Ike Weber http://ikeweber.com De Mochila pelas Américas Sun, 15 Oct 2017 16:11:29 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.8.2 A VIDA NO PAÍS COMUNISTA (PARTE 2) http://ikeweber.com/a-vida-no-pais-comunista-parte-2/ http://ikeweber.com/a-vida-no-pais-comunista-parte-2/#comments Sun, 15 Oct 2017 16:11:29 +0000 http://ikeweber.com/?p=2687

“Somos um país comunista, aqui tudo é de graça: casa, saúde e educação”, declarou a guia local, nos meus primeiros dias em terras norte coreanas. Reflexivo, me calei, ainda tentando tocar a realidade com as mãos. Agora poderia sentir um pouco, na prática, essa cotidiano socialista. Longe do dogmatismo teórico ou de poses esquerdistas.

De fato, não se vê miséria em Pyongyang e nem nos arredores, não há moradores de rua, mendigos e o país parece ser perfeitamente seguro.  No entanto, em vilas mais simples e em áreas rurais, a uma distância de três ou quatro horas da capital, mulheres lavam roupas em riachos de águas poluídas. Bom, nada tão diferente assim das regiões pobres do Brasil.

Talvez a maioria das pessoas more em edifícios, os prédios estão em toda parte. Mesmo em áreas isoladas, onde só se vê campos e agricultura, lá está uma construção vertical, por vezes no meio do nada, bem diferente. De longe, os prédios parecem mais bonitos do que de fato se revelam, com a aproximação.

Tudo no cotidiano norte coreano está relacionado à função que se desempenha. Conforme o trabalho se recebe uma casa e um salário, além de uma ração (espécie de cesta básica), a cada duas semanas. Nas fazendas cooperativas ganha-se também cota da produção.

Professores, pesquisadores e cientistas estão melhor instalados, geralmente na área moderna da capital, em construções imponentes. Se tiverem a oportunidade e a sorte, podem passar algum tempo fora do país, em estudo e desenvolvimento técnico-profissional.

A ocupação depende do perfil do sujeito e da conexão familiar. O cidadão pode se candidatar para ser guarda de trânsito ou guia turístico, mas dificilmente alguém de origem rural irá trabalhar na cidade ou conseguir um posto de destaque. É complicado se movimentar para cima, neste sistema. A aposentadoria chega aos 60 anos para homens e aos 54 anos para mulheres, segundo informação de um dos guias coreanos.

A comida é muito barata e a compra de utilidades domésticas, facilitada. Na única oportunidade que tivemos de conhecer um mercado local, adquiri lanche, biscoitos, sucos e refrigerantes por menos de R$10, pagos na moeda local, o Won. Artigos importados vem normalmente da China e do Japão. O câmbio era de 8 mil Wons para US$1.

Carros, porém, são produtos de luxo, pouco acessíveis â população em geral. A maior parte dos veículos pertence ao governo ou às Forças Armadas. Em uma semana no país vi apenas um automóvel de uso particular, indicado pela placa de cor amarela.

De acordo com o guia ocidental, o país reserva 13 hotéis para abrigar estrangeiros. O nosso tinha 47 andares e oito elevadores, um deles, panorâmico. Todos com câmeras de vigilância. Como tudo na Coreia do Norte, os estabelecimentos pertencem ao governo, oficialmente não há propriedade privada.

Apesar disso, veículos britânicos como o jornal The Guardian e a rede de televisão BBC, informam que o país vem implantando reformas voltadas à economia de mercado. Apesar das casas não pertencerem a seus moradores, existe a venda de “direitos de residência”, de acordo com o jornal. Igualmente, há alguns empreendimentos do governo que, na prática, são administrados por gerentes que absorvem a maior parte dos resultados financeiros. Seriam, segundo a imprensa internacional, empresas de ônibus e companhias de carvão, por exemplo. Diferente do que ocorreu na China, as mudanças não são acompanhadas de qualquer abertura política.

Apesar de todo o desenvolvimento armamentista, a tecnologia não é exatamente parte da vida do cidadão. A internet, apesar de existir, não está disponível para pessoas comuns, mas restrita ao governo, diplomatas e a alguns visitantes estrangeiros. Há um sistema de intranet local, usado nas universidades, mas que não se conecta à rede mundial de computadores.

O primeiro serviço de internet móvel (3G), obviamente restrito, foi lançado em associação entre uma empresa egípcia de telecomunicação e estatal coreana. Alguns habitantes usam telefones celulares, mas apenas para efetuar e receber chamadas.

O hotel onde fomos instalados preserva duas cabines telefônicas e um guichê para envio de cartas ou cartões postais. O imenso rádio do quarto não transmite qualquer estação e a área de música da biblioteca pública tem diversos equipamentos, ainda com toca-fitas.

Inevitável não mencionar, a decoração é sempre kitsch, em qualquer lugar. Arcos de flores, lustres esquisitos, maçanetas e acabamentos de gosto duvidoso, mobiliário ultrapassado, vasos entre vidros de portas giratórias. Quadros enormes em espaços gigantescos. Definitivamente os norte coreanos não acreditam em ambientes pequenos.

A sociedade é bastante conservadora, os casamentos são normalmente arranjados e a regra é não praticar sexo antes do matrimônio. O divórcio não é ilegal, mas tampouco comum. É evidente o comportamento reservado, tímido e respeitador do povo norte coreano. As crianças são extremamente disciplinadas e agradavelmente inocentes.

Há atitudes impossíveis de se controlar a todo momento e a peraltice é um delas. Estivemos com crianças nas ruas, em áreas de recreação e até em um parque aquático. A gurizada, sempre obediente. Outro mérito do país é a educação artística. Os pequenos são incentivados desde cedo a cantar, dançar e a tocar instrumentos.

Assim como na Ásia, em geral, a gastronomia é, por si só, uma outra viagem, muito saborosa. Maravilhosos churrascos de pato, rabanetes ultra apimentados, conchas na brasa e, claro, bastante arroz e vegetais. A economia estatizada é baseada na agricultura e os produtos industrializados que tive a oportunidade de provar são horríveis: refrigerantes, chocolates e doces em geral.

Há as cervejas e os licores locais, perfeitamente adaptáveis ao nosso paladar, e os pratos típicos e polêmicos, como a sopa de cachorro. Evitei, apesar de estar sempre tentado a novas experiências. Optei pela consciência de preservação, ainda mais conhecendo algumas atrocidades feitas contra os cães, enjaulados em praças públicas, na China.

