China

A maior metrópole do mundo antigo

em 11 abril, 2016
Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

O imperador Qin ordenou a construção da força armada para proteção no além

Os soldados guardam o mausoléu do primeiro unificador da China

Até hoje os guerreiros guardam o mausoléu do primeiro unificador da China. Qin Shi Huang horrorizava-se com a ideia de que os espíritos dos inimigos derrotados estivessem aguardando por ele no além. Ou talvez imaginasse que continuaria a governar após a morte. Os soldados entrincheirados seguem em formação militar, só que agora descobertos.

Foi recente e por acaso. Apenas em 1974, agricultores locais encontraram os primeiros vestígios das estátuas em terracota, ao cavar um poço em busca de água. Eram oito mil, escondidas em três zonas diferentes, cinco metros baixo terra, desde o final do século III a. C.. A maior zona escavada tem 14 mil metros quadrados. É uma das mais importantes revelações arqueológicas do planeta.

A descoberta foi por acaso, apenas em 1974

Oito mil estátuas em terracota estavam escondidas a cinco metros debaixo da terra

Cada peça foi criada em tamanho natural, cada soldado com uma feição diferente. Guerreiros, arqueiros, membros da infantaria em posição de tiro, além de outras centenas de cavalos e carruagens. Após ser modelada e queimada em forno, cada figura recebia camada de laca, para aumentar a durabilidade, e era colorida. Com o tempo e a exposição foram perdendo a tintura.

Os soldados tem tamanho natural

É uma das maiores descobertas arqueológicas do planeta

Estima-se que 700 mil operários e artesãos trabalharam na elaboração do conjunto de esculturas, por quase 40 anos. Surpreendente é imaginar que quase dois séculos antes do Brasil ter sido descoberto já havia tão elaborada manifestação artística na China.

Tudo tão extraordinário e surpreendente como é o país. Dentro da tumba supõe-se que corriam rios de mercúrio. Evidência atestada pela contaminação do solo na área, conforme detectaram cientistas. Por segurança, o mausoléu continua coberto por montanha de terra e ainda não está sendo explorado.

A escavação na área das estátuas segue, paciente e minuciosamente. Deve haver mais tesouros históricos na região. Até porque a tumba do primeiro imperador da dinastia Qin está a dois quilômetros de distância do ponto onde há a maior concentração de soldados terracota. O que pode haver no meio desse caminho?

O trabalho é minucioso e detalhado

As escavações da área continuam, pode haver mais tesouros enterrados

As estátuas dos guerreiros estão nos arredores da cidade que já foi a maior e mais moderna metrópole do mundo antigo: Xi`An, capital da província de Shaanxi, no centro-norte da China. A cidade começou a ganhar importância há três mil anos e até o século X foi o coração político do país.

Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

Xi´An, no centro-norte da China, já foi a principal cidade do mundo antigo

Terra de imperadores, poetas, guerreiros, monges e mercadores, era o início da famosa Rota da Seda que seguia por sete mil quilômetros ao oeste, no sentido da Europa e do Norte da África, cruzando regiões centrais da Ásia e áreas do Mediterrâneo. Dentre as cidades amuralhadas da China é a que tem os paredões mais intactos. Está rodeada por grossas paredes desde 1370, período da dinastia Ming.

Esse é outro espetáculo. Caminhando no topo das muralhas de 12 metros de altura, é possível se encantar com o antigo e o moderno, sem conflito. Ainda melhor, o contemporâneo e o ancestral se misturam de maneira delicada e até poética.

Os paredões têm 12 metros de altura

A cidade é rodeada por muralhas bem preservadas

As construções seculares são ladeadas por novas edificações, de estilo arquitetônico tradicional, decoradas por luzes e alimentadas por neon. Templos, vários museus e portais coabitam com galerias, edifícios e shoppings centers. Marcas famosas em vitrines estupendas espiam vendedores de comida e ambulantes de quinquilharias. A cidade é um retângulo perfeito, o que facilita a localização e o deslocamento, principalmente a pé.

