De Mochila pelas Américas

Cenas de uma vitória (I)

em 15 setembro, 2013

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Despedida do viajante (péra, pessoal, ainda não acabou…)

Eu consegui!

Cumpri minha jornada, realizei minha peregrinação. Viajei por 10 países/regiões das três Américas, sozinho, por terra, em uma expedição jornalística, cultural e de aventura.

Trafeguei de ônibus, trem e de moto. Singrei águas geladas do Alaska e naveguei por rios, baixo calor escaldante da Nicarágua ou de chuva inclemente na Costa Rica.

Remei junto a geleiras e descendo corredeiras. Pedalei nas mais famosas trilhas de mountain bike do mundo. Circulei de ferry, canoa e barco a motor.

Cavalguei encostas montanhosas no México. Dirigi por rodovias cênicas, nos Estados Unidos, e passei por onde não havia estradas, ao longo do caminho. Peguei carona nas Américas Central e do Sul.

Descobri e explorei todo tipo de ambiente natural: montanhas, praias, baías, geleiras, desertos, cânions, lagos, rios, selvas. Passei frio e calor. Enfrentei sol, neve, ventos e tempestade de areia. Visitei capitais, cidades, povoados e lugarejos.

Abriguei-me em 120 acomodações diferentes, dos mais variados tipos, de barraca a hotéis.

Foram 552 horas de viagem até agora, o equivalente a 23 dias ininterruptos. Ainda não contabilizei os quilômetros, o que farei já na volta ao Brasil, depois de percorrer mais um ou dois países sul-americanos. Mas já adianto que foram milhares – por terra, água e, quando não era possível, por ar.

Conheci pessoas, talvez tenha iniciado vínculos, fiz amizades. Foram espanhóis, austríacos, alemães, peruanos, canadenses, americanos, mexicanos, chineses, ingleses, salvadorenhos, australianos, franceses, colombianos, suíços, ucranianos.

Ri, sorri, sofri e superei. Diverti-me, irritei-me e surpreendi-me. Alegrei-me e chorei.  De emoção.

Pratiquei esportes de aventura: rafting, escalada, cavalgada, mountain bike, parasail, hiking, trekking, camping, snorkeling, tirolesa e até descida de vulcão, em prancha.

E caminhei.

Caminhei muito, em todos os países. Para me maravilhar com paisagens naturais e tesouros culturais. Para avançar profundamente na natureza selvagem. Para conhecer comunidades urbanas, rurais, de praia e de montanha.

Caminhei para aprender e refletir. Para mudar, porque nada é estático, fixo, definitivo. Caminhei para longe. Caminhei para perto de mim.

Caminhei para me perder e para me encontrar.

Você acompanhou boa parte desta caminhada. Com a coletânea de imagens acima poderá rememorar alguns momentos, comprovar e até se divertir com a transformação física do viajante.

A mudança interna é íntima, talvez demonstrada futuramente em contatos ou relacionamentos. A bagagem volta mais leve. Ou mais repleta, dependendo da ótica.

Se fosse experimentar tudo o que passei nos últimos meses, apenas em viagens de férias, levaria pelo menos uma década.

Cumpri um objetivo. Atingi uma meta pessoal. Realizei um dos meus muitos sonhos. Para poder continuar a sonhar.

 

Ike Weber

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Grande tradição da pequena cidade

em 8 setembro, 2013

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Reportagem do viajante e curiosidade do Alaska

Ao longo de apenas dois meses, mais de 250 mil pessoas fizeram suas apostas no pequeno lugarejo de Nenana, interior do Alaska. O que arrebanhou tanta gente a um povoado de 380 habitantes foi uma tradição que está para completar 100 anos, o “Nenana Ice Classic”.

Quando o gelo do Rio Tanana iria se romper, após o rigoroso inverno do Ártico era a resposta a ser adivinhada pelos visitantes. O apostador que acertasse não só o dia e a hora, mas também o minuto exato do acontecimento, ficaria com o dinheiro.

Este ano o prêmio foi de US$318,5 mil, algo como quase R$760 mil, uma bolada. O gelo partiu às 14h41 do dia 20 de maio. Ninguém cravou o minuto exato, mas duas pessoas acreditaram que o tripé instalado sobre as águas congeladas do rio iria ceder um minuto antes ou um minuto depois desse horário. Dividiram o prêmio.

Quase um século

A tradição começou em 1917, quando engenheiros que trabalhavam na estrada de ferro brincaram para ver quem acertava o momento em que o rio começaria a descongelar. O desafio, na época, valia US$800.