Entre as especialidades tradicionais está o noodles frio, prato tradicional em casamentos pois simboliza a união eterna. “Quando vai receber o seu noodles frio?”, perguntam os locais, numa alusão à data em que os noivos, ou namorados, pretendem se casar (ou serem casados).

Depois de transitar por três cidades, a visita, para ser completa, precisava percorrer a zona desmilitarizada (DMZ). Essa é a área que separa as duas Coreias, do Norte e do Sul. O corredor, perfeitamente demarcado, tem 257 quilômetros de extensão. Na área estratégica, dois quilômetros para dentro de cada nação, são permitidas apenas armas leves. Apesar de todo o controle, esse é o único local onde fotos com guardas e soldados são permitidas.

A Coreia do Norte fala em reunificação e existe até um monumento em prol do retorno a uma só grande nação. Pela minha ótica – e provavelmente na visão da maioria das pessoas – hoje seria uma missão quase impossível. A Coreia do Sul jamais aceitaria o regime estabelecido em DPRK. Para a Coreia do Norte, abrir as fronteiras e deixar o mundo entrar seria o equivalente a uma bomba em uma comunidade totalmente alheia ao mundo exterior.

 

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A ÚLTIMA FRONTEIRA (PARTE 1) http://ikeweber.com/a-ultima-fronteira-parte-1/ http://ikeweber.com/a-ultima-fronteira-parte-1/#comments Tue, 10 Oct 2017 16:52:31 +0000 http://ikeweber.com/?p=2412

Parecia ter desembarcado em um cenário de filme, com poucos atores. Talvez pelas construções coloridas, em tons suaves, contrastando com os trajes cinzas, marrons, verdes ou azuis, sempre escuros, dos norte coreanos. Talvez pela ausência de publicidade, painéis, placas ou neons, tão comuns na China e no mundo ocidental. À primeira vista, Pyongyang, a capital, é uma cidade de brinquedo.

É muito complexo descrever uma visita à Coreia do Norte, ou República Popular Democrática da Coreia (DPRK), como foi batizada a nação comunista. Comum acreditar em imagem baseada em chavões ou paixões políticas. Nem sempre coincide exatamente com o que me alertavam os amigos ou me escreviam os conhecidos, momentos antes da partida.

Só se entra na Coreia do Norte pela China e, sempre, em grupos organizados, não é possível viajar de forma independente. É necessário contratar um operador autorizado por alguma das agências estatais, no nosso caso a “Korea International Travel Company”.

Não tinha certeza se iria conseguir o visto chinês pela segunda vez em menos de dois anos, já que a condição imposta pelo consulado de São Paulo é a de uma espera de 24 meses, entre um visto de turismo e outro. Por isso organizei minha estada na China com a autorização de trânsito – poderia ficar em Beijing por 72 horas, até a partida à Coreia. O passaporte, devidamente carimbado, me foi devolvido apenas um dia e meio antes de sair do Brasil. A emoção já começava. O visto coreano seria entregue no dia anterior ao início da visita.

Após dois dias em solo asiático, aterrissava no mais fechado país do mundo, cercado de cuidados e orientado sobre a legislação a seguir. Não poderia tirar fotos sem autorização prévia dos guias; nenhuma câmera fotográfica com lentes de mais de 250 mm seria permitida; em todo o trajeto teríamos sempre a companhia de dois guias coreanos e um ocidental; nenhum guia de viagem, livro sobre a Coreia, impresso ou documento religioso entraria no país.

Saudações em sinal de respeito aos líderes do país eram fortemente recomendadas; perguntas mais delicadas ou questionamentos políticos deveriam ser submetidos primeiramente ao guia ocidental e conversas com os locais poderiam ocorrer, brevemente e em locais específicos; mapas e GPS teriam que ser deletados dos celulares.

Seria necessário, ainda, assinar um acordo relacionado à publicação de imagens, vídeos e textos sobre o país. Conteúdos para mídias sociais e blogs pessoais foram permitidos. Jornalistas em cobertura de imprensa, só com autorização especial.

À primeira vista as recomendações acima, e outras sugestões de comportamento, me soaram um tanto bizarras. Porém, circulando pelo mundo, aprendi que é preciso ter a mente aberta e a sensibilidade para aceitar as particularidades, os costumes, as restrições e até mesmo as imposições de cada país.

Tudo aceito, estava preparado para um mergulho em uma cultura absolutamente distinta da ocidental, tão mitificada e, dificilmente compreendida. Não se trata apenas de uma nação de mísseis, disposta a guerrear contra os Estados Unidos. Sim, eles detestam o governo norte americano, mas dizem nada ter contra o povo do país.

Demorei alguns dias para entender melhor a satisfação que sentem pelo desenvolvimento bélico. Não sem me chocar antes, diante do impacto provocado pelas imagens em um telão gigantesco, instalado atrás de inocentes crianças entre oito e 10 anos de idade, cantando doces melodias em apresentação artística.

Sim, aconteceu, de fato. Ao ver tanta propaganda institucional pelas ruas e na mesma tela do teatro, eu pensava, minutos antes da cantoria: “impossível os mísseis aparecerem por aqui, bem neste momento”. Mas lá estavam eles, bombas projetadas aos céus, enquanto a piazada se alternava, talentosa, entre os vocais e diferentes instrumentos musicais.

Para os moradores de DPRK os pesados armamentos são motivos de orgulho. “A nação é poderosa, capaz de se defender de qualquer ameaça de superpotências”, assim acreditam, dessa maneira pensam e deste modo foram educados. “Não se trata de querer matar pessoas, mas de ser capaz de autodefesa”, explica o gentil e comunicativo guia australiano.

Havia tensão na chegada ao aeroporto. Provocada mais pelo temor de certos turistas, como o jovem Alex, inglês de 25 anos que depois se confessou aterrorizado ao passar pelos sistemas de controle. Após colocar a mala na esteira de raio-X, o rapaz errou o trajeto e simplesmente foi de encontro com o fiscal, duas vezes seguidas.

Nervosismo talvez decorrente de haver mais policiais do que passageiros no desembarque. Alguns marchando lá fora. Um guarda se aproximou do estrangeiro que filmava a chegada e pediu que apagasse todos os registros. Prontamente obedecido. Não tive problemas, minha mochila sequer foi aberta, apenas foram separados os equipamentos eletrônicos – laptop, câmera fotográfica e celular.

Difícil também é conhecer com exatidão a vida local e distinguir a realidade do cenário apresentado aos estrangeiros. Passei por áreas rurais, estive em lugares públicos, observei gente nas ruas, visitei uma fábrica de vidro e até uma fazenda de produção cooperativa. Dava para perceber o cotidiano em movimento, de forma crível e espontânea. Pessoas caminhando para o trabalho sobre calçadas impecavelmente limpas, ou se deslocando em bicicletas pelas ciclovias. Imensas avenidas com pouco trânsito e construções modernas.