A cidade é moderna e tem 6,5 milhões de habitantes

Hoje Xi`An está entre as maiores e mais importantes metrópoles da China

Hoje, com cerca de 6,5 milhões de habitantes, Xi´An voltou a ter uma posição de destaque no cenário cultural, educacional e industrial e está entre as principais megacidades da China. Os soldados terracota continuam guardando a tumba de seu governante e unificador. Em paz e em silêncio.

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De Mochila pela Ásia

A indústria que massacra a Tailândia

em 20 março, 2016
Os paredões emergem do oceano

Tours, ofertas, pacotes e todo tipo de atração para turistas

Chiang Mai é o principal centro de concentração turística ao Norte da Tailândia

Sob a ótica da descoberta e das viagens, a Tailândia apresenta dois aspectos nitidamente marcados. O das maravilhas naturais, históricas e religiosas e o das multidões e exagerada exploração comercial. É preciso tempo, pesquisa e dedicação para encontrar o mais genuíno da nação.

Na mesma rota costeira, ao Sul do país, é possível vislumbrar praias belíssimas, sufocadas pela indústria do turismo, e também desfrutar de ilhas bem preservadas e sem urbanizar. Em poucos quilômetros de distância as diferenças são alarmantes e atingem até mesmo o comportamento dos locais. O esquema turístico torna os naturalmente aprazíveis e amistosos tailandeses em comerciantes impacientes e não raramente irritadiços ou mesmo agressivos.

Há muito ainda preservado no Sudeste Asiático

Viagem de longo prazo oferece mais tempo para descobrir lugares lindos, vazios e isolados

A Tailândia recebe anualmente um número de estrangeiros equivalente à população de sua capital, cerca de 10 milhões de habitantes. É fácil alcançar o país – Bangkok é um hub aeroviário – há estrutura e conforto, mais gente falando inglês e menos risco. Isso faz com que lugares que viveram dias de beleza imaculada, na longínqua época do movimento hippie, possam ser comparados hoje a uma Disneyworld em mês de Julho, o pico do movimento no parque temático.

Exemplo disso é Maya Bay na considerada paradisíaca ilha de Ko Phi Phi. O turista padrão salta da capital direto para esse ponto e acredita estar saboreando o máximo da costa de Andamán. Usa seus “paus de selfie” e divide pouco mais de 150 metros de areia com praticamente outras mil almas ingênuas, ansiosas por um retrato e por mostrar onde estiveram ao regressar a casa. Dê uma olhada na foto abaixo e você vai enxergar Copacabana no verão ou o Farol da Barra, em Salvador, em janeiro. Triste.

Mil pessoas em 150 metros de areia

Maya Bay, abarrotada de turistas internacionais, é exemplo da asfixiante indústria do turismo na Tailândia

Exagero? Não se você presenciar um guia local com microfone alardeando a fama do local desde que DiCaprio atuou ali para o filme “A praia”. Jamais combinaria com a paisagem de areias brancas, águas turquesa e monumentais paredões de rocha. Para incrementar o drama, quase uma centena de turistas ia atrás, entusiasmada com a fugaz importância cinematográfica do lugar.

O ápice da estupidez, na minha sincera opinião, foi encontrar um sujeito enchendo garrafinha de água mineral com areia da baía. “Vou mostrar para os amigos um pouquinho de Maya Bay”, deveria pensar, sem qualquer lampejo de consciência ambiental.  A fama só contribuiu para poluir e estragar o – um dia intocado – cenário.

Os paredões emergem do oceano

O Parque Nacional Marinho de Ko Phi Phi, área preservada e com magníficos paredões de rocha

Outro exemplo é a estrutura muito bem montada em Bangkok com a finalidade de movimentar multidões em vans pelos arredores da capital. Os turistas passam horas no veículo entre três ou quatro atrações diferentes, shows com cobras, espetáculos de macacos ou a antinatural oportunidade de se aproximar de um par de tigres dopados. A saída é geralmente da área de Khao San Road, uma área turística de algumas quadras, onde todas as noites os bares tocam conhecidas e antigas canções internacionais para entreter os clientes.

