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China

Três momentos em uma grande muralha

em 8 maio, 2016
Em média, a parede tem 7,5 metros de altura
O paredão passa por área de fazendas

O trecho não restaurado está em terras áridas, na província de Shanxi

O primeiro cenário é da Grande Muralha da China em seu espaço e com características originais, sem ter sido restaurada nos tempos modernos e longe de qualquer atividade comercial ou exploração turística. Está no meio de áridas montanhas, perto de comunidade rural em uma das vilas mais pobres do país, na província de Shanxi, no centro-norte.

A área está mais próxima do que um dia foi a autêntica estrutura militar, na China Imperial. A muralha começou a ser construída há dois mil e duzentos anos, na Dinastia Qin (221 a 207 a.C.), e seguiu em transformação até o período Ming (1.368 a 1.644). A obra é na verdade um conjunto formado por diversas muralhas edificadas separadamente e depois unificadas.

A Grande Muralha começou a ser construída há 2,2 mil anos

A muralha é formada pela unificação de diversos paredões seculares

O tamanho aproximado – segundo o último levantamento de arqueólogos do próprio governo chinês – indica que pode ser de 21 mil quilômetros de extensão. A estimativa de 2009 acusava comprimento de 8.851 quilômetros.

Essa diferença e a falta de exatidão quando à dimensão da obra deve-se ao fato de que boa parte da fortificação foi erguida com terra batida – e não com pedras e tijolos – que desapareceu com o passo dos anos. Outra parte da estrutura deve ter sido utilizada como material de construção em aldeias próximas. Conta a lenda que até ossos de trabalhadores mortos estão entre a argamassa do paredão.

Boa parte desapareceu ou foi aproveitada em aldeias vizinhas

O material utilizado era variado, de terra e barro à pedras e tijolos

A altura é variável, em média 7,5 metros. Sempre se imaginou que a barreira começou a ser levantada para proteger os antigos impérios das tribos vizinhas, vindas do Norte. No entanto, historiadores acreditam que a dinastia Qin não corria grande perigo quando a obra foi iniciada, seria então uma preparação para ameaças futuras.

Centenas de milhares de homens foram recrutadas para o trabalho, entre soldados, camponeses e prisioneiros. Como primeiro unificador da China, Qin Shi huang começou a conectar a muralha, ampliada depois pelos sucessivos reinos.

A Grande Muralha da China era intercalada por milhares de torres de observação e vigia. De cada ponto os guardas observavam a movimentação e estabeleciam comunicação por fumaça, fogo e bandeiras. Transpor a muralha até poderia ser possível, mas sem muita rapidez, e nunca a cavalo. Apesar do tamanho e da vigilância, a imensa parede não conteve o avanço mongol, a partir do século XIII, e sua consequente dominação.

Desde as torres, a comunicação era feita com fumaça e bandeiras

O paredão era composto de várias torres de vigia para reforçar a segurança

O segundo cenário é de Badaling, um dos mais importantes trechos da Grande Muralha, totalmente restaurado e com quase quatro quilômetros abertos ao trânsito de visitantes. É sem dúvida o ponto mais turístico da edificação, com áreas de restaurantes, lojas de souvenires, hotéis e multidões diárias de turistas.

Badaling é área restaurada e famosa

No trecho mais turístico, multidões abarrotam as paredes da muralha

Foi restaurada nos anos 50 e reconstruída na década de 80, a 70 quilômetros de Beijing, a capital chinesa. Optei por conhecer esse trecho para vivenciar o contraste entre as duas distintas partes da mesma muralha.

A terceira imagem é de trecho restaurado, porém absolutamente tranquilo. Em hiking sobre o paredão é possível se afastar facilmente dos grupos de turistas, em sua grande maioria chineses, pouco dados ao esforço físico ou caminhadas em trajetos íngremes e longas distâncias.

Os chineses não são dados a esforço físico

Após meia hora de caminhada é possível se ver livre das multidões de turistas

O paredão é tão impressionante que se acreditava possível o avistamento desde a lua, ou por astronautas em órbita da Terra, o que depois foi desmistificado.

Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

É mito dizer que a Grande Muralha é visível desde o espaço

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China

O Feriado do Trabalho na China

em 1 maio, 2016
A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989
Essa talvez seja a maior praça do mundo

A Praça da Paz Celestial é centro de visitação bem procurado no Dia do Trabalho

É normalmente moroso se movimentar em Beijing, a capital da China. Porém, nada complicado, apesar do tamanho e de seus 22 milhões de habitantes. A metrópole tem um eficiente sistema de transporte público que inclui 15 linhas de metrô, o que torna possível ir a qualquer parte da cidade por baixo da terra. São Paulo, outra cidade gigante e com densidade demográfica semelhante, oferece apenas cinco linhas de transporte subterrâneo.

É eficiente o sistema de transporte público da capital

O metrô de Beijing conta com 15 linhas que cobrem toda a cidade

O cotidiano é de filas, ruas cheias e estações de metrô, ônibus e de trem, sempre movimentadas. Nada passa perto, no entanto, das multidões do Dia do Trabalho, um dos três grandes feriados do calendário chinês. Os outros dois são o Dia Nacional, em primeiro de Outubro, e o Ano Novo Chinês, em Fevereiro.

O feriado do Dia do Trabalho é uma festa de confraternização, mas principalmente de passeio para os chineses. Acostumados a curtos períodos de férias, é nas datas festivas que ganham as ruas ou se deslocam pelo país. As filas, sempre grandes, aumentam consideravelmente. Dobram quarteirões para pegar ônibus até a região da Grande Muralha. Transformam-se em ondas de gente nos pontos turísticos.

Os pontos turísticos ficam abarrotados no Dia do Trabalho

Multidão atravessa um dos portões da Cidade Proibida

Para caminhar em meio à massa é preciso tranquilidade e paciência. Necessário saber ocupar cada espaço vago a sua frente. O povo é extremamente pacífico e, diferente de boa parte dos latinos, jamais cria confusão. Em um mês viajando pela China não vi qualquer manifestação de agressão física ou verbal. No entanto, a maioria é pouco educada, empurra, não respeita fila e tem pouca consideração com os demais. Não fazem por mal, é a cartilha da sobrevivência no país mais populoso do mundo.