Outros momentos, no entanto, pareciam ter sido construídos somente para os viajantes que chegavam e encontravam uma plateia de teatro lotada de gente, em plena quarta-feira à tarde. Ou grupos de estudantes de inglês, na biblioteca, aguardando para interagir com os estrangeiros.

Seja como for, os principais mitos, histórias e temores são diferentes do que estamos habituados a escutar. Alguns, simplesmente não existem. É o caso da proibição de fotografar o país. Algumas áreas tem restrições severas, caso de alfândega, aeroporto e certos palácios e espaços do governo.

De resto é viável registrar o país, nas mais diversas formas. A maior parte das pessoas é arredia, não gosta de ser fotografada. No entanto, uma aproximação cautelosa e delicada pode tornar possível o registro.  Seja como for, entre o real e o imaginário, sem dúvida uma viagem à Coreia do Norte é uma experiência única, extraordinária e surpreendente.

(CONTINUA. SEGUNDO CAPÍTULO: A VIDA NO PAIS COMUNISTA).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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MULTIDÃO CELEBRA DIA NACIONAL DA CHINA http://ikeweber.com/multidao-celebra-dia-nacional-da-china/ http://ikeweber.com/multidao-celebra-dia-nacional-da-china/#comments Mon, 02 Oct 2017 17:35:41 +0000 http://ikeweber.com/?p=2402

Quatro e quarenta da madrugada toca o despertar e eu acordo animado, após menos de três horas de sono, e depois de 51 horas de viagem, quatro voos, um trem, um ônibus e breve caminhada até o hostel onde me hospedaria, no coração de Beijing.

Mergulhei na escuridão das vielas e ruas estreitas do Hutong, bairro animado da capital, que fervilha até o início da madrugada. Antes do amanhecer, é completamente deserto, mas totalmente seguro. Não sinto saudades do Brasil.

É 1 de Outubro, a data mais importante do calendário Chinês, ao lado do Ano Novo. Comemora-se o dia da República Popular da China, um feriado que dura mais de uma semana e abarrota o país com intensa circulação de pessoas. Todos estão de folga na chamada “Semana de Ouro” e viajam pelo país.

Metrô ainda fechado, buscava um táxi na avenida principal, ao lado de minha nova amiga, a alemã Nina, jovem estudante universitária gordinha e muito simpática. Não gosto de táxis, principalmente em países da Ásia e da América Latina. Os motoristas resistem em usar o taxímetro e costumeiramente querem superfaturar as corridas. Em muitos casos, há inclusive risco de sequestro e assalto, mesmo na China.

Logo ali, um casal chinês parecia tentar o mesmo. Com gestos, sem qualquer palavra, conseguimos nos comunicar e compartilhar o transporte. Um carro negro, acionado por celular, chegava em instantes. Poderia ser um táxi do mercado paralelo. O mais provável era ser de empresa de transporte por aplicativo. A Didi Chuxing comprou a operação da Uber no país em 2016 e anunciou no início deste ano o investimento de US$100 milhões na brasileira 99 Táxi. É o maior aplicativo de transporte urbano da China.

Os arredores da Tiananmen Square já anunciavam a multidão que se preparava para a comemoração oficial. Está entre as 10 maiores praças do mundo com 440 mil metros quadrados (880 m X 500 m). Famosa mundialmente pelos protestos contra o governo e o massacre de civis, em Junho de 1989.

De máscara antipoluição, e sem dizer palavra, a chinesa recusa minha oferta de contribuir com o transporte. Seguimos juntos. O casal não desgrudaria de nós nem um momento, parecia sentir-se responsável pelos estrangeiros. Assim é o povo chinês, tem perfil de bom anfitrião.

Atravessamos o sistema de segurança e afundamos na multidão. Mar de gente. Alguns com patrióticas bandeiras vermelhas, outros com adesivos nas bochechas. Crianças nos ombros dos pais tentando ver o invisível. Oceano de celulares.

Atualmente a celebração é muito simples. Alguns tambores, que escutamos à distância, o hasteamento da bandeira e revoada de pássaros. Apesar da Independência da China ter ocorrido em 21 de Setembro, foi em 1 de Outubro de 1949 a formação do Governo Central, assim esta data é anunciada formalmente como da criação da República Popular da China.

Tudo começa e termina rapidamente, logo após clarear, ainda com neblina incessante. Todos veem pouco. O mais interessante é sentir o pulso da capital, interagir com as pessoas por sorrisos e acenos, registrar o momento, sentir-se comprimido pela massa humana.

Pouco depois da madrugada ter abandonado a praça, guardas dão a ordem de retirada por alto-falante e fazem a multidão se mover. Fácil de compreender. O local permanece bloqueado pelo cordão humano de soldados, com idades a partir dos 14, 15 anos. Impecáveis em suas posturas, são jovens que optaram pela carreira militar.

 

Seguimos nosso caminho, tudo muito fluido e ordenado, apesar do excesso de gente e do hábito chinês de empurrar as pessoas para conquistar espaço ou passagem. Estava na expectativa de como seria chegar ao país em pleno feriado prolongado, apesar de tantos alertas para evitar a “Semana Dourada”.

Sim, os chineses congestionam mesmo as ruas e vão à visitação e às compras. Caminham pelos calçadões, alternam-se entre as lojas de quinquilharias, mercados de rua e as gigantes boutiques com famosas marcas internacionais.

Já havia estado aqui em data festiva, há um ano e meio, na expedição De Mochila pela Ásia. Era o Dia do Trabalho, 1 de Maio.  Sempre divertido, acolhedor e instigante. Pode ser difícil se transportar pelo país, mas, para um mochileiro solitário, não é preciso evitar as multidões na capital da China.

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Ike Weber inicia nova expedição pela Ásia http://ikeweber.com/ike-weber-inicia-nova-expedicao-pela-asia/ http://ikeweber.com/ike-weber-inicia-nova-expedicao-pela-asia/#respond Fri, 29 Sep 2017 23:02:36 +0000 http://ikeweber.com/?p=2345 Íntegra de matéria do jornal Gazeta do Povo.

Em sua terceira expedição, curitibano conta como “largar tudo” e viajar pelo mundo

Jornalista, fotógrafo e viajante curitibano Ike Weber se prepara para uma jornada de três meses pela China, Coreia do Norte e do Sul, Japão e Taiwan.

Foto: Daniel Caron/Gazeta do Povo.

