China

Três momentos em uma grande muralha

em 8 maio, 2016
Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

O paredão passa por área de fazendas

O trecho não restaurado está em terras áridas, na província de Shanxi

O primeiro cenário é da Grande Muralha da China em seu espaço e com características originais, sem ter sido restaurada nos tempos modernos e longe de qualquer atividade comercial ou exploração turística. Está no meio de áridas montanhas, perto de comunidade rural em uma das vilas mais pobres do país, na província de Shanxi, no centro-norte.

A área está mais próxima do que um dia foi a autêntica estrutura militar, na China Imperial. A muralha começou a ser construída há dois mil e duzentos anos, na Dinastia Qin (221 a 207 a.C.), e seguiu em transformação até o período Ming (1.368 a 1.644). A obra é na verdade um conjunto formado por diversas muralhas edificadas separadamente e depois unificadas.

A Grande Muralha começou a ser construída há 2,2 mil anos

A muralha é formada pela unificação de diversos paredões seculares

O tamanho aproximado – segundo o último levantamento de arqueólogos do próprio governo chinês – indica que pode ser de 21 mil quilômetros de extensão. A estimativa de 2009 acusava comprimento de 8.851 quilômetros.

Essa diferença e a falta de exatidão quando à dimensão da obra deve-se ao fato de que boa parte da fortificação foi erguida com terra batida – e não com pedras e tijolos – que desapareceu com o passo dos anos. Outra parte da estrutura deve ter sido utilizada como material de construção em aldeias próximas. Conta a lenda que até ossos de trabalhadores mortos estão entre a argamassa do paredão.

Boa parte desapareceu ou foi aproveitada em aldeias vizinhas

O material utilizado era variado, de terra e barro à pedras e tijolos

A altura é variável, em média 7,5 metros. Sempre se imaginou que a barreira começou a ser levantada para proteger os antigos impérios das tribos vizinhas, vindas do Norte. No entanto, historiadores acreditam que a dinastia Qin não corria grande perigo quando a obra foi iniciada, seria então uma preparação para ameaças futuras.

Centenas de milhares de homens foram recrutadas para o trabalho, entre soldados, camponeses e prisioneiros. Como primeiro unificador da China, Qin Shi huang começou a conectar a muralha, ampliada depois pelos sucessivos reinos.

A Grande Muralha da China era intercalada por milhares de torres de observação e vigia. De cada ponto os guardas observavam a movimentação e estabeleciam comunicação por fumaça, fogo e bandeiras. Transpor a muralha até poderia ser possível, mas sem muita rapidez, e nunca a cavalo. Apesar do tamanho e da vigilância, a imensa parede não conteve o avanço mongol, a partir do século XIII, e sua consequente dominação.

Desde as torres, a comunicação era feita com fumaça e bandeiras

O paredão era composto de várias torres de vigia para reforçar a segurança

O segundo cenário é de Badaling, um dos mais importantes trechos da Grande Muralha, totalmente restaurado e com quase quatro quilômetros abertos ao trânsito de visitantes. É sem dúvida o ponto mais turístico da edificação, com áreas de restaurantes, lojas de souvenires, hotéis e multidões diárias de turistas.

Badaling é área restaurada e famosa

No trecho mais turístico, multidões abarrotam as paredes da muralha

Foi restaurada nos anos 50 e reconstruída na década de 80, a 70 quilômetros de Beijing, a capital chinesa. Optei por conhecer esse trecho para vivenciar o contraste entre as duas distintas partes da mesma muralha.

A terceira imagem é de trecho restaurado, porém absolutamente tranquilo. Em hiking sobre o paredão é possível se afastar facilmente dos grupos de turistas, em sua grande maioria chineses, pouco dados ao esforço físico ou caminhadas em trajetos íngremes e longas distâncias.

Os chineses não são dados a esforço físico

Após meia hora de caminhada é possível se ver livre das multidões de turistas

O paredão é tão impressionante que se acreditava possível o avistamento desde a lua, ou por astronautas em órbita da Terra, o que depois foi desmistificado.

Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

É mito dizer que a Grande Muralha é visível desde o espaço

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China

O Feriado do Trabalho na China

em 1 maio, 2016
A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Essa talvez seja a maior praça do mundo

A Praça da Paz Celestial é centro de visitação bem procurado no Dia do Trabalho

É normalmente moroso se movimentar em Beijing, a capital da China. Porém, nada complicado, apesar do tamanho e de seus 22 milhões de habitantes. A metrópole tem um eficiente sistema de transporte público que inclui 15 linhas de metrô, o que torna possível ir a qualquer parte da cidade por baixo da terra. São Paulo, outra cidade gigante e com densidade demográfica semelhante, oferece apenas cinco linhas de transporte subterrâneo.

É eficiente o sistema de transporte público da capital

O metrô de Beijing conta com 15 linhas que cobrem toda a cidade

O cotidiano é de filas, ruas cheias e estações de metrô, ônibus e de trem, sempre movimentadas. Nada passa perto, no entanto, das multidões do Dia do Trabalho, um dos três grandes feriados do calendário chinês. Os outros dois são o Dia Nacional, em primeiro de Outubro, e o Ano Novo Chinês, em Fevereiro.

O feriado do Dia do Trabalho é uma festa de confraternização, mas principalmente de passeio para os chineses. Acostumados a curtos períodos de férias, é nas datas festivas que ganham as ruas ou se deslocam pelo país. As filas, sempre grandes, aumentam consideravelmente. Dobram quarteirões para pegar ônibus até a região da Grande Muralha. Transformam-se em ondas de gente nos pontos turísticos.

Os pontos turísticos ficam abarrotados no Dia do Trabalho

Multidão atravessa um dos portões da Cidade Proibida

Para caminhar em meio à massa é preciso tranquilidade e paciência. Necessário saber ocupar cada espaço vago a sua frente. O povo é extremamente pacífico e, diferente de boa parte dos latinos, jamais cria confusão. Em um mês viajando pela China não vi qualquer manifestação de agressão física ou verbal. No entanto, a maioria é pouco educada, empurra, não respeita fila e tem pouca consideração com os demais. Não fazem por mal, é a cartilha da sobrevivência no país mais populoso do mundo.

Escolhi um dos dias mais congestionados para visitar a principal atração da China, a Cidade Proibida. Bem, não foi exatamente uma escolha, no dia anterior os ingressos estavam esgotados. O número de visitantes é limitado a 80 mil pessoas por dia, o que pode não significar muito em um país com 1,4 bilhão de pessoas.

No interior dos pavilhões e praças, as multidões se dissipam

Depois de vencer as ondas humanas, é possível encontrar sossego na Cidade Proibida

Saí às 10 h da manhã do meu hostel e demorei uma hora para entrar na atração, após pegar duas linhas de metrô e vencer todos os procedimentos: área de segurança, centro de visitantes, centro de serviço e portões de acesso. Isso porque havia comprado meu ingresso antecipadamente, pela internet. Ainda bem que o lugar é imenso e no interior das praças, palácios e pavilhões, as multidões se dissipam.

A Praça da Paz Celestial é ponto central no feriado do trabalho. Além de circular pela possivelmente maior praça pública do mundo, com 440 mil metros quadrados, os chineses apreciam as construções em estilo soviético e, principalmente, a formação e marcha das guardas governamentais. Tian´anmén, como é chamado o local, é o centro simbólico do universo chinês, concebido pelo controverso líder nacionalista Mao Tse Tung para projetar o Partido Comunista.

A movimentação da guarda governamental atrai a atenção dos chineses

Guarda em formação na Praça da Paz Celestial

Na história recente, a Praça da Paz Celestial ficou marcada pelo massacre promovido pelo próprio governo, ao reprimir com força os protestos contra o regime político. Liderada por estudantes, em 1989, a manifestação pacífica se opunha ao regime e à situação econômica da época. A imagem que correu o mundo foi a do desconhecido invadindo a praça e se postando em frente aos tanques de guerra. Foi considerado uma das pessoas mais influentes do século XX, pela revista americana Time.

