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Grande tradição da pequena cidade

Publicado em: 08/09/ 13
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Reportagem do viajante e curiosidade do Alaska

Ao longo de apenas dois meses, mais de 250 mil pessoas fizeram suas apostas no pequeno lugarejo de Nenana, interior do Alaska. O que arrebanhou tanta gente a um povoado de 380 habitantes foi uma tradição que está para completar 100 anos, o “Nenana Ice Classic”.

Quando o gelo do Rio Tanana iria se romper, após o rigoroso inverno do Ártico era a resposta a ser adivinhada pelos visitantes. O apostador que acertasse não só o dia e a hora, mas também o minuto exato do acontecimento, ficaria com o dinheiro.

Este ano o prêmio foi de US$318,5 mil, algo como quase R$760 mil, uma bolada. O gelo partiu às 14h41 do dia 20 de maio. Ninguém cravou o minuto exato, mas duas pessoas acreditaram que o tripé instalado sobre as águas congeladas do rio iria ceder um minuto antes ou um minuto depois desse horário. Dividiram o prêmio.

Quase um século

A tradição começou em 1917, quando engenheiros que trabalhavam na estrada de ferro brincaram para ver quem acertava o momento em que o rio começaria a descongelar. O desafio, na época, valia US$800.

Hoje os bilhetes são vendidos na cidade a US$2,50, a partir do início de fevereiro, e os palpites depositados em uma urna vermelha. Apostas para o ano que vem estão abertas até à meia noite do dia cinco de abril. Já foram pagos pelo menos US$11 milhões, em prêmios, desde o início da competição.

O Rio Tanana geralmente congela entre os meses de outubro e novembro e atinge a sua máxima espessura de gelo, que pode chegar a 1,20 metros, no início de abril. A partir daí começa a quebrar. Despedaça na superfície com a chegada de dias mais quentes, ou menos frios. No fundo, fragmenta com o movimento da água.

Um tripé gigante é fixado sobre as águas petrificadas, entre as duas pontes da cidade, e conectado por um cabo a um relógio. O mecanismo registra a hora exata em que o gelo cede. O monitoramento também é feito por câmeras e pode ser acompanhado pela internet.

Em 1940 foi quando descongelou mais cedo, dia 20 de abril. Este ano foi a data mais distante, já na segunda quinzena de maio. Os dias 29 e 30 de abril são os com o maior número de registros do Ice Classic, nove em cada uma das datas. Com essas dicas, a mesa está aberta. Façam suas apostas!


Maravilhas do Alaska

Publicado em: 02/09/ 13

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Descrição do Viajante

O Alaska é uma região de extremos. De beleza, natureza e de vida selvagem. De desafios, aventura, rudeza e dificuldades. São duas facetas bravias. Ambas, inóspitas.

Há momentos de grande superação para o viajante, ao ter que enfrentar, ensopado, temperaturas baixas, mesmo no verão, sem roupas ou equipamentos adequados. Remar por milhas debaixo de chuva, sentindo o frio ácido dos glaciares a congelar a ponta dos dedos e deslizar por todo o corpo. Ou passar horas em trilha pesada, longa e úmida caminhada ao topo das montanhas.

A mínima temperatura registrada na história do Alaska foi de 62 C negativos. Uma inesperada queda na água abre a contagem para o processo hipotérmico em apenas oito minutos.

Em outros instantes, o lugar desabrocha em beleza e permite o desfrute de indescritíveis cenários, a vivência de estupendas experiências, como admirar a cauda de uma baleia sendo engolida pelas águas do oceano, ou o seu corcovear gigantesco, em direção ao barco. Observar os lentos movimentos do alce enquanto se alimenta da abundante vegetação.

A última fronteira exibe distintos tipos de glaciares que desbarrancam a todo instante. Algumas geleiras são como jardins suspensos na rocha. Outras rugem antes de derramar a beleza dentro da água. Uma pelagem verde cobre a montanha que nunca congela. De caiaque, por vezes a pá do remo cava os blocos de gelo flutuante. São pedras brancas, azuis ou cristalinas.

Golfinhos, em preto e branco, voam no oceano, a velocidade de 65 quilômetros por hora. Peixes saltam, corpo inteiro acima da água. Alguns pássaros conseguem mergulhar a quase 200 metros de profundidade para pescar. Águias americanas, mais de dois metros de envergadura, espreitam a caça.

A sensação é de adentrar o universo de “Mar em Fúria”, ao comer algo simples no restaurante de madeira, enquanto o mar soca a praia de pedras, berram as gaivotas e outros tipos barbudos circulam a agendar pescarias para o dia seguinte. Barcos dormem ancorados aos pés de montes com os picos eternamente nevados.

O verão se prepara para zarpar. Alimentadas, as baleias vão seguir rumo ao Hawaii e à costa do Pacífico.

 


O outro lado da natureza selvagem ou Pedofilia no Alaska

Publicado em: 26/08/ 13

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História do viajante

Pelos becos do Alaska

Todos os que encontrei pela rua, naquele início de tarde chuvosa – que mais tarde viria a descobrir que era uma sexta-feira – estavam bêbados, drogados ou largados da vida. Mendigos com cara de descendentes de esquimó se encolhiam em bancos de rua.