Ike Weber vai ao Extremo Oriente. O jornalista, fotógrafo e viajante curitibano se prepara para uma jornada de três meses pela ChinaCoreia do Norte e do SulJapão e Taiwan.

É sua terceira grande viagem. Na primeira, ele levou 11 meses para ir do Peru ao Alascaentre 2012 e 2013. Na segunda, foi de Hong Kong à Rússia em um itinerário de sete meses, de 2015 a 2016.

Elas importam porque não servem só pra matar a vontade de fazer passeios longos e sem data para terminar, desejo que Weber tem desde que fazia mochilões na adolescência. São “expedições jornalísticas e culturais”, como ele gosta de chamar, que depois viram um monte de histórias contadas em livros, palestras, exposições e oficinas.

O formato também foge do turismo usual. Weber viaja sempre sozinho, usando o meio de transporte que tiver à mão. Num dia pode ser trem; no outro, bicicleta e até cavalo.

Ike na China, em 2016. Foto: Acervo pessoal

A relação com os lugares é de imersão: o jornalista tenta se aproximar das pessoas que moram lá e conhecer a vida que levam. E documenta tudo para produzir reportagens e conteúdo (uma parte pode ser vista em seu site).

A expedição ao Extremo Oriente começa nesta quinta-feira (28). O ponto de partida será Pequim, capital da China, de onde Weber seguirá para a Coreia do Norte — um de seus principais interesses nesta viagem.

“Sempre vou muito aberto [para as expedições]. Vou para as regiões mais variadas pelo interesse que tenho em conhecer tudo. Mas tenho interesses específicos nessa região. A realidade bizarra da Coreia é um deles e, coincidentemente, estou indo em um momento de bravata ou possível guerra”, conta, em entrevista ao Viver Bem.

As exigências que o jornalista teve de cumprir para visitar o país foram a etapa mais trabalhosa do planejamento.

Da Coreia do Norte, o jornalista volta para a China. Ele vai percorrer a costa oriental do país, de onde seguirá, por água, para a Coreia do Sul.

Em seguida, ruma para o Japão, também por mar, antes passar por Taiwan e encerrar a viagem, novamente, em Pequim.

Weber conta que também está particularmente interessado em estudar, durante a viagem, as inovações das chamadas “cidades inteligentes” na Ásia.

Serão cinco em sua rota: Seul e Songdo (Coreia do Sul), Tóquio (Japão), Taipei (Taiwan) e Hong Kong (China).

A volta está marcada para as vésperas da virada do ano.

Escolha

Em sua primeira expedição, entre 2012 e 2013, Weber levou 11 meses para ir do Peru ao Alasca, passando por Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Guatemala, México e Estados Unidos. Foto: Acervo pessoal

Juntando tudo até aqui, são mais de dois anos fora de casa. “Meu objetivo é ter um cotidiano de viagem”, diz, contando como concilia o projeto com a família e o trabalho. “Quando você viaja a longo prazo, sua vida é a viagem”, explica.

Quem está lendo isso de crachá e com vista para uma divisória deve estar se perguntando quanto custa ser um “viajante”, e quem é que pode fazer algo assim.

Pelos cálculos de Weber, a conta dá uma média de 30 dólares por dia em países em desenvolvimento na Ásia e na América Latina, incluindo hospedagem, alimentação e transporte terrestre. Em lugares mais caros, como Estados Unidos, Japão, Hong Kong e Coreia, gasta-se uns 50.

Esse valor não inclui as passagens de avião e é suficiente apenas para uma viagem padrão aventura (hospedagem é em hostel e comida, às vezes, é de supermercado).

O custo total também inclui abrir mão do emprego e, em geral, não saber como vai ser retomar a carreira na volta.

Weber não deu exatamente um salto no escuro. Em 2012, quando deixou o cargo de diretor de Comunicação do Sistema Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) para ter seu período sabático, tinha portas abertas para voltar.

A expedição, no entanto, acabou engrenando como projeto profissional — cerca de 70% do que Weber gastou na primeira viagem voltou por meio de editais, parcerias, palestras e conteúdo jornalístico. A segunda já começou com 50% do custo financiado desse jeito.

Alasca, ponto final da primeira expedição de Ike Weber, em 2013. Foto: Acervo pessoal

O jornalista nunca voltou ao emprego. “Não me arrependo. Fiquei nove anos lá. Poderia ter ficado 20, mas o que teria feito?”, reflete Weber, que tem 50 anos e duas filhas — uma de 27 e uma de 1 ano e 4 meses.

Ele diz que perder um salário fixo e estar “do lado de fora” é mais difícil, mas que as experiências que esta forma de viver propicia acabam compensando. “Viajar ajuda a dar sentido ao que realmente vale a pena”, filosofa.

Link original: http://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/turismo/ike-weber-coreia/

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Moscou: histórica, culta e bela http://ikeweber.com/moscou-historica-culta-e-bela/ http://ikeweber.com/moscou-historica-culta-e-bela/#respond Thu, 19 May 2016 20:22:51 +0000 http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/de-mochila-pela-asia/?p=389 Fonte iluminada em praça da capital russa

O clima de Maio convida para desfrutar das praças de Moscou, mesmo à noite

São onze e meia da noite de uma sexta-feira de primavera em Moscou. Os pais levam o menino de menos de cinco anos à praça para praticar na minúscula bicicleta, sem rodinhas de apoio. O garoto se empacota após a rampa de calçamento, protegido pelo capacete. Levanta-se com a ajuda paterna e segue para a descida menos íngreme.

Além dessa pequena família, várias outras passeiam pelo iluminado centro da capital russa. Dividem espaço com estrangeiros de diversas origens, senhoras de idade, casais de namorados e grupos de amigos. O ponteiro do Kremlim chega perto da meia noite e algumas lojas de rua seguem abertas, portas escancaradas.

Na escuridão da alameda, o motorista desce e deixa o carro ligado enquanto compra o cartão de rua para estacionamento. Casais se embalam em balanços duplos, a cobertura de um dos inúmeros teatros pisca e as estátuas e monumentos estão impávidos, destacados pelo céu escuro. Mulheres rumam sozinhas para o lar na solidão do início da madrugada. A capital é segura, limpa e encontra-se serena.

As luzes enfeitam, sem exagero

O prédio do Ministério da Defesa é hoje um moderno centro de controle das Forças Armadas

O cenário colorido pelas luzes revela o bom gosto de uma nação que um dia já esteve fechada ao mundo. Sem os excessos do neon, brilham em harmonia as construções históricas e religiosas, nesse importante centro político, econômico, cultural, financeiro e científico.