Hoje os bilhetes são vendidos na cidade a US$2,50, a partir do início de fevereiro, e os palpites depositados em uma urna vermelha. Apostas para o ano que vem estão abertas até à meia noite do dia cinco de abril. Já foram pagos pelo menos US$11 milhões, em prêmios, desde o início da competição.

O Rio Tanana geralmente congela entre os meses de outubro e novembro e atinge a sua máxima espessura de gelo, que pode chegar a 1,20 metros, no início de abril. A partir daí começa a quebrar. Despedaça na superfície com a chegada de dias mais quentes, ou menos frios. No fundo, fragmenta com o movimento da água.

Um tripé gigante é fixado sobre as águas petrificadas, entre as duas pontes da cidade, e conectado por um cabo a um relógio. O mecanismo registra a hora exata em que o gelo cede. O monitoramento também é feito por câmeras e pode ser acompanhado pela internet.

Em 1940 foi quando descongelou mais cedo, dia 20 de abril. Este ano foi a data mais distante, já na segunda quinzena de maio. Os dias 29 e 30 de abril são os com o maior número de registros do Ice Classic, nove em cada uma das datas. Com essas dicas, a mesa está aberta. Façam suas apostas!

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Maravilhas do Alaska

em 2 setembro, 2013

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Descrição do Viajante

O Alaska é uma região de extremos. De beleza, natureza e de vida selvagem. De desafios, aventura, rudeza e dificuldades. São duas facetas bravias. Ambas, inóspitas.

Há momentos de grande superação para o viajante, ao ter que enfrentar, ensopado, temperaturas baixas, mesmo no verão, sem roupas ou equipamentos adequados. Remar por milhas debaixo de chuva, sentindo o frio ácido dos glaciares a congelar a ponta dos dedos e deslizar por todo o corpo. Ou passar horas em trilha pesada, longa e úmida caminhada ao topo das montanhas.

A mínima temperatura registrada na história do Alaska foi de 62 C negativos. Uma inesperada queda na água abre a contagem para o processo hipotérmico em apenas oito minutos.

Em outros instantes, o lugar desabrocha em beleza e permite o desfrute de indescritíveis cenários, a vivência de estupendas experiências, como admirar a cauda de uma baleia sendo engolida pelas águas do oceano, ou o seu corcovear gigantesco, em direção ao barco. Observar os lentos movimentos do alce enquanto se alimenta da abundante vegetação.

A última fronteira exibe distintos tipos de glaciares que desbarrancam a todo instante. Algumas geleiras são como jardins suspensos na rocha. Outras rugem antes de derramar a beleza dentro da água. Uma pelagem verde cobre a montanha que nunca congela. De caiaque, por vezes a pá do remo cava os blocos de gelo flutuante. São pedras brancas, azuis ou cristalinas.

Golfinhos, em preto e branco, voam no oceano, a velocidade de 65 quilômetros por hora. Peixes saltam, corpo inteiro acima da água. Alguns pássaros conseguem mergulhar a quase 200 metros de profundidade para pescar. Águias americanas, mais de dois metros de envergadura, espreitam a caça.

A sensação é de adentrar o universo de “Mar em Fúria”, ao comer algo simples no restaurante de madeira, enquanto o mar soca a praia de pedras, berram as gaivotas e outros tipos barbudos circulam a agendar pescarias para o dia seguinte. Barcos dormem ancorados aos pés de montes com os picos eternamente nevados.

O verão se prepara para zarpar. Alimentadas, as baleias vão seguir rumo ao Hawaii e à costa do Pacífico.

 

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O outro lado da natureza selvagem ou Pedofilia no Alaska

em 26 agosto, 2013

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História do viajante

Pelos becos do Alaska

Todos os que encontrei pela rua, naquele início de tarde chuvosa – que mais tarde viria a descobrir que era uma sexta-feira – estavam bêbados, drogados ou largados da vida. Mendigos com cara de descendentes de esquimó se encolhiam em bancos de rua.

Entro no hostel como quem adentra espaço privado, mas de ampla convivência. Já na porta só me deparo com tipos estranhos, caras cerradas. Ambiente diferente dos alojamentos compartilhados ao longo das três Américas.

No dormitório, saúdo o jovem amassado pela vida, estranhamente instalado na cama, de onde só sairia no dia seguinte. Eram duas da tarde. Não tive resposta e após a segunda saudação, recebo apenas um rígido menear de cabeça.

Equivocado pelas facilidades apregoadas pela internet, fiz a reserva na madrugada anterior, receoso de ser obrigado a perambular em busca de um canto vago, ou de ser submetido à ditadura dos preços altos, praticados em lugares famosos, distinguidos ou turísticos. Acabava de chegar ao Alaska, a última fronteira.

