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Os encantos do Hotel Washington não sobem escadas

Publicado em: 13/07/ 13

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Crônica do Viajante

Após 36 horas de viagem – 25h de ônibus e 11h de espera – chego ao Hotel Washington. Fico feliz em encontrar, faceiras, as baratas que brincam no espaço destinado ao chuveiro, acobertadas pela cortina plástica colorida. Sim, é mais de uma barata.

O hotel é daqueles tipos sombrios, sabe? Em que o senhor idoso e mal humorado fica trancado dentro de um quartinho na recepção, suspeitando de todos, e cobrando valor absurdo pela qualidade do estabelecimento.

A área do entorno está deserta. Passam alguns minutos da meia noite. Sustentado pelo café da manhã reforçado, à base de ovos mexidos com presunto e pasta de feijão, havia passado o resto do dia sem comer. Tudo já fechado em Hermosillo, a cidade que registrou 48 C como recorde de temperatura, em 1998.

Escolho um refrigerante e algum saquinho com doce industrializado, na máquina de venda automática. Torço para que funcione. A sombra dos Estados Unidos já se faz presente, a quatro horas da fronteira.

O ar condicionado, central, despeja para dentro do quarto baforadas do que deveria ser uma brisa fresca. O ambiente segue abafado, apesar do piso de lajotas e de não haver qualquer tipo de revestimento nas paredes, remendadas com argamassa e novamente cobertas por tinta salmão, em tom pastel.

Não se admitem visitas, parece prever a administração do lugar, com ares de motel brasileiro de beira-de-estrada. Não, não estou comparando com aqueles sofisticados, que têm jogos de luzes, cama redonda e espelho no teto. Mas sim com aqueles outros, plantados onde nada há de civilização.

Não esperava mais encontrar no meu caminho este tipo de espelunca, após já ter ficado em 90 acomodações diferentes ao longo da jornada. Era a opção econômica mais indicada para a região, segundo o guia de viagem.

O hotel tem seus encantos, todos instalados no hall de entrada. Nenhum deles conseguiu subir as escadas e entrar nos quartos. É provável que o ponto mais forte seja a simpatia e a cordialidade do dono, contrastando com o resto do ambiente.

Talvez o melhor seja usar a técnica do “dormir o mais breve possível”, e fazer que nada vi. Não veria os inúmeros buracos no lençol que um dia nasceu branco. Não veria a sujeira e os restos de materiais cuidadosamente esquecidos, logo ali fora. Não veria o emaranhado de finos cabides de arame, entrelaçados sobre a minha cabeça.

Sim, essa seria a melhor alternativa. Um pouco difícil para quem sofreu de insônia por estresse ao longo de cinco anos e ainda finaliza tratamento médico.

Primeiro, tomar algumas decisões profiláticas. Estudo o que seria melhor: deixar a toalha no banheiro, habitado por um sem número de espécies involutivas, ou deixá-la repousando na árvore raquítica de cabides. Trago-a para minha companhia, com suas pontas encardidas.

Com cuidado abro o pacote com dois bolinhos de chocolate. Não quero que as baratas sequer percebam o movimento. Seguramente há mais entre os ocos do quarto. Faço o mesmo com a lata de refrigerante.

O único copo oferecido pelo hotel repousa convidativamente sobre o cinzeiro, boca de um na boca de outro. O quarto tem um telefone azul enorme, pregado à parede. Desses que se parecem a um orelhão. “Este aparelho só serve para receber chamadas” – a plaqueta exibe a intrigante mensagem em letras visíveis.

Penso em dormir de roupa, a mesma calça das cavalgadas pelo deserto, certamente mais limpa do que a roupa de cama do covil. Abro a janela, não suporto mais o calor. Mais de uma semana em terras altas me fez esquecer como pode ser horrivelmente desagradável o clima tórrido do México, no verão.