Tá, se você realmente circular por Moscou vai encontrar bêbados pedindo dinheiro e até homens de meia idade, sacolas à mão, trajados melhor do que este viajante, esmolando com insistência e talvez com alguma agressividade repentina ao falar. Certo incômodo, mas esporádico. Irrelevante em um lugar dos mais bonitos que já conheci.

Maio é a melhor época para descobrir a cidade

Os imensos parques da cidade oferecem opções de esportes, descanso e entretenimento

Esta época começa a esquentar, mas o ar permanece fresco e a temperatura, durante o dia, fica em torno dos vinte graus. Bastante agradável para descobrir a cidade, costumeiramente gelada. Como o sol se põe bastante tarde há claridade até oito e meia da noite, pelo menos.

O centro histórico se enche de gente, decoração e vida, em Maio

No Festival de Páscoa, a cidade é enfeitada com flores, guirlandas e outros adereços

O mês de maio é de comemorações. Há um intenso festival de Páscoa e celebrações pela vitória do país sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. A metrópole se apresenta enfeitada com flores e adornada por guirlandas.

O 9 de Maio é das mais importantes datas festivas em Moscow

Crianças são costumeiramente uniformizadas na celebração do dia da vitória contra os nazistas, na Segunda Guerra Mundial

Moscou é a terra do ballet Bolshoi e de diversos teatros; da gigantesca Praça Vermelha e do mausoléu de Lênin. Tem pelo menos 60 museus de conteúdos variados: história, guerra, literatura, artes, teatro e música, carros, robótica, técnicos e científicos. O catolicismo ortodoxo é forte, então é comum encontrar igrejas e catedrais em toda parte, frequentadas por mulheres de cabeça coberta. Aliás, quanto à beleza todos sabemos ser muito difícil rivalizar com a mulher brasileira, mas, me desculpem, as russas são fenomenais.

A capital da Rússia tem a arquitetura bem preservada

Arquitetura secular, monumentos e prédios históricos preenchem todo o centro de Moscou

O metrô é outro espetáculo. Nos primeiros momentos apresenta apenas seus rudes ares soviéticos, é cinza e lembra o passado comunista. Aos poucos descortina a beleza de estações decoradas com pinturas e murais, adornadas com destaques em gesso e lustres requintados, revestidas em mármore e pavimentadas com granito. É o mais profundo do mundo, boas dezenas de metro baixo terra.

Enquanto nossa Curitiba se debate entre a polêmica e a incapacidade de construir eficiente transporte público subterrâneo, o metrô de Moscou passa dos 80 anos com 182 estações e linhas que permitem o deslocamento por toda a cidade. A maior parte do atendimento nos guichês é realizada por pessoas de certa idade, boa oportunidade de ocupação e permanência no mercado de trabalho.

Cada parada do metrô é uma surpresa e uma nova descoberta

As estações do metrô são uma galeria de arte

O caminhão passa repetidamente lançando água no asfalto e praças. É metrópole limpa, de 12 milhões habitantes, a segunda mais populosa da Europa. Logo acima a furgoneta aciona esfregões sobre as calçadas. As lixeiras respeitam a arquitetura secular.

A capital russa tem extensa malha ferroviária, é equipada com quatro aeroportos e concentra centros comerciais e prédios fabulosos, em formatos ousados. A moeda local, o rublo, tem cotação média de 65 para um dólar.

É impactante a modernidade da capital russa

Os edifícios da área moderna ousam no formato e tamanho

Apesar do tamanho, é uma cidade prática. Sim, já estive nas principais e mais charmosas cidades do mundo, das de visitação obrigatória como Paris, Londres, Roma e Nova Iorque: exóticas como Atenas e Cairo;  contemporâneas como são Vancouver, Milão e Chicago: até à requintada Viena; à imensa Cidade do México e à inteligente Barcelona, para citar algumas.

Será que me esqueci da magia das outras ou a capital da Rússia é mesmo extremamente cativante?

Moscou é uma metrópole completa

O rio Moskva acompanha o centro da cidade e permite passeios de barco, na temporada de calor

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Três momentos em uma grande muralha http://ikeweber.com/tres-momentos-em-uma-grande-muralha/ http://ikeweber.com/tres-momentos-em-uma-grande-muralha/#respond Sun, 08 May 2016 16:36:50 +0000 http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/de-mochila-pela-asia/?p=377 O paredão passa por área de fazendas

O trecho não restaurado está em terras áridas, na província de Shanxi

O primeiro cenário é da Grande Muralha da China em seu espaço e com características originais, sem ter sido restaurada nos tempos modernos e longe de qualquer atividade comercial ou exploração turística. Está no meio de áridas montanhas, perto de comunidade rural em uma das vilas mais pobres do país, na província de Shanxi, no centro-norte.

A área está mais próxima do que um dia foi a autêntica estrutura militar, na China Imperial. A muralha começou a ser construída há dois mil e duzentos anos, na Dinastia Qin (221 a 207 a.C.), e seguiu em transformação até o período Ming (1.368 a 1.644). A obra é na verdade um conjunto formado por diversas muralhas edificadas separadamente e depois unificadas.

A Grande Muralha começou a ser construída há 2,2 mil anos

A muralha é formada pela unificação de diversos paredões seculares

O tamanho aproximado – segundo o último levantamento de arqueólogos do próprio governo chinês – indica que pode ser de 21 mil quilômetros de extensão. A estimativa de 2009 acusava comprimento de 8.851 quilômetros.

Essa diferença e a falta de exatidão quando à dimensão da obra deve-se ao fato de que boa parte da fortificação foi erguida com terra batida – e não com pedras e tijolos – que desapareceu com o passo dos anos. Outra parte da estrutura deve ter sido utilizada como material de construção em aldeias próximas. Conta a lenda que até ossos de trabalhadores mortos estão entre a argamassa do paredão.

Boa parte desapareceu ou foi aproveitada em aldeias vizinhas

O material utilizado era variado, de terra e barro à pedras e tijolos

A altura é variável, em média 7,5 metros. Sempre se imaginou que a barreira começou a ser levantada para proteger os antigos impérios das tribos vizinhas, vindas do Norte. No entanto, historiadores acreditam que a dinastia Qin não corria grande perigo quando a obra foi iniciada, seria então uma preparação para ameaças futuras.

Centenas de milhares de homens foram recrutadas para o trabalho, entre soldados, camponeses e prisioneiros. Como primeiro unificador da China, Qin Shi huang começou a conectar a muralha, ampliada depois pelos sucessivos reinos.