FBI e o choque

Final do dia, profundamente afundado no sofá, trabalho em crônicas e relatos da expedição, televisão de ampla tela plana instalada e ligada no salão comunitário. Decoração pobre, sem charme. Cozinha diminuta, frequentada por hóspedes e moradores próximos, atrás de um copo de café.

Não sei bem por que não me sentia nada confortável no lugar. Todos me caiam diferentes. Pareciam mais desocupados do que viajantes. Comunicação restrita, poucas palavras, alguns ruídos. Muito computador.

O oriental que assumiu o turno na recepção apenas grunhia em inglês. O moreno magricela empregava horas no jogo de paciência. O gordinho tatuado em ambos os braços, mãos e pescoço, orgulhava-se de ter conseguido emprego no restaurante de comida rápida e pasteurizada.

Pessoas mais mal vestidas do que eu – que há nove meses massacro as mesmas roupas – circulam por complicados espaços de forração cinza. E o jovem esfolado pelo diário viver anestesiado lá em cima, sem sair da cama.

A sensação de mal estar reduz a minha concentração para o trabalho. Bate a sonolência, após uma noite em que desfrutei de apenas três horas de sono. Continuamente afundado no almofadão de veludo encardido, cochilo por uma hora.

Acordo com o noticiário ligado, computador ao lado e a mochila, que apalpava enquanto dormia, presa às pernas. Foram poucos piscares até reconhecer na tela o gerente do hostel. Sim, do lugar esquisito onde acabara de me hospedar.

Tímido e bastante ressabiado, tentava explicar que não notara comportamento estranho do dono do estabelecimento, um cambojano há alguns anos também cidadão americano. A reportagem seguia, discorrendo sobre o envolvimento do acusado em crimes sexuais contra menores de idade.

Nos últimos quatro anos, o sujeito viajara 12 vezes ao Camboja, em busca de sexo com crianças de 11, 12, 13 anos de idade. Doente, filmava e arquivava tudo. Foi desmascarado por agente policial disfarçado, enquanto organizava excursão sexual ao sudeste asiático.

Chocado, o viajante apontava para a televisão, surpreso ao descobrir a origem da densa vibração do lugar onde passaria a noite. Era o último hóspede a se instalar no local. Os penúltimos, agentes de inteligência do FBI em investigação secreta.

O prédio, bem cuidado e azulado por fora, mantém avisos com normas estritas: visitas por no máximo 30 minutos e a proibição de menores de idade.

A primeira noite na última fronteira

Nenhum dos hóspedes era viajante. Perdedores do bruto jogo americano que trocaram as bordas da marginalização por um pouso barato.

Avança a noite. Passo pelo espaço contíguo onde há duas semanas mora o senhor que alterna a bombinha respiratória com o copo de destilado. Ocupo o meu beliche, ao lado do velho-jovem judiado pela vida.

Consigo sono reparador até perto das seis da manhã, quando sou despertado por gritos. Confusão no corredor, barulho no banheiro. E um senhor de pele escura e amplo bigode me chama para ajudar.

O jovem-velho-quase calvo estava caído no corredor. Salto do beliche desviando da bagunça que ele mesmo instalara no quarto e constato: o cara estava estatelado no chão, olhos abertos, pés molhados pela inundação do banheiro.

A primeira informação trazida pela mente é de que o jovem envelhecido, pele extremamente alva, tronco forte e pernas finas, teria se matado. De todos os becos, porões e cavernas do hostel explodem tipos estranhos.

Magrão mais alto do que o viajante, enfiado em camisas e jaquetas compridas, liga para o serviço de emergência.

O velho jovem desperta, movimenta a cabeça, cerra os olhos. Está vivo, percebo, aliviado. Levanta só, recusa a assistência emergencial, tropeça nas roupas, copos, embalagens, latas e garrafas que distribuiu pelo caminho e se deita novamente.

Mastigado pela vida, maltratado por si mesmo, segue socado na cama.

Poucas horas depois, arrumo a bagagem e deixo o hostel. Carrego na mochila mais uma experiência fascinante de viagem. Não vejo o jovem despertar.

 Notas do viajante:

  1. 1.    O fato é absolutamente verídico e o relato, baseado na vivência do viajante. O noticiário local detalha a história e informa a confissão do acusado.
  1. 2.    Os nomes do envolvido, do hostel e da cidade do Alaska foram propositalmente omitidos. Muita coisa ainda vai acontecer por lá.
  1. 3.    O gerente que concede informações à imprensa dá de ombros quando pergunto sobre o episódio do jovem caído no corredor. Parece que acontecimentos assim são normais no estabelecimento.