Busco no corredor externo algum interruptor que me ajude a reduzir a claridade que penetra pela cortina e se intromete no quarto abrasado. Nada. Imagino como é possível o repouso dos demais hóspedes. Penso melhor. Talvez não haja qualquer outro hóspede na biboca.

Tiro a camiseta, enrolo na lâmpada fluorescente e torço. O bocal baila conosco. A luz não se apaga. Nova tentativa, segurando com a outra mão o bocal. Essa intimidade com as estruturas hoteleiras só se adquire depois de muito tempo dormindo em hotelitos, hostels, pulgueiros e toda a sorte de acomodação oferecida aos viajantes.

A lâmpada estoura na minha mão, protegida pelo trapo que se tornou a camiseta suja e suada, após oito meses de viagem. A luz se apaga, mas há outras sete ou oito distribuídas ao longo do pátio. Iluminação não é problema na alfurja.

Volto rápido para o quarto. Lembrei que deixei o último bolinho de chocolate descoberto e tudo o que não gostaria na ocasião seria outro encontro inesperado.

Deixo o banho para o dia seguinte, mais saudável será a higiene após me separar do colchão imundo. Sim, já estava certo. Pela manhã colheria os restos de barata do chuveiro e tomaria banho.

Pretendo sair cedo do hotel Washington. É impressionante como o viajante tem facilidade para criar um relacionamento próximo com esse tipo de algar.

É forte a ducha do Hotel Washington.

 


A Terra das Guitarras

Publicado em: 06/07/ 13

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Reportagem do viajante

Victor Hernández dedilha o violão com a habilidade de um músico profissional. Não faz apresentações artísticas. Dedica sua técnica e conhecimento à fabricação de instrumentos de cordas. É um dos artesãos que contribui para a fama da cidade de Paracho, no México, conhecida como a terra das guitarras, desde os anos 40.

Guitarra é o nome usado para os instrumentos de corda tangidos com os dedos ou palhetas, que geralmente têm entre seis e 12 cordas e o corpo em formato de um oito. Nós, brasileiros, chamamos de violão a guitarra clássica ou acústica, enquanto usamos a palavra guitarra para designar especificamente o instrumento elétrico.

Hoje a produção do pequeno povoado, de menos de 20 mil habitantes, varia entre os violões, violinos, violoncelos e as “vihuelas” e “guitarrones”, utilizadas pelas alegres, e às vezes invasivas, bandas de mariachis. Victor e o filho, David, produzem em média 25 guitarras por mês.

A guitarra mais popular é feita de “palo escrito”, tipo econômico e eficiente de madeira, e não custa mais do que mil pesos mexicanos, o equivalente a R$190. Há guitarras vendidas em Paracho por até 18 mil, quase R$3,5 mil.

A música é tão significativa para a cidade que Paracho mantém um centro de desenvolvimento da guitarra, com aulas para crianças e jovens, museu e espaço para apresentações. Já atraiu jazzistas famosos, como o vocalista norte-americano Joe Willians.

Atualmente a concorrência mundial é grande e vem forte do Canadá, Estados Unidos, Espanha e, é claro, da pantagruélica China, conta o fabricante Ignácio Barajas, que aprendeu o ofício com o pai, aos cinco anos de idade. Aos 35 anos de trabalho, exibe o diploma de qualidade, concedido pelo governo de Michoacán.

A lenda da tartaruga

As culturas antigas atribuíam a criação dos instrumentos aos deuses, pois consideravam a música como de origem divina.

Contam os antigos que o Deus grego Mercúrio passeava às margens do Rio Nilo, no Egito, quando encontrou uma tartaruga morta. Sobravam apenas os nervos do animal, dentro da carapaça. Ao tocar os restos do bicho, Mercúrio descobriu que os nervos vibravam e produziam diferentes sons, quando puxados. Era a origem do primeiro instrumento de corda.

Em Paracho, os primeiros instrumentos eram fabricados com tripas de carneiro e de gato. Inicialmente vieram a “guitarras de golpe”, na qual as cinco cordas eram tocadas de forma ritmada, aos borbotões.