A Grande Muralha da China era intercalada por milhares de torres de observação e vigia. De cada ponto os guardas observavam a movimentação e estabeleciam comunicação por fumaça, fogo e bandeiras. Transpor a muralha até poderia ser possível, mas sem muita rapidez, e nunca a cavalo. Apesar do tamanho e da vigilância, a imensa parede não conteve o avanço mongol, a partir do século XIII, e sua consequente dominação.

Desde as torres, a comunicação era feita com fumaça e bandeiras

O paredão era composto de várias torres de vigia para reforçar a segurança

O segundo cenário é de Badaling, um dos mais importantes trechos da Grande Muralha, totalmente restaurado e com quase quatro quilômetros abertos ao trânsito de visitantes. É sem dúvida o ponto mais turístico da edificação, com áreas de restaurantes, lojas de souvenires, hotéis e multidões diárias de turistas.

Badaling é área restaurada e famosa

No trecho mais turístico, multidões abarrotam as paredes da muralha

Foi restaurada nos anos 50 e reconstruída na década de 80, a 70 quilômetros de Beijing, a capital chinesa. Optei por conhecer esse trecho para vivenciar o contraste entre as duas distintas partes da mesma muralha.

A terceira imagem é de trecho restaurado, porém absolutamente tranquilo. Em hiking sobre o paredão é possível se afastar facilmente dos grupos de turistas, em sua grande maioria chineses, pouco dados ao esforço físico ou caminhadas em trajetos íngremes e longas distâncias.

Os chineses não são dados a esforço físico

Após meia hora de caminhada é possível se ver livre das multidões de turistas

O paredão é tão impressionante que se acreditava possível o avistamento desde a lua, ou por astronautas em órbita da Terra, o que depois foi desmistificado.

Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

É mito dizer que a Grande Muralha é visível desde o espaço

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O Feriado do Trabalho na China http://ikeweber.com/o-feriado-do-trabalho-na-china/ http://ikeweber.com/o-feriado-do-trabalho-na-china/#respond Sun, 01 May 2016 16:06:14 +0000 http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/de-mochila-pela-asia/?p=368 Essa talvez seja a maior praça do mundo

A Praça da Paz Celestial é centro de visitação bem procurado no Dia do Trabalho

É normalmente moroso se movimentar em Beijing, a capital da China. Porém, nada complicado, apesar do tamanho e de seus 22 milhões de habitantes. A metrópole tem um eficiente sistema de transporte público que inclui 15 linhas de metrô, o que torna possível ir a qualquer parte da cidade por baixo da terra. São Paulo, outra cidade gigante e com densidade demográfica semelhante, oferece apenas cinco linhas de transporte subterrâneo.

É eficiente o sistema de transporte público da capital

O metrô de Beijing conta com 15 linhas que cobrem toda a cidade

O cotidiano é de filas, ruas cheias e estações de metrô, ônibus e de trem, sempre movimentadas. Nada passa perto, no entanto, das multidões do Dia do Trabalho, um dos três grandes feriados do calendário chinês. Os outros dois são o Dia Nacional, em primeiro de Outubro, e o Ano Novo Chinês, em Fevereiro.

O feriado do Dia do Trabalho é uma festa de confraternização, mas principalmente de passeio para os chineses. Acostumados a curtos períodos de férias, é nas datas festivas que ganham as ruas ou se deslocam pelo país. As filas, sempre grandes, aumentam consideravelmente. Dobram quarteirões para pegar ônibus até a região da Grande Muralha. Transformam-se em ondas de gente nos pontos turísticos.

Os pontos turísticos ficam abarrotados no Dia do Trabalho

Multidão atravessa um dos portões da Cidade Proibida

Para caminhar em meio à massa é preciso tranquilidade e paciência. Necessário saber ocupar cada espaço vago a sua frente. O povo é extremamente pacífico e, diferente de boa parte dos latinos, jamais cria confusão. Em um mês viajando pela China não vi qualquer manifestação de agressão física ou verbal. No entanto, a maioria é pouco educada, empurra, não respeita fila e tem pouca consideração com os demais. Não fazem por mal, é a cartilha da sobrevivência no país mais populoso do mundo.

Escolhi um dos dias mais congestionados para visitar a principal atração da China, a Cidade Proibida. Bem, não foi exatamente uma escolha, no dia anterior os ingressos estavam esgotados. O número de visitantes é limitado a 80 mil pessoas por dia, o que pode não significar muito em um país com 1,4 bilhão de pessoas.

No interior dos pavilhões e praças, as multidões se dissipam

Depois de vencer as ondas humanas, é possível encontrar sossego na Cidade Proibida

Saí às 10 h da manhã do meu hostel e demorei uma hora para entrar na atração, após pegar duas linhas de metrô e vencer todos os procedimentos: área de segurança, centro de visitantes, centro de serviço e portões de acesso. Isso porque havia comprado meu ingresso antecipadamente, pela internet. Ainda bem que o lugar é imenso e no interior das praças, palácios e pavilhões, as multidões se dissipam.

A Praça da Paz Celestial é ponto central no feriado do trabalho. Além de circular pela possivelmente maior praça pública do mundo, com 440 mil metros quadrados, os chineses apreciam as construções em estilo soviético e, principalmente, a formação e marcha das guardas governamentais. Tian´anmén, como é chamado o local, é o centro simbólico do universo chinês, concebido pelo controverso líder nacionalista Mao Tse Tung para projetar o Partido Comunista.

A movimentação da guarda governamental atrai a atenção dos chineses

Guarda em formação na Praça da Paz Celestial

Na história recente, a Praça da Paz Celestial ficou marcada pelo massacre promovido pelo próprio governo, ao reprimir com força os protestos contra o regime político. Liderada por estudantes, em 1989, a manifestação pacífica se opunha ao regime e à situação econômica da época. A imagem que correu o mundo foi a do desconhecido invadindo a praça e se postando em frente aos tanques de guerra. Foi considerado uma das pessoas mais influentes do século XX, pela revista americana Time.

A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Um dos portais voltados para a Praça da Paz Celestial destaca o rosto do líder Mao Tse Tung

Ainda que cansativa, é única a experiência de estar na capital da China numa data tão importante e movimentada. Talvez um momento para se vivenciar apenas uma vez na vida.