Entro no hostel como quem adentra espaço privado, mas de ampla convivência. Já na porta só me deparo com tipos estranhos, caras cerradas. Ambiente diferente dos alojamentos compartilhados ao longo das três Américas.

No dormitório, saúdo o jovem amassado pela vida, estranhamente instalado na cama, de onde só sairia no dia seguinte. Eram duas da tarde. Não tive resposta e após a segunda saudação, recebo apenas um rígido menear de cabeça.

Equivocado pelas facilidades apregoadas pela internet, fiz a reserva na madrugada anterior, receoso de ser obrigado a perambular em busca de um canto vago, ou de ser submetido à ditadura dos preços altos, praticados em lugares famosos, distinguidos ou turísticos. Acabava de chegar ao Alaska, a última fronteira.

FBI e o choque

Final do dia, profundamente afundado no sofá, trabalho em crônicas e relatos da expedição, televisão de ampla tela plana instalada e ligada no salão comunitário. Decoração pobre, sem charme. Cozinha diminuta, frequentada por hóspedes e moradores próximos, atrás de um copo de café.

Não sei bem por que não me sentia nada confortável no lugar. Todos me caiam diferentes. Pareciam mais desocupados do que viajantes. Comunicação restrita, poucas palavras, alguns ruídos. Muito computador.

O oriental que assumiu o turno na recepção apenas grunhia em inglês. O moreno magricela empregava horas no jogo de paciência. O gordinho tatuado em ambos os braços, mãos e pescoço, orgulhava-se de ter conseguido emprego no restaurante de comida rápida e pasteurizada.

Pessoas mais mal vestidas do que eu – que há nove meses massacro as mesmas roupas – circulam por complicados espaços de forração cinza. E o jovem esfolado pelo diário viver anestesiado lá em cima, sem sair da cama.

A sensação de mal estar reduz a minha concentração para o trabalho. Bate a sonolência, após uma noite em que desfrutei de apenas três horas de sono. Continuamente afundado no almofadão de veludo encardido, cochilo por uma hora.

Acordo com o noticiário ligado, computador ao lado e a mochila, que apalpava enquanto dormia, presa às pernas. Foram poucos piscares até reconhecer na tela o gerente do hostel. Sim, do lugar esquisito onde acabara de me hospedar.

Tímido e bastante ressabiado, tentava explicar que não notara comportamento estranho do dono do estabelecimento, um cambojano há alguns anos também cidadão americano. A reportagem seguia, discorrendo sobre o envolvimento do acusado em crimes sexuais contra menores de idade.

Nos últimos quatro anos, o sujeito viajara 12 vezes ao Camboja, em busca de sexo com crianças de 11, 12, 13 anos de idade. Doente, filmava e arquivava tudo. Foi desmascarado por agente policial disfarçado, enquanto organizava excursão sexual ao sudeste asiático.

Chocado, o viajante apontava para a televisão, surpreso ao descobrir a origem da densa vibração do lugar onde passaria a noite. Era o último hóspede a se instalar no local. Os penúltimos, agentes de inteligência do FBI em investigação secreta.

O prédio, bem cuidado e azulado por fora, mantém avisos com normas estritas: visitas por no máximo 30 minutos e a proibição de menores de idade.

A primeira noite na última fronteira

Nenhum dos hóspedes era viajante. Perdedores do bruto jogo americano que trocaram as bordas da marginalização por um pouso barato.

Avança a noite. Passo pelo espaço contíguo onde há duas semanas mora o senhor que alterna a bombinha respiratória com o copo de destilado. Ocupo o meu beliche, ao lado do velho-jovem judiado pela vida.

Consigo sono reparador até perto das seis da manhã, quando sou despertado por gritos. Confusão no corredor, barulho no banheiro. E um senhor de pele escura e amplo bigode me chama para ajudar.

O jovem-velho-quase calvo estava caído no corredor. Salto do beliche desviando da bagunça que ele mesmo instalara no quarto e constato: o cara estava estatelado no chão, olhos abertos, pés molhados pela inundação do banheiro.

A primeira informação trazida pela mente é de que o jovem envelhecido, pele extremamente alva, tronco forte e pernas finas, teria se matado. De todos os becos, porões e cavernas do hostel explodem tipos estranhos.

Magrão mais alto do que o viajante, enfiado em camisas e jaquetas compridas, liga para o serviço de emergência.

O velho jovem desperta, movimenta a cabeça, cerra os olhos. Está vivo, percebo, aliviado. Levanta só, recusa a assistência emergencial, tropeça nas roupas, copos, embalagens, latas e garrafas que distribuiu pelo caminho e se deita novamente.

Mastigado pela vida, maltratado por si mesmo, segue socado na cama.

Poucas horas depois, arrumo a bagagem e deixo o hostel. Carrego na mochila mais uma experiência fascinante de viagem. Não vejo o jovem despertar.

 Notas do viajante:

  1. 1.    O fato é absolutamente verídico e o relato, baseado na vivência do viajante. O noticiário local detalha a história e informa a confissão do acusado.
  1. 2.    Os nomes do envolvido, do hostel e da cidade do Alaska foram propositalmente omitidos. Muita coisa ainda vai acontecer por lá.
  1. 3.    O gerente que concede informações à imprensa dá de ombros quando pergunto sobre o episódio do jovem caído no corredor. Parece que acontecimentos assim são normais no estabelecimento.