Escolhi um dos dias mais congestionados para visitar a principal atração da China, a Cidade Proibida. Bem, não foi exatamente uma escolha, no dia anterior os ingressos estavam esgotados. O número de visitantes é limitado a 80 mil pessoas por dia, o que pode não significar muito em um país com 1,4 bilhão de pessoas.

No interior dos pavilhões e praças, as multidões se dissipam

Depois de vencer as ondas humanas, é possível encontrar sossego na Cidade Proibida

Saí às 10 h da manhã do meu hostel e demorei uma hora para entrar na atração, após pegar duas linhas de metrô e vencer todos os procedimentos: área de segurança, centro de visitantes, centro de serviço e portões de acesso. Isso porque havia comprado meu ingresso antecipadamente, pela internet. Ainda bem que o lugar é imenso e no interior das praças, palácios e pavilhões, as multidões se dissipam.

A Praça da Paz Celestial é ponto central no feriado do trabalho. Além de circular pela possivelmente maior praça pública do mundo, com 440 mil metros quadrados, os chineses apreciam as construções em estilo soviético e, principalmente, a formação e marcha das guardas governamentais. Tian´anmén, como é chamado o local, é o centro simbólico do universo chinês, concebido pelo controverso líder nacionalista Mao Tse Tung para projetar o Partido Comunista.

A movimentação da guarda governamental atrai a atenção dos chineses

Guarda em formação na Praça da Paz Celestial

Na história recente, a Praça da Paz Celestial ficou marcada pelo massacre promovido pelo próprio governo, ao reprimir com força os protestos contra o regime político. Liderada por estudantes, em 1989, a manifestação pacífica se opunha ao regime e à situação econômica da época. A imagem que correu o mundo foi a do desconhecido invadindo a praça e se postando em frente aos tanques de guerra. Foi considerado uma das pessoas mais influentes do século XX, pela revista americana Time.

A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Um dos portais voltados para a Praça da Paz Celestial destaca o rosto do líder Mao Tse Tung

Ainda que cansativa, é única a experiência de estar na capital da China numa data tão importante e movimentada. Talvez um momento para se vivenciar apenas uma vez na vida.

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China

O pintor, a calígrafa e o caçador de relíquias

em 24 abril, 2016
A partir dos anos 50 os caracteres foram simplificados
A partir dos anos 50 os caracteres foram simplificados

A caligrafia chinesa existe em cinco diferentes estilos

Entramos na loja para admirar a caligrafia chinesa, uma das inúmeras expressões artísticas do país. Como estrangeiro, fui repentinamente convidado para um chá pelo dono do estabelecimento, um pintor local. Ali mesmo, em uma mesa instalada entre livros, pinturas, papéis e caracteres Han. Não estava só, toda a conversa foi traduzida pelo meu novo amigo chinês, Shunyao Jin, um jovem estudante de Ciências da Computação da província de Shandóng.

A filha do artista praticava a arte de desenhar os caracteres que historicamente existem em cinco diferentes estilos. A caligrafia chinesa é um sistema de origem remota, talvez perdido no tempo. Confúcio fazia referência à escrita antes de 2.000 a.C. Cada sinograma representa um conceito, por isso a comunicação é chamada de logográfica – e não mais ideográfica – já que não simboliza uma ideia concreta. Entre os anos 50 e 60 os caracteres foram simplificados, com a redução do número de traços.

A filha do pintor praticava a arte da escrita

A caligrafia da China é de origem remota

O pintor é especialista em figuras chinesas e cenas possíveis de serem vistas em templos budistas pelo país. A maior característica da arte nessa parte do mundo é o uso do traço. A força da expressão está na energia das pinceladas e na inserção de pontos.

As tonalidades variam conforme a densidade da tinta, preparada com barra sólida e água. Orgulhoso, o artista mostra recortes de jornal que divulgam seu talento e me presenteia com belos caracteres que significam uma conexão entre a China e meu país.

O diferencial da arte está nos traços e pontos

O artista, especialista em pinturas chinesas, ao lado de algumas de suas obras

O chá foi servido em uma cerimônia tradicional, mas cotidiana, simples. As diminutas xícaras recebem a bebida uma primeira vez, mas o chá é jogado fora, sobre uma estátua de madeira em forma de sapo. Serve para a limpeza dos utensílios. A bebida só é ingerida a partir do segundo ciclo, quando o sabor está mais refinado. As rodadas são sucessivas, a pequena xícara não fica vazia. O bule descansa sobre um delicado fogareiro. Tudo é arte no país.

Participei de cerimônia simples, mas simbólica

A primeira rodada de chá é descartada sobre estátua de madeira, em forma de sapo

Jin, como vamos chamar o meu amigo a partir de agora, é o exemplo da nova geração que compõe a ascendente classe média da China. Veio de boa família, estudou na melhor universidade da sua região e está aprendendo inglês por conta. Em dois meses começa a trabalhar na IBM, em Beijing, e pelo que suas capacidades indicam, seguramente terá uma carreira ascendente. Metade de seus colegas de classe já está fora do país, estudando ou trabalhando.

O estudante se forma e já começa a trabalhar na IBM, em dois meses

Jin é exemplo de jovem da classe média ascendente na China

O caçador de relíquias – amigo do pintor e também convidado para o bate papo – viaja pela China há pelo menos 20 anos. Busca tesouros da cultura ancestral para vender em sua loja, vizinha ao lugar onde apreciamos o chá. Especialmente peças em jade. A conversa flui entre temas como pinturas e suas representações, costumes do Brasil e as próximas Olimpíadas, do Rio de Janeiro.

As xícaras não descansam vazias. No princípio, a erva era cultivada para uso medicinal. Nos templos, os monges usavam o chá para ensinar o respeito pela natureza, a humildade e transmitir paz.