O turismo sem dúvida traz o seu lado positivo: gera empregos, distribui renda e impulsiona o país, o que torna a Tailândia um destino completamente seguro. O que lastimo é o fato de se tornar ferramenta de aculturação de uma nação. Elefantes não nasceram para desenhar, crocodilos não foram criados para se apresentar como animais domésticos e minorias étnicas não existem para representações turísticas ou para pedir esmolas e gorjetas.

Ainda existem no Sudeste da Ásia, e na própria Tailândia, lugares muito interessantes, bem mais autênticos, e paisagens belíssimas a proporcionar experiências enriquecedoras. Posso garantir, após cinco meses desta expedição jornalística, cultural e de aventura – sendo dois só na Tailândia. Porém dá mais trabalho para descobrir e mesmo para chegar; exige mais flexibilidade e senso de adaptação, e, por vezes, surgem perrengues a enfrentar.

Longe do óbvio, perto da natureza

Lugares mais desertos exigem pesquisa, esforço e flexibilidade para visitação e descoberta

Na ilha maravilhosa que descrevi no post passado, acordei de madrugada com um camundongo correndo na cabeceira do meu colchão, sobre o estrado de bambu. Claro que não gosto disso, sou uma pessoa normal, ainda que com certo espírito aventureiro. Mas, faz parte da trajetória.

De qualquer maneira, se cabe aqui alguma sugestão, digo que se esforce, não opte rapidamente pela opção óbvia, comercial e mais fácil, ainda que você prefira o conforto e não seja um viajante de longo prazo. Garanto que vai compensar, e muito. Viajar é diferente de fazer turismo.

A ilha secreta onde estive por uma semana

Vale à pena o esforço para evitar o óbvio e sair do esquema comercial e turístico

 “Travel is like marriage.

The certain way to be wrong
is to think you control it”

John Steinbeck (1902 – 1968)

 

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De Mochila pela Ásia

A ilha perfumada

em 15 março, 2016
A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia

A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia

Quebrei as costelas, mudei o roteiro e encontrei o paraíso

Quase certeza, tenho, de que encontrei o paraíso para recuperar minhas três costelas partidas. Decidi continuar a expedição, mesmo após o acidente de moto, há alguns dias. Porém, precisava de um intervalo para recuperação. Mudei o roteiro, o Norte da Tailândia exigiria mais esforço físico, deslocamentos de motocicleta e mudança de hospedagem a cada dois ou três dias. Teria um baixo aproveitamento na exploração da região montanhosa. Desci novamente ao Sul do país.

O paraíso é uma ilha muito tranquila e rústica, possivelmente uma das menos urbanizadas e exploradas da Tailândia. Não há lojas, hotéis de luxo, rodovias pavimentadas e tampouco carros. Por outro lado, existem macacos, muita mata nativa e uma comunidade local maravilhosa. Lagartixas gigantes, outros répteis e, eventualmente cobras, completam o cenário. É um habitat de pássaros raros e diferentes como o “hornbill”, de corpo preto e branco, penacho e proeminente bico amarelado. Lembra um tucano.

Aqui não há hotéis de luxo, lojas ou rodovias

O paraíso é uma ilha tranquila e isolada no Sul da Tailândia

Lógico, a concepção do Nirvana varia conforme o perfil e a personalidade de cada pessoa. Há os que preferem vida simples e um estilo pé na areia e os que optam por mais conforto e sofisticação. Para mim está mais do que bom o bangalô de bambu, a rede na varanda, o banheiro com ducha manual de água fria e descarga de balde.

A  vida "pé na areia"

Mais que suficiente o meu bangalô de bambu sem ponto de energia e com descarga de balde

Ar condicionado (rs)? Não, não tem nem ventilador. A energia elétrica, de gerador a diesel, é fornecida por poucas horas, quando começa a escurecer. Claro que não há internet e a água vem de poços artesianos. Mas mesmo em março, o mês em que começa a esquentar para valer na Tailândia, a ilha fica razoavelmente fresca, à noite. Oferece brisa suave e cheira a sabonete de frutas ao entardecer.