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O pintor, a calígrafa e o caçador de relíquias http://ikeweber.com/o-pintor-a-caligrafa-e-o-cacador-de-reliquias/ http://ikeweber.com/o-pintor-a-caligrafa-e-o-cacador-de-reliquias/#respond Sun, 24 Apr 2016 15:22:04 +0000 http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/de-mochila-pela-asia/?p=357 A partir dos anos 50 os caracteres foram simplificados

A caligrafia chinesa existe em cinco diferentes estilos

Entramos na loja para admirar a caligrafia chinesa, uma das inúmeras expressões artísticas do país. Como estrangeiro, fui repentinamente convidado para um chá pelo dono do estabelecimento, um pintor local. Ali mesmo, em uma mesa instalada entre livros, pinturas, papéis e caracteres Han. Não estava só, toda a conversa foi traduzida pelo meu novo amigo chinês, Shunyao Jin, um jovem estudante de Ciências da Computação da província de Shandóng.

A filha do artista praticava a arte de desenhar os caracteres que historicamente existem em cinco diferentes estilos. A caligrafia chinesa é um sistema de origem remota, talvez perdido no tempo. Confúcio fazia referência à escrita antes de 2.000 a.C. Cada sinograma representa um conceito, por isso a comunicação é chamada de logográfica – e não mais ideográfica – já que não simboliza uma ideia concreta. Entre os anos 50 e 60 os caracteres foram simplificados, com a redução do número de traços.

A filha do pintor praticava a arte da escrita

A caligrafia da China é de origem remota

O pintor é especialista em figuras chinesas e cenas possíveis de serem vistas em templos budistas pelo país. A maior característica da arte nessa parte do mundo é o uso do traço. A força da expressão está na energia das pinceladas e na inserção de pontos.

As tonalidades variam conforme a densidade da tinta, preparada com barra sólida e água. Orgulhoso, o artista mostra recortes de jornal que divulgam seu talento e me presenteia com belos caracteres que significam uma conexão entre a China e meu país.

O diferencial da arte está nos traços e pontos

O artista, especialista em pinturas chinesas, ao lado de algumas de suas obras

O chá foi servido em uma cerimônia tradicional, mas cotidiana, simples. As diminutas xícaras recebem a bebida uma primeira vez, mas o chá é jogado fora, sobre uma estátua de madeira em forma de sapo. Serve para a limpeza dos utensílios. A bebida só é ingerida a partir do segundo ciclo, quando o sabor está mais refinado. As rodadas são sucessivas, a pequena xícara não fica vazia. O bule descansa sobre um delicado fogareiro. Tudo é arte no país.

Participei de cerimônia simples, mas simbólica

A primeira rodada de chá é descartada sobre estátua de madeira, em forma de sapo

Jin, como vamos chamar o meu amigo a partir de agora, é o exemplo da nova geração que compõe a ascendente classe média da China. Veio de boa família, estudou na melhor universidade da sua região e está aprendendo inglês por conta. Em dois meses começa a trabalhar na IBM, em Beijing, e pelo que suas capacidades indicam, seguramente terá uma carreira ascendente. Metade de seus colegas de classe já está fora do país, estudando ou trabalhando.

O estudante se forma e já começa a trabalhar na IBM, em dois meses

Jin é exemplo de jovem da classe média ascendente na China

O caçador de relíquias – amigo do pintor e também convidado para o bate papo – viaja pela China há pelo menos 20 anos. Busca tesouros da cultura ancestral para vender em sua loja, vizinha ao lugar onde apreciamos o chá. Especialmente peças em jade. A conversa flui entre temas como pinturas e suas representações, costumes do Brasil e as próximas Olimpíadas, do Rio de Janeiro.

As xícaras não descansam vazias. No princípio, a erva era cultivada para uso medicinal. Nos templos, os monges usavam o chá para ensinar o respeito pela natureza, a humildade e transmitir paz.

A conversa gira em torno das artes, da China e do Brasil

O chá é servido constantemente durante a conversa, em diminutas xícaras

Hoje estou vivenciando valores como esses, no contato com o povo chinês. São afáveis, amigáveis e extremamente hospitaleiros. São experiências assim que busco quando me atiro pelo mundo. Autênticas, muito além da visitação turística.

Desenhos assim são vistos também nos templos

Na energia das pinceladas, a alma da pintura chinesa

 

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Templo de Shaolin, onde nasceu o Kung Fu http://ikeweber.com/templo-de-shaolin-onde-nasceu-o-kung-fu/ http://ikeweber.com/templo-de-shaolin-onde-nasceu-o-kung-fu/#respond Tue, 19 Apr 2016 14:23:00 +0000 http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/de-mochila-pela-asia/?p=348 Primeiro a concentração para buscar força interna

O Kung Fu combina disciplina, técnica, concentração, flexibilidade e precisão

O primeiro passo, fundamental, é a concentração. A interiorização para captar força interna. Segundos depois o balão, instalado atrás de uma parede de vidro, é estourado com um prego. A velocidade e a precisão do movimento fazem com que o vidro não se rompa. O prego produz apenas um pequeno estilhaço e um furo, suficientes para atingir e explodir a bexiga de borracha.

A técnica é demonstrada por um aluno do Centro de Treinamento Wushu que mantém grupo educacional com escolas de nível fundamental, médio e até faculdade para interessados na prática do Kung Fu. Está localizado ao lado do tradicional Templo de Shaolin, onde surgiu a modalidade, na província de Hénán, no centro da China.

A arte marcial é praticada na China a partir dos quatro ou cinco anos de idade

O centro de treinamento para a prática de Kung Fu está ao lado do Templo de Shaolin

A história conta que o monge indiano Batuo (Bodhidarma), primeiro responsável pelo templo, criou um conjunto de exercícios para manter a saúde e a vitalidade dos demais monges, ao redor dos anos 500. Era preciso ter boa condição física para os exercícios de meditação, com o corpo imóvel por longos períodos. Baseada em movimentos de diversos animais e insetos, o sistema se tornou uma arte marcial difundida em todo o mundo.

A apresentação continua de forma impressionante, no centro de treinamento. Outro aluno encosta duas lanças pontiagudas na superfície do corpo entre a garganta e o peito e pressiona as lâminas até que se dobrem. O esforço e o sacrifício estão na essência do Kung Fu.

Disciplina é um dos valores da arte marcial

A apresentação de Kung Fu mostra técnicas impressionantes e a luta com armas brancas

O primeiro aluno de Batuo conquistou essa posição provando sua capacidade de entrega, devoção e persistência. Nevava muito quando o monge Huike se postou frente ao abrigo onde meditava Batuo. Pediu para se tornar um discípulo, mas ouviu que se neve vermelha caísse do céu esse pedido seria atendido. Huike cortou seu próprio braço, o esquerdo, e avermelhou a neve ao redor. Tornou-se o primeiro seguidor do mestre.