A conversa gira em torno das artes, da China e do Brasil

O chá é servido constantemente durante a conversa, em diminutas xícaras

Hoje estou vivenciando valores como esses, no contato com o povo chinês. São afáveis, amigáveis e extremamente hospitaleiros. São experiências assim que busco quando me atiro pelo mundo. Autênticas, muito além da visitação turística.

Desenhos assim são vistos também nos templos

Na energia das pinceladas, a alma da pintura chinesa

 

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China

Templo de Shaolin, onde nasceu o Kung Fu

em 19 abril, 2016
A região conserva a magia
Primeiro a concentração para buscar força interna

O Kung Fu combina disciplina, técnica, concentração, flexibilidade e precisão

O primeiro passo, fundamental, é a concentração. A interiorização para captar força interna. Segundos depois o balão, instalado atrás de uma parede de vidro, é estourado com um prego. A velocidade e a precisão do movimento fazem com que o vidro não se rompa. O prego produz apenas um pequeno estilhaço e um furo, suficientes para atingir e explodir a bexiga de borracha.

A técnica é demonstrada por um aluno do Centro de Treinamento Wushu que mantém grupo educacional com escolas de nível fundamental, médio e até faculdade para interessados na prática do Kung Fu. Está localizado ao lado do tradicional Templo de Shaolin, onde surgiu a modalidade, na província de Hénán, no centro da China.

A arte marcial é praticada na China a partir dos quatro ou cinco anos de idade

O centro de treinamento para a prática de Kung Fu está ao lado do Templo de Shaolin

A história conta que o monge indiano Batuo (Bodhidarma), primeiro responsável pelo templo, criou um conjunto de exercícios para manter a saúde e a vitalidade dos demais monges, ao redor dos anos 500. Era preciso ter boa condição física para os exercícios de meditação, com o corpo imóvel por longos períodos. Baseada em movimentos de diversos animais e insetos, o sistema se tornou uma arte marcial difundida em todo o mundo.

A apresentação continua de forma impressionante, no centro de treinamento. Outro aluno encosta duas lanças pontiagudas na superfície do corpo entre a garganta e o peito e pressiona as lâminas até que se dobrem. O esforço e o sacrifício estão na essência do Kung Fu.

Disciplina é um dos valores da arte marcial

A apresentação de Kung Fu mostra técnicas impressionantes e a luta com armas brancas

O primeiro aluno de Batuo conquistou essa posição provando sua capacidade de entrega, devoção e persistência. Nevava muito quando o monge Huike se postou frente ao abrigo onde meditava Batuo. Pediu para se tornar um discípulo, mas ouviu que se neve vermelha caísse do céu esse pedido seria atendido. Huike cortou seu próprio braço, o esquerdo, e avermelhou a neve ao redor. Tornou-se o primeiro seguidor do mestre.

É por esse motivo que alguns monges do Templo de Shaolin, quando se inclinam em reverência, sustentam em posição de oração apenas a mão direita. O braço esquerdo segue descansando, ao lado do corpo, como simbolismo e respeito ao monge-primeiro discípulo.

O lugar conserva a paz e a inspiração

O Templo de Shaolin, onde o Kung Fu nasceu, baseado em movimentos de animais e insetos

O Templo de Shaolin está aninhado no vale formado entre as montanhas Song, local sagrado e origem da civilização chinesa. Ao redor há outras construções históricas, na área antigamente conhecida como “Centro do Céu e da Terra”. Infelizmente o templo foi alvo de ataques e destruição em guerras internas na China. O último incêndio, em 1928, exigiu a reconstrução de várias áreas e edificações.

Além da história, são impressionantes e reais as marcas deixadas pelos monges, nos pavilhões de treinamento. O solo afundado reflete a dinâmica, ilustra a persistência e comprova a exigência e a disciplina requeridas para a prática da modalidade marcial. A depressão no chão foi provocada pelos movimentos intensos com os pés. Árvores seculares estão furadas por dedos, após repetitivos impactos.

As árvores seculares mostram as marcas do treinamento

Os buracos nas árvores foram formados pelo impacto dos dedos

De todo o país – e por vezes do exterior – chegam jovens interessados no internato para treinamento. Há várias outras escolas fora dos arredores do templo, nos centros urbanos mais próximos. Boa parte dos alunos vem de famílias mais pobres e recebem uma oportunidade de estudo e de desenvolvimento físico, intelectual e emocional. Muitos foram premiados em competições, outras dezenas seguiram carreira militar ou na polícia.

O aprendizado é árduo e exige muita flexibilidade

Alunos de todas as regiões da China vêm treinar nos arredores de Shaolin

Apesar da multidão de chineses que visita o local, diariamente, o templo de Shaolin não recebe muitos estrangeiros e ainda preserva a atmosfera de paz e inspiração. O lugar continua mágico. O Kung Fu ainda é parte da alma da China.

A região conserva a magia

O Kung Fu está na alma da China

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China

A maior metrópole do mundo antigo

em 11 abril, 2016
Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores
O imperador Qin ordenou a construção da força armada para proteção no além

Os soldados guardam o mausoléu do primeiro unificador da China

Até hoje os guerreiros guardam o mausoléu do primeiro unificador da China. Qin Shi Huang horrorizava-se com a ideia de que os espíritos dos inimigos derrotados estivessem aguardando por ele no além. Ou talvez imaginasse que continuaria a governar após a morte. Os soldados entrincheirados seguem em formação militar, só que agora descobertos.

Foi recente e por acaso. Apenas em 1974, agricultores locais encontraram os primeiros vestígios das estátuas em terracota, ao cavar um poço em busca de água. Eram oito mil, escondidas em três zonas diferentes, cinco metros baixo terra, desde o final do século III a. C.. A maior zona escavada tem 14 mil metros quadrados. É uma das mais importantes revelações arqueológicas do planeta.

A descoberta foi por acaso, apenas em 1974

Oito mil estátuas em terracota estavam escondidas a cinco metros debaixo da terra

Cada peça foi criada em tamanho natural, cada soldado com uma feição diferente. Guerreiros, arqueiros, membros da infantaria em posição de tiro, além de outras centenas de cavalos e carruagens. Após ser modelada e queimada em forno, cada figura recebia camada de laca, para aumentar a durabilidade, e era colorida. Com o tempo e a exposição foram perdendo a tintura.