 

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Aventura do viajante

em 17 agosto, 2013

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Crônica 

A cobra, de escamas negras e pontos coloridos, rasteja ligeira à minha frente, cruza o caminho, toma impulso e se embrenha de uma vez na vegetação rasteira. Logo abaixo, o riacho de águas congelantes serpenteia a mata e, sob o brilho do sol, se contorce ao longo do vale.

Pequenos insetos, semelhantes a grilos, assumem a forma de borboletas amarelas para produzir sons metálicos enquanto voam, parece que aturdidos. O barulho desperta a recordação das disputas infantis de “bolimbolachos”, nos anos 70.

O brinquedo, um cordão com duas bolinhas significativamente duras, que fazíamos se chocar repetidamente, foi proibido em algum momento da década de 80.

Caminho só, 20 quilômetros mata adentro. As estatísticas dizem que 99% dos visitantes do Parque Nacional de Yellowstone não avançam mais do que três quilômetros pela floresta.

Tenho que cuidar dos répteis, na trilha, e acompanhar, ao longe, os grandes mamíferos: bisontes, elkes, veados. As pegadas confirmam presença de bichos grandes. O volumoso excremento é bem maior do que o pé de um adulto.

Irrompe a sensação de estar atravessando o sonho de criança, enfrentando a floresta, espingarda de ferro à mão à procura de caça. A fantasia ultrapassa a barreira da imaginação e atinge a realidade.

Vaga pela lembrança a obra juvenil “A cabana na grande floresta”, da antiga Edições de Ouro, livro de cabeceira da meninice.

Yellowstone tem um das maiores e mais diversificadas populações de vida selvagem do planeta. O mágico é que não dá para saber qual será o próximo cenário à frente ou qual animal pode aparecer.

A paisagem naturalmente se modifica: de vales para florestas; de rios a lagos e riachos; montanhas.

O trajeto oferece constantes pistas inesperadas da vida selvagem: ossadas de mamíferos já devorados, coelhos alvoroçados, bisontes solitários.

Apuro o ouvido. Caminho só.

Soube de um aparelho que serve para contar passos. Diz que para não nos enquadramos na categoria de sedentários temos que dar 10 mil passadas por dia. Seria interessante saber quanto caminhei nesses quase nove meses de expedição.

Teria que atar o aparelho ao corpo, antes de levantar, e só iria me livrar dele à noite, antes de dormir. Não, prefiro a liberdade do vagar sem rumo, ao controle da tecnologia.

Caminho em silêncio, contrariando a orientação dos guarda-parques de circular em grupos, batendo palmas e fazendo barulho. Sem qualquer tipo de proteção, fabrico curto e pontiagudo cajado, de eficácia mais psicológica do que física.

A água transparente do riacho raso faz doer pés e pernas, apesar de eu estar acostumado com temperaturas congelantes.

Adiante, o encontro, fortuito, que poderia significar a preservação de uma vida. Neste caso, a minha vida. Ter me deparado com o grupo de três pesquisadores de espécies selvagens foi momento interessante.

Curioso o fato de um deles ter me encontrado em outra das incontáveis trilhas do parque nacional, dias atrás, e ter me reconhecido. Deixei o cartão da expedição. Sai com um spray contra ataque de urso atado à cintura.

Meu único medo me encontra em uma área descampada: perder a trilha. Ando por vários minutos tentando decifrar o caminho, disfarçado em meio à vegetação rala do vale.

Nunca fui escoteiro, mas desde cedo acampava em lugares isolados, sem qualquer estrutura. De criança aprendi que quando perdemos o caminho o melhor é retroceder, tentar achar o rastro inicial, do ponto onde paramos.

Difícil. Assaltava-me a preocupação de estar seguindo floresta adentro. Pior, percebia que o longo dia de verão dava mostras de cansaço. O sol já escorria por detrás das montanhas de pinus.

Na procura da trilha, encontro o sonho.

Foco a vista e maravilhado confirmo a presença do grande urso negro, empurrando o corpanzil pela mata. Não estava a mais do que 700 metros de distância. Sentiu minha presença, mas não avançou.

No imenso vale eram só o urso e eu, a quase 10 quilômetros da estrada que corta o parque. Outra vez o conselho oficial: quando vir um urso, não corra. Ele chega a 50 km por hora.