Tudo chega de barco à ilha

A comunidade local é pequena e extremamente gentil

Fiz um bom esforço para chegar, 35 horas de viagem. Um sacrifício, pelas minhas condições físicas, desde o extremo Norte do país até a costa Sul. Foram nove meios de transporte diferentes, a começar com um táxi compartilhado, chamado aqui de “sörngtäaou” (fala-se “sonteo’) e um trem, em segunda classe, sem cama.

Não conseguia cochilar, com todas as luzes do vagão acesas, o tempo todo. Por vezes o cotovelo do meu vizinho, um professor aposentado de 64 anos, cutucava minhas costelas sadias. Enquanto dormia agarrado à bolsa de corino marrom, o malaio pisava meu pé, incessantemente.

Saltei para o banco de trás e tentei bloquear a luz com os óculos escuros falsificados, sem muito sucesso. Tinha ainda que acomodar as escoriações do braço e dos joelhos, para que não tornassem a abrir. Minha mochila, agora bem magrinha, me acompanhava no compartimento superior. Viu-se livre de roupas, papéis, pequenos objetos, uma excelente jaqueta semi-impermeável e até de alguns medicamentos. Não podia seguir com muito peso, conforme recomendação médica.

O trem atravessou a noite, sempre com as luzes do vagão acesas

Foram 35 horas de viagem e nove diferentes meios de transporte para alcançar meu destino

Cedinho em Bangkok, peguei um trem urbano, uma linha de metrô, caminhei e embarquei em um ônibus de linha até uma das estações rodoviárias da capital. De lá foram mais 12 horas ensanduichado, dormindo à prestação, mais um táxi compartilhado e um barco lento.

Na ilha, os cajus maduros despencam dos galhos das árvores, o mar murmura em sua missão de cobrir e descobrir as rochas, a areia molhada é sedosa sob os pés e os caranguejos multicoloridos fogem desesperados ante a aproximação do viajante. A água do oceano é macia, quente e caudalosa. Salgada, torna-se fácil boiar. Não há muitos mosquitos e pernilongos.

Expedição de longo prazo intercala esforço e relaxamento

Todo aventureiro tem os seus dias de descanso, principalmente depois de vários perrengues

Na primeira noite voltei dentro d´água para meu bangalô. Saí à tardinha, assisti ao maior sol da minha vida finalizar o dia mergulhando no mar, e retornei quase a nado, com a subida da maré. Claro, havia outro caminho pela mata que eu ainda não conhecia. Mas, quer algo mais fascinante do que chegar ao pouso com água até os ombros?

As manifestações da natureza são nossa maior riqueza

Vi o maior sol da minha vida mergulhar no oceano

O toque de recolher no paraíso é às 22h, mas depois disso ainda dá para curtir a escuridão, na vegetação, ou apreciar no céu as estrelas. Não devo revelar o nome desse local sagrado. Não por egoísmo, com o maior prazer dividirei com amigos e pessoas queridas de destino à Tailândia. Porém, simplesmente tornar público uma ilha quase imaculada seria atentar contra a sua pureza. Por enquanto é ótimo recordar do mar que à noite resmungava à minha porta. Se o paraíso não for ali é logo dobrando a esquina, disso estou seguro.

O mar é quente, transparente e caudaloso

À noite o mar resmungava a minha porta

 

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De Mochila pela Ásia

Bangkok, Tailândia

em 1 março, 2016
Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok

São famosos e maravilhosos os imensos templos de Bangkok

A capital da Tailândia venera Buda em todas as formas, estilos e tamanhos

Bangkok é uma cidade para quem dorme cedo e também para quem acorda tarde. Está viva. Há atividades diversificadas nas 24 horas do dia. Cosmopolita, acolhe visitantes do mundo todo, é um importante hub do sudeste asiático com conexões de voos para todos os continentes. Lugar onde o inglês já não é mais uma barreira tão difícil de ser transposta.