Os soldados tem tamanho natural

É uma das maiores descobertas arqueológicas do planeta

Estima-se que 700 mil operários e artesãos trabalharam na elaboração do conjunto de esculturas, por quase 40 anos. Surpreendente é imaginar que quase dois séculos antes do Brasil ter sido descoberto já havia tão elaborada manifestação artística na China.

Tudo tão extraordinário e surpreendente como é o país. Dentro da tumba supõe-se que corriam rios de mercúrio. Evidência atestada pela contaminação do solo na área, conforme detectaram cientistas. Por segurança, o mausoléu continua coberto por montanha de terra e ainda não está sendo explorado.

A escavação na área das estátuas segue, paciente e minuciosamente. Deve haver mais tesouros históricos na região. Até porque a tumba do primeiro imperador da dinastia Qin está a dois quilômetros de distância do ponto onde há a maior concentração de soldados terracota. O que pode haver no meio desse caminho?

O trabalho é minucioso e detalhado

As escavações da área continuam, pode haver mais tesouros enterrados

As estátuas dos guerreiros estão nos arredores da cidade que já foi a maior e mais moderna metrópole do mundo antigo: Xi`An, capital da província de Shaanxi, no centro-norte da China. A cidade começou a ganhar importância há três mil anos e até o século X foi o coração político do país.

Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

Xi´An, no centro-norte da China, já foi a principal cidade do mundo antigo

Terra de imperadores, poetas, guerreiros, monges e mercadores, era o início da famosa Rota da Seda que seguia por sete mil quilômetros ao oeste, no sentido da Europa e do Norte da África, cruzando regiões centrais da Ásia e áreas do Mediterrâneo. Dentre as cidades amuralhadas da China é a que tem os paredões mais intactos. Está rodeada por grossas paredes desde 1370, período da dinastia Ming.

Esse é outro espetáculo. Caminhando no topo das muralhas de 12 metros de altura, é possível se encantar com o antigo e o moderno, sem conflito. Ainda melhor, o contemporâneo e o ancestral se misturam de maneira delicada e até poética.

Os paredões têm 12 metros de altura

A cidade é rodeada por muralhas bem preservadas

As construções seculares são ladeadas por novas edificações, de estilo arquitetônico tradicional, decoradas por luzes e alimentadas por neon. Templos, vários museus e portais coabitam com galerias, edifícios e shoppings centers. Marcas famosas em vitrines estupendas espiam vendedores de comida e ambulantes de quinquilharias. A cidade é um retângulo perfeito, o que facilita a localização e o deslocamento, principalmente a pé.

A cidade é moderna e tem 6,5 milhões de habitantes

Hoje Xi`An está entre as maiores e mais importantes metrópoles da China

Hoje, com cerca de 6,5 milhões de habitantes, Xi´An voltou a ter uma posição de destaque no cenário cultural, educacional e industrial e está entre as principais megacidades da China. Os soldados terracota continuam guardando a tumba de seu governante e unificador. Em paz e em silêncio.

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De Mochila pela Ásia

Os nômades que previram o tsunami

em 30 março, 2016
Um povo sem terra, pátria ou religião
Os Moken são conhecidos como ciganos do mar

Nenhum membro da comunidade Moken que vive na baía das Ilhas Surin morreu no tsunami de 2004

O pio dos pássaros, a lentidão provocada pelo castigo do sol e o burburinho da marola na praia de areias claras exige esforço de imaginação para reconstruir o horror vivido por Khao Lak, no sul da Tailândia, há pouco menos de 12 anos. A orla da região foi das mais atingidas pelo tsunami de 2004 que abarcou 12 países no Oceano Índico, da Indonésia à Somália.

Foram destruídas 430 mil casas

O tsunami matou 230 mil pessoas, em 12 países

Ao todo, as águas do mar mataram 230 mil pessoas, destruíram 430 mil casas, danificaram 100 mil barcos de pesca e apagaram 3,5 mil quilômetros de rodovias. Quase dois milhões de pessoas ficaram desabrigadas. Só em Khao Lak desapareceram 100, dos antigos 143 hotéis e pousadas.

Quase dois milhões de pessoas ficaram desabrigadas

As ondas tinham em torno de 30 metros de altura

Hoje a cena do verão tailandês repete o cotidiano do passado logo antes da tragédia, com ondas de mais de 30 metros de altura. Famílias tomam banho de sol nos resorts, crianças brincam à beira da piscina e aposentados caminham na areia, fugindo do inverno europeu.

Os tsunamis em geral são provocados por terremotos no solo oceânico que movimentam grande massa de água e formam ondas, em todas as direções. As vagas são ligeiras, viajam a 885 km/h, e podem avançar mais de três quilômetros em terra firme. Em águas profundas são pouco perceptíveis. Ganham tamanho quando se chocam com o fundo mais raso das praias.

O tailandês, na foto abaixo, tem 42 anos e estava dormindo em Phuket, a 80 quilômetros de Khao Lak, quando o tsunami chegou. Acordou dentro da água. Teve sorte. A crosta continental de Phuket, menos íngreme, segura o peso das ondas. O tsunami se alastra com mais força em praias longas e rasas, como as de Khao Lak.

O homem teve sorte porque o solo oceânico de Phuket segura o peso das ondas

O tailandês dormia em Phuket quando o tsunami começou

Nenhum membro da comunidade Moken que vive na baía de uma das ilhas Surin morreu no tsunami de 2004. Todos conseguiram fugir e acampar nas colinas, até a água baixar. A sabedoria dos ancestrais os ajudou a prever a catástrofe, eles sabiam que as ondas estavam chegando.

Um povo sem terra, pátria ou religião

A tribo Moken foi perseguida por piratas e escapou dos comerciantes de escravos

A tribo Moken é apelidada de “ciganos do mar” por sua característica nômade e essência livre. Viviam em barcos, no universo marítimo, sem terra ou religião. Foram perseguidos por piratas e caçados por comerciantes de escravos. Resistiram. Com o estreitamento das fronteiras e leis de imigração, terminaram obrigados a se assentar nas costas e ilhas da Tailândia, Myanmar e da Indonésia.

