Entre vilas e montanhas (1/3)

A comunidade está assentada em área rural, ao Norte do país.
Ma Mai e a mãe, etnia HMong

Não tenho certeza se o nome de Ma Mai se escreve com esta grafia. Ela tampouco soube me dizer. Aos 22 anos, casada e com dois filhos, nunca frequentou escola. Não sabe ler ou escrever. Esperta, aprendeu inglês melhor do que muitos habitantes da capital, Hanói. Ajuda a família com a venda de artesanato em uma cidade pequena, em meio às montanhas do Norte do Vietnam. Foi ali que nos encontramos e combinamos a minha estada, por dois dias, na casa dela, na área rural, junto à vila de Lao Tsai.

Ma Mai usa os cabelos constantemente presos, desde que casou, aos 15 anos. Homens casam aos 18. É o costume da etnia Hmong, grupo étnico originário da China e assentado também em regiões montanhosas de alguns países do sudeste asiático.

O trajeto de 10 km, a pé, até a vila, foi marcado por extensas plantações de arroz, búfalos e rios. A etnia vive da agricultura de subsistência e de pequenos animais, basicamente galinhas. Para ocasiões especiais, como o Ano Novo, preparam porcos gigantes e fabricam incensos especiais.

Animais frequentes na zona rural do Norte Vietnamita
Búfalos são usados no cultivo do arroz
Comunidade se alimenta basicamente de arroz
Plantação de arroz nas encostas das montanhas

 

 

 

 

 

 

 

A alimentação é à base de porco, galinha e arroz
Alguns porcos são engordados para ocasião especial

A comunidade é pobre, a casa de Ma Mai é muito simples. A construção inteira exibe frestas e o chão é de barro. Sob o mesmo teto precário ela disse que vivem oito pessoas, mas cada vez havia mais gente lá dentro. À noite contei 11 crianças. Após muito arroz e legumes, reparti chocolate com todos. O filho mais novo de Ma Mai gostou de mim e vivia me perseguindo. O menor, só de camisetinha, faz xixi ao lado da minha cama. Aviso a “recepção” (rsss) e a criança é retirada. O xixi permanece.

Vida muito simples e pobre na Comunidade HMong
Estrutura precária e higiene deficiente
As crianças ficaram curiosas a respeito do viajante
À noite havia 11 crianças na casa, algumas fugiram da foto

Caminhei muito pelos arredores, deslumbrado com os lugares mais altos do país. Tive a sorte de presenciar uma autêntica cerimônia Hmong, rito em homenagem aos mortos. Patas imensas e pretas de porcos descansavam sobre folhas de bananeira. Os homens jogavam grãos de arroz por cima e bebiam muito de pequenas copas. A maioria estava bastante excitada ou emocionada, alguns chorosos. Outros caíam de bêbados.

Era um dia especial na comunidade HMong
Aglomeração para celebração dos mortos
Patas de porco e muito álcool na cerimônia
Muitos homens emocionados, alguns chorosos

O cachorro de pelo claro circulava a mesa antes do jantar, seguido pelo gatinho preto. A panela de arroz fervente foi colocada ao solo. Seria a mesma que a madrasta de Ma Mai lavava no córrego imundo, ao lado da casa? Sim, não há saneamento básico e as condições de higiene são precárias. O córrego é de água escura e retém lixo.

Alguns turistas e outros viajantes também se hospedam na vila, mas em situação bem diferente, em casas preparadas para recebê-los, com mesas, cadeiras, camas e até sofás. Nesses casos há alguma comodidade, higiene básica e estrutura para alimentação. Esta minha experiência foi distinta pelo fato de ter sido abrigado e me adaptado ao cotidiano e à realidade de uma família Hmong muito simples, autêntica, de minguada existência. Ao longo das minhas aventuras já fiquei em barracos, acampei na selva e me hospedei em todo tipo de lugar, inclusive casas abandonadas, mas esta foi uma experiência única.

O comércio de artesanato é uma das poucas fontes de renda da comunidade
O comércio de artesanato é uma das poucas fontes de renda da comunidade

Contei 14 pessoas ao redor da TV, após a comida. Ninguém manifestava qualquer movimento para banho e Ma Mai não demostrou interesse ao ser perguntada onde eu poderia escovar os dentes. Alguns meninos apenas olharam com curiosidade. Um dos principais dentes da boca de Ma Mai é de ouro.

A lua era crescente e o céu, estrelado. Tudo era muito simples, mas eu estava feliz. Acomodei-me cedo, mas só consegui dormir depois que ajustei a jaqueta impermeável de forma a proteger melhor os ossos do quadril. Já era madrugada quando relaxei na minha cama de tábuas. A manta, originalmente curta, foi encolhendo ao longo da noite. A friagem acudia das imperfeições da madeira e golpeava as canelas. De manhã, chegava aos joelhos.

A coberta curta parece que encolheu ao longo da noite
Era dura minha cama feita de tábuas

A casa despertou tremendamente cedo, com forte movimento, antes das cinco da madrugada. Barulho de água sugeria banho. “Onde seria?”, perguntei à Ma Mai quando levantei. Ela jogou uma quantidade de água quente na bacia e o restante, frio, veio de uma caixa de alvenaria, instalada ao final da cozinha. Atirou um trapo lá dentro e sugeriu que me lavasse, ao lado do fogão. Naturalmente não havia fogão, mas sim um espaço para panelas sobre o fogo à lenha, no chão.

A água vinha de caixa d´água ao lado do fogão
O banho era de bacia, ao lado das panelas

Recusei o arroz do café da manhã e optei apenas pelos ovos. Saímos para seis horas de caminhada, atravessando outras vilas e visitando outra etnia. Mais arroz, desta vez com aquele macarrão bem fininho e, para beber, água quente. O retorno à cidade foi caminhada puxada e rápida de sete quilômetros. Mais da metade com aclive forte, montanha acima, sem terreno plano.

Regressei. O xixi da criança havia secado ao lado da minha cama. Até agora não descobri onde era o banheiro.

 

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