Camboja

Santuário de elefantes

em 20 janeiro, 2016
Sensibilidade e percepção aguçada tem os elefantes

Em vida livre os elefantes chegam aos 100 anos

Caminhei e apreciei cinco elefantes que vivem numa reserva natural em Sen Monorom

Hoje existem apenas 30% da floresta nativa do Camboja. O desmatamento foi provocado pela exploração de madeira e mau uso do solo pelos fazendeiros. Há seis anos, o país tinha cinco centenas de elefantes, entre domesticados e livres. Agora é possível numerar cada indivíduo: são apenas 116 selvagens e 48 domesticados. Muitos desapareceram com a redução da mata, alguns foram levados ao vizinho Vietnam e, outros, forçados a trabalhar e depois mortos na Guerra Civil de Polpot, nos anos 70.

O corte de madeira e o mau uso do solo estão acabando com a selva cambojana

Restam apenas 30% da floresta original do Camboja

Tive a oportunidade de circular pelas áreas agrícolas e caminhar pela borda da floresta. Melhor, pude contemplar cinco elefantes abrigados numa reserva natural de 200 hectares perto de Sen Monorom, no nordeste do país. O espaço é parte de um projeto de conservação da vegetação nativa e preservação dos animais.

A população de elefantes diminuiu de 500 para menos de 170 indivíduos

A reserva tem 200 hectares e a finalidade de conservar a floresta e manter um habitat adequado para os animais

A experiência é única e fascinante. Caminhei com os bichos, alimentei-os com bananas, entregues na tromba ou direto na boca, e entrei no rio com pequenas quedas d´água para lavar o dorso enrugado e a pele grossa dos gigantescos mamíferos. A limpeza ajuda a remover bactérias e previne infecções. Nada de escalar os elefantes, montar é extremamente proibido porque desgasta e estressa os animais. Foi uma experiência autêntica, longe de circos e livres de shows.

Os elefantes se banham nas cascatas e rios da reseerva

A lavagem dos animais é importante para remover bactérias e evitar infecções

Os indivíduos que vivem na reserva são fêmeas e foram comprados na região ao preço médio de US$30 mil. Moon tem entre 35 e 40 anos e furo em uma das orelhas porque trabalhava arrastando cargas de madeira na vila de Oriang.

Na reserva, os elefantes fazem o que tem vontade de fazer, além de comer o dia todo, bambus e plantas nativas. Se não querem ser banhados, não entram no rio e se preferem ir embora, apenas se afastam. Os “mahouts”, responsáveis por guiar e tratar dos animais, garantem a segurança, mas não forçam os bichos.

Na reserva, os bichos vivem livres e tem autonomia para agir e se locomover

Nada de montar nos elefantes, a prática é anti-natural e estressa os animais

Cada um deles pesa entre três e quatro toneladas e come o equivalente a 200 kg por dia. Se estiverem livres, em cenário natural, podem viver mais de 100 anos. Alguns ainda trabalham nas vilas indígenas, ajudando na colheita e no transporte de madeira. Os mamíferos asiáticos são menores do que as espécies africanas.

Todos os indivíduos da reserva são fêmeas

Cada animal pesa entre três e quatro toneladas e come o equivalente a 200 kg por dia

Existem cinco projetos voltados ao abrigo e cuidado de elefantes na região. Muito difícil escolher o mais adequado, há uma guerra ética e comercial entre eles. Todos se intitulam Ongs sem finalidade de lucro e com o propósito de apoiar as comunidades indígenas Bunong.

A vida é pobre e simples nas vilas. As famílias se formam cedo e dão origem há vários filhos, muitos privados de educação. A população cresceu e a comida diminuiu. Todos descem das montanhas com os cestos às costas para vender produtos rurais no mercado do povoado. Vivem com pouca ou nenhuma assistência médica, buscam a cura e a magia na floresta. Enfrentam a malária que atinge em torno de 40 mil pessoas por ano no país.