A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Um dos portais voltados para a Praça da Paz Celestial destaca o rosto do líder Mao Tse Tung

Ainda que cansativa, é única a experiência de estar na capital da China numa data tão importante e movimentada. Talvez um momento para se vivenciar apenas uma vez na vida.

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China

O pintor, a calígrafa e o caçador de relíquias

em 24 abril, 2016
A partir dos anos 50 os caracteres foram simplificados

A partir dos anos 50 os caracteres foram simplificados

A caligrafia chinesa existe em cinco diferentes estilos

Entramos na loja para admirar a caligrafia chinesa, uma das inúmeras expressões artísticas do país. Como estrangeiro, fui repentinamente convidado para um chá pelo dono do estabelecimento, um pintor local. Ali mesmo, em uma mesa instalada entre livros, pinturas, papéis e caracteres Han. Não estava só, toda a conversa foi traduzida pelo meu novo amigo chinês, Shunyao Jin, um jovem estudante de Ciências da Computação da província de Shandóng.

A filha do artista praticava a arte de desenhar os caracteres que historicamente existem em cinco diferentes estilos. A caligrafia chinesa é um sistema de origem remota, talvez perdido no tempo. Confúcio fazia referência à escrita antes de 2.000 a.C. Cada sinograma representa um conceito, por isso a comunicação é chamada de logográfica – e não mais ideográfica – já que não simboliza uma ideia concreta. Entre os anos 50 e 60 os caracteres foram simplificados, com a redução do número de traços.

A filha do pintor praticava a arte da escrita

A caligrafia da China é de origem remota

O pintor é especialista em figuras chinesas e cenas possíveis de serem vistas em templos budistas pelo país. A maior característica da arte nessa parte do mundo é o uso do traço. A força da expressão está na energia das pinceladas e na inserção de pontos.

As tonalidades variam conforme a densidade da tinta, preparada com barra sólida e água. Orgulhoso, o artista mostra recortes de jornal que divulgam seu talento e me presenteia com belos caracteres que significam uma conexão entre a China e meu país.

O diferencial da arte está nos traços e pontos

O artista, especialista em pinturas chinesas, ao lado de algumas de suas obras

O chá foi servido em uma cerimônia tradicional, mas cotidiana, simples. As diminutas xícaras recebem a bebida uma primeira vez, mas o chá é jogado fora, sobre uma estátua de madeira em forma de sapo. Serve para a limpeza dos utensílios. A bebida só é ingerida a partir do segundo ciclo, quando o sabor está mais refinado. As rodadas são sucessivas, a pequena xícara não fica vazia. O bule descansa sobre um delicado fogareiro. Tudo é arte no país.

Participei de cerimônia simples, mas simbólica

A primeira rodada de chá é descartada sobre estátua de madeira, em forma de sapo

Jin, como vamos chamar o meu amigo a partir de agora, é o exemplo da nova geração que compõe a ascendente classe média da China. Veio de boa família, estudou na melhor universidade da sua região e está aprendendo inglês por conta. Em dois meses começa a trabalhar na IBM, em Beijing, e pelo que suas capacidades indicam, seguramente terá uma carreira ascendente. Metade de seus colegas de classe já está fora do país, estudando ou trabalhando.

O estudante se forma e já começa a trabalhar na IBM, em dois meses

Jin é exemplo de jovem da classe média ascendente na China

O caçador de relíquias – amigo do pintor e também convidado para o bate papo – viaja pela China há pelo menos 20 anos. Busca tesouros da cultura ancestral para vender em sua loja, vizinha ao lugar onde apreciamos o chá. Especialmente peças em jade. A conversa flui entre temas como pinturas e suas representações, costumes do Brasil e as próximas Olimpíadas, do Rio de Janeiro.

As xícaras não descansam vazias. No princípio, a erva era cultivada para uso medicinal. Nos templos, os monges usavam o chá para ensinar o respeito pela natureza, a humildade e transmitir paz.

A conversa gira em torno das artes, da China e do Brasil

O chá é servido constantemente durante a conversa, em diminutas xícaras

Hoje estou vivenciando valores como esses, no contato com o povo chinês. São afáveis, amigáveis e extremamente hospitaleiros. São experiências assim que busco quando me atiro pelo mundo. Autênticas, muito além da visitação turística.