Existem dezenas de tipos de instrumentos de corda, mas a produção do som é sempre feita por uma das três maneiras: o encordoamento é beliscado (violão ou guitarra), friccionado (violino ou violoncelo) ou percutido (piano ou berimbau). Só de violões há pelo menos 10 tipos ou modelos diferentes, conforme o estilo ou a finalidade.

A construção artesanal de um instrumento de corda é atividade complexa. Depende da qualidade e idade da madeira, do corte, elaborado, da acústica da caixa de ressonância e do encordoamento. Diz-se que para um violão soar bem há influência inclusive da temperatura atmosférica.

Por isso os primeiros fabricantes de Paracho cortavam as árvores, nos montes próximos à cidade, em noite de lua cheia, quando a água da planta era atraída para a copa e ramas mais altas, deixando o tronco mais seco, melhor para a confecção dos instrumentos.

No início as guitarras eram pintadas com tinta artesanal, preparada no fogão à lenha. O brilho do instrumento, obtido com pasta à base de mel.

 


A fábrica e a farmácia

Publicado em: 28/06/ 13
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A fábrica foi transformada em centro de arte e desenhos, com diversas galerias sofisticadas.

A farmácia continua ativa, desde 1818.

Pelo menos 300 pessoas trabalhavam na indústria que fabricava roupas, mantas, xales e, a partir da década de 70, também tênis.

A farmácia mantém poucos funcionários e frascos importados da França, há praticamente dois séculos.

A Negociação Fabril de La Aurora foi uma das principais indústrias têxteis do México, desde 1902. Usava maquinário inglês e mais tarde suíço e alemão. Mantinha programas sociais, esportivos e culturais para a comunidade de San Miguel de Allende, no centro-norte do país.

A farmácia, nominada “Moderna”, opera em um espaço restrito em frente à praça maior do povoado de Pátzuaro. Trabalha com manipulação de fórmulas, medicina de patente e perfumaria. Tem instalações idênticas, abrigadas e preservadas no Museu do Estado, em Michoacán.

Ambas tem o poder de se instalar no imaginário das pessoas como representação de uma época. As duas são tradicionais e compõe parte da história mexicana.

A fábrica edificou trajetória de luta e de crescimento econômico. A farmácia é parte da evolução da ciência farmacêutica que se desenvolveu em Michoacán desde o século XVII.

Antiguidades, obras de arte, fotografias, joias, artesanatos finos em vidro e madeira são admirados hoje em dezenas de galerias instaladas na antiga fábrica. É praticamente um museu de arte moderna que mistura máquinas e estrutura antiga com esculturas e pinturas contemporâneas.

A farmácia ainda mantém anúncio das famosas “pílulas da vida” que, no começo do século XX, prometiam estimular estômago, fígado e intestino e combater a maioria das doenças. Eram comprimidos laxativos, de coloração rosada, vendidos a apenas três centavos de dólar.


Charmoso povoado fantasma

Publicado em: 21/06/ 13

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Crônica do viajante

A 70 metros de profundidade, dentro de uma estreita, escura e profunda mina de ouro e prata, o ar é mais fresco. Não há agonia, sensação de claustrofobia, tensão, medo ou desespero. Relaxada e interessadamente, o explorador admira as aberturas, túneis e galerias, descobertos à medida que penetra o interior da caverna.

Sente-se bem. Os sonhos recorrentes de morte por soterramento não passam agora de distante lembrança. Pesadelos que com frequência assaltavam a infância de sete ou oito anos de idade. Quase não recorda mais.

Conta-se que as minas são conectadas e que um dos caminhos subterrâneos conduz ao centro do histórico povoado. O menino-viajante vibra. Ama as descobertas. Excitava-se com a perspectiva de encontrar passagens secretas na casa dos avós paternos.

Percorrer o povoado fantasma é descobrir extensos jardins ressequidos e trombar com longas fileiras de plantas do deserto brotando saudáveis sobre o solo árido. Ao caminhar quilômetros sem água ou sombreiro, sob o sol inclemente do deserto, a alma do viajante se percebe livre.

