De Mochila pelas Américas

De “chicken bus” pela América Central

em 16 fevereiro, 2013

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Oito horas ensanduichado nos ônibus do Panamá. De um micro para um veículo maior e dali para um daqueles antigos ônibus escolares norte-americanos. Todos “chicken buses”, denominação para o coletivo que transporta todo tipo de mercadoria e gente, sempre muita gente. Ao todo, quatro diferentes para chegar ao meu destino, nas montanhas.

A família de cinco pessoas ocupa três assentos. Fico posicionado entre o pai e os dois garotos, socados no mesmo banco. As pernas disputam espaço no estreito corredor que separa os bancos de estofado roto.

Mochila amarrada no teto, ao lado de sacos de batatas e verduras, malas, baldes de plástico, botijão de gás e até um ventilador. Sacolas menores e mochilas pequenas seguem dentro da cabine.

O pai passa por cima de mim as asinhas e coxas de frango para os meninos. O cheiro da comida se instala comodamente nos bancos de trás do diminuto ônibus. Os guris se deliciam à janela.

O “chicken bus” segue lento pela rodovia vazia. Desta vez há silêncio. O rádio, em volume baixo, vomita o noticiário. Pescoços quebrados à frente, cabeças balançando sobre o corpo, todos em vão tentamos dormir. Os moleques, entalados no assento ao lado, espirram e um derruba a cabecinha sobre o meu braço, ao cochilar.

Um senhor termina a leitura do jornal e inicia a de uma apostila, fato pouco usual entre a maioria da população das Américas Central e do Sul. Só há outras duas estrangeiras a bordo.

O ônibus lotado para. Um grupo de quatro adultos e cinco crianças avança, não acredito que vão embarcar. O cobrador desce e os jovens entram. Os adultos, em trajes típicos panamenhos, se alojam ao longo do corredor, espaço antes destinado para nossas pernas. Uma das crianças tem problemas de formação genética.

O rádio é desligado, não há espaço para música. O calor ultrapassa a brisa que entra pela janela  e amolece o corpo, o sono é incontrolável. Talvez agora a cabeça se sustente, encostada em algum corpo pelo caminho.

Fome. Dia de viagem é sempre longo, intenso, e geralmente com pouca comida. Divido com os guris o pacotinho com cinco bolachas de maizena. Um rapaz desce. Outros dois meninos sobem.

A vegetação verde sobe as colinas. É sorte os panamenhos serem baixinhos, eu não caberia de pé no ônibus. Um gordo mostrando o “cofrinho” levanta, no distrito de San Félix. Metade da viagem, a lotação é renovada.

A ambulante embarca com refrescantes laranjas descascadas e pacotes sem sentido de tomates e pimentões. A família compra as laranjas enquanto outros meninos me espiam, com olhos curiosos.

A Polícia Nacional fiscaliza o veículo, a caminho de Boquete, e pede documentação aos menores e aos estrangeiros. O rapazinho ao meu lado diz que não tem e a viagem segue, sem contratempos. A pintura amarelo canário do ônibus velho estala de nova.

A filha menor da família que se comprime em três bancos usa vestido salpicado de bolinhas azuis e laço de fita. Os guris se chamam Kevin e Kenett. O ônibus segue lotado.

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