Não nos alteramos, mantivemos o curso. Admiração e respeito mútuos. Segui com a expectativa – e ao mesmo tempo o receio – de presenciar uma caçada selvagem durante o tempo do meu regresso. O cair da tarde é hora do despertar desses mamíferos que passam dos dois metros de comprimento e chegam a pesar 350 quilos.

Enxergo a mais ao escurecer, a penumbra desperta formas amedrontadoras na vegetação. O búfalo gigante, pastando, parece bicho selvagem a correr em minha direção. O rugido da madeira seca me faz dar um pulo à frente.

Quando o sol me deixou, segui com a lua, que formava um semicírculo perfeito e alaranjado, no céu escuro. Colho então mais um cajado, seco, e inicio o retumbar que ecoa pela floresta. Senhor da trilha.

Nenhum sinal da estrada, apenas barulhos da noite e alguns tropeções em pedras e raízes. Direciono o facho da lanterna em busca de olhos faiscantes na escuridão. A presença apenas de um domesticável veado.

Caminho, pés úmidos. Não perdi mais a trilha, nem usei o spray de pimenta. Mas me senti tremendamente mais confortável de poder tê-lo preso na cinta.

O céu começa a exibir estrelas quando atinjo a rodovia. Passa das dez da noite.

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A Rocha Viva

em 11 agosto, 2013

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Descrição do Viajante (trilogia – parte III)

Há momentos em que o cenário parece um desenho colorido, delicadamente pintado no fundo azulado do céu.  Em um dia ensolarado de verão, praticamente sem vento, é muito difícil acreditar que os arcos foram esculpidos pela ação da água e do gelo, combinada aos movimentos da camada de sal do subsolo.

O cenário aqui não é permanente. Os arcos vão sendo moldados gradativamente pelo efeito das temperaturas extremas e das mudanças climáticas, naturais de cada estação.

Nascem, ao serem esculpidos pela natureza. Crescem, ao terem suas formas intensificadas, lentamente. Um dia, com a erosão, morrem.

Há arcos partidos ou em forma de círculo. Arcos duplos ou pequenos arcos, dentro de arcada mais ampla. As rochas – sem arco e avermelhadas devido à concentração de ferro – assumem formas diversas, de objetos ou animais.

O rancho, preservado desde 1906, foi onde John Wesley Wolfe morou com o filho mais velho. Da janela admirava as formações ainda mais antigas, de 150 milhões de anos.

Imponentes dos dois lados do canyon, os paredões de rocha formaram uma espécie de avenida, turisticamente comparada à linha de arranha-céus de Nova Iorque.

As montanhas La Sal receberam o nome pela associação entre a neve e pilhas de sal, feita pelos espanhóis que exploravam a região.

Arches National Park, no estado americano de Utah, abriga a maior concentração de arcos naturais do país. São pelo menos 2.,5 mil. Para ser oficialmente catalogado como um arco, a abertura na rocha deve ter ao menos um metro de extensão, na mesma direção.

Serviço:

Parque Nacional dos Arcos

Localização: oito quilômetros ao norte de Moab, Utah.

Entrada: US$10 por veículo. Compre passe anual se for visitar vários parques, US$80.

Época: aberto o ano todo, primavera e outono são as melhores épocas. No verão reserve acomodação com antecedência.

Dica: está ao lado de Moab, meca dos esportes de aventura, principalmente mountain bike. Não deixe de alugar uma bicicleta ou contratar um tour. Há trilhas para todos os níveis e condições físicas. 

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A Vida nas Rochas

em 5 agosto, 2013

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Descoberta do Viajante (trilogia – parte II)

A bailarina Blanche Russell jamais imaginaria que o infortúnio que a alcançaria em um dia quente de verão, no Arizona, transformaria o rumo de sua vida. Forçada a passar a noite na desértica, mas belíssima região onde seu carro quebrou, Russell decidiu se estabelecer na área adornada por montanhas de pedras e penhascos. Corria o final da década de 20.

Na paisagem árida edificou casa na pedra e para sobreviver começou a vender comida e a oferecer abrigo aos viajantes, que passavam a caminho de Utah. Vivia com o marido baixo o azul infinito do céu e o marrom avermelhado das rochas.

A erosão, comum ao deserto, fabrica grutas, fendas e cavernas, usadas de forma criativa pelos pioneiros. Enfiadas em meio às formações geológicas, as estruturas em madeira completavam os quartos para os desbravadores.

É região de bisontes, condores e de carneiros selvagens, que voam sobre os rochedos carregando pesados chifres curvados. Ariscos e sensíveis à presença humana, dificilmente são vistos, principalmente quando estão descansando ou se alimentando, de gramíneas ou plantas de arbusto.