Pelo trajeto solitário, a velha caminhonete azul, com para-choque amarrado, transporta lote de filhotes de carneiro. As ruas, fora da pequena área central, perderam o calçamento e estão normalmente desertas.

Os cactos tomam sol em cima do telhado abandonado. O céu é quase sempre azul.

Há placas de venda nas propriedades. Há ruas sem placas. Os portões são fortemente trancados. Há ruínas por toda a cidade. Ou melhor, o povoado são as ruínas, desde que foi abandonado, há 100 anos.

Mineral de Poços, no planalto central do México, um dia resolveu se mudar. O lugarejo foi povoado respeitável na época da mineração. Reunia 70 mil habitantes em busca de cobre, ouro, prata, enxofre e outas preciosidades. Uma espécie de corrida do ouro mexicana.

Hoje, a cidade resiste em voltar para casa.

Começou a ser abandonada com a Revolução Mexicana, dos zapatistas, em 1910. Da estrutura da escola técnica, que ensinava homens a terem um ofício e mulheres a cuidarem do lar, restaram apenas grandes vãos e grossas paredes.

Nos anos 20, do século passado, as inundações provocaram nova corrente, para fora da cidade. A exploração dos metais preciosos era afogada, com o sepultamento das minas. Os sobreviventes, uma vez mais, esvaziaram a cidade. Por décadas, Poços teve apenas a companhia do deserto.

A evasão não arranhou o charme do lugar, pelo contrário, encantou mais o viajante que caminha pelo chão pedregoso. Espírito sempre aventureiro.

Agora as lembranças de criança remetem à infância dos filmes de caubói e das relíquias do velho oeste. Relíquias, não brinquedos, guardados pelo avô e mantidos como bens de família. Chapéu, sela, bolsa e artesanato genuinamente Cherokee.

Sim, o avô percorria o western americano na época de índios e ursos. Faleceu sem que o conhecesse, mas transmitiu a herança, a genética, o sangue e a saga ao andarilho.

A cidade mantém o perfil e a mística dos Chichimecas e investe hoje na fabricação de instrumentos musicais indígenas e do artesanato de inspiração pré-hispânica. Quer apostar no turismo.

Agora, conta o morador, a cidade será “povo mágico”, vai ganhar dinheiro do governo e receber investimentos dos capitalistas. Prevê um grande hotel na região, cafés, um hipódromo e, quem sabe, um campo de golfe para os americanos.

O explorador se entristece, não é o que gostaria de presenciar. Sonha com a época em que a caça não precisava ser proibida porque a carne era farta. O tempo em que os ritos e as tradições indígenas, verdadeiramente mágicos, eram costume corrente, em meio à natureza.

Mochila às costas, o jornalista nômade segue o seu caminho. Suas roupas estão puídas, suas meias estão rasgadas. A bota, velha companheira, já há dias faleceu. Mas o coração do caminhante segue em paz. Sua alma está extremamente feliz.


Uma prova de fé

Publicado em: 13/06/ 13

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Relato do Viajante

O altar da igreja de San Juan de Parangaricutiro resistiu à fúria do vulcão mais jovem do mundo. Está de pé, recebendo homenagens, oferendas e atestando a fé da pequena comunidade de Angahuato, no México.

Recém-iniciava o ano de 1943 quando Dionisio Pulido, fazendeiro local de origem indígena, sentiu a inquietude do solo e o calor que brotava do chão, junto à plantação de milho.

Em 24 horas a terra começou a gritar e a expelir rochas, cinzas e lava, de um monte de sete metros de altura. Nascia um vulcão que em um ano atingiria 410 metros e derramaria suficiente material para sepultar dois povoados da região.

As poucas centenas de habitantes puderam sair a tempo e o novo e imponente morador foi batizado de Paricutin, por dominar o território antes ocupado pelo vilarejo de mesmo nome.