Vivem da pesca e da coleta de frutos e atualmente incrementam a renda vendendo artesanato para os visitantes. Os nativos enxergam melhor debaixo d´água do que a maioria das pessoas, pelo costume e acomodação do foco de visão. No arquipélago de Surin, as crianças vão à uma pequena escola e recebem educação tailandesa.

Os Moken vivem da pesca e da coleta de frutos

Com o estreitamento das fronteiras, a tribo nômade foi obrigada a se assentar na costa do Sudeste Asiático

As ilhas, a 60 quilômetros da costa de Andamán, foram estabelecidas como parque nacional marinho e, portanto, são bem preservadas. Não há estradas, hotéis e nem mesmo trilhas na mata. Apenas duas, das cinco ilhas, podem ser visitadas.

O tsunami do Oceano Índico foi provocado pelo quarto maior terremoto dos últimos 100 anos, 9,1 graus de intensidade. Chegou a alterar o balanço gravitacional do planeta.

Hoje Khao Lak não só tem rotas de fuga, como também mapas nas ruas para indicar a localização dos abrigos, em caso de uma nova ocorrência. O balneário estabeleceu um memorial e criou um museu para guardar a memória do acontecimento. Exibe vídeos chocantes com imagens de fuga e do início das inundações.

Mapas e placas estão espalhados pelo balneário

Khao Lak tem rotas de fuga e abrigos anti-tsunami

A localidade ainda vive a comoção da tragédia. Os coqueiros não oferecem apenas frutos. Dão suporte às homenagens aos que partiram muito cedo, em terras estranhas.

Há famílias que perderam mais de um parente na tragédia

Os coqueiros suportam mais do que o peso de seus frutos

 

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De Mochila pela Ásia

A indústria que massacra a Tailândia

em 20 março, 2016
Os paredões emergem do oceano
Tours, ofertas, pacotes e todo tipo de atração para turistas

Chiang Mai é o principal centro de concentração turística ao Norte da Tailândia

Sob a ótica da descoberta e das viagens, a Tailândia apresenta dois aspectos nitidamente marcados. O das maravilhas naturais, históricas e religiosas e o das multidões e exagerada exploração comercial. É preciso tempo, pesquisa e dedicação para encontrar o mais genuíno da nação.

Na mesma rota costeira, ao Sul do país, é possível vislumbrar praias belíssimas, sufocadas pela indústria do turismo, e também desfrutar de ilhas bem preservadas e sem urbanizar. Em poucos quilômetros de distância as diferenças são alarmantes e atingem até mesmo o comportamento dos locais. O esquema turístico torna os naturalmente aprazíveis e amistosos tailandeses em comerciantes impacientes e não raramente irritadiços ou mesmo agressivos.

Há muito ainda preservado no Sudeste Asiático

Viagem de longo prazo oferece mais tempo para descobrir lugares lindos, vazios e isolados

A Tailândia recebe anualmente um número de estrangeiros equivalente à população de sua capital, cerca de 10 milhões de habitantes. É fácil alcançar o país – Bangkok é um hub aeroviário – há estrutura e conforto, mais gente falando inglês e menos risco. Isso faz com que lugares que viveram dias de beleza imaculada, na longínqua época do movimento hippie, possam ser comparados hoje a uma Disneyworld em mês de Julho, o pico do movimento no parque temático.

Exemplo disso é Maya Bay na considerada paradisíaca ilha de Ko Phi Phi. O turista padrão salta da capital direto para esse ponto e acredita estar saboreando o máximo da costa de Andamán. Usa seus “paus de selfie” e divide pouco mais de 150 metros de areia com praticamente outras mil almas ingênuas, ansiosas por um retrato e por mostrar onde estiveram ao regressar a casa. Dê uma olhada na foto abaixo e você vai enxergar Copacabana no verão ou o Farol da Barra, em Salvador, em janeiro. Triste.

Mil pessoas em 150 metros de areia

Maya Bay, abarrotada de turistas internacionais, é exemplo da asfixiante indústria do turismo na Tailândia

Exagero? Não se você presenciar um guia local com microfone alardeando a fama do local desde que DiCaprio atuou ali para o filme “A praia”. Jamais combinaria com a paisagem de areias brancas, águas turquesa e monumentais paredões de rocha. Para incrementar o drama, quase uma centena de turistas ia atrás, entusiasmada com a fugaz importância cinematográfica do lugar.

O ápice da estupidez, na minha sincera opinião, foi encontrar um sujeito enchendo garrafinha de água mineral com areia da baía. “Vou mostrar para os amigos um pouquinho de Maya Bay”, deveria pensar, sem qualquer lampejo de consciência ambiental.  A fama só contribuiu para poluir e estragar o – um dia intocado – cenário.

Os paredões emergem do oceano

O Parque Nacional Marinho de Ko Phi Phi, área preservada e com magníficos paredões de rocha

Outro exemplo é a estrutura muito bem montada em Bangkok com a finalidade de movimentar multidões em vans pelos arredores da capital. Os turistas passam horas no veículo entre três ou quatro atrações diferentes, shows com cobras, espetáculos de macacos ou a antinatural oportunidade de se aproximar de um par de tigres dopados. A saída é geralmente da área de Khao San Road, uma área turística de algumas quadras, onde todas as noites os bares tocam conhecidas e antigas canções internacionais para entreter os clientes.

O turismo sem dúvida traz o seu lado positivo: gera empregos, distribui renda e impulsiona o país, o que torna a Tailândia um destino completamente seguro. O que lastimo é o fato de se tornar ferramenta de aculturação de uma nação. Elefantes não nasceram para desenhar, crocodilos não foram criados para se apresentar como animais domésticos e minorias étnicas não existem para representações turísticas ou para pedir esmolas e gorjetas.

Ainda existem no Sudeste da Ásia, e na própria Tailândia, lugares muito interessantes, bem mais autênticos, e paisagens belíssimas a proporcionar experiências enriquecedoras. Posso garantir, após cinco meses desta expedição jornalística, cultural e de aventura – sendo dois só na Tailândia. Porém dá mais trabalho para descobrir e mesmo para chegar; exige mais flexibilidade e senso de adaptação, e, por vezes, surgem perrengues a enfrentar.

