Charmoso povoado fantasma

Publicado em: 21/06/ 13

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Crônica do viajante

A 70 metros de profundidade, dentro de uma estreita, escura e profunda mina de ouro e prata, o ar é mais fresco. Não há agonia, sensação de claustrofobia, tensão, medo ou desespero. Relaxada e interessadamente, o explorador admira as aberturas, túneis e galerias, descobertos à medida que penetra o interior da caverna.

Sente-se bem. Os sonhos recorrentes de morte por soterramento não passam agora de distante lembrança. Pesadelos que com frequência assaltavam a infância de sete ou oito anos de idade. Quase não recorda mais.

Conta-se que as minas são conectadas e que um dos caminhos subterrâneos conduz ao centro do histórico povoado. O menino-viajante vibra. Ama as descobertas. Excitava-se com a perspectiva de encontrar passagens secretas na casa dos avós paternos.

Percorrer o povoado fantasma é descobrir extensos jardins ressequidos e trombar com longas fileiras de plantas do deserto brotando saudáveis sobre o solo árido. Ao caminhar quilômetros sem água ou sombreiro, sob o sol inclemente do deserto, a alma do viajante se percebe livre.

Pelo trajeto solitário, a velha caminhonete azul, com para-choque amarrado, transporta lote de filhotes de carneiro. As ruas, fora da pequena área central, perderam o calçamento e estão normalmente desertas.

Os cactos tomam sol em cima do telhado abandonado. O céu é quase sempre azul.

Há placas de venda nas propriedades. Há ruas sem placas. Os portões são fortemente trancados. Há ruínas por toda a cidade. Ou melhor, o povoado são as ruínas, desde que foi abandonado, há 100 anos.

Mineral de Poços, no planalto central do México, um dia resolveu se mudar. O lugarejo foi povoado respeitável na época da mineração. Reunia 70 mil habitantes em busca de cobre, ouro, prata, enxofre e outas preciosidades. Uma espécie de corrida do ouro mexicana.

Hoje, a cidade resiste em voltar para casa.

Começou a ser abandonada com a Revolução Mexicana, dos zapatistas, em 1910. Da estrutura da escola técnica, que ensinava homens a terem um ofício e mulheres a cuidarem do lar, restaram apenas grandes vãos e grossas paredes.

Nos anos 20, do século passado, as inundações provocaram nova corrente, para fora da cidade. A exploração dos metais preciosos era afogada, com o sepultamento das minas. Os sobreviventes, uma vez mais, esvaziaram a cidade. Por décadas, Poços teve apenas a companhia do deserto.

A evasão não arranhou o charme do lugar, pelo contrário, encantou mais o viajante que caminha pelo chão pedregoso. Espírito sempre aventureiro.

Agora as lembranças de criança remetem à infância dos filmes de caubói e das relíquias do velho oeste. Relíquias, não brinquedos, guardados pelo avô e mantidos como bens de família. Chapéu, sela, bolsa e artesanato genuinamente Cherokee.

Sim, o avô percorria o western americano na época de índios e ursos. Faleceu sem que o conhecesse, mas transmitiu a herança, a genética, o sangue e a saga ao andarilho.

A cidade mantém o perfil e a mística dos Chichimecas e investe hoje na fabricação de instrumentos musicais indígenas e do artesanato de inspiração pré-hispânica. Quer apostar no turismo.

Agora, conta o morador, a cidade será “povo mágico”, vai ganhar dinheiro do governo e receber investimentos dos capitalistas. Prevê um grande hotel na região, cafés, um hipódromo e, quem sabe, um campo de golfe para os americanos.

O explorador se entristece, não é o que gostaria de presenciar. Sonha com a época em que a caça não precisava ser proibida porque a carne era farta. O tempo em que os ritos e as tradições indígenas, verdadeiramente mágicos, eram costume corrente, em meio à natureza.

Mochila às costas, o jornalista nômade segue o seu caminho. Suas roupas estão puídas, suas meias estão rasgadas. A bota, velha companheira, já há dias faleceu. Mas o coração do caminhante segue em paz. Sua alma está extremamente feliz.


10 Comentários

  1. Guilherme Weber disse:

    Lindas fotos, lindo relato! Vc abriu suas próprias passagens secretas! Lendo fui arremessado para os desejos das minhas, e algumas iguais, mesmos cheiros e sensações. Efeito Proustiano!
    E o alargador de orelha do cara????? Um caramujo!!!!

  2. Jussara Elisa disse:

    Excelente texto!

  3. Jussara Elisa disse:

    Que aventura!
    Parabéns, Luiz Henrique Weber!

  4. Hanna Carolyne disse:

    Olá Ike, já entreguei meu trabalho sobre seu blog.. Mas vou continuar seguindo as suas pegadas através das suas postagens, porque você é realmente contagiante quando escreve para todos nós tudo o que vê. Também estou muito entusiasmada com a possibilidade da sua visita ao Colégio Sesi Guarapuava.. Se você escrever um livro sobre as suas viagens pelas Américas eu vou querer adquirir, mas tem que ser autografado..

    Boa Sorte!!!
    Hanna, Colégio Sesi Guarapuava

    • ikeweber disse:

      Tomara que seja possível as duas coisas, Hanna: o livro e a visita aí para vocês.

      A continuidade vai depender de apoiadores, mas estou confiante.

      Siga essa jornada comigo, ainda temos muito pela frente.

      Abço, Ike.

  5. jaqueline martins de lima disse:

    adorei as fotos te desejo uma boa sorte e que deus te abençoe nas tuas caminhadas bjs jaqueline do colégio sesi guarapuava.

  6. juliana aparecida correa de mello silverio disse:

    adoreiiiii ike voce me inspira muitooooooo…..


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