Desenhos assim são vistos também nos templos

Na energia das pinceladas, a alma da pintura chinesa

 

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China

Templo de Shaolin, onde nasceu o Kung Fu

em 19 abril, 2016
A região conserva a magia

Primeiro a concentração para buscar força interna

O Kung Fu combina disciplina, técnica, concentração, flexibilidade e precisão

O primeiro passo, fundamental, é a concentração. A interiorização para captar força interna. Segundos depois o balão, instalado atrás de uma parede de vidro, é estourado com um prego. A velocidade e a precisão do movimento fazem com que o vidro não se rompa. O prego produz apenas um pequeno estilhaço e um furo, suficientes para atingir e explodir a bexiga de borracha.

A técnica é demonstrada por um aluno do Centro de Treinamento Wushu que mantém grupo educacional com escolas de nível fundamental, médio e até faculdade para interessados na prática do Kung Fu. Está localizado ao lado do tradicional Templo de Shaolin, onde surgiu a modalidade, na província de Hénán, no centro da China.

A arte marcial é praticada na China a partir dos quatro ou cinco anos de idade

O centro de treinamento para a prática de Kung Fu está ao lado do Templo de Shaolin

A história conta que o monge indiano Batuo (Bodhidarma), primeiro responsável pelo templo, criou um conjunto de exercícios para manter a saúde e a vitalidade dos demais monges, ao redor dos anos 500. Era preciso ter boa condição física para os exercícios de meditação, com o corpo imóvel por longos períodos. Baseada em movimentos de diversos animais e insetos, o sistema se tornou uma arte marcial difundida em todo o mundo.

A apresentação continua de forma impressionante, no centro de treinamento. Outro aluno encosta duas lanças pontiagudas na superfície do corpo entre a garganta e o peito e pressiona as lâminas até que se dobrem. O esforço e o sacrifício estão na essência do Kung Fu.

Disciplina é um dos valores da arte marcial

A apresentação de Kung Fu mostra técnicas impressionantes e a luta com armas brancas

O primeiro aluno de Batuo conquistou essa posição provando sua capacidade de entrega, devoção e persistência. Nevava muito quando o monge Huike se postou frente ao abrigo onde meditava Batuo. Pediu para se tornar um discípulo, mas ouviu que se neve vermelha caísse do céu esse pedido seria atendido. Huike cortou seu próprio braço, o esquerdo, e avermelhou a neve ao redor. Tornou-se o primeiro seguidor do mestre.

É por esse motivo que alguns monges do Templo de Shaolin, quando se inclinam em reverência, sustentam em posição de oração apenas a mão direita. O braço esquerdo segue descansando, ao lado do corpo, como simbolismo e respeito ao monge-primeiro discípulo.

O lugar conserva a paz e a inspiração

O Templo de Shaolin, onde o Kung Fu nasceu, baseado em movimentos de animais e insetos

O Templo de Shaolin está aninhado no vale formado entre as montanhas Song, local sagrado e origem da civilização chinesa. Ao redor há outras construções históricas, na área antigamente conhecida como “Centro do Céu e da Terra”. Infelizmente o templo foi alvo de ataques e destruição em guerras internas na China. O último incêndio, em 1928, exigiu a reconstrução de várias áreas e edificações.

Além da história, são impressionantes e reais as marcas deixadas pelos monges, nos pavilhões de treinamento. O solo afundado reflete a dinâmica, ilustra a persistência e comprova a exigência e a disciplina requeridas para a prática da modalidade marcial. A depressão no chão foi provocada pelos movimentos intensos com os pés. Árvores seculares estão furadas por dedos, após repetitivos impactos.

As árvores seculares mostram as marcas do treinamento

Os buracos nas árvores foram formados pelo impacto dos dedos

De todo o país – e por vezes do exterior – chegam jovens interessados no internato para treinamento. Há várias outras escolas fora dos arredores do templo, nos centros urbanos mais próximos. Boa parte dos alunos vem de famílias mais pobres e recebem uma oportunidade de estudo e de desenvolvimento físico, intelectual e emocional. Muitos foram premiados em competições, outras dezenas seguiram carreira militar ou na polícia.

