Expedição Extremo Oriente

O COTIDIANO DO VIAJANTE E A POUSADA FANTASMA

em 23 novembro, 2017

A minha primeira impressão da Coreia do Sul foi como a da imagem acima – muita poluição visual. Letras, placas, painéis e cartazes cobriam as fachadas dos edifícios, era difícil identificar cada ponto de comércio. Acabava de desembarcar no porto internacional de Incheon, uma viagem de 17 horas de ferry boat, atravessando o Mar Amarelo, desde a China.

Com três milhões de habitantes, Incheon é a terceira maior cidade do país e um hub de transporte do Extremo Oriente, com conexões aeroviárias, marítimas e terrestres. Desde aqui a Coreia se abriu para o mundo, com a instalação do porto industrial, em 1883.

Vieram então o primeiro hotel, o sistema postal, a Igreja Metodista, o mercado de arroz e as companhias internacionais, já presentes na China. Por haver dificuldade de acesso a Seoul, começou, em 1899, a construção da estrada de ferro. No início foi um desastre, as pessoas continuavam buscando transporte em cavalos, barcos, liteiras ou em palanquins.

Por dois dias exploraria a cidade e visitaria os projetos de Cidades Inteligentes instalados na região (você vai ver no próximo post). Para me instalar, levei em conta referências de outros viajantes e o preço, já que a Coreia do Sul é um país mais caro para viajar.

No Sudeste Asiático e na América Latina gastava em média US$30 por dia, tudo incluído: hospedagem, alimentação, água, transporte interno, visitas a museus ou a locais com entrada paga e qualquer custo extra. Faço viagens econômicas, de longo prazo, com despesas inferiores à vida cotidiana no Brasil.

Na China consegui manter a marca, apesar dos locais de visitação – vilas históricas e parques nacionais – geralmente cobrarem ingressos, caros. Na Coreia do Sul o orçamento diário foi ampliado, do contrário passaria fome ou não poderia circular pela nação. Já era previsto.

Em minhas expedições, jornalísticas, culturais e de aventura, sempre há um certo esforço para conhecer tudo, explorar novos lugares e manter o orçamento restrito. Não é a moleza de jantar em restaurantes caros, dormir em hotéis, circular de táxi, contratar guias ou viajar de avião.

O cotidiano do viajante inclui lavagem de roupas e até alguns consertos, como o do meu tênis que estava com a sola despegando. Achei um sapateiro de rua na cidade chinesa de Qingdao, onde esse tipo de ofício segue preservado.

A Better Guest House ficava longe do terminal – duas linhas de metrô, uma de ônibus e mais uma caminhada. Lugar impecável: sala ampla, assoalho brilhando, cozinha organizada, vasilhames distintos para separação do lixo e internet eficiente. Além disso, um bom ponto de partida para conhecer os arredores da cidade, região residencial.

Apesar da Coreia do Sul ser um país pequeno em extensão, 100 mil quilômetros quadrados, e ter população em torno de 50 milhões, é demorado transitar dentro das grandes cidades. Levava mais de hora e meia desde a pousada até o centro de Incheon. Após duas noites, resolvi mudar o pouso.

A guest house seguinte estava perto de importante estação de metrô, economizaria uns 40 minutos por dia. “Siga caminhando após a avenida, você vai ver uma fazenda do lado esquerdo e edifícios à direita”, era a orientação da hospedaria. Um pouco esquisito, mas de fato havia plantações de alfaces e outros vegetais em uma faixa estreita entre um e outro lado da rua. Uma pequena fazenda urbana.

“Toque a campainha, estamos no quinto andar”, explicava o dono. Atendi, mas nada. Uma, duas, três vezes. Esperei. Passaram duas mulheres, de meia idade. Acenaram, puxaram conversa. Nas duas maiores cidades da China – Beijing e Shanghai – isso é muito comum, em tentativas de golpe. As mulheres se aproximam, iniciam conversa e convidam para um chá ou drink. Uma vez dentro do estabelecimento, tem que pagar quando os comparsas apresentam uma conta exorbitante.

Não, não seria o mesmo aqui na Coreia do Sul. Mostraram um vídeo, em português, após perguntar de onde eu vinha. Queriam apenas me converter a alguma religião que falava em “Deus Mulher” e mostrava golfinhos, leões e pinguins.

Voltei a tocar a campainha e resolvi apelar para o vizinho, com gestos e sinais. Pedi por chamada telefônica. Apesar da maioria das pessoas – principalmente das gerações mais novas – estudar inglês nas escolas, são poucos os cidadãos aptos a estabelecer uma conversação fluente no idioma estrangeiro. É mito achar que nos países desenvolvidos todos falam inglês, bem.

O improviso funcionou e logo recebi instruções para entrar na casa. Lá dentro, o caos, lembrei dos acumuladores compulsivos. Meu cantinho era no sótão. O apartamento até poderia ser um daqueles cools de Nova Iorque, conceito “open space”, ambiente de artista. Não fosse a mobília velha, a geladeira cheirando comida vencida e os trastes sem utilidade espalhados.

“Hoje haverá mais um hóspede. Volte a hora que quiser, mas não feche a porta com muita força”, instruía o dono da guest house. “E deixe o pagamento debaixo do travesseiro, quando sair”, finalizou. Pedido diferente, mas cada cultura, uma prática.

Achei que estaria em um lugar de passagem, transitório, mas a cidade de Incheon é surpreendente. O centro antigo combina história, arquitetura, arte, design, entretenimento, parques e área verde, tudo com muito charme. Como sabemos, a cultura ocidental e o vínculo com os Estados Unidos é muito forte na nação.

O general norte americano, Douglas MacArthur, que comandou as forças aliadas no Pacífico, durante a II Guerra Mundial, e apoiou a Coreia do Sul na luta contra o comunismo, ganhou estátua no município. Incheon foi ponto estratégico durante a Guerra da Coreia.

O dia se faz extenso, nas longas expedições. Costumo ficar fora por 10 horas e depois trabalhar por outras quatro ou cinco horas, baixando e organizando fotos e vídeos; escrevendo, postando e respondendo mensagens; pesquisando sobre lugares, trajetos e fazendo algumas reservas; e ainda ajustando algum assunto ou pendência do Brasil.

Regressei às 22h, com ar gelado e o vento uivando atrás da porta do quarto. Tudo deserto, nenhum vestígio de que mais alguém tivesse passado a noite ali. Pensei que ao menos o dono morasse no apartamento.

Procurei câmeras escondidas, parecia estar sendo vigiado, a imaginação voava. Era uma pousada abandonada. Sensação interessante, de mistério, mas também de aconchego, por estar só. Viajar assim é interessante aprendizado, uma maravilhosa vivência.

O ar condicionado não me respeitou e insistiu em lançar ar fresco sobre o meu colchão. A noite seria uma escolha entre me esticar e abrigar os pés com o acolchoado fino e curto.

O dinheiro ainda debaixo do travesseiro.

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