Por nove anos o vulcão espirrou constantemente. Berrou, vociferou e sua lava conquistou um campo de 20 quilômetros quadrados de extensão. Lambeu a igreja, que resistiu, em parte.

Sobraram uma torre e meia, algumas meia-paredes, com janela, e o altar. A fachada de pedra recorda a magnitude do templo. Os restos das construções do antigo povoado dormem baixo rocha vulcânica.

Hoje, a 2.800 metros acima do nível do mar, o gigante hiberna. As fumarolas que exalam vapores a pelo menos 80 C indicam que segue vivo, apenas dormente.

 


O cotidiano de um centro histórico

Publicado em: 06/06/ 13

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Experiência do viajante

Morelia é uma cidade tão acolhedora que o primeiro vice-rei da Espanha encorajava a nobreza a se mudar para o México com as famílias.

Situada sobre um platô, com montanhas ao longe, não é infernalmente quente como as cidades coloniais de Granada e León, na Nicarágua, ou Cartagena, na Colômbia. Mesmo na boca do verão.

A arquitetura barroca dos séculos XVI e XVII foi materializada nas construções com pedra canteira, proveniente de cinzas vulcânicas e de tonalidade rosada.

Nos elegantes prédios históricos, o comércio se acomoda garbosamente. Criou seus eixos de especialização nas ruas de calçamento antigo. Os supermercados deixaram o espaço livre para as pequenas, funcionais e mais caras lojas de conveniência.

As casas se esparramam pelas ruas que ziguezagueiam colina abaixo, nas direções norte e sul. E perdem as características históricas à medida que se afastam do coração da cidade.

A cidade espichou. O charme prevaleceu.

O antigo aqueduto, construído inicialmente em madeira, foi reformado e mantém preservada sua estrutura com mais de duas centenas de arcos. As escolas se adaptaram, satisfeitas, aos casarões que contam mais do que o ensinado em salas de aula.

A modernidade soube conviver com o tradicional.

Marcas famosas, instituições governamentais e serviços bancários se adequaram às construções de mais de um século. O antigo convento franciscano abriu as portas para expor o artesanato de todas as regiões do México.

Difícil imaginar uma edificação de destaque junto a tanta majestosidade. A Catedral preenche os requisitos e ocupa o espaço. Brilha. Ainda mais nos espetáculos de iluminação cênica e fogos de artifício, aos sábados à noite.

A encantadora e diversificada Morelia também é a cidade dos doces.

Apresentados em cores, nas barraquinhas do mercado de artesanato. As taquerias servem comida simples, saborosa e acondimentada por apenas cinco reais.

O transporte coletivo opera em vans, kombis ou veículos adequados à estrutura antiga. Já a publicidade ocupou seu espaço, sem pedir licença à antiguidade.

Prostitutas batem ponto apoiadas nos muros de pedra dos casarios. As ruas são seguras, inclusive à noite. Salas de cinema modernas e confortáveis oferecem a preços atraentes os lançamentos comerciais do circuito Hollywoodiano.

A banda de música ensaia na praça. Os meninos, perfilados em “escadinha”, afinam os trompetes.

Os habitantes da cidade prestigiam os tesouros, orgulhosos de sua cultura. Os moradores locais são maioria absoluta entre os que visitam a casa onde nasceu José Maria Morelos Y Pavón, um dos pilares da independência mexicana.

O herói nacional que emprestou o sobrenome para rebatizar uma das primeiras cidades da Nova Espanha, é reverenciado em Morelia.Nas ruas, aparece estampado ao lado de símbolos de modernidade e desenvolvimento. É rei na capital de Michoacán.

Os portais circundam a Plaza de Armas, como queria o Rei Felipe II, ao estabelecer o traçado das cidades hispano-americanas. A cidade é Patrimônio Mundial da Humanidade, declarado pela Unesco em 1991.

Sim, em Morelia é possível se sentir na Europa.


