De Mochila pelas Américas

O momento mais difícil da viagem

em 1 fevereiro, 2013

Sozinho, num hotel imundo. O corpo todo coça em comichões. A cortina que faz às vezes de box é negra de sujeira. A espuma do colchão está mordida e rasgada, dentro do velho estrado de madeira da cama. Coço o corpo com a espuma do sabonete antibacteriano.

A vontade que dá é de rasgar a pele. Ou melhor, de sair do corpo. De pé, no box de cortina imunda, espero e torço pelo efeito milagroso do sabão. O quarto do hotel não tem janela, é abafado e retém o ar pesado.

A cidade de Santa Marta, na costa caribenha, é quente e a praia principal é suja. Melhor do que as ruas, imundas e calorentas. Um líquido sempre escorre pelas vielas, assim como deslizam pela minha memória as lembranças de Salvador. Suja.

Navios imensos aportados, de um lado. Na outra ponta estão estacionados inúmeros vendedores de quinquilharias e artesãos locais. A pele coça enquanto caminho pelos becos antigos. Sonâmbulo, em nada conseguindo me concentrar.

Essa etapa da viagem é pura sobrevivência: conseguir comer, dormir ou refugiar-me. Aguentar o comichão pelo corpo, assistindo as pelotas vermelhas tomando conta da pele. Agonia. Desespero. Recém-saído da clínica para checar se o cóccix não ficara comprometido com a pancada após a queda da rede de dormir, em um dos acampamentos de Teyuna (ler post anterior: caminhada à Cidade Perdida).

Momento mais difícil da viagem. O Caribe não é só um paraíso, agora vivo na entrada do inferno. Melhor ter tomado banho com sabonete e shampoo nesses últimos seis dias de mato, penso, equivocadamente.

Acordo na madrugada para tomar banho de álcool. Funciona. Consigo algumas horas a mais de sono. O quarto, sem janela, parece não querer me libertar. Preciso fugir de Santa Marta.

Em pé, junto à cortina imunda do box, espero o efeito do sabão milagroso enquanto penso na loção poderosa que vai me fazer sentir novamente livre. Vontade de rasgar a pele. Ânsia por fugir do corpo.

A mais difícil organização da mochila até agora. Vontade que dá é de queimar todas as roupas. Tudo sujo, visto a bermuda jeans, também imunda. Por ridículos COP 5 mil (R$ 6,25) prefiro pegar um táxi até o terminal de transportes. Não posso suar.

O micro-ônibus que segue a Cartagena passa antes por Barranquilla, cidade colombiana do Carnaval. Na lombada, homens que querem ser mulheres pedem dinheiro aos motoristas.

As favelas, ao redor, lembram a sarna. O corpo coça, não há tranquilidade. Jogo álcool nas pelotas, escondido dos demais passageiros. A longa experiência como viajante de aventura já me assoprava que não seria fácil. Não é o mesmo que fazer turismo em um resort no nordeste.

Não podendo fugir do corpo, deixo a cidade. Desapareço do banheiro com cortina suja. Longe do quarto sem janela, encontro o médico.

Aliviado, o diagnóstico. Não seriam ácaros, como apostava o vendedor da farmácia. Longe de serem picadas de insetos, como indicava o casal de mexicanos que caminhou comigo pela selva colombiana.

Salvo, não era a maldita sarna. Varicela, constata dr. Camilo, o médico. Doença infantil, que também ataca os adultos. Medicado, agora é descansar e recuperar. Mais difícil é o tratamento em trânsito, de mochila, igual a cachorro sarnento, chutado de um lado a outro, sem lugar fixo para ficar. Vou sair desta, vou superar.

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