O aprendizado é árduo e exige muita flexibilidade

Alunos de todas as regiões da China vêm treinar nos arredores de Shaolin

Apesar da multidão de chineses que visita o local, diariamente, o templo de Shaolin não recebe muitos estrangeiros e ainda preserva a atmosfera de paz e inspiração. O lugar continua mágico. O Kung Fu ainda é parte da alma da China.

A região conserva a magia

O Kung Fu está na alma da China

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China

A maior metrópole do mundo antigo

em 11 abril, 2016
Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

O imperador Qin ordenou a construção da força armada para proteção no além

Os soldados guardam o mausoléu do primeiro unificador da China

Até hoje os guerreiros guardam o mausoléu do primeiro unificador da China. Qin Shi Huang horrorizava-se com a ideia de que os espíritos dos inimigos derrotados estivessem aguardando por ele no além. Ou talvez imaginasse que continuaria a governar após a morte. Os soldados entrincheirados seguem em formação militar, só que agora descobertos.

Foi recente e por acaso. Apenas em 1974, agricultores locais encontraram os primeiros vestígios das estátuas em terracota, ao cavar um poço em busca de água. Eram oito mil, escondidas em três zonas diferentes, cinco metros baixo terra, desde o final do século III a. C.. A maior zona escavada tem 14 mil metros quadrados. É uma das mais importantes revelações arqueológicas do planeta.

A descoberta foi por acaso, apenas em 1974

Oito mil estátuas em terracota estavam escondidas a cinco metros debaixo da terra

Cada peça foi criada em tamanho natural, cada soldado com uma feição diferente. Guerreiros, arqueiros, membros da infantaria em posição de tiro, além de outras centenas de cavalos e carruagens. Após ser modelada e queimada em forno, cada figura recebia camada de laca, para aumentar a durabilidade, e era colorida. Com o tempo e a exposição foram perdendo a tintura.

Os soldados tem tamanho natural

É uma das maiores descobertas arqueológicas do planeta

Estima-se que 700 mil operários e artesãos trabalharam na elaboração do conjunto de esculturas, por quase 40 anos. Surpreendente é imaginar que quase dois séculos antes do Brasil ter sido descoberto já havia tão elaborada manifestação artística na China.

Tudo tão extraordinário e surpreendente como é o país. Dentro da tumba supõe-se que corriam rios de mercúrio. Evidência atestada pela contaminação do solo na área, conforme detectaram cientistas. Por segurança, o mausoléu continua coberto por montanha de terra e ainda não está sendo explorado.

A escavação na área das estátuas segue, paciente e minuciosamente. Deve haver mais tesouros históricos na região. Até porque a tumba do primeiro imperador da dinastia Qin está a dois quilômetros de distância do ponto onde há a maior concentração de soldados terracota. O que pode haver no meio desse caminho?

O trabalho é minucioso e detalhado

As escavações da área continuam, pode haver mais tesouros enterrados

As estátuas dos guerreiros estão nos arredores da cidade que já foi a maior e mais moderna metrópole do mundo antigo: Xi`An, capital da província de Shaanxi, no centro-norte da China. A cidade começou a ganhar importância há três mil anos e até o século X foi o coração político do país.

Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

Xi´An, no centro-norte da China, já foi a principal cidade do mundo antigo

Terra de imperadores, poetas, guerreiros, monges e mercadores, era o início da famosa Rota da Seda que seguia por sete mil quilômetros ao oeste, no sentido da Europa e do Norte da África, cruzando regiões centrais da Ásia e áreas do Mediterrâneo. Dentre as cidades amuralhadas da China é a que tem os paredões mais intactos. Está rodeada por grossas paredes desde 1370, período da dinastia Ming.

Esse é outro espetáculo. Caminhando no topo das muralhas de 12 metros de altura, é possível se encantar com o antigo e o moderno, sem conflito. Ainda melhor, o contemporâneo e o ancestral se misturam de maneira delicada e até poética.