Segura, muito segura, a qualquer hora da noite. Cheguei de madrugada, peguei ônibus de linha, desci numa avenida e caminhei de mochila às costas procurando hostel, pensão ou pousada. Com a maior tranquilidade. Há moradores de rua, assim como também há policiamento e muita paz, típico do perfil asiático.

Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok

A cidade é cosmopolita, recebe moradores e visitantes de todo o mundo

A malandragem está com os taxistas, que resistem em usar o taxímetro, e com os motoristas de tuk tuks que superfaturam qualquer pequena corrida. Esses triciclos são a praga do Sudeste Asiático. A Embaixada do Brasil na Tailândia sugere que o visitante evite o tuk tuk porque são muitos os casos em que o motorista não leva o passageiro ao destino e tenta convencê-lo a sair para comprar em lojas onde recebe comissão, entre outras trapaças (leia post sobre tentativa de extorsão em tuk tuk no Laos clicando em http://migre.me/t1yn5).

Bangkok se move. Lenta e rapidamente. Devagar pelos congestionamentos e tráfego pesado. Rápido de trem e metrô. Por água, de barco e com ferry boat. Talvez essa agitação toda tenha absorvido a afabilidade natural dos habitantes. Nas áreas de grande concentração de estrangeiros, os tailandeses se mostram bem impacientes, repelem perguntas e contestações, expõem a face rude da cidade grande.

Há as mais variadas formas de transporte

A cidade se move por terra e por água

A Tailândia é um país que louva a alimentação e em Bangkok você pode comer de tudo: dos pratos típicos e acondimentados à comida do ocidente; de pizza a quitutes de rua; de fast food a insetos e aracnídeos. Provei um escorpião no espeto, tem gosto de… nada, é como casca frita.

É possível encontrar todo tipo de comida na Tailândia

Provei escorpião frito que tem gosto de nada

Sucos de frutas e batidos são diversos. Tudo é saboroso. À parte dos frutos do mar, da típica massa oriental com frango ou camarão; das castanhas e do arroz, há deliciosas sobremesas. Sorvetes servidos na casca de côco ou finos pães com omelete e cobertura de leite condensado, por exemplo.

Os pratos são geralmente muito acondimentados

A comida de rua é farta, variada e barata

Dá para dividir em duas grandes áreas a cidade: a parte da realeza e  lugares históricos e a região moderna. Na primeira estão edifícios religiosos belíssimos, com o Wat Pho, o maior e mais antigo templo da cidade e que abriga a mais completa coleção de estátuas de Buda da Tailândia; e o Grande Palácio, antiga residência dos reis tailandeses. É a cidade que venera Buda – o príncipe transcendido, Sidhartha Gautama – em todas as formas, tipos e tamanhos. Sempre com recato. Se não estiver vestido ou coberto adequadamente, pode emprestar saia ou calça nos guichês de ingresso aos santuários.

Templos e palácios são das maiores atrações na capital

Palácio Real que serviu como residência da monarquia, hoje usado para celebrações especiais

Na parte nova, gigantes centros comerciais e de compra se conectam com hotéis e restaurantes, enquanto passarelas alçam voo sobre avenidas. As ruas mudam de cor segundo a projeção de imensos painéis de neon e de letreiros cinematográficos. Quando as portas dos enormes shoppings centers se abrem, os potentes ares condicionados refrescam até meio quarteirão.

O complexo de compras mais sofisticado reúne três shoppings: Sim Center, Siam Discovery e Siam Paragon, este último com oito andares, dois só para entretenimento. A praça de alimentação tem quiosques especializados em qualquer tipo de comida, oriental e ocidental. As compras são feitas com cartão de débito do shopping, abastecido num quiosque central.

Siam Paragon é dos shoppings mais modernos

Os complexos comerciais são sofisticados e conectados com restaurantes, bares e hotéis

Virou mania construir santuários na frente dos hotéis chiques, depois que edificaram o de Erawan, na época por considerarem que as forças negativas atrasavam a construção do Grande Hotel Hyatt e provocavam acidentes e mortes. Mas foi ali o cenário do atentado que matou moradores e estrangeiros, em agosto do ano passado. É um templo hindu num país essencialmente budista.