Longe do óbvio, perto da natureza

Lugares mais desertos exigem pesquisa, esforço e flexibilidade para visitação e descoberta

Na ilha maravilhosa que descrevi no post passado, acordei de madrugada com um camundongo correndo na cabeceira do meu colchão, sobre o estrado de bambu. Claro que não gosto disso, sou uma pessoa normal, ainda que com certo espírito aventureiro. Mas, faz parte da trajetória.

De qualquer maneira, se cabe aqui alguma sugestão, digo que se esforce, não opte rapidamente pela opção óbvia, comercial e mais fácil, ainda que você prefira o conforto e não seja um viajante de longo prazo. Garanto que vai compensar, e muito. Viajar é diferente de fazer turismo.

A ilha secreta onde estive por uma semana

Vale à pena o esforço para evitar o óbvio e sair do esquema comercial e turístico

 “Travel is like marriage.

The certain way to be wrong
is to think you control it”

John Steinbeck (1902 – 1968)

 

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De Mochila pela Ásia

A ilha perfumada

em 15 março, 2016
A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia
A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia

Quebrei as costelas, mudei o roteiro e encontrei o paraíso

Quase certeza, tenho, de que encontrei o paraíso para recuperar minhas três costelas partidas. Decidi continuar a expedição, mesmo após o acidente de moto, há alguns dias. Porém, precisava de um intervalo para recuperação. Mudei o roteiro, o Norte da Tailândia exigiria mais esforço físico, deslocamentos de motocicleta e mudança de hospedagem a cada dois ou três dias. Teria um baixo aproveitamento na exploração da região montanhosa. Desci novamente ao Sul do país.

O paraíso é uma ilha muito tranquila e rústica, possivelmente uma das menos urbanizadas e exploradas da Tailândia. Não há lojas, hotéis de luxo, rodovias pavimentadas e tampouco carros. Por outro lado, existem macacos, muita mata nativa e uma comunidade local maravilhosa. Lagartixas gigantes, outros répteis e, eventualmente cobras, completam o cenário. É um habitat de pássaros raros e diferentes como o “hornbill”, de corpo preto e branco, penacho e proeminente bico amarelado. Lembra um tucano.

Aqui não há hotéis de luxo, lojas ou rodovias

O paraíso é uma ilha tranquila e isolada no Sul da Tailândia

Lógico, a concepção do Nirvana varia conforme o perfil e a personalidade de cada pessoa. Há os que preferem vida simples e um estilo pé na areia e os que optam por mais conforto e sofisticação. Para mim está mais do que bom o bangalô de bambu, a rede na varanda, o banheiro com ducha manual de água fria e descarga de balde.

A  vida "pé na areia"

Mais que suficiente o meu bangalô de bambu sem ponto de energia e com descarga de balde

Ar condicionado (rs)? Não, não tem nem ventilador. A energia elétrica, de gerador a diesel, é fornecida por poucas horas, quando começa a escurecer. Claro que não há internet e a água vem de poços artesianos. Mas mesmo em março, o mês em que começa a esquentar para valer na Tailândia, a ilha fica razoavelmente fresca, à noite. Oferece brisa suave e cheira a sabonete de frutas ao entardecer.

Tudo chega de barco à ilha

A comunidade local é pequena e extremamente gentil

Fiz um bom esforço para chegar, 35 horas de viagem. Um sacrifício, pelas minhas condições físicas, desde o extremo Norte do país até a costa Sul. Foram nove meios de transporte diferentes, a começar com um táxi compartilhado, chamado aqui de “sörngtäaou” (fala-se “sonteo’) e um trem, em segunda classe, sem cama.

Não conseguia cochilar, com todas as luzes do vagão acesas, o tempo todo. Por vezes o cotovelo do meu vizinho, um professor aposentado de 64 anos, cutucava minhas costelas sadias. Enquanto dormia agarrado à bolsa de corino marrom, o malaio pisava meu pé, incessantemente.

Saltei para o banco de trás e tentei bloquear a luz com os óculos escuros falsificados, sem muito sucesso. Tinha ainda que acomodar as escoriações do braço e dos joelhos, para que não tornassem a abrir. Minha mochila, agora bem magrinha, me acompanhava no compartimento superior. Viu-se livre de roupas, papéis, pequenos objetos, uma excelente jaqueta semi-impermeável e até de alguns medicamentos. Não podia seguir com muito peso, conforme recomendação médica.

O trem atravessou a noite, sempre com as luzes do vagão acesas

Foram 35 horas de viagem e nove diferentes meios de transporte para alcançar meu destino

Cedinho em Bangkok, peguei um trem urbano, uma linha de metrô, caminhei e embarquei em um ônibus de linha até uma das estações rodoviárias da capital. De lá foram mais 12 horas ensanduichado, dormindo à prestação, mais um táxi compartilhado e um barco lento.

Na ilha, os cajus maduros despencam dos galhos das árvores, o mar murmura em sua missão de cobrir e descobrir as rochas, a areia molhada é sedosa sob os pés e os caranguejos multicoloridos fogem desesperados ante a aproximação do viajante. A água do oceano é macia, quente e caudalosa. Salgada, torna-se fácil boiar. Não há muitos mosquitos e pernilongos.

Expedição de longo prazo intercala esforço e relaxamento

Todo aventureiro tem os seus dias de descanso, principalmente depois de vários perrengues

Na primeira noite voltei dentro d´água para meu bangalô. Saí à tardinha, assisti ao maior sol da minha vida finalizar o dia mergulhando no mar, e retornei quase a nado, com a subida da maré. Claro, havia outro caminho pela mata que eu ainda não conhecia. Mas, quer algo mais fascinante do que chegar ao pouso com água até os ombros?