Os paredões têm 12 metros de altura

A cidade é rodeada por muralhas bem preservadas

As construções seculares são ladeadas por novas edificações, de estilo arquitetônico tradicional, decoradas por luzes e alimentadas por neon. Templos, vários museus e portais coabitam com galerias, edifícios e shoppings centers. Marcas famosas em vitrines estupendas espiam vendedores de comida e ambulantes de quinquilharias. A cidade é um retângulo perfeito, o que facilita a localização e o deslocamento, principalmente a pé.

A cidade é moderna e tem 6,5 milhões de habitantes

Hoje Xi`An está entre as maiores e mais importantes metrópoles da China

Hoje, com cerca de 6,5 milhões de habitantes, Xi´An voltou a ter uma posição de destaque no cenário cultural, educacional e industrial e está entre as principais megacidades da China. Os soldados terracota continuam guardando a tumba de seu governante e unificador. Em paz e em silêncio.

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China

A CHINA REAL E ANCESTRAL

em 16 novembro, 2015
Legado do clã Tang

Legado do clã Tang

Imensos painéis coloridos e belas bandeiras decoram o distrito

Com o fim da Dinastia Song, no ano de 1.127, muitos povos do Norte desceram até o Sul da China, onde estabeleceram diversos vilarejos. O Tang, um dos mais importantes clãs da época, construiu a cidade de Ping Shan, no século XII. Alguns prédios e templos históricos sobreviveram e atualmente convivem com área residencial e comércio de bairro.

O antigo e o novo coexistem em Ping Shan

A área murada agora está conectada com bairro residencial

As vilas eram muradas como defesa contra piratas e foram planejadas conforme orientação do Feng Shui, o sistema de harmonização de espaços e ambientes. A técnica é uma das cinco artes da metafísica chinesa. Historicamente era usado para orientar prédios e construções, como a pagoda abaixo, na entrada da vila.

Pagoda na  entrada da cidade de Ping Shan

A pagoda, orientada pelo Feng Shui, oferecia proteção à cidade murada

 

 

Outro assentamento Tang é Kat Hing Wai, hoje habitado por  um dos subgrupos do clã, os Hakka. Viviam principalmente  em colinas e regiões mais áridas, ainda assim de plantio de  arroz. Era um dos quatro principais grupos étnicos da China.  Todos cultivaram ricas cerimônias e tradições, assim como    práticas politeístas. O rito do casamento era um dos mais  importantes. Na entrada da vila murada, a senhora grita. Não  quer fotos, ou melhor, quer dinheiro. É assim, no mundo  todo.

Infelizmente hoje as senhoras da comunidade querem dinheiro para serem fotogragadas

Infelizmente hoje as senhoras da comunidade querem dinheiro para serem fotografadas

Por toda parte há imensos painéis coloridos e belas bandeiras. Escondem as fachadas originais do comércio. Lugar real, autêntico e pouco visitado, como pretende descobrir e revelar a expedição De Mochila pela Ásia.

A tradição segue por toda comunidade Hakka

A fachada do comércio está escondida atrás dos painéis coloridos

 

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China

Pouco inglês. Muito coração

em 13 novembro, 2015

Com algum inglês e muita mímica é possível  se comunicar bem

Hong Kong é terra de gente prestativa e honesta

Muh-Chieh Yu ia a Hong Kong a trabalho quando, no avião, me viu estudando o pesado guia sobre a China. Com inglês um pouco rústico, mas extremamente afável, puxou conversa, comentou sobre Hong Kong e transmitiu sua percepção sobre o sudeste asiático. Tinha visitado Myanmar e a Tailândia.

Antes do nosso desembarque me cedeu dois cartões para uso principalmente no transporte público, mas também útil em lojas de conveniência, supermercados e redes de “fast food”.

O cartão pode ser usado em lojas de conveniência e supermercados

O Octopus Card serve principalmente para o transporte público

Não satisfeito, Muh-Chieh entregou algumas notas de dólares de Hong Kong. Isso mesmo, me deu dinheiro. Ao todo, entre crédito nos cartões e moeda em espécie, o equivalente a US$40 ou R$80. Incrível, não? Algum desconhecido, alguma vez, já te deu dinheiro? Assim, do nada?