É por esse motivo que alguns monges do Templo de Shaolin, quando se inclinam em reverência, sustentam em posição de oração apenas a mão direita. O braço esquerdo segue descansando, ao lado do corpo, como simbolismo e respeito ao monge-primeiro discípulo.

O lugar conserva a paz e a inspiração

O Templo de Shaolin, onde o Kung Fu nasceu, baseado em movimentos de animais e insetos

O Templo de Shaolin está aninhado no vale formado entre as montanhas Song, local sagrado e origem da civilização chinesa. Ao redor há outras construções históricas, na área antigamente conhecida como “Centro do Céu e da Terra”. Infelizmente o templo foi alvo de ataques e destruição em guerras internas na China. O último incêndio, em 1928, exigiu a reconstrução de várias áreas e edificações.

Além da história, são impressionantes e reais as marcas deixadas pelos monges, nos pavilhões de treinamento. O solo afundado reflete a dinâmica, ilustra a persistência e comprova a exigência e a disciplina requeridas para a prática da modalidade marcial. A depressão no chão foi provocada pelos movimentos intensos com os pés. Árvores seculares estão furadas por dedos, após repetitivos impactos.

As árvores seculares mostram as marcas do treinamento

Os buracos nas árvores foram formados pelo impacto dos dedos

De todo o país – e por vezes do exterior – chegam jovens interessados no internato para treinamento. Há várias outras escolas fora dos arredores do templo, nos centros urbanos mais próximos. Boa parte dos alunos vem de famílias mais pobres e recebem uma oportunidade de estudo e de desenvolvimento físico, intelectual e emocional. Muitos foram premiados em competições, outras dezenas seguiram carreira militar ou na polícia.

O aprendizado é árduo e exige muita flexibilidade

Alunos de todas as regiões da China vêm treinar nos arredores de Shaolin

Apesar da multidão de chineses que visita o local, diariamente, o templo de Shaolin não recebe muitos estrangeiros e ainda preserva a atmosfera de paz e inspiração. O lugar continua mágico. O Kung Fu ainda é parte da alma da China.

A região conserva a magia

O Kung Fu está na alma da China

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A maior metrópole do mundo antigo http://ikeweber.com/a-maior-metropole-do-mundo-antigo/ http://ikeweber.com/a-maior-metropole-do-mundo-antigo/#respond Mon, 11 Apr 2016 15:15:48 +0000 http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/de-mochila-pela-asia/?p=336 O imperador Qin ordenou a construção da força armada para proteção no além

Os soldados guardam o mausoléu do primeiro unificador da China

Até hoje os guerreiros guardam o mausoléu do primeiro unificador da China. Qin Shi Huang horrorizava-se com a ideia de que os espíritos dos inimigos derrotados estivessem aguardando por ele no além. Ou talvez imaginasse que continuaria a governar após a morte. Os soldados entrincheirados seguem em formação militar, só que agora descobertos.

Foi recente e por acaso. Apenas em 1974, agricultores locais encontraram os primeiros vestígios das estátuas em terracota, ao cavar um poço em busca de água. Eram oito mil, escondidas em três zonas diferentes, cinco metros baixo terra, desde o final do século III a. C.. A maior zona escavada tem 14 mil metros quadrados. É uma das mais importantes revelações arqueológicas do planeta.

A descoberta foi por acaso, apenas em 1974

Oito mil estátuas em terracota estavam escondidas a cinco metros debaixo da terra

Cada peça foi criada em tamanho natural, cada soldado com uma feição diferente. Guerreiros, arqueiros, membros da infantaria em posição de tiro, além de outras centenas de cavalos e carruagens. Após ser modelada e queimada em forno, cada figura recebia camada de laca, para aumentar a durabilidade, e era colorida. Com o tempo e a exposição foram perdendo a tintura.

Os soldados tem tamanho natural

É uma das maiores descobertas arqueológicas do planeta

Estima-se que 700 mil operários e artesãos trabalharam na elaboração do conjunto de esculturas, por quase 40 anos. Surpreendente é imaginar que quase dois séculos antes do Brasil ter sido descoberto já havia tão elaborada manifestação artística na China.

Tudo tão extraordinário e surpreendente como é o país. Dentro da tumba supõe-se que corriam rios de mercúrio. Evidência atestada pela contaminação do solo na área, conforme detectaram cientistas. Por segurança, o mausoléu continua coberto por montanha de terra e ainda não está sendo explorado.

A escavação na área das estátuas segue, paciente e minuciosamente. Deve haver mais tesouros históricos na região. Até porque a tumba do primeiro imperador da dinastia Qin está a dois quilômetros de distância do ponto onde há a maior concentração de soldados terracota. O que pode haver no meio desse caminho?

O trabalho é minucioso e detalhado

As escavações da área continuam, pode haver mais tesouros enterrados

As estátuas dos guerreiros estão nos arredores da cidade que já foi a maior e mais moderna metrópole do mundo antigo: Xi`An, capital da província de Shaanxi, no centro-norte da China. A cidade começou a ganhar importância há três mil anos e até o século X foi o coração político do país.

Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

Xi´An, no centro-norte da China, já foi a principal cidade do mundo antigo

Terra de imperadores, poetas, guerreiros, monges e mercadores, era o início da famosa Rota da Seda que seguia por sete mil quilômetros ao oeste, no sentido da Europa e do Norte da África, cruzando regiões centrais da Ásia e áreas do Mediterrâneo. Dentre as cidades amuralhadas da China é a que tem os paredões mais intactos. Está rodeada por grossas paredes desde 1370, período da dinastia Ming.

Esse é outro espetáculo. Caminhando no topo das muralhas de 12 metros de altura, é possível se encantar com o antigo e o moderno, sem conflito. Ainda melhor, o contemporâneo e o ancestral se misturam de maneira delicada e até poética.

Os paredões têm 12 metros de altura

A cidade é rodeada por muralhas bem preservadas

As construções seculares são ladeadas por novas edificações, de estilo arquitetônico tradicional, decoradas por luzes e alimentadas por neon. Templos, vários museus e portais coabitam com galerias, edifícios e shoppings centers. Marcas famosas em vitrines estupendas espiam vendedores de comida e ambulantes de quinquilharias. A cidade é um retângulo perfeito, o que facilita a localização e o deslocamento, principalmente a pé.

A cidade é moderna e tem 6,5 milhões de habitantes

Hoje Xi`An está entre as maiores e mais importantes metrópoles da China

Hoje, com cerca de 6,5 milhões de habitantes, Xi´An voltou a ter uma posição de destaque no cenário cultural, educacional e industrial e está entre as principais megacidades da China. Os soldados terracota continuam guardando a tumba de seu governante e unificador. Em paz e em silêncio.

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