Expedição Extremo Oriente

SONGDO, CIDADE ESPERTA EM UM PAÍS INTELIGENTE

em 4 dezembro, 2017

A face exposta do Distrito Internacional de Songdo é a do turismo, dos parques e das áreas verdes, da beleza arquitetônica moderna, dos negócios e do entretenimento. Em uma visita comum, caminhando pelas ruas – sem destapar os mecanismos ocultos da cidade – é difícil saber o quão inteligente é o lugar, construído especialmente para ser uma Smart City.

A proposta dos sul coreanos é extremamente ousada. Songdo é apenas um, dentre os três distritos estabelecidos na Zona de Livre Comércio do município de Incheon (Free Economic Zone), criada para atrair investimento estrangeiro e estimular a atividade econômica.

Os demais são Yeongjong, voltado para Logística e Turismo, e Cheongna, destinado a Finanças e Lazer. Os distritos estão conectados pela Ponte de Incheon, a sétima em comprimento do mundo, com 21 quilômetros de extensão.

O principal foco de Songdo são os negócios internacionais e o turismo marítimo, cultural e histórico, mas o complexo prevê ainda o fortalecimento da indústria do conhecimento e da informação; biotecnologia e desenvolvimento industrial de alta tecnologia, além de um novo porto. Sempre estabelecendo conexão entre a indústria e a academia, além de outras instituições.

A Free Economic Zone compreende ainda um porto, já existente, e um moderno aeroporto internacional, concluído em 2009, que recebe em torno de 50 milhões de passageiros/ano, está entre os mais movimentados mundo, e ocupa a segunda posição em transporte de carga.  As 70 companhias aéreas conectam 170 cidades, em 60 nações. Está aberto 24 horas e disponível para decolagens nos quatro sentidos a mesmo tempo – Norte, Sul, Leste e Oeste.

O plano do governo sul coreano é para tornar a região um influente centro de negócios e estabelecer um hub econômico no nordeste asiático, ancorado também pelas economias do Japão e da China, todas entre as mais fortes do mundo. O tempo de voo até Shanghai, a cidade chinesa mais moderna, e até Tóquio, uma das mais desenvolvidas do planeta, é de duas horas. Até Hong Kong, outro exemplo de modernidade inteligente, é de pouco menos de quatro horas.

Para compreender melhor a estratégia sul coreana e as principais diretrizes de Songdo, bom ponto de partida é a Compact Smart City, interessante centro de exibição sobre o planejamento da região. Mostra maquetes com as áreas edificadas e projeções para as próximas décadas.

Senti falta, porém, de informações concretas e corriqueiras sobre a vida na cidade: número de residências já ocupadas, população, e o funcionamento de equipamentos e serviços urbanos como de iluminação, coleta e reciclagem de resíduos e aproveitamento de água, por exemplo.

Com muita boa vontade e um inglês razoável, a funcionária do centro de turismo não soube me informar sobre os coletores automáticos instalados em uma avenida próxima. Com pesquisa prévia – e alguma instrução exposta no aparato – imagino que devem integrar o sistema de coleta inteligente. O cidadão tem uma chave que aciona o dispositivo e onde estão gravados os seus dados. Ao depositar o lixo reciclável, recebe pontos que servem para desconto de impostos.

Nas ruas há pouquíssimas pessoas. Isso explicaria a absoluta falta de lixeiras comuns? Precisei carregar as embalagens de lanche vazias na minha mochila, não havia onde descartar. A situação se repete em outras cidades coreanas e também do Japão, onde o cidadão acaba levando para casa o lixo do cotidiano. Os asiáticos dificilmente jogam sujeira no chão, mas esse é um aspecto a se repensar quando outros governos tentarem replicar o modelo de Cidade Inteligente.

A estrutura urbana é composta por elevados edifícios de alta tecnologia, torres com decks de observação, pontes estaiadas, largas avenidas, calçadas planas e amplas e um rio maravilhoso, por onde circulam táxis náuticos, mais voltado ao turismo do que ao transporte local. Convidativa para circular de bicicleta, especialmente fora do inverno e de alguns dias de outono, quando é varrida por ventos gelados.

As três enormes conchas, do centro de apresentações artísticas, simbolizam a conexão entre os sistemas de transporte (terrestre, aéreo e marítimo) e representam os três distritos inteligentes. Quase 20% da energia consumida pela torre onde funciona a sede da Zona de Livre Comércio (G Tower) de Songdo vem de fontes renováveis, aquecimento solar e geotérmico. Aproveitamento energético igual ao da prefeitura de Seoul. O complexo tem planejamento inteligente para reter e reutilizar a água; reduzir a emissão de gases tóxicos e aumentar a eficiência energética.

O tráfego é pequeno, uma das espertezas de Songdo é a sincronização dos semáforos, via internet. O metrô está conectado ao sistema que atende toda a Região Metropolitana de Seoul, com 21 linhas, benefício para 25 milhões de habitantes, a metade da população da Coreia do Sul. Aliás, todo o sistema de transporte sul coreano é muito eficiente e representa bem a inteligência da nação.

O cartão de transporte, comprado e carregado em qualquer das múltiplas lojas de conveniência, pode ser usado para metrô, ônibus e táxi, de qualquer cidade do país. Os trens, ônibus entre cidades e até os metropolitanos são bem pontuais e cobrem todo o território. Há ferrys conectando pelo mar os países mais próximos – Japão e China.

Diferente do que acontece no Brasil, as áreas entorno das estações de ônibus ou de trem, na Coreia do Sul, não são perigosas, abandonadas e nem devem ser evitadas. Pelo contrário, ter uma pousada próxima das paradas de transporte coletivo é uma vantagem que favorece os viajantes. É possível desembarcar a qualquer hora, dia e noite, caminhar sossegadamente, em segurança, e inclusive sem o assédio de vendedores e taxistas, tão irritante e costumeiro nos países latinos ou do Sudeste Asiático.

A área central de Songdo gira em torno do Central Park, nome inspirado na tradicional área de lazer, encontro e recreação de Nova Iorque. Tem cinco jardins botânicos. Songdo começou a ser idealizado em 1995 e ainda segue sendo um projeto em construção, há vazios urbanos, áreas mais isoladas e espaços fechados. A previsão era de finalizar a construção de todo o complexo em 2020.

Se é assim no Extremo Oriente, região de economias pujantes, cultura rica e caracterizada pelo respeito ao próximo, quanto tempo levaria para o desenvolvimento de um projeto desses em nosso país?

Cidade Inteligente não se forma quando simplesmente resolvemos adotar o conceito e usá-lo como marketing político ou institucional. Não se trata apenas de chamar uma cidade de “inteligente”. Curitiba, por exemplo, sem dúvida é uma das melhores cidades para se viver no Brasil. Bonita, com parques e áreas verdes e que já foi inovadora, num passado longínquo. Mas, na minha avaliação, está longe de ser considerada uma Smart City.

A realidade, de fato, depende de visão de futuro, planejamento e de pesados investimentos; de tecnologia urbana eficiente, políticas públicas adequadas e de governantes inovadores e honestos; além de precisar contar com a participação cidadã e com uma sociedade mais respeitosa, digna e livre da criminalidade, o que também significa evolução cultural. É pedir demais?

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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