Sim, isso pode acontecer em Hong Kong, terra de gente prestativa, simpática, educada e honesta. Digna, eu diria. Não, não falo assim porque ganhei algum dinheiro que me ajudou já na saída, para pegar o trem, e reduziu o meu custo diário na cidade. Mas, sim, porque atitudes benevolentes podem acontecer a qualquer momento em Hong Kong. Talvez até à meia noite, na rua ou em alguma estação de metrô. A região é muitíssimo segura e relaxante, ainda mais para nós, brasileiros.

Apesar de movimentada, Hong Kong não provoca estresse

A região é segura e relaxante

Está vendo a carteira aí da foto abaixo? Ficou no chão, por um bom tempo, sem ser tocada, no meio da multidão. Foi olhada, observada, admirada, mas nunca apanhada e nem pisada. Fiquei acompanhando o seu destino e, quando me afastei um pouco, um senhor gritou para me chamar, achando serem meus os documentos.

No Brasil, uma vez meu celular caiu e em segundos não o vi mais

A carteira ficou um bom tempo sem ser tocada

Como comparação, uma vez derrubei o celular no centro de Curitiba e, assim que me dei conta, em poucos instantes me virei e voltei para buscar, mas nada mais vi. Aqui, algum tempo passou até uma família chinesa juntar a carteira e seguir adiante.

Visitava o Tang Hall, num caminho ancestral, ao ser abordado por Eric, um jovem muito bem vestido que começou a fazer perguntas sobre minha presença ali e de como conheci o lugar. A princípio parecia ser um guia, oferecendo serviços, algo bastante normal em vários países que visitei. Comentários, conversa, novas perguntas. Seria uma pesquisa? Respondi e inquiri sobre o trabalho dele, se estava ligado a turismo, mas não. Preparado para armadilhas do sudeste asiático e experimentado com a expedição de quase um ano pelas Américas, sempre desconfio.

Qual nada, era apenas um jovem gentil, gerente de indústria automotiva transferido para iniciar trabalho nos arredores. Descreveu alguns simbolismos da China, queria dar dicas da cidade e sugeriu que eu telefonasse, caso precisasse de algo.

O povo de Hong Kong conversa em qualquer interesse oculto

O jovem Eric se aproximou com perguntas. Só queria ajudar

Assim é em Hong Kong, se arranham o inglês, as pessoas sempre ajudam. Na rua, muitas vezes desviam do próprio caminho para colocar o viajante no rumo certo.
Talvez tenha sido a influência da centenária dominação Britânica, ou então o forte desenvolvimento. Acredito que a qualidade de vida contribui para a gentileza. E há muito bem estar por aqui. Em um bairro distante, não turístico, duas operárias enchiam quatro sacolas plásticas com chás, sucos e diversas bebidas industrializadas, provavelmente para colegas de trabalho da obra. Não perguntei a respeito. Sei que elas tampouco conseguiriam responder. É muito bacana essa condição de vida, existe distribuição de renda, a população em geral tem poder aquisitivo.

Muito positiva essa distribuição de renda e qualidade de vida

As operárias saíram com sacolas cheias de sucos e produtos industrializados

Em Hong Kong as pessoas interagem com respeito e sem interesses ocultos, dá muita vontade de aprofundar as conversas, solidificar relacionamentos. Ao partir também vou fazer a minha parte e entregar para outros viajantes os cartões de transporte. Inclusive com algum crédito.

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China

Cinquenta horas de viagem e já alguns perrengues na China

em 6 novembro, 2015
Os arredores de Pudong International Airport

A China tem muitas particularidades

Arredores de Pudong Airport, Shangai

 

Estou na China. Exatamente após dois dias de viagem ou quase 50 horas de traslados, quatro voos e os primeiros perrengues. De casa embarquei para São Paulo, aguardei por horas, peguei um avião para Nova Iorque, fiz conexão até Seattle, esperei mais um tanto e voei outras 13 horas até Xangai, por sobre o Pacífico. A passagem, claro, saiu baratinha.