Os Bunong vendem seus produtos no mercado do povoado

Todos os programas para abrigo e cuidado dos elefantes afirmam que apoiam as comunidades indígenas da região

A reserva que visitei deve ficar intacta ao menos pelos próximos 30 anos, tempo do contrato assinado entre o governo, a Ong e a comunidade étnica. É uma esperança porque em 2014 o Camboja perdeu uma área de floresta quatro vezes maior do que em 2001, segundo levantamento do World Resources Institute, um centro de pesquisas mundial, com sede em Washington. Uma das causas é a indústria de borracha que se desenvolve com força na região do rio Mekong.

O contrato para criar a reserva tem vigência de 30 anos

A esperança é de que a floresta se mantenha intacta, ao menos na área de preservação

Os antigos dizem que se algo errado está para acontecer na comunidade, o elefante é o primeiro a saber.

Sensibilidade e percepção aguçada tem os elefantes

O elefante é sempre o primeiro a saber

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Camboja

Desenvolvimento sustentável, golfinhos e um baita desafio (Parte 2/2)

em 9 janeiro, 2016
O Rio Mekong é o mais importante do sudeste asiático

O Rio Mekong é o mais importante do sudeste asiático

Num dos trechos da trilha fiz travessia do Rio Mekong, de barco

O despertar da comunidade na ilha de Ko Phdao, às 5h30, parecia uma batalha épica: motores, berros, pisadas fortes no estrado de madeira, risadas e choros. Parti após ducha de balde, noodles morno com peixe frito e café cambojano.

O dia prometia, mais do que eu poderia imaginar. À porta da casa me esperava o guia local para me conduzir pelas tramas da ilha, iria me acompanhar montado numa scooter. O trajeto da segunda pedalada rasgou Ko Phdao ao meio, por 45 km. Desta vez com terreno pesado, areião, e vários trechos de difícil transposição, até para o nativo motorizado.

O segundo dia de pedalada atravessou a ilha, trecho de 45 km

A maior parte da trilha era de areião, terreno pesado para pedalar

Na metade do caminho desconectei o freio traseiro da bicicleta que enroscava no pneu. Apesar de ter escolhido a melhor mountain bike que encontrei, estava longe de ser o equipamento mais adequado para aquelas condições e terreno.

Às nove da manhã o sol já castigava forte, a mim e à paisagem ressequida. Com apenas uma e meia garrafinha, tive que racionar água no percurso. Com a boca em estado desértico, só consegui engolir os ovos cozidos que carregava para o almoço. O tijolo de arroz, embrulhado em folha de bananeira, doei para a família do guia. Nunca desejei tanto uma jarra de suco de laranja natural, produto raro e caro aqui no Camboja.

O rio apareceu apenas ao final deste trecho e, com ele, o mergulho, o relaxamento e as cãibras. Sedento, cansado e enfraquecido, me despedi do guia, atravessei o rio novamente, deixei a comunidade e atingi uma vila paupérrima quando já entrava à tarde. Fora da comunidade assistida, as condições pioraram bastante.

Parei para dormir numa vila diminuta e muito pobre

Fora da comunidade assistida, as condições pioraram bastante

A cambojana queria 10 dólares para me abrigar na casa e outros três para jantar. Bem caro para um lugar desprovido de saneamento básico e de qualquer noção de higiene e limpeza, sem água na casinha do banheiro, instalada junto ao chiqueiro, e espaço para dormir restrito ao piso duro de tábuas. Uma fornalha, levitando sobre o lixo e a terra suja.

Isolado num trecho da estrada de chão e exausto, negociei. A moça dizia quatro dólares e escrevia 10 no caderno rasurado. Após não sei qual raciocínio, ofereceu a casa por cinco dólares, sem comida. Aceitei e estiquei as pernas, quase travadas pelo esforço da jornada.

Banho ao ar livre e banheiro junto ao chiqueiro

Estrutura básica e noite direto no chão, sobre piso de tábuas

Fui me restabelecendo aos poucos, ingerindo líquido e me refrescando no Mekong, provavelmente poluído pela comunidade ribeirinha. Era hora de encontrar comida, mas o cheiro de podridão, alternado com o da choça dos porcos, inibia o apetite. Num casebre-mercadinho, consegui latas pequenas de sardinhas e leite em caixinha. Garanti o jantar e o café da manhã seguinte.

