem com veículos de duas rodas. Tampouco se assemelham aos moto-táxis que existem em algumas partes do Brasil. Muitas são clandestinas, emplacadas com a fama da violência.

Dois mil colones, inicia a negociação um careca de bigode. Mil colones, leiloa outro. Não há opção. Atravessar a zona vermelha até a parada do seguinte ônibus, à noite, seria total imprudência. Caminhar até encontrar um táxi decente, pela região cercada pela prostituição, tráfico de drogas e criminalidade, absolutamente inseguro.

Acompanhado da esposa Juliana, que me visita em momentos da expedição, embarcamos no carro velho de preço barato. A dúvida era se a tarifa combinada, econômica demais, seria apenas um atrativo para enfiar-nos no táxi, expostos a golpe mais ousado.

Na Colômbia os carros também tem fama de sequestrar passageiros. Alerta da minha dentista, na semana da minha partida rumo às Américas. Casal amigo apenas alcançou o aeroporto de Bogotá, dali para um desses veículos suspeitos e a volta imediata ao Brasil.

Depenados, lamentava a doutora Beatriz.

Prática habitual também são os encargos extras. Tem sobretaxa para os domingos, horário noturno, sentido aeroporto… Tudo além do que marca o taxímetro e à parte da bandeira dois.

Não tem mais ônibus para Alajuela, mente o motorista, na tentativa de estender a corrida até o município vizinho, ponto de partida para locais interessantes da região central do país. Não faz mal, ficamos no terminal mesmo para encontrar amigos, rebato de imediato.

Ligeira marcha ré e as luzes se apagam. Acho que deu pane, não vou poder sair, mente outra vez o motorista, decepcionado pelo insucesso do truque de alongar o trajeto.

Na capital do Panamá é costume dos taxistas recusar a corrida. No país mais seguro já percorrido até agora, a economia segue forte, em aceleração constante. Não vou para aquela direção, alegam uns. Há muito tráfego agora, comentam desavergonhadamente outros.

Embarcamos imediatamente no carro do bigodudo careca, pelo dobro do preço. Ainda assim uma pechincha: dois mil colones, quatro dólares ou oito reais. Serviço mais barato do que no Brasil, mas bem menos limpinho.

Com essa mochila enorme o ônibus não te leva a Alajuela. São circulares, coletivos, sem espaço para bagagem, experimenta o outro trambiqueiro. Deixa estar, se não der ficamos por ali mesmo, respondo com a experiência de quem tem negociado com todo tipo de oportunista latino.

O diminuto, mas cordial Equador oferece o serviço de táxi mais confiável. O único defeito é que a tarifa sempre começa no patamar para turista internacional. Impossível apenas entrar no carro, fornecer a direção e pagar, conforme a marcação do taxímetro.

Regatear é a regra. O trajeto cai de três para dois dólares. De dois e cinquenta para dois dólares, ensinam os moradores, sempre dispostos a ajudar o viajante. Com a economia dolarizada, o país adotou oficialmente a moeda americana.

Menos de dez minutos se passam e chegamos ao outro terminal. Transporte coletivo para a cidade vizinha a cada 15 ou 20 minutos, até a meia noite. Baixamos as mochilas e acomodamos em amplos bagageiros, livres e espaçosos. Meia hora mais e chegávamos a Alajuela, a 30 km de San José.

Sempre preferi ônibus a táxis e taxistas.

 


Vida Selvagem

Publicado em: 13/03/ 13

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Fotos: Ike Weber e Ju Scheller

A vida selvagem é um dos grandes atrativos da Costa Rica. O país tem 161 áreas de preservação ou de observação da fauna e da flora – entre parques nacionais terrestres e marinhos, refúgios, reservas e manguezais – que correspondem a 25% de todo o território nacional.

Há milhares de espécies entre mamíferos, répteis e aves, como a garça-azul e os coloridos tucanos.

Em todas as regiões do país há riqueza natural: montanhas e vulcões; mares, rios e lagoas; cachoeiras e cascatas; florestas tropicais e bosques secos; poços termais.

Só há uma região desértica, nas montanhas do sul.

A úmida região de Tortuguero, junto à costa do Oceano Atlântico, conserva espécies nativas de jacarés: os caimãs, diferentes dos crocodilos pelo tamanho e formato da cabeça.

Sem se alterar, aparente em meio à densa vegetação da mata, o macho espreita o movimento da canoa que desliza pelo rio. A fêmea, de tamanho menor, esconde-se dentro da água, à espera de peixes e aves.

Quando satisfeitos, os caimãs entram em processo digestivo e podem ficar sem comer por 15 dias.

Há três anos, um crocodilo da região matou garoto local que mexeu com o filhote, conta Donis Parrale, guia do Parque. Um dos dois ataques registrados na área.

Com o corpo ereto, em digna postura, a lagartixa-Jesus corre sobre as águas. Por isso o lagarto basilisco recebeu este apelido. O que o difere da vegetação são apenas as marcantes pintas azuis. Atrás do pescoço, a gola natural lembra as pomposas vestimentas das majestades.

Os veados, mãe e filhote, recebem os exploradores no Parque Nacional Manuel Antônio, no outro lado do país.

Na época de seca, de janeiro a abril, os macacos-de-cara-branca voam pelos galhos e buscam alimento próximo às praias. O estardalhaço dos bichos é combinado com caretas e gestos. Perceptivelmente humanos.

Os pacotinhos peludos enrolados nas árvores são bichos-preguiças, capazes de dormir pelo menos 14 horas. Surpreendente também é o comportamento dos répteis Iguana iguana que vivem no topo das árvores.

