De Mochila pelas Américas

O mar doce (parte I)

em 18 abril, 2013

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Os espanhóis acreditavam que haviam chegado ao Pacífico. De fato, o mar doce tem tubarões e ondas que chegam a três metros de altura, em dias de muito vento. Importante rota de navegação, o Lago da Nicarágua parece calmo e inofensivo visto da beirada de seus quase nove mil quilômetros quadrados.

A água explode na proa e invade o convés. Espirra nos viajantes que, como eu, escolheram atravessar a noite no segundo piso da embarcação, instalados em cadeiras de praia. O vento, com a água fria, alivia o calor do dia, perto dos 35 C.

Faz tremular as bandeiras coloridas: azul, amarela, vermelha, branca, verde e de novo azul. As mesmas cores do toldo que protege os mochileiros e distrai o andarilho enquanto o sono ainda custa a aportar. O barco balança.

A popa é carregada de bananas e caixas. Abriga também a bicicleta da alemã Anita, que desceu pedalando os Estados Unidos e pretende atingir o Panamá, em uma rotina de 100 km diários.

A parte mais baixa do barco, cheia e abafada, guarda apenas uma saída para os nicaraguenses que atravessam de uma das ilhas ou cidades à margem do lago para o povoado de San Carlos, no outro extremo. Lembra a área de terceira classe dos vapores norte americanos que navegavam pela região em meados do século XIX.

O irlandês ao meu lado cobre-se até à cabeça e, como um guaxinim enjaulado, coloca-se em posição fetal na espreguiçadeira. Chema, o espanhol que me acompanha nesta parte da viagem, acende um cigarro e se posiciona estrategicamente entre as portas dos dois banheiros, no convés. Parece-se com Gandhi.

Os responsáveis pelo carregamento de banana se instalam no chão, sobre pedaços de papelão. Descanso com o vento projetando-se em meu rosto. O maior lago da América Central se agita e chacoalha o barco. A lua, imensa e alaranjada, reflete na água. Faz frio.

A duas horas da chegada as gaivotas perseguem o barco, sinal de terra firme. O mar se transforma novamente em lago. Atravessar a imensidão consome 12 horas de viagem.

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