Excesso de lixo, dejetos e risco de contaminação

A falta de higiene básica e o cheiro de podridão inibiam o apetite

Esse é um ambiente muito mais difícil do que qualquer acampamento em áreas hostis ou expedição na selva, porque ao contrário de um cenário natural, há sujeira por toda parte, dejetos acumulados e risco de contaminação.

Crianças vivem na sujeira

Ambiente mais crítico para se hospedar do que acampamento de selva

Apaguei.

Dia seguinte, repeti a refeição anterior e peguei a estrada de terra sob o sol inclemente. Mal durei três quilômetros e precisei parar, estava fraco e enjoado. Invadi um pedaço de sombra de uma meia casinha abandonada e me estendi para relaxar.

Isolado, não havia ninguém para me ajudar

Mesmo exausto, registrei o momento em que achei que não conseguiria prosseguir

Esticado nos destroços do que um dia fora uma construção de madeira, comecei a passar muito mal. Achei que não poderia mais prosseguir, no entanto não havia ninguém para me ajudar. Vomitei o pouco alimento que havia no meu organismo. Não tinha conferido a data de validade na lata de sardinha, seria isso? Ou, muito provavelmente, insolação.

Recobrei o ânimo e, para reduzir o peso, decidi esvaziar a mochila. Abandonei ali mesmo todas as roupas, era uma questão de sobrevivência. Mantive apenas o essencial na mochila: kit de conserto da bike; câmera fotográfica; água; protetor solar; dinheiro e documentos, basicamente.

Decidi esvaziar a mochila para facilitar a pedalada

Abandonei as roupas no caminho e segui só com o essencial

Venci a pista de terra e cai na estrada asfaltada. O trecho mais insano apenas começara. O sol pegava a cabeça, surrava as costas, chicoteava as pernas. As escassas sombras eu aproveitava ao máximo, fazendo paradas a cada meia hora, em média. Fervia a pista à sensação térmica superior aos 40 C.

Foram vencidos 65 km nessas condições. Ao entardecer me aproximava do ponto de chegada. Por azar, ou escuridão, parei um pouco antes, na entrada do povoado. Encontrei uma boa pensão, mas nenhum lugar razoavelmente decente para me alimentar.

O terceiro dia foi insano

Ao entardecer do terceiro dia de pedalada chegava ao meu destino final

Após dois dias apenas beliscando, sem que nada tivesse parado no estômago, estava bloqueado para comer em condições precárias. Havia um karaokê que, no Camboja, tem característica de casa noturna e oferta de acompanhantes. Devagarzinho ia descendo uma sopa de noodles, até a chegada do gerente do estabelecimento.

Com algum nível de inglês, muita gentileza e avidez para os negócios, atrapalhava minha tentativa de refeição, fazendo perguntas sucessivas e indicando belas meninas cambojanas, com idades que estimei entre 14 e 20 anos.

Já na hospedaria, descansei por 12 horas. Encarei um peixe frito no mercado caótico e procurei uma van para regressar com a bicicleta. No retorno, cochilei um pouco. Sonhava com bifes suculentos e queijo.

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Camboja

Desenvolvimento sustentável, golfinhos e um baita desafio (Parte 1/2)

em 7 janeiro, 2016
Jovens na construção, em monastério budista

Jovens na construção, em monastério budista

Jovens estudam, trabalham e se preparam, seguindo preceitos budistas

Quando retornar ao Brasil, acredito que vou sentir falta de ouvir os cumprimentos e acenos das crianças por onde passo, de manhã até à noite. Não são cumprimentos obrigatórios, os garotos ficam excitadíssimos, principalmente quando respondo de imediato.

Antes mesmo de identificar o ponto da gritaria escuto os “hellos” calorosos. Logo aparecem meninos e meninas de dois, três, quatro ou cinco anos esticando a mãozinha e entregando sorrisos, desde bocas banguelas ou já cariadas.

De longe escuto o chamado das crianças

Garotos ficam entusiasmados ao cumprimentar e interagir com viajante estrangeiro

As melhores formas de interagir com uma comunidade local são a pé, adentrando as profundezas dos povoados; de caiaque, remando até as vilas flutuantes; ou então circulando com motocicleta de baixa cilindrada. Desta vez optei pela bicicleta, outra estupenda forma de interação e de transporte.