Com um inglês mastigado e máscara cobrindo o rosto, o rapaz me apontou a fileira de imigração e consegui um visto de trânsito, válido por 72 horas, na maior tranquilidade e quase nenhuma espera.

Movimento intenso no aeroporto internacional de Pudong

Delegação chinesa em viagem

“Hopes and dreams. Determination”. Foram as primeiras palavras lidas, em inglês, na chegada ao importante centro financeiro mundial. Muito apropriado, é disso que falo ao me lançar a uma expedição ou entregar algumas mensagens em palestras.

O estresse e o aperto da partida me impediram de garantir uma acomodação na cidade mais populosa da China, com pelo menos 24 milhões de habitantes. Sabia da existência de um hotel no próprio aeroporto internacional de Pudon. Custava US$70, a opção mais em conta.

Apesar de internacional, muita gente que trabalho no aeroporto não fala inglês

O aeroporto internacional de Pudong é importante hub aeroviário

Melhor buscar na internet. O Google estava bloqueado num dos mais importantes hubs aeroviários do país, mas consegui acessar um site americano de reservas online e encontrei hospedagens bem econômicas. Todas restritas aos chineses, não aceitavam estrangeiros. Sim, a China tem muitas particularidades.

Outras opções registradas, preferi buscar informação local e confiável, antes de qualquer reserva. No centro destinado a apoiar estrangeiros a moça quis logo se livrar de mim. Boa caminhada, ainda nas dependências do aeroporto, e voltei sem informação ao hotel de “70 bucks”. Consegui que a recepcionista fizesse e me transferisse uma chamada telefônica. Do outro lado, apenas uma linguagem incompreensível.

Encontrei outro quiosque e fui direcionado ao portão onde circulam as vans para os hotéis. Nem sinal do transporte que eu deveria pegar. Fora do desembarque internacional, o inglês já começa a rarear. Um grupo de três jovens simpáticos e prestativos me ofereceu ajuda, acessou sites locais e eu registrei alguns contatos, mas nada frutífero. Achei um balcão de reservas de hospedagem, onde a mímica seria a principal opção. “Fala inglês?”. “A little” e assim pode esperar a comunicação será difícil.

O primeiro caixa automático, do banco oficial da China, recusou meu cartão de débito algumas vezes. O segundo também, sinal preocupante. Usei o cartão reserva, abastecido com menos dinheiro.

Fechei um hotel por US$35 a alguns quilômetros do aeroporto, com transporte incluído. Nada mal. Ou melhor, claro que nada bom o hotel, elevador imundo. Já viu até o elevador ser sujo? O “Eastern Star” tem cheiro de cigarro e toalhas rasgadas, bem ao estilo dessa expedição.

A opção  mais econômica encontrada perto do aeroporto de Pudon

Toalhas do nada estrelado Eastern Star

Acomodação para passar a noite, perto do aeroporto

Dá uma olhada na porta do hotel

O colchão é firme; o chuveiro, quente; então o repouso parecia garantido, ainda que sobre minha cabeça circulassem, barulhentos, os aviões.

Aviões rasgavam o céu dia e noite

Os aviões voavam sobre o hotel em Shangai

Três horas se passaram, desde o desembarque. Pálido, mas feliz, saio para comer. A noite é nublada, as ruas escuras e poucos carros circulam, buzinando forte. A comida típica chinesa é servida num lugar espantosamente limpo. Massa larga com legumes por incríveis dois dólares. Primeiro contato com a Ásia econômica e tradicional.

No primeiro banho em terras orientais, o sabonete líquido de saquinho não foi suficiente para o corpo todo, privilegiei as partes mais sofridas pela viagem. O shampoo desapareceu na vasta cabeleira.

Os aviões rasgavam o espaço e rugiam, furiosamente, madrugada adentro. O som explodia nos ouvidos do exausto viajante. Longe de dizer que foi uma noite aceitável, mas ganhei forças para seguir adiante.

Parto agora para Hong Kong, onde a jornada oficialmente terá início, por terra.

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