Inúmeros santuários foram construídos em frente aos hotéis da cidade moderna

O Santuário de Erawan foi palco de atentado no ano passado

Tem espaço para todo mundo em Bangkok. Espremidas debaixo de pontes, pequenas barraquinhas de comida e tendas de bugigangas coabitam com redes de supermercado, luxuosos restaurantes envidraçados e lojas de marca.

A cidade é tão extraordinária que circulei por duas semanas e ainda poderia ficar mais alguns dias com atividades totalmente diferentes. Há um mercado imenso, só de flores; museus lúdicos e interativos; ginásios com apresentações do real Muay Thai; apresentações de orquestras à beira do rio; imensos bazares e mercado noturnos; e muitos rapazes travestidos de mulher trabalhando no comércio. Com o crescimento da cidade, os antigos canais estão para virar lenda, mas ainda é possível se surpreender com táxis náuticos e barcos grandes, com motores potentes.

O crescimento da capital vai transformando quase que em lenda os estreitos canais

O transporte pelos canais de Bangkok são cada vez mais raros, mas ainda existe

A honestidade local é admirável. Dentro de uma van, na área central da cidade, recebi uma cestinha de plástico com várias moedas e notas de bath, o dinheiro deles. “Coloque o dinheiro na cesta e passe adiante”, explicou-me o rapaz. “Assim, sem recibo?”, confirmei. Depositei os 30 baths, cerca de um dólar, e segui viagem pela cidade. Gratificante.

O antigo e o contemporâneo coabitam a capital

Mulheres em trajes tribais vendem artesanato em área turística de Bangkok

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De Mochila pela Ásia

De cara com elefante selvagem na Tailândia

em 21 fevereiro, 2016
Perturbado pelos veículos, o animal ameaçou avançar no carro mais próximo

Perturbado pelos veículos, o animal ameaçou avançar no carro mais próximo

O elefante. que se alimentava à beira da estrada do parque, parou o trânsito

A surpresa estava logo após uma curva da estrada asfaltada que corta o Parque Nacional de Khao Yai, no nordeste da Tailândia. Pilotava minha motinho alugada, como costumeiramente faço para explorar melhor as regiões, sempre de olho na mata, à espreita da vida selvagem. O gigantesco elefante se alimentava da vegetação ao lado da pista e havia bloqueado o tráfego no local.

Por vezes os mamíferos descem da floresta em busca de outros tipos de pastagens e grama e acabam se expondo à civilização. Incomodado com o movimento, ameaçou avançar no carro mais próximo. O motorista do terceiro veículo da fila, apavorado, deu marcha ré por uns 100 metros. A grande maioria das pessoas é muito temerosa em relação a ambientes inóspitos, fenômenos naturais e a animais incomuns.

Entusiasmado, eu já havia parado no estreito acostamento, tinha descido da moto e registrava a cena. O elefante cruzou a estrada e se refugiou na vegetação. O tráfego voltou a fluir. Um carro passou observando, de vidros fechados. Fui atrás do bicho.

É indescritível a sensação de se deparar, de repente, com a vida selvagem

O animal cruzou a pista e se refugiou na floresta

Adoro a vida selvagem, sempre um dos objetivos da expedição. É indescritível a sensação de caminhar por uma floresta e repentinamente avistar uma criatura que povoa o universo de filmes e histórias e está completamente longe do cotidiano urbano da maior parte de nós. Foi assim quando fiquei pertinho de ursos marrons e negros em parques do centro-norte dos Estados Unidos e do Alaska (saiba mais lendo sobre a expedição De Mochila pelas Américas em www.ikeweber.com).