A angústia de Frida Kahlo

Publicado em: 01/06/ 13

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Pesquisa do viajante – Fotos: Ike Weber e Ju Scheller

 “Quién diria que las manchas viven y ayudan a vivir? Tinta, sangre, olor… que haría yo sin lo absurdo y lo fugaz? (F.K.)

Artista, musa, bissexual, vítima e sobrevivente. Toda esta mistura de vida e de emoções se expressa na obra de uma das maiores pintoras mexicanas. Ainda que dissesse que podia voar, Frida Kahlo se entregava na agonia de sua obra.

Até a natureza morta remete à luta da artista pela vida, sua angústia e extirpações. Retrata a dor de suas limitações e imperfeições físicas. Expõe as entranhas.

Frida contraiu poliomielite aos seis anos, o que deixou sua perna direita permanentemente mais fina e curta do que a esquerda. Não foi o que a abateu, cresceu decidida a ser médica.

Foi o choque entre o ônibus em que viajava e um trem, aos 18 anos, que a mutilou severamente e a impulsionou à pintura. Às portas da morte, obteve milagrosa recuperação do acidente que quebrou sua perna direita, pélvis, clavícula e costelas.

Foram meses de cama. Permaneceram as dores física e emocional, que predominam em seu trabalho artístico. Assim como o tema da infertilidade que também a atormentava.

Em seus quadros, dotava cada cor de uma emoção carregada. A paleta só apresentava cores frias.

“Yo no pinto sueños, pinto mi realidade” (F.K.)

Filha de um fotógrafo húngaro e de uma mexicana de Oaxaca, nasceu em Coyoacán, em 1907. Tinha duas irmãs mais velhas.

Determinada e comprometida, filiou-se ao Partido Comunista Mexicano. Abrigou Trotsky em sua casa, no exílio do político em 1937.

Vestia-se para cobrir as marcas da vida. O guarda-roupa também refletia a ideologia política e a influência cultural. Os coletes ortopédicos sustentavam-na em alinhada postura corporal.

Apaixonada, continuou a viver o sofrimento em seu casamento tempestuoso com o pintor vanguardista Diego Rivera. Entrou em um mundo de boemia. Frequentou círculos artísticos de esquerda. Viveu em San Francisco, Paris e Nova Iorque, onde o muralista Rivera deixou famosos afrescos.

Era uma união entre um elefante e uma pomba. “Quanto mais amo uma mulher, mais a machuco”, confessava Rivera. Os dois tinham relações extraconjugais com mulheres.

Separou-se do pintor que amava e a atormentava.

Voltou a casar-se com Rivera, no mesmo ano da separação. Mudaram-se para a casa dos pais de Frida, hoje transformada em museu que exibe parte de sua obra.

Com os anos e as 22 intervenções cirúrgicas, o corpo de Frida foi se desintegrando. A artista morreu jovem, na Cidade do México. A obra, carregada de sentimentos, permanece. Frida lutou por seus sonhos, pela felicidade e pelo amor.

“Pies para qué los quiero, si tiengo alas pa` volar” (F.K.)


O sol nasce primeiro em Tulum

Publicado em: 27/05/ 13

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Reflexão do Viajante

Os Maias sabiam viver. Na costa caribenha de águas azuis turquesa e verde jade construíram a cidade portuária de Tulum. “Zama”, chamavam o lugar onde o amanhecer chegava primeiro. Por trás das muralhas de pedra calcária, admiravam o horizonte.

Na atividade cotidiana participavam ativamente do movimento comercial marítimo e terrestre, compreendido entre o centro do México e Honduras, na América Central.

Três grandes muralhas fechavam a cidade. A leste, o mar era proteção natural.

Matemáticos, inventaram o conceito do zero. Observadores astronômicos, orientavam cidades e construções segundo os quatro pontos cardeais, como mostram as cruzes de pedra. Preocuparam-se ainda em calcular a órbita de Vênus.

Artistas deixaram a herança da cor e da modelagem do tecido aos indígenas da Guatemala. Falaram 36 línguas na América Central, com estrutura gramatical desenvolvida e expressões literárias próprias.