Sempre “de máscara”, o guaxinim também passa boa parte do dia dormindo, dentro de troncos ocos.

Com olhos gigantes, se comparados ao corpo estreito, a serpente (Imantodes cenchoa) tem veneno que usa apenas para neutralizar pequenos répteis, seu alimento. De hábitos noturnos, é a espécie de cobra mais fina que existe no mundo.

A trilha para observação das espécies noturnas, como as diminutas rãs cristal, tartarugas terrestres e aranhas, é encharcada e só possível de ser percorrida com botas de borracha.

Olhar enfezado, a garça-tigre, de corpo robusto e rajado, alimenta-se de sapos e de insetos. Mas também pode devorar um filhote de caimã.


A surpresa, a dureza e a riqueza de viajar

Publicado em: 08/03/ 13

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Viajar é olhar pela janela, ao acordar, e ver uma paisagem nova a cada par de dias. É escutar sons, ruídos, idiomas, dialetos ou sotaques diferentes no seu caminhar.

É conhecer distintos modos de vida e conviver com povos mais sofridos. Recordar velhas experiências e partilhar novas visões e ideais.

É ficar doente e não ter com quem contar. Mas é também reconhecer na jornada alguém para se apoiar.

Pode não parecer, mas viajar também é lidar com pequenas situações cotidianas.

É valorizar prato de comida, lugar abrigado para passar a noite e apreciar uma simples camiseta velha encontrada na mochila. Simplesmente limpa.

Viajar é parar para se encantar com o canto de um pássaro.

Digo que é encontrar forçar interna para superar circunstâncias difíceis e cultivar a sabedoria para apreciar os momentos mais sublimes.

Explorar é totalmente diferente de tirar férias ou de sair para descansar.

Muitas vezes significa caminhar por horas, mochila pesada às costas, calor e frio, dormir pouco, não comer, apenas picar. Dividir quarto e banheiro, compartilhar sua única fruta.

Viajar é deparar-se consigo mesmo, mas também é sair de si para encontrar-se com os outros.

É descobrir que o sol nasce sempre igual, mas em tons cada vez diferentes.

Viajar é perder os dias, ficar sem a noção do tempo, para ganhar cada instante da sua vida.

Não é o mesmo do que sair da cidade a trabalho, ou fazer turismo em cosmopolitas capitais.

Sim, é largar tudo, para tudo conquistar. É não ser compreendido, para entender melhor o sentido da existência.

Viajar é surpreender-se a cada dia

Por mais que ler seja fundamental, agradável e interessante, esqueça. Você nunca conhecerá o mundo, de fato, se não viajar.

É viver o instante, apenas sentir e existir. É ser livre, ou experimentar a sensação momentânea, mas também duradoura, de liberdade. É ser feliz.

Encontrei a felicidade servindo, amando, trabalhando…  E, sempre, viajando.

 

“Viajar é devolver a alma para a casa” (Fabrício Carpinejar, poeta).

 

 


Uma cidade que respira arte

Publicado em: 04/03/ 13

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A arte está nas ruas de San José, capital da Costa Rica. Aparece estampada nos muros da Assembleia Legislativa, colore prédios e decora galpões.  O grafismo cobre paredes de clínicas e de hospitais e avizinha-se aos pontos de ônibus. A arte marca o rosto das crianças.

A antiga fábrica de licores, da época em que a produção da bebida era estatizada, foi transformada em Centro Nacional de Cultura. Agora abriga teatro, espaço para shows e apresentações, o Museu de Arte e Desenho Contemporâneo e a Companhia Nacional de Dança.

A estrutura secular ficou abraçada à Cultura. Fazem parte do cenário os antigos tanques de armazenamento de álcool e as caldeiras que aqueciam matérias-primas.

O governo da Costa Rica invadiu o palco e roubou a cena para atrair novamente o cidadão ao centro da capital. Há alguns anos, as pessoas passaram a viver nos subúrbios e vir à área central só para trabalhar. O cenário agora mudou, com a exposição da arte que se apropriou do espaço público.

A manifestação artística infantil alegra os muros da cidade que incentiva a Cultura. Aos sábados, o Parque Morazán é uma festa que une esporte, entretenimento e diversão. Novamente desponta a arte. Na inventividade das bicicletas e no colorido das pernas-de-pau. Nos movimentos graciosos das meninas e seus bambolês e no espetáculo dos tambores, aberto à participação popular.

Por que não dizer que a natureza emprestou seu toque artístico à cidade, ao moldar os caules e as raízes das árvores.

A arte está nos museus. Em forma de peças de jade, das civilizações pré-colombianas. Emoldurada em pinturas que resgatam a identidade costarriquenha, enquanto criticam o consumismo dos trópicos, estimulado pelos norte-americanos.

As esculturas recebem o cidadão bem em frente ao Banco Central.

Os carrinhos decorados, símbolo nacional da Costa Rica, comprovam que o senso estético é parte da tradição do país. Começaram a ser trabalhados à mão no final do século XIX, com imagens da fauna e da flora nacional.

A arquitetura artística se observa no prédio dos Correios, edificado em 1914.

Os desenhos, em chapas de metal, são uma homenagem aos cachorros que vivem nas ruas, que estão enfermos ou são maltratados em cativeiros. Outra intervenção urbana, outra expressão da arte.

Encontramos o dom artístico na receptividade dos “josefinos”, nome dado aos habitantes de San José. A especialidade deles é a arte do relacionamento.

 

Fotos: Ike Weber e Ju Scheller