Como observador da natureza, não queria deixar passar a oportunidade. Já havia perdido a pista do primeiro elefante do dia, avistado quando entrava no parque, de manhãzinha.  O Parque Nacional é o mais antigo da Tailândia e um dos três maiores do país, com 2,1 mil quilômetros quadrados de extensão. Abriga flora exótica com duas mil espécies de plantas e fauna variada composta de 300 tipos de pássaros, 70 de mamíferos e 74 espécies de répteis e anfíbios.

Entre os animais estão macacos, veados, porcos espinho e cachorros do mato

O Parque Nacional de Khao Yai abriga 70 espécies de mamíferos

Segui o elefante pela mata, vagarosamente. Procurei não fazer muito ruído, mas era difícil visto que não havia trilha e me enroscava na vegetação e em cipós. Por sorte ele não caminhou para longe, se estabeleceu perto da estrada, sempre comendo. Os elefantes devoram entre 150 e 200 kg de plantas, bambus e pequenos herbívoros diariamente.

Eu estava tremendamente satisfeito com a minha experiência junto aos elefantes em uma reserva natural no Camboja, há pouco menos de dois meses. Na ocasião pude alimentar, acariciar e dar banho nos animais, dentro de um rio com cascata (leia essa história em http://migre.me/t3hMF).

Porém, esses mamíferos haviam sido trazidos de tribos e vilas, um dia tinham sido domesticados. Agora era diferente, o animal era completamente livre e selvagem, nunca conheceu corrente ou foi escravizado para passeios turísticos, trabalho comunitário ou apresentações circenses.

A magia explodia, a aventura estava viva e a adrenalina, presente. Segui afastando os galhos e contemplando o brutamonte, mas era difícil captar imagens, a folhagem dificultava o trabalho. Cheguei muito perto, não mais do que uns 15 metros de distância, estava no que considerei o limite da segurança.

Em janeiro do ano passado houve diversos ataques sequenciais de elefantes no parque, com a destruição de vários carros. Especialistas atribuíram à escassez de alimentos na floresta, ao aumento do número de veículos nas imediações e interior do parque e à maior agressividade dos machos durante o acasalamento.

O elefante de três metros de comprimento e entre três e quatro toneladas de peso parou num ponto onde não havia passagem, e aí me preocupei. Animais selvagens encurralados se tornam agressivos. Olhei em volta na tentativa de ficar atrás de uma árvore, mas nesse ponto não havia troncos suficientemente grandes e fortes para funcionar como barreira natural.

Não havia árvores suficientemente grandes para fazer uma barreira natural

O elefante de três toneladas parou num ponto onde não havia saída

Eu queria fazer apenas uma imagem de frente para o paquiderme e deixaria o local. Não deu tempo. O elefante virou a cabeça, se voltou para mim, sacudiu as orelhas e barriu – esse é o som que eles produzem. Deu dois ou três passos fortes e ameaçou avançar. Se eu tivesse apontado a câmera fotográfica ele dispararia, pude enxergar a continuidade nos olhos do gigante. Cheguei a sentir o atropelamento.

Recuei sem voltar as costas, saltei numa ribanceira e corri para a estrada. Na fuga perdi a tampa da lente e tive pequenas escoriações na perna. O de menos. O elefante desceu para a pista, desta vez era ele quem me perseguia. Uma caminhonete de guarda parque já se aproximava.

Tive que pular uma ribanceira e correr para a estrada para escapar do elefante

Na fuga, sofri apenas escoriações leves

Alcancei a moto, me virei e ainda consegui documentar o bicho seguindo na minha direção. Vinha sem correr, do contrário eu não teria saído ileso. Desta vez não esperei, ele me esmagaria se saísse em disparada. Senti a adrenalina percorrer o organismo ainda por algum tempo. Eu me sentia vivo, livre e contente.

Por sorte o animal me perseguiu sem correr

Na estrada, o elefante ainda seguiu em minha direção

 

 

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De Mochila pela Ásia

Que rei sou eu

em 12 fevereiro, 2016
A atual morada da realeza foi transferida para a parte Norte da cidade

A atual morada da realeza foi transferida para a parte Norte da cidade

O grande palácio, em Bangkok, antiga residência da família real

Surpreso, mostrei meus respeitos ao rei. Sim, estava no cinema em Bangkok quando exibiram na tela um aviso e começaram a entoar uma música sentimental, seguida de ilustrações, algumas dramáticas. Era o hino real da Tailândia. O pequeno público presente na imensa sala do Siam Paragon, sofisticado shopping center da capital, se colocou de pé por aqueles instantes. Divertido, obedeci.

Descobri mais tarde que não se levantar para a execução do hino é crime de Lesa-Majestade, previsto no Código Penal e passível de prisão que varia de três a cinco anos. A lei não é flexibilizada para estrangeiros.

Ainda que a Tailândia ter deixado de ser uma monarquia absoluta há quase um século, a figura do rei está por toda parte em Bangkok: em grandes avenidas, em lojas, nas casas ou, é claro, em gigantes painéis nos prédios públicos. Apesar de já estar com 88 anos e a saúde debilitada, o rei Bhumibol, ou Rama IX, aparece sempre mais jovem nas imagens.

O rei sempre aparece mais jovem nas imagens

A imagem do rei da Tailândia está em toda parte

O monarca ganhou o respeito do povo e tem autoridade moral. É visto como uma figura paternal que atuou com sabedoria em momentos de crise. Possivelmente a crença budista, predominante no país, faça com que seja venerado como semideus.

Chamado publicamente de “O Grande”, é o indivíduo que há mais tempo reina no planeta, desde 1946. Considerado o rei mais rico do mundo, ele cumpre função social e financia diversos projetos de desenvolvimento em áreas rurais do país. A revista Forbes estimou a fortuna da realeza em US$30 bilhões, em 2011.

O rei da Tailândia está com 88 anos

Painéis imensos estampam a figura do monarca, que há mais tempo reina no mundo

Um dia depois, aconteceu novamente. Exatamente às seis da tarde eu estava atravessando uma passarela, no centro da cidade, quando vi todo mundo parado. Estranhei, não me parecia ponto de transporte. Todos congelados, como num filme de ficção científica ou em uma novela de Saramago.

De súbito, escutei a canção, trazida pelo vento. Era o hino novamente. Algumas pessoas me olhavam, parei ao lado de um casal. Depois perguntei o que acontecia para que me confirmasse o que já imaginava. Todos os dias a capital para no final da tarde para reverenciar o rei. Não é uma lei, disseram, apenas questão de respeito.

Hoje o país tem uma estrutura política em que o primeiro-ministro é o chefe de governo enquanto que o rei é chefe de Estado, o que se denomina uma monarquia constitucional. O poder executivo está atualmente nas mãos do Exército e o país não superou a instabilidade desde o golpe militar de 2006, apoiado pela realeza. Leva algum tempo para entender toda a agitação política e institucional da última década.

O lugar é coalhado de visitantes do mundo inteiro

Guarda em frente ao grande palácio, em Bangkok

Nos últimos 10 anos, uma nova Constituição foi promulgada; eleições gerais com a vitória dos oposicionistas foram realizadas; a primeira ministra eleita foi deposta e indiciada; novo ministro ocupou interinamente o posto de chefe do Estado; outro golpe foi dado pelos militares em 2014, com lei marcial, toque de recolher e censura; a nova Constituição foi suspensa, exceto o capítulo sobre a monarquia; os militares prometeram e depois adiaram novas eleições gerais; e, por fim, talvez o país compareça às urnas no ano que vem.

O julgamento da ex-primeira-ministra tailandesa, Yingluck Shinawatra, acabou de começar em Bangkok, em meados de janeiro. Em um movimento considerado político, ela foi acusada de negligência num programa de cultivo de arroz. O processo deve levar todo este ano, as alegações da defesa estão previstas apenas para novembro.

A junta militar é acusada de tentar afastar definitivamente do cenário político a família de Shinawatra, vitoriosa nas últimas eleições nacionais. Ela é irmã do também deposto ex-primeiro-ministro Thaksin, exilado no Reino Unido desde o golpe de 2006.

As Forças Armadas, formadas pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, sempre