As cavernas debaixo de algumas construções são os Cenotes, que armazenavam água da chuva para abastecer a cidade.

Ao contrário do que prega boa parte dos historiadores, a Civilização Maia não se degenerou pelas guerras ou sucumbiu à fome ou  doenças. Nem foi conquistada pelos espanhóis, como os demais povos pré-colombianos – Astecas, Toltecas ou Olmecas.

Deixaram as principais cidades e desapareceram, afirmam estudiosos gnósticos. Místicos, teriam se transportado a uma dimensão paralela, não física, segundo a mesma linha de pesquisa.

Apesar de mal interpretados por visionários do fim do mundo em 2012, os Maias foram especialistas em calendários e contagem do tempo. Diziam que o caminho de Tulum, no mar, se abriria em algum momento e o mundo então mudaria.

Por enquanto, as ondas estouram na praia e as iguanas se arrastam na areia. O mar permanece azul celeste, admirado do alto da fortificação. As praias da região de Tulum são as mais bonitas da Península de Yucatã. Os Maias sabiam viver.


México DF, onde tudo acontece

Publicado em: 21/05/ 13

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Crônica do Viajante

Pelas ruas do centro histórico da Cidade do México se escutam canções tradicionais, sopradas de caixas de música ao estilo parisiense. Do alto do 44 andar do edifício que orgulha-se de ter sido o mais alto da capital, na década de 50, o viajante contempla as palmeiras que balançam ao sabor da brisa cálida.

A Torre Latino Americana, construída sobre o que foi um zoológico da Civilização Asteca, é sólida, estruturada e imponente. Já resistiu a terremoto, sem qualquer degradação.

Os monumentos igualmente gigantescos, como tudo na capital, também observam do alto o cenário da segunda maior cidade do mundo, com 21 milhões de habitantes.

México DF é onde tudo acontece. A Harley Davidson escolheu a megalópole para ser um dos lugares do mundo a celebrar o aniversário de 110 anos da marca, símbolo americano da rebeldia e da liberdade. O cortejo de motocicletas entupiu o centro em uma manhã de sábado.

Manhã nublada, como são todos os dias primaveris de uma das cidades mais poluídas do mundo. Mesmo em dias quentes e secos o sol não consegue romper a barreira de gases poluentes. O céu não tem permissão para ficar azul.

Ambulantes fogem da fiscalização. Funcionários públicos protestam pela reforma do ensino. Prestadores de serviço técnico fazem ponto ao lado da Catedral. O comércio bomba na cidade que parece estar em constante clima de Natal.

Na praça imensa, construída sobre a antiga capital Mexica de Tenochtitlan, descendentes Xamãs atendem como médicos naturalistas. A cultura foi preservada, o mercantilismo não se apoderou da alma mística dos ritualistas. O atendimento é gratuito.

A passos dali, meninas se agrupam para cultuar outro fenômeno, o da música pop juvenil. O fã clube de Justin Bieber se reúne periodicamente para trocar informações sobre o cantor.

Em outra praça central, o encontro é entre os Mariachis. Adornados, aguardam pelo turista que pagará por uma canção.

Cidadãos disputam espaço no calçadão mais famoso da capital. O trânsito para. O rush começa cedo e vai até tarde na vibrante e cosmopolita cidade. Ao entardecer, as fontes da Alameda Central lançam jatos luminosos que se desapegam em movimentos dançantes.

No subsolo, outra vida acontece. Maior. Mais numerosa. Quase cinco milhões de pessoas são transportados diariamente em 11 linhas de metrô que cobrem 200 quilômetros baixo terra. O comércio das profundezas é agitado e dinâmico, dentro e fora dos vagões.

Na cidade católica, a “senhora morte” é adorada como santa.

O viajante, deliciosamente surpreso e feliz, observa tudo do alto. Imagina o que não vê. Os céus da capital mexicana são riscados por aviões e sustentam os movimentos macios dos helicópteros.