Fogem também dos principais predadores: coiotes, águias e pumas. Os carneiros selvagens são famosos pelos combates chifre-a-chifre, para estabelecer a dominância entre os machos, na época antes do acasalamento.

A área é terra dos Navajos, que ocupam a maior reserva indígena dos Estados Unidos. Herdeiros históricos dos antigos guerreiros hoje vivem pacificamente adaptados à cultura moderna. Alguns vendem artesanato em pontos e paradas nas rodovias.

Grande parte dos descendentes dos tradicionais Navajos usa óculos.

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A Vida no Deserto

em 30 julho, 2013

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Descrição do Viajante (trilogia – parte I)

Deserto é o lugar onde não chove mais do que 250 milímetros por ano. Região seca, que alterna temperaturas quentes e frias, e que está bem distante dos estereótipos mais comuns: não é um montão de areia, sem vida. Como comparação, na floresta tropical pode chover 4.000 mm ao ano.

O Deserto de Sonora, um dos maiores e mais significativos das Américas, abriga 400 espécies de plantas comestíveis e flora que fornece fibras ou medicamentos. Longe de ser apenas uma terra estéril e desolada.

De vegetação complexa, é terra do imenso saguaro, tipo de cacto que vive 200 anos, pode chegar a 15 metros de altura e a 10 toneladas de peso. Um desses, gigante, consegue reter seis mil litros de água. Seus frutos servem para fazer suco, marmelada e guisado de grãos.

Além dos tradicionais cactos, em formatos e tamanhos diferentes, há dezenas de outras plantas silvestres e flores coloridas, que nascem em distintas épocas do ano e se aninham entre os espinhos. Comprovam a vida abundante.

Os “woodpeckers”, da família dos pica-paus, se acomodam junto à vegetação. Quando abandonam o ninho chegam as corujas, morcegos e insetos. Roedores se escondem nas fendas das rochas.

Pequenos répteis circulam sobre a areia, habilidosos. Coelhos roem o bulbo dos cactos, à procura do líquido armazenado.

A época de chuvas é o verão, quando a água chega fininha ou irrompe como tormenta e irriga rochas e areia. Após o rompante, fica um cheirinho doce de madeira, presente do expectorante creosote.

Nas colinas, arbustos oferecem suas ramas como incenso. Os frutos de yacca vão desabrochar em flores amarelas, após o repentino e breve aguaceiro. Explodem os girassóis.

Existe também vida humana, apesar do ambiente insalubre. Similares aos árabes beduínos e aos seminômades tuaregues, populações indígenas, como os Akimel e os Apaches, estiveram assentadas por anos nas regiões desérticas dos Estados Unidos.

O Deserto de Sonora, que vai do sul do Arizona ao norte do México, tem cinco regiões bem definidas. A mais seca é a desértica, propriamente dita. A região que recebe maior quantidade de água, mas ainda assim tem pouca precipitação anual é chamada de semidesértica.

O bosque de mesquitas, plantas úteis e sagradas para os nativos, que se desenvolve junto a canais de água, é o terceiro tipo. Os demais são os oásis, que apresentam fontes, lagoas ou mananciais, e o chaparral, onde as elevações são superiores a 3,5 mil metros.

Nota do viajante (serviço)

As caminhadas pelo deserto são a melhor maneira de sentir a vida em cenários áridos. Porém, com menos energia, mas ainda assim com muita água e disposição, é possível explorar as regiões secas do Arizona. A capital, Phoenix, abriga o “Desert Botanical Garden” (www.dbg.org/), um museu natural, a céu aberto, com dezenas de plantas de desertos, em geral.

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Bizarrices de Vegas

em 24 julho, 2013

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Descobertas do Viajante

Nunca entendi direito as máquinas de caça-níqueis. O que sei é que elas, cedo ou tarde, invariavelmente, ficam com todo o nosso dinheiro. Algumas trabalham na surdina, lentamente, esgotando nosso bolso centavo a centavo. Outras acenam com prêmios milionários para abocanhar, gulosas, porções mínimas de cinco dólares.

Na dúvida há sempre um botãozinho escrito “service”, que faz uma atendente, de saia curta e generoso decote, chegar correndo a te oferecer algo para que você possa gastar a sobra do seu dinheiro. Por trás dos drinques grátis sempre há uma gorjeta. Ao lado, todo o tipo de promoções, cupons de desconto, ofertas de shows e variadas atrações.

Las Vegas é uma grande loja de departamentos, montada para agradar a todos. Não vou escrever aqui sobre hotéis faraônicos, shows espetaculares, restaurantes e baladas sofisticadas. Isso, boa parte dos leitores já conhece, o destino é extremamente turístico. Prefiro contar sobre as bizarrices da cidade que nunca dorme.