Faria uma rota de 150 km ao longo do Rio Mekong, um dos maiores do mundo e o mais importante da região, responsável pelo sustento de milhões de pessoas. O Mekong nasce no Tibet corre pela China, forma a fronteira entre Myanmar e Laos, passa pela Tailândia, Camboja até compor um delta de terras férteis no Vietnam.

O Mekong abriga ainda poucos golfinho quase em extinção

Um dos pontos de parada ao longo do rio Mekong, com área de lazer e relaxamento

O primeiro dia de pedalada foi magnífico, os golfinhos surgem perto dos botes à beira do caminho. São da espécie Irrawaddy, seriamente ameaçada de extinção. Estima-se que haja apenas 80 indivíduos vivendo nessa região. Outro peixe importante é o “trey riel” que até deu o nome à moeda do país, o riel.

Cruzei o rio num barco que carregava de tudo e me alojei em uma das quatro vilas da ilha de Ko Phdao. Duas das comunidades – apoiadas por uma Organização Não-Governamental (ONG) da região – passam por um fabuloso programa de desenvolvimento sustentável. Algumas famílias, em sistema de rodízio, acolhem os viajantes e fornecem alimentação. Com orientação, educação e esforço, afugentam a pobreza.

É lutada a vida nas comunidades que vivem nas ilhas do Mekong

O transporte até à ilha é feito em barcos que transportam de tudo e navegam sempre lotados

Neste ponto do Mekong a correnteza é extremamente forte, a água é limpa e os mergulhos, essenciais. Com a chegada da noite, acomodei-me provisoriamente por alguns momentos em meu colchão fino, sobre o piso de madeira, para ver quais seriam os costumes e regras da casa. De pronto uma senhora instalou um ventilador em frente aos meus pés. Em que hotel você já recebeu esse tipo de serviço?

A vila melhora graças a um programa de desenvolvimento sustentável

A primeira casa onde me hospedei era muito simples, mas limpa e com boa comida

Uma segunda mulher descansou uma toalha cor de rosa em frente ao meu cantinho, deitou diversos pratos e ofereceu o jantar. Havia porco com cebola, legumes apimentados, uma tigela cheia de arroz e vários pedaços de abacaxi. Comi, observado pelas senhoras e por dois meninos. Tudo muito limpinho, até com guardanapos.

As instalações indicavam quarto de banho, com caneca plástica, separado do sanitário. Não havia luz elétrica, a pouca energia era fornecida por carga de bateria. Um pequeno altar budista, comum em todas as casas desta parte do mundo, completava o ambiente.

Difícil imaginar o gelo suportando calor do Camboja

Como não há energia, a refrigeração é feita com barras de gelo

Ensinei alongamento para as crianças e interagi com a família à base de mímica e inglês básico, estilo início do Ensino Fundamental. No ano passado, apenas 30 pessoas, de todo o mundo, passaram por aqui, segundo os registros domésticos.

Comunidade simples, ambiente rústico

Os búfalos são usados na lavoura e há criação de pequenos animais para abate

As galinhas para consumo e comércio, o marido trouxe amarradas numa cesta sobre a motinho. Obedecendo ao hábito rural tentei dormir cedo, pelas 21h. O gatinho se instalou junto à minha cabeça para ficar até o amanhecer. Respirei o aroma de madeira queimando e contemplei a noite.

O céu que cobre Ko Phdao tem mais estrelas.

(Continua ainda esta semana, desde que haja boa conexão de internet)

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Camboja

Ensaio sensorial

em 29 dezembro, 2015
Viajar é experiência sensorial

Viajar é experiência sensorial

Os barcos desenham sua própria imagem no oceano

O ano parou por alguns dias, antes de terminar, e a viagem foi transformada em uma experiência profundamente sensorial. Algo mais apurado do que normalmente vivemos em nossos cotidianos. Junto à natureza, em uma ilha pequena e isolada do litoral do Camboja, é possível perceber mais profundamente os sentidos os quais nem sempre valorizamos como deveríamos.