As manifestações da natureza são nossa maior riqueza

Vi o maior sol da minha vida mergulhar no oceano

O toque de recolher no paraíso é às 22h, mas depois disso ainda dá para curtir a escuridão, na vegetação, ou apreciar no céu as estrelas. Não devo revelar o nome desse local sagrado. Não por egoísmo, com o maior prazer dividirei com amigos e pessoas queridas de destino à Tailândia. Porém, simplesmente tornar público uma ilha quase imaculada seria atentar contra a sua pureza. Por enquanto é ótimo recordar do mar que à noite resmungava à minha porta. Se o paraíso não for ali é logo dobrando a esquina, disso estou seguro.

O mar é quente, transparente e caudaloso

À noite o mar resmungava a minha porta

 

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De Mochila pela Ásia

Nem sempre é reto, plano e florido o caminho

em 4 março, 2016
Campos de girassóis na Tailândia
Campos de girassóis na Tailândia

A expedição De Mochila pela Ásia tem sido uma experiência fascinante, mas nem sempre fácil

A expedição De Mochila pela Ásia tem sido uma experiência surpreendente, intensa, profunda, bonita, interessante, mas também difícil. Fascinante, sempre. Tenho me alegrado bastante, sorrido muito e me emocionado. Sempre me divirto, porém, por vezes também sofro.

Como agora, com três costelas quebradas, escoriações nos joelhos, braços e mãos e certa perda de rumo. Sim, sofri um acidente de moto, me estrebuchei no asfalto, no centro da Tailândia.

Voei da moto para o asfalto

A princípio imaginei ter sofrido apenas escoriações pelo corpo

A princípio achei que não era grave, o susto e o impacto me deixaram atordoados. Poderia até considerar bobo esse acidente, pelas condições em que o episódio ocorreu. Olha que já estava alugando e viajando de moto há quatro meses, sem qualquer problema.

A primeira falha foi da administração do parque histórico de Kamphoeng Phet, o qual visitava. Colocaram duas lombadas em sequência sem qualquer aviso, pintura ou sinalização. Baixas, mas muito compactas, daquelas bem duras, sabe?

Vinha com algum embalo e passei rápido pela primeira, sem ver. Os objetos assentados em cima da moto saltaram e, no instinto, tentei segurar. Aí foi o meu erro, me desequilibrei, derrapei e fui projetado ao solo.

A moto deslizou no asfalto e eu fui parar com o nariz encostado na segunda lombada, a 20 metros da primeira. Pela adrenalina do momento, parecia que não tinha me machucado muito. Levantei, sacudi a poeira, observei os machucados, ergui e acionei a moto e continuei.

O desequilíbrio repentino foi provocado por duas lombadas em sequência, sem sinalização

A marca no chão foi feita pela moto arrastada na pista

A câmera fotográfica, antes pendurada a um lado do meu corpo, partira. O visor foi deslocado e as imagens apareciam completamente desfocadas. O equipamento, após chocar-se contra o solo, impactou e pressionou meus ossos.

Segui, porém avariado, bem menos concentrado. Ao finalizar o dia, parti para remédio contra a dor e tratamento das feridas, com álcool e pomada antibactericida. Por estar mais desgastado do que o normal, o dia seguinte passei trabalhando no computador e só saí à noite para acompanhar as festividades em homenagem a Buddha.

Quatro dias se passaram, suspendi a medicação e a dor continuava, agora se irradiando pelas costas. Acionei o seguro saúde e fui atendido num hospital de primeira linha, na cidade de Chiang Mai, ao Norte do país. Passei por exames iniciais, fiz uma radiografia e sentei numas 10 cadeiras diferentes até receber o diagnóstico.

Relutei até acionar o seguro e ir ao hospital

Atendimento eficiente no hospital de Chiang Mai

O centro médico está acostumado com pacientes de outros países, tem inclusive um balcão para atendimento internacional, além de profissionais com nível de inglês acima da média. Enquanto esperava, conversei um pouco com um senhor que havia quebrado a perna esquerda, após voar das escadarias da sua pousada.

O mais cômico (ou seria triste) era o fato dele estar sendo acompanhado por uma pessoa exageradamente perfumada e com roupas de gosto duvidoso. Fiquei em dúvida se a criatura com as unhas dos pés tingidas de azul e uma expressão indefinida seria uma prostituta com paupérrima apresentação ou mesmo um travesti. Pode achar estranho, mas não consegui identificar com exatidão.

Na Tailândia é comum alguns homens, principalmente mais jovens, assumirem certos traços da personalidade se fantasiando de mulher. Vi diversos, trabalhando de vestido ou usando “maria-chiquinha” em lojas de conveniência.

A pancada foi forte. Foram danificadas as costelas 5,6 e 9. Não achei pouco, ainda que as fraturas possam ter sido incompletas, ou seja, não saíram do lugar. A dúvida era como continuar agora, para onde ir, o que fazer? Primeiro segui o rito médico e, após a sentença, retirei a medicação na farmácia, instalada no próprio hospital. Serviço eficiente, ao custo de US$115, cobertos pelo seguro viagem.

A câmera fotográfica, consertei antes de começar a tratar as costelas, numa assistência autorizada, por US$22, quase perfeita.

Meu corpo sofreu os primeiros impactos e protegeu o veículo,  que tombou para o outro lado

A scooter sofreu poucas avarias

“Só não pode carregar muito peso”, orienta o médico. E dizer isso logo para um viajante de mochila, sedento por aventuras. Sem dúvida, esse é o momento mais difícil da expedição. Pode soar esquisito, mas sinto as costelas se moverem e estalarem dentro do tronco, principalmente quando deito ou me viro na cama.

O braço e as costelas do lado direito foram mais afetados

As escoriações saram rápido, as fraturas exigem tempo e paciência

Agora, remédios e algum repouso porque a medicação provoca sono. As fraturas, nervosismo e irritação. Dia seguinte visitei um templo. Um não, acho que seis ou sete. Preciso encontrar meu rumo, ainda dói quando respiro profundamente.