Tudo é megalomaníaco em Vegas. Do tamanho das construções e painéis de neon até o preço. Os buffets tem ao menos uma quadra de extensão. As tulipas para drinques coloridos, mais de um metro de altura.

Os restaurantes fazem promoção para você frequentar o bandejão de luxo por até seis vezes, em 24 horas. Se o paladar e o bolso forem mais gigantes do que a fome, você pode degustar outro tipo de buffet, a US$435 por cabeça.

Os cones de pipoca alcançam até 70 centímetros de comprimento. Comer o salgadinho é outro espetáculo. Os sabores, esdrúxulos, variam de queijo, caramelo, parmegiana, chocolate a até o bem apimentado jalapenho.

A maior fonte de chocolate do mundo tem oito metros de altura e levou dois anos para ser planejada, desenhada e montada. Circula duas toneladas de chocolate branco e preto, por minuto.

Se não quiser fumar, depois da refeição, você acende um cigarrinho falso, com um pouco de nicotina e muitos sabores: creme, maça, cravo, menta ou café. O produto já circulou no Brasil, mas atualmente é proibido. Lobby da indústria do tabaco.

Para respirar profundamente, mesmo, pode estacionar junto a um barzinho de oxigênio. Isso. Colocam alguns tubos no teu nariz e você respira por 15 minutos doses de oxigênio quase puro, 90%. O ar que respiramos têm apenas 21%. Enquanto aspira, sentado em banquetas, recebe massagem nas costas e se distrai com os líquidos coloridos, envasados a sua frente.

O calor do verão de Vegas monta às costas e só desce quando se adentra ambiente climatizado. Exageradamente refrigerado é o bar onde o cliente recebe casaco, luvas e botas para passar da porta de entrada. Temperatura a menos cinco graus.

O pé doeu de tanto caminhar pelas passarelas que conectam os imensos e luxuosos hotéis? Uma paradinha na máquina automática e sai com uma sapatilha flexível e confortável. Há opções de estilos e tamanhos.

Aquela massagem que você já deve ter visto em shopping centers ou feiras imobiliárias é mais sofisticada, em Vegas. O estressado entra num tubo onde é coberto por lona plástica e recebe relaxantes jatos de água sobre o corpo. A multidão passa ali ao lado, apreciando.

Você pode se lembrar para sempre das bizarrices de Las Vegas ao estampar o rosto da sua família em blocos de cristal, com efeito tridimensional. Ou encomendar um boneco moldado à sua cara. Leva duas semanas para fazer e você recebe a encomenda quando já tiver voltado para casa, arrependido da compra. Naturalmente paga também as despesas de entrega.

Por fim, o mais bizarro é que você pode se empolgar e ser esquecido por dias nesse ambiente ilusório, pendurado a uma máquina de jogos.

Cassinos não têm relógios.

O custo de ser bizarro em Vegas

Bar de oxigênio – de US$17 a US$20 (20 minutos);
Pacote de pipoca – US$6,50 (50 centímetros);
Boneco artesanal com teu rosto – US$100;
Massagem com água – US$20 (10 minutos) ou US$45 (20 minutos);
Porta-retrato de cristal – a partir de US$69;
Tulipa com drinques coloridos – US$32 (refil custa entre US$1,99 e US$7);
Cigarro falso – US$10 (equivalente a 25 maços) – kit especial – US$400;
Sapatos de emergência – US$20 dólares (qualquer tamanho);
Buffet promocional – US$49,99 (seis em até 24 horas);
Buffet especial – US$435 (por pessoa, vinho e bebidas à parte).
Bar Minus 5C – entrada mínima de US$17 (com direito a casaco, luvas e botas). Há pacotes até US$95. Fotos são proibidas, vendidas por US$20.

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De Mochila pelas Américas

Os encantos do Hotel Washington não sobem escadas

em 13 julho, 2013

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Crônica do Viajante

Após 36 horas de viagem – 25h de ônibus e 11h de espera – chego ao Hotel Washington. Fico feliz em encontrar, faceiras, as baratas que brincam no espaço destinado ao chuveiro, acobertadas pela cortina plástica colorida. Sim, é mais de uma barata.

O hotel é daqueles tipos sombrios, sabe? Em que o senhor idoso e mal humorado fica trancado dentro de um quartinho na recepção, suspeitando de todos, e cobrando valor absurdo pela qualidade do estabelecimento.

