De Mochila pelas Américas

Peregrinação e perigo na fronteira

em 20 dezembro, 2012


Fronteira 1
Fronteira 2
Fronteira 3
Fronteira 4

A dificuldade para obter informações precisas é o primeiro obstáculo para cruzar a fronteira do Peru com o Equador, a partir do povoado litorâneo de Tumbes, no extremo norte do país. A criminalidade, comum em muitas regiões fronteiriças, é o segundo entrave. Assim foram três horas de intensa pressão psicológica até que eu conseguisse chegar ao vilarejo de Huaquillas e seguir viagem para Cuenca, em terras equatorianas.

Dia de fronteira é sempre mais complicado, então dormi bem na noite anterior e tomei um lanche reforçado. Não sabia até que horas iria a jornada ou quando comeria novamente. A movimentação começou por volta das 8h30, quando, seguindo a orientação da proprietária da hospedagem Franco, onde estava, segui em direção à Cooperativa Internacional Fronteiriça Associada (Cifa).

A todo custo, a sra Olívia insistia para que eu deixasse as mochilas e seguisse sem nada, primeiro comprar a passagem internacional. “Se não te assaltam”, alarmava-se. Embarquei numa moto-táxi e segui até o ponto que reúne as empresas de ônibus que trafegam para fora do país. Nenhum ônibus sairia naquele dia, por “pequenos problemas” que a funcionária da cooperativa não pode ou não quis detalhar.

Decidido a atravessar a fronteira e pegar um ônibus já no Equador, voltei ao hostel e tentei a indicação de um taxista de confiança. “Aqui acontecem muitos sequestros com estrangeiros, não gostaria de indicar”, apavorou-se e apavorou-me a dona do estabelecimento.

Segui então a pé para encontrar a van de transporte coletivo que me levaria até o bairro de Águas Verdes, zona de muita agitação e comércio popular, onde todos apontavam que estaria o centro de imigração peruano. Assim dizia o guia de viagem, assim confirmou a recepcionista do escritório oficial de assistência ao turista. Assim emendou a senhora que faz a vida com o hotel Franco, próximo à praça principal de Tumbes.

Trajeto confirmado, passagem negociada, já depositava minha mochila no estreito bagageiro da judiada van, quando o anjo da guarda apareceu na forma de um chileno, homem que aparentava não mais dos que os seus 35 ou 36 anos.

“É estrangeiro?”, soltou a pergunta de resposta óbvia. “Porque também sou, vivo aqui há um ano e o escritório de imigração mudou, para outro ponto, bem mais distante”. Explicou-me o chileno sobre o crescimento da criminalidade no bairro comercial e a necessidade de chegar de carro para cruzar a fronteira.

Traumatizado, havia sido assaltado por dois motoqueiros, recentemente. Ficou sem a maleta, dinheiro e documentos. “Vá sem nada, estão assaltando por qualquer quantia”, desesperava-se.

Uma mochila robusta nas costas, outra mediana no peito e o corpo banhado de suor pelo calor de 30C, voltei à hospedagem. Não havia como fazer o trajeto apenas para sondar o ambiente, eu precisava realmente cruzar a fronteira.

Consigo então no hotel um taxista recomendado, o simpático Carlos Rodriguez, que queria 30 soles (R$24,00), sem negociação, para percorrer os 30 km até o novo posto de passagem. Aceitei.

Na breve viagem até à imigração, o taxista me relatava os perigos do bairro La Merced, onde vive, e para onde eu me dirigia no dia anterior ao voltar da praia, novamente tapeado pelo meu senso de direção.

O bairro havia melhorado, após anos de dominação pelo tráfico de drogas, mas continua violento. “Ali não tem jeito, se você porta bagagem ou objetos caem quatro, cinco, em cima de você e não te deixam nada”, acrescenta Carlos. Mais um relato anexado à sequência de episódios ouvidos por este viajante.

O resto do trajeto foi tranquilo. Cheguei às novas e modernas instalações na fronteira, fiz o trâmite de saída do Peru, preenchi a tarjeta andina de imigração e em meia hora tinha o passaporte carimbado. Estava no Equador.

Por dois dólares outro táxi me levou ao povoado de Huaquillas, onde escolhi a companhia Pullman para me transportar, por cinco horas, até Cuenca. Às duas da tarde embarcava em um ônibus velho, sem ar condicionado e sem as regalias das mais sofisticadas empresas peruanas (dvd, wi-fi, serviço de bordo). Simples, mas honesto.

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