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De Mochila pela Ásia

Bangkok, Tailândia

em 1 março, 2016
Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok
São famosos e maravilhosos os imensos templos de Bangkok

A capital da Tailândia venera Buda em todas as formas, estilos e tamanhos

Bangkok é uma cidade para quem dorme cedo e também para quem acorda tarde. Está viva. Há atividades diversificadas nas 24 horas do dia. Cosmopolita, acolhe visitantes do mundo todo, é um importante hub do sudeste asiático com conexões de voos para todos os continentes. Lugar onde o inglês já não é mais uma barreira tão difícil de ser transposta.

Segura, muito segura, a qualquer hora da noite. Cheguei de madrugada, peguei ônibus de linha, desci numa avenida e caminhei de mochila às costas procurando hostel, pensão ou pousada. Com a maior tranquilidade. Há moradores de rua, assim como também há policiamento e muita paz, típico do perfil asiático.

Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok

A cidade é cosmopolita, recebe moradores e visitantes de todo o mundo

A malandragem está com os taxistas, que resistem em usar o taxímetro, e com os motoristas de tuk tuks que superfaturam qualquer pequena corrida. Esses triciclos são a praga do Sudeste Asiático. A Embaixada do Brasil na Tailândia sugere que o visitante evite o tuk tuk porque são muitos os casos em que o motorista não leva o passageiro ao destino e tenta convencê-lo a sair para comprar em lojas onde recebe comissão, entre outras trapaças (leia post sobre tentativa de extorsão em tuk tuk no Laos clicando em http://migre.me/t1yn5).

Bangkok se move. Lenta e rapidamente. Devagar pelos congestionamentos e tráfego pesado. Rápido de trem e metrô. Por água, de barco e com ferry boat. Talvez essa agitação toda tenha absorvido a afabilidade natural dos habitantes. Nas áreas de grande concentração de estrangeiros, os tailandeses se mostram bem impacientes, repelem perguntas e contestações, expõem a face rude da cidade grande.

Há as mais variadas formas de transporte

A cidade se move por terra e por água

A Tailândia é um país que louva a alimentação e em Bangkok você pode comer de tudo: dos pratos típicos e acondimentados à comida do ocidente; de pizza a quitutes de rua; de fast food a insetos e aracnídeos. Provei um escorpião no espeto, tem gosto de… nada, é como casca frita.

É possível encontrar todo tipo de comida na Tailândia

Provei escorpião frito que tem gosto de nada

Sucos de frutas e batidos são diversos. Tudo é saboroso. À parte dos frutos do mar, da típica massa oriental com frango ou camarão; das castanhas e do arroz, há deliciosas sobremesas. Sorvetes servidos na casca de côco ou finos pães com omelete e cobertura de leite condensado, por exemplo.

Os pratos são geralmente muito acondimentados

A comida de rua é farta, variada e barata

Dá para dividir em duas grandes áreas a cidade: a parte da realeza e  lugares históricos e a região moderna. Na primeira estão edifícios religiosos belíssimos, com o Wat Pho, o maior e mais antigo templo da cidade e que abriga a mais completa coleção de estátuas de Buda da Tailândia; e o Grande Palácio, antiga residência dos reis tailandeses. É a cidade que venera Buda – o príncipe transcendido, Sidhartha Gautama – em todas as formas, tipos e tamanhos. Sempre com recato. Se não estiver vestido ou coberto adequadamente, pode emprestar saia ou calça nos guichês de ingresso aos santuários.

Templos e palácios são das maiores atrações na capital

Palácio Real que serviu como residência da monarquia, hoje usado para celebrações especiais

Na parte nova, gigantes centros comerciais e de compra se conectam com hotéis e restaurantes, enquanto passarelas alçam voo sobre avenidas. As ruas mudam de cor segundo a projeção de imensos painéis de neon e de letreiros cinematográficos. Quando as portas dos enormes shoppings centers se abrem, os potentes ares condicionados refrescam até meio quarteirão.

O complexo de compras mais sofisticado reúne três shoppings: Sim Center, Siam Discovery e Siam Paragon, este último com oito andares, dois só para entretenimento. A praça de alimentação tem quiosques especializados em qualquer tipo de comida, oriental e ocidental. As compras são feitas com cartão de débito do shopping, abastecido num quiosque central.

Siam Paragon é dos shoppings mais modernos

Os complexos comerciais são sofisticados e conectados com restaurantes, bares e hotéis

Virou mania construir santuários na frente dos hotéis chiques, depois que edificaram o de Erawan, na época por considerarem que as forças negativas atrasavam a construção do Grande Hotel Hyatt e provocavam acidentes e mortes. Mas foi ali o cenário do atentado que matou moradores e estrangeiros, em agosto do ano passado. É um templo hindu num país essencialmente budista.

Inúmeros santuários foram construídos em frente aos hotéis da cidade moderna

O Santuário de Erawan foi palco de atentado no ano passado

Tem espaço para todo mundo em Bangkok. Espremidas debaixo de pontes, pequenas barraquinhas de comida e tendas de bugigangas coabitam com redes de supermercado, luxuosos restaurantes envidraçados e lojas de marca.

A cidade é tão extraordinária que circulei por duas semanas e ainda poderia ficar mais alguns dias com atividades totalmente diferentes. Há um mercado imenso, só de flores; museus lúdicos e interativos; ginásios com apresentações do real Muay Thai; apresentações de orquestras à beira do rio; imensos bazares e mercado noturnos; e muitos rapazes travestidos de mulher trabalhando no comércio. Com o crescimento da cidade, os antigos canais estão para virar lenda, mas ainda é possível se surpreender com táxis náuticos e barcos grandes, com motores potentes.

O crescimento da capital vai transformando quase que em lenda os estreitos canais

O transporte pelos canais de Bangkok são cada vez mais raros, mas ainda existe

A honestidade local é admirável. Dentro de uma van, na área central da cidade, recebi uma cestinha de plástico com várias moedas e notas de bath, o dinheiro deles. “Coloque o dinheiro na cesta e passe adiante”, explicou-me o rapaz. “Assim, sem recibo?”, confirmei. Depositei os 30 baths, cerca de um dólar, e segui viagem pela cidade. Gratificante.

O antigo e o contemporâneo coabitam a capital

Mulheres em trajes tribais vendem artesanato em área turística de Bangkok

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