A área do entorno está deserta. Passam alguns minutos da meia noite. Sustentado pelo café da manhã reforçado, à base de ovos mexidos com presunto e pasta de feijão, havia passado o resto do dia sem comer. Tudo já fechado em Hermosillo, a cidade que registrou 48 C como recorde de temperatura, em 1998.

Escolho um refrigerante e algum saquinho com doce industrializado, na máquina de venda automática. Torço para que funcione. A sombra dos Estados Unidos já se faz presente, a quatro horas da fronteira.

O ar condicionado, central, despeja para dentro do quarto baforadas do que deveria ser uma brisa fresca. O ambiente segue abafado, apesar do piso de lajotas e de não haver qualquer tipo de revestimento nas paredes, remendadas com argamassa e novamente cobertas por tinta salmão, em tom pastel.

Não se admitem visitas, parece prever a administração do lugar, com ares de motel brasileiro de beira-de-estrada. Não, não estou comparando com aqueles sofisticados, que têm jogos de luzes, cama redonda e espelho no teto. Mas sim com aqueles outros, plantados onde nada há de civilização.

Não esperava mais encontrar no meu caminho este tipo de espelunca, após já ter ficado em 90 acomodações diferentes ao longo da jornada. Era a opção econômica mais indicada para a região, segundo o guia de viagem.

O hotel tem seus encantos, todos instalados no hall de entrada. Nenhum deles conseguiu subir as escadas e entrar nos quartos. É provável que o ponto mais forte seja a simpatia e a cordialidade do dono, contrastando com o resto do ambiente.

Talvez o melhor seja usar a técnica do “dormir o mais breve possível”, e fazer que nada vi. Não veria os inúmeros buracos no lençol que um dia nasceu branco. Não veria a sujeira e os restos de materiais cuidadosamente esquecidos, logo ali fora. Não veria o emaranhado de finos cabides de arame, entrelaçados sobre a minha cabeça.

Sim, essa seria a melhor alternativa. Um pouco difícil para quem sofreu de insônia por estresse ao longo de cinco anos e ainda finaliza tratamento médico.

Primeiro, tomar algumas decisões profiláticas. Estudo o que seria melhor: deixar a toalha no banheiro, habitado por um sem número de espécies involutivas, ou deixá-la repousando na árvore raquítica de cabides. Trago-a para minha companhia, com suas pontas encardidas.

Com cuidado abro o pacote com dois bolinhos de chocolate. Não quero que as baratas sequer percebam o movimento. Seguramente há mais entre os ocos do quarto. Faço o mesmo com a lata de refrigerante.

O único copo oferecido pelo hotel repousa convidativamente sobre o cinzeiro, boca de um na boca de outro. O quarto tem um telefone azul enorme, pregado à parede. Desses que se parecem a um orelhão. “Este aparelho só serve para receber chamadas” – a plaqueta exibe a intrigante mensagem em letras visíveis.

Penso em dormir de roupa, a mesma calça das cavalgadas pelo deserto, certamente mais limpa do que a roupa de cama do covil. Abro a janela, não suporto mais o calor. Mais de uma semana em terras altas me fez esquecer como pode ser horrivelmente desagradável o clima tórrido do México, no verão.

Busco no corredor externo algum interruptor que me ajude a reduzir a claridade que penetra pela cortina e se intromete no quarto abrasado. Nada. Imagino como é possível o repouso dos demais hóspedes. Penso melhor. Talvez não haja qualquer outro hóspede na biboca.

Tiro a camiseta, enrolo na lâmpada fluorescente e torço. O bocal baila conosco. A luz não se apaga. Nova tentativa, segurando com a outra mão o bocal. Essa intimidade com as estruturas hoteleiras só se adquire depois de muito tempo dormindo em hotelitos, hostels, pulgueiros e toda a sorte de acomodação oferecida aos viajantes.

A lâmpada estoura na minha mão, protegida pelo trapo que se tornou a camiseta suja e suada, após oito meses de viagem. A luz se apaga, mas há outras sete ou oito distribuídas ao longo do pátio. Iluminação não é problema na alfurja.

Volto rápido para o quarto. Lembrei que deixei o último bolinho de chocolate descoberto e tudo o que não gostaria na ocasião seria outro encontro inesperado.

Deixo o banho para o dia seguinte, mais saudável será a higiene após me separar do colchão imundo. Sim, já estava certo. Pela manhã colheria os restos de barata do chuveiro e tomaria banho.

Pretendo sair cedo do hotel Washington. É impressionante como o viajante tem facilidade para criar um relacionamento próximo com esse tipo de algar.

É forte a ducha do Hotel Washington.

 

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