De Mochila pelas Américas

O outro lado da natureza selvagem ou Pedofilia no Alaska

em 26 agosto, 2013

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Becos 17

História do viajante

Pelos becos do Alaska

Todos os que encontrei pela rua, naquele início de tarde chuvosa – que mais tarde viria a descobrir que era uma sexta-feira – estavam bêbados, drogados ou largados da vida. Mendigos com cara de descendentes de esquimó se encolhiam em bancos de rua.

Entro no hostel como quem adentra espaço privado, mas de ampla convivência. Já na porta só me deparo com tipos estranhos, caras cerradas. Ambiente diferente dos alojamentos compartilhados ao longo das três Américas.

No dormitório, saúdo o jovem amassado pela vida, estranhamente instalado na cama, de onde só sairia no dia seguinte. Eram duas da tarde. Não tive resposta e após a segunda saudação, recebo apenas um rígido menear de cabeça.

Equivocado pelas facilidades apregoadas pela internet, fiz a reserva na madrugada anterior, receoso de ser obrigado a perambular em busca de um canto vago, ou de ser submetido à ditadura dos preços altos, praticados em lugares famosos, distinguidos ou turísticos. Acabava de chegar ao Alaska, a última fronteira.

FBI e o choque

Final do dia, profundamente afundado no sofá, trabalho em crônicas e relatos da expedição, televisão de ampla tela plana instalada e ligada no salão comunitário. Decoração pobre, sem charme. Cozinha diminuta, frequentada por hóspedes e moradores próximos, atrás de um copo de café.

Não sei bem por que não me sentia nada confortável no lugar. Todos me caiam diferentes. Pareciam mais desocupados do que viajantes. Comunicação restrita, poucas palavras, alguns ruídos. Muito computador.

O oriental que assumiu o turno na recepção apenas grunhia em inglês. O moreno magricela empregava horas no jogo de paciência. O gordinho tatuado em ambos os braços, mãos e pescoço, orgulhava-se de ter conseguido emprego no restaurante de comida rápida e pasteurizada.

Pessoas mais mal vestidas do que eu – que há nove meses massacro as mesmas roupas – circulam por complicados espaços de forração cinza. E o jovem esfolado pelo diário viver anestesiado lá em cima, sem sair da cama.

A sensação de mal estar reduz a minha concentração para o trabalho. Bate a sonolência, após uma noite em que desfrutei de apenas três horas de sono. Continuamente afundado no almofadão de veludo encardido, cochilo por uma hora.

Acordo com o noticiário ligado, computador ao lado e a mochila, que apalpava enquanto dormia, presa às pernas. Foram poucos piscares até reconhecer na tela o gerente do hostel. Sim, do lugar esquisito onde acabara de me hospedar.

Tímido e bastante ressabiado, tentava explicar que não notara comportamento estranho do dono do estabelecimento, um cambojano há alguns anos também cidadão americano. A reportagem seguia, discorrendo sobre o envolvimento do acusado em crimes sexuais contra menores de idade.

Nos últimos quatro anos, o sujeito viajara 12 vezes ao Camboja, em busca de sexo com crianças de 11, 12, 13 anos de idade. Doente, filmava e arquivava tudo. Foi desmascarado por agente policial disfarçado, enquanto organizava excursão sexual ao sudeste asiático.

Chocado, o viajante apontava para a televisão, surpreso ao descobrir a origem da densa vibração do lugar onde passaria a noite. Era o último hóspede a se instalar no local. Os penúltimos, agentes de inteligência do FBI em investigação secreta.

O prédio, bem cuidado e azulado por fora, mantém avisos com normas estritas: visitas por no máximo 30 minutos e a proibição de menores de idade.

A primeira noite na última fronteira

Nenhum dos hóspedes era viajante. Perdedores do bruto jogo americano que trocaram as bordas da marginalização por um pouso barato.

Avança a noite. Passo pelo espaço contíguo onde há duas semanas mora o senhor que alterna a bombinha respiratória com o copo de destilado. Ocupo o meu beliche, ao lado do velho-jovem judiado pela vida.

Consigo sono reparador até perto das seis da manhã, quando sou despertado por gritos. Confusão no corredor, barulho no banheiro. E um senhor de pele escura e amplo bigode me chama para ajudar.

O jovem-velho-quase calvo estava caído no corredor. Salto do beliche desviando da bagunça que ele mesmo instalara no quarto e constato: o cara estava estatelado no chão, olhos abertos, pés molhados pela inundação do banheiro.

A primeira informação trazida pela mente é de que o jovem envelhecido, pele extremamente alva, tronco forte e pernas finas, teria se matado. De todos os becos, porões e cavernas do hostel explodem tipos estranhos.

Magrão mais alto do que o viajante, enfiado em camisas e jaquetas compridas, liga para o serviço de emergência.

O velho jovem desperta, movimenta a cabeça, cerra os olhos. Está vivo, percebo, aliviado. Levanta só, recusa a assistência emergencial, tropeça nas roupas, copos, embalagens, latas e garrafas que distribuiu pelo caminho e se deita novamente.

Mastigado pela vida, maltratado por si mesmo, segue socado na cama.

Poucas horas depois, arrumo a bagagem e deixo o hostel. Carrego na mochila mais uma experiência fascinante de viagem. Não vejo o jovem despertar.

 Notas do viajante:

  1. 1.    O fato é absolutamente verídico e o relato, baseado na vivência do viajante. O noticiário local detalha a história e informa a confissão do acusado.
  1. 2.    Os nomes do envolvido, do hostel e da cidade do Alaska foram propositalmente omitidos. Muita coisa ainda vai acontecer por lá.
  1. 3.    O gerente que concede informações à imprensa dá de ombros quando pergunto sobre o episódio do jovem caído no corredor. Parece que acontecimentos assim são normais no estabelecimento.

 

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