Os encantos do Hotel Washington não sobem escadas

Publicado em: 13/07/ 13

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Crônica do Viajante

Após 36 horas de viagem – 25h de ônibus e 11h de espera – chego ao Hotel Washington. Fico feliz em encontrar, faceiras, as baratas que brincam no espaço destinado ao chuveiro, acobertadas pela cortina plástica colorida. Sim, é mais de uma barata.

O hotel é daqueles tipos sombrios, sabe? Em que o senhor idoso e mal humorado fica trancado dentro de um quartinho na recepção, suspeitando de todos, e cobrando valor absurdo pela qualidade do estabelecimento.

A área do entorno está deserta. Passam alguns minutos da meia noite. Sustentado pelo café da manhã reforçado, à base de ovos mexidos com presunto e pasta de feijão, havia passado o resto do dia sem comer. Tudo já fechado em Hermosillo, a cidade que registrou 48 C como recorde de temperatura, em 1998.

Escolho um refrigerante e algum saquinho com doce industrializado, na máquina de venda automática. Torço para que funcione. A sombra dos Estados Unidos já se faz presente, a quatro horas da fronteira.

O ar condicionado, central, despeja para dentro do quarto baforadas do que deveria ser uma brisa fresca. O ambiente segue abafado, apesar do piso de lajotas e de não haver qualquer tipo de revestimento nas paredes, remendadas com argamassa e novamente cobertas por tinta salmão, em tom pastel.

Não se admitem visitas, parece prever a administração do lugar, com ares de motel brasileiro de beira-de-estrada. Não, não estou comparando com aqueles sofisticados, que têm jogos de luzes, cama redonda e espelho no teto. Mas sim com aqueles outros, plantados onde nada há de civilização.

Não esperava mais encontrar no meu caminho este tipo de espelunca, após já ter ficado em 90 acomodações diferentes ao longo da jornada. Era a opção econômica mais indicada para a região, segundo o guia de viagem.

O hotel tem seus encantos, todos instalados no hall de entrada. Nenhum deles conseguiu subir as escadas e entrar nos quartos. É provável que o ponto mais forte seja a simpatia e a cordialidade do dono, contrastando com o resto do ambiente.

Talvez o melhor seja usar a técnica do “dormir o mais breve possível”, e fazer que nada vi. Não veria os inúmeros buracos no lençol que um dia nasceu branco. Não veria a sujeira e os restos de materiais cuidadosamente esquecidos, logo ali fora. Não veria o emaranhado de finos cabides de arame, entrelaçados sobre a minha cabeça.

Sim, essa seria a melhor alternativa. Um pouco difícil para quem sofreu de insônia por estresse ao longo de cinco anos e ainda finaliza tratamento médico.

Primeiro, tomar algumas decisões profiláticas. Estudo o que seria melhor: deixar a toalha no banheiro, habitado por um sem número de espécies involutivas, ou deixá-la repousando na árvore raquítica de cabides. Trago-a para minha companhia, com suas pontas encardidas.

Com cuidado abro o pacote com dois bolinhos de chocolate. Não quero que as baratas sequer percebam o movimento. Seguramente há mais entre os ocos do quarto. Faço o mesmo com a lata de refrigerante.

O único copo oferecido pelo hotel repousa convidativamente sobre o cinzeiro, boca de um na boca de outro. O quarto tem um telefone azul enorme, pregado à parede. Desses que se parecem a um orelhão. “Este aparelho só serve para receber chamadas” – a plaqueta exibe a intrigante mensagem em letras visíveis.

Penso em dormir de roupa, a mesma calça das cavalgadas pelo deserto, certamente mais limpa do que a roupa de cama do covil. Abro a janela, não suporto mais o calor. Mais de uma semana em terras altas me fez esquecer como pode ser horrivelmente desagradável o clima tórrido do México, no verão.

Busco no corredor externo algum interruptor que me ajude a reduzir a claridade que penetra pela cortina e se intromete no quarto abrasado. Nada. Imagino como é possível o repouso dos demais hóspedes. Penso melhor. Talvez não haja qualquer outro hóspede na biboca.

Tiro a camiseta, enrolo na lâmpada fluorescente e torço. O bocal baila conosco. A luz não se apaga. Nova tentativa, segurando com a outra mão o bocal. Essa intimidade com as estruturas hoteleiras só se adquire depois de muito tempo dormindo em hotelitos, hostels, pulgueiros e toda a sorte de acomodação oferecida aos viajantes.

A lâmpada estoura na minha mão, protegida pelo trapo que se tornou a camiseta suja e suada, após oito meses de viagem. A luz se apaga, mas há outras sete ou oito distribuídas ao longo do pátio. Iluminação não é problema na alfurja.

Volto rápido para o quarto. Lembrei que deixei o último bolinho de chocolate descoberto e tudo o que não gostaria na ocasião seria outro encontro inesperado.

Deixo o banho para o dia seguinte, mais saudável será a higiene após me separar do colchão imundo. Sim, já estava certo. Pela manhã colheria os restos de barata do chuveiro e tomaria banho.

Pretendo sair cedo do hotel Washington. É impressionante como o viajante tem facilidade para criar um relacionamento próximo com esse tipo de algar.

É forte a ducha do Hotel Washington.

 


5 Comentários

  1. Guilherme Weber disse:

    #ontheroad# batesmotel# claricelispectoreasbaratas#
    “O hotel tem seus encantos, todos instalados no hall de entrada. Nenhum deles conseguiu subir as escadas e entrar nos quartos.”
    A frase acima é uma pérola! Boa para ser usada para dicas de viagem, rsrsrs…
    Clássico futuro do Trip Advisor!
    Lembro de um hotel a la Bates Motel que fiquei em Amsterdam, e ao comentar com um amigo com o centenário recepcionista parecia um vampiro, escutei do velho: morei em Belém por dez anos. Pronto, como andar pelos corredores sem o medo de levar uma facada de castigo??

  2. Marinho disse:

    Sem levar em conta seu infortúnio, Ike, o texto tá delicioso! E mostra onde não-ficar caso a gente decida, um dia, passar por ai….rsrs

  3. Ju Scheller disse:

    A riqueza na descrição dos detalhes nos arremessa para dentro desse hotel.
    Parabéns pelo texto e fotos!
    Bj


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