Uma jornada por lugares encantadores sempre é visual. Os barcos desenham seus próprios contornos na superfície da água e o céu muda de cor, talvez orientado pelos coqueiros que apontam para o alto. O oceano se aquieta para revelar enormes pedras redondas a dividir espaço com corais coloridos. O sol se despede ao mesmo tempo em que a lua, cheia, transforma a noite em um novo amanhecer.

Dia e noite é bonito de se ver

O sol se despede e a lua cheia dá início a uma nova linda etapa

Isso convida as pessoas a estarem abertas e provavelmente mais afetivas. Éramos uma dezena de pessoas, representando distintas regiões do planeta, à mesa para o jantar de Natal. Conosco estava Kaspar, originário da terra de Santa Claus, como um duende representante de Papai Noel.

Nada diferente da comida habitual do lugar: frutos do mar grelhados ou ao molho de côco, com a mais conceituada pimenta do mundo, originária de Kampot. Sim, experiência degustativa, não só pela comida, mas também por sentir durante todo o dia a água do mar na boca ou o sal dos campos de extração na ponta da língua.

E  que água salgada...

Dia todo com a água salgada na boca

A prática é tátil, ao esfregar a areia grossa com fragmentos de conchas nas mãos, sentir o sol a aquecer a pele e a água a refrescar o corpo. Ou o caminhar descalço por dias, com as pedras cutucando a planta dos pés. Alisar a madeira que dá forma às embarcações e sustenta os bangalôs, rústicos, apenas cobertura de palha com cama e tina de água..

Lugar acolhedor

Os bangalôs de madeira são acomodações rústicas

São relaxantes dias assim quando qualquer atividade simples pode se estender por horas sem deixar de ser prazerosa, embalada pelo aroma das plantas, o forte odor das algas ou o cheiro do vento. A vivência é auditiva quando estoura a pequena marola na praia, os pássaros pisam sobre os telhados e as crianças de almas livres explodem em saborosas gargalhadas.

Precisamos de pouco para viver

Nada além de uma cama, uma cobertura de palha e uma tina com água

Viajar é vida e cura a alma de qualquer mal. Aonde esta ilha se esconde será o meu pequeno segredo do caminho.

O por do sol é espetáculo diário no Camboja

Mais um dia feliz

 

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Camboja

A Primeira Fronteira

em 21 dezembro, 2015
Chegava a hora de deixar o Vietnam e seguir para o Camboja

Chegava a hora de deixar o Vietnam e seguir para o Camboja

Procuro sempre cruzar as fronteiras durante o dia

Quando percebo o peso da mochila sobre os ombros, as costas quentes, o suor escorrendo por debaixo da camiseta e o ar cálido, sinto-me vivo. Feliz. O Vietnam foi fabuloso, mas era hora de partir, seguir explorando outras terras. O visto para 30 dias de permanência expirava justamente naquela data, em meados de Dezembro.

Nem sempre o rito do deslocamento ocorre como o anunciado nos guichês de venda de passagens de ônibus. Normalmente é diferente. Em Hoi An a atendente foi solícita e recomendou comprar bilhete de determinada empresa porque eu iria melhor acomodado no veículo, em função do meu tamanho. A viagem para Nha Trang era noturna e consumiria 12 horas. Acreditei.

Transitei socado no assento do “sleeping bus” sem lugar para enfiar as pernas. Os bancos reclinavam totalmente, até a posição de deitar por completo, mas dos joelhos para baixo o corpo ficava metido num espaço fechado e restrito. A mochila de ataque com dinheiro, documentos, computador e câmera fotográfica, ia acomodada sobre o corpo, por segurança.

Acreditei na conversa da prestativa vendedora de passagens

O assento do ônibus noturno reclinava bastante, mas não havia espaço para minhas pernas

Tive que desenvolver técnicas de acomodação para puxar alguns breves cochilos. Os assentos mais confortáveis, alardeados pela vendedora de passagens, viajaram cobertos por dezenas de mochilas.

Desta vez tive a opção e escolhi atravessar a fronteira de dia. Primeiro porque seria mais cômodo e segundo porque sempre é melhor trocar de país e iniciar a aclimatação quando ainda está claro. As regiões fronteiriças nem sempre são as áreas mais tranquilas e relaxantes, na maior parte do mundo.

Estávamos prontos para o Camboja. Desta vez seguia com meu novo amigo Patrick, um alemão de 33 anos que conheci na Ilha de Cat Ba e que reencontrei outras duas vezes ao longo do percurso pelo Vietnam.

Encontrei o meu novo amigo outras duas vezes no percurso

Conheci o alemão Patrick a caminho da ilha de Cat Ba, no Vietnam

Dentro do ônibus, o ajudante do motorista perguntou se já tínhamos visto, sugeriu alguma ajuda e disse que o carimbo custaria US$35. Pelo que sabíamos o procedimento era automático, na travessia da fronteira, e poderíamos obter facilmente o visto na hora.

Trinta dólares, estava escrito em um grande anúncio, em cima da guarita dos fiscais de fronteira. Trinta e dois dólares, exigiu o funcionário. Fingimos não entender e demos o dinheiro conforme o estipulado na placa. O guarda repetiu o preço, levemente superfaturado, e apontamos para o aviso. “Não, é um visto rápido, expresso, então é mais caro”, justificou.

“Como questionar mais, argumentar com o funcionário que iria conceder ou negar o visto de entrada ao país?” Pagamos os dois dólares a mais – possível propina oficial – e atravessamos. Mais tarde conheci outro alemão obrigado a pagar US$45, em ponto diferente da fronteira.

Bom, os países do sudeste asiático são seguros e acolhedores. No fim considero que é melhor ser sobretaxado em um ou dois dólares por um serviço do que ser assaltado com uma arma na cabeça, risco real em outros países por onde já viajei.

Perfeito, tudo certo, bastaria embarcar e seguir viagem até a capital, Phnom Penh. Mas, onde se encontrava o ônibus? O procedimento foi rápido e em todas as fronteiras que cruzei na expedição anterior, por 13 países das Américas, o veículo simplesmente aguardava todos os passageiros estarem prontos.

Não desta vez. Não na fronteira do Vietnam com o Camboja. O ônibus seguiu, provavelmente como havia dado a entender o ajudante do motorista, quando falou sobre almoço após a travessia da fronteira.

Seguimos a pé, estrada de pó adentro, passando em frente aos primeiros casinos cambojanos, visto ser o jogo liberado no país. A tarde estava quente. Algumas perguntas aos comerciantes da fronteira, mas nenhuma compreensão do idioma britânico. Por isso sempre a escolha de atravessar fronteiras à luz do dia, à noite teria sido arriscado e bem mais complicado.

Meu amigo Patrick e eu saímos caminhando em busca do transporte perdido

O ônibus nos largou na fronteira do Vietnam com o Camboja

Caminhamos, éramos os únicos estrangeiros a bordo, mas por sorte conversamos no ônibus com um local que viajava a negócios. Certamente informaria o motorista da nossa ausência.

Andamos por dois quilômetros até avistar o coletivo vermelho e o sorridente ajudante. “Por que não pegaram um moto-táxi?”, perguntou quando nos viu. Ahrrrggg, Patrick estava preocupado e nervoso. “Teria sido diferente se tivéssemos contratado o serviço de visto dele, por US$35?”. Provavelmente.

Será que o motorista nos aguardaria se tivéssemos contratado seus serviços e do ajudante?

Após dois quilômetros de caminhada, encontramos o ônibus

A primeira impressão do Camboja não foi boa, A capital parecia apenas escura e suja. E é. A falta de iluminação pública é um problema e caminhamos por becos e ruas na noite enegrecida, até encontrar um hostel para nos hospedarmos.

O lixo se acumula pelas ruas da cidade

A primeira impressão de Phnom Penh não foi boa, a capital é escura e suja

Mas Phnom Penh é muito mais do que isso e o país é maravilhoso, apaixonante. Siga comigo e vou contar mais, bem mais.

A capital e o país são apaixonantes

Monumento à Independência do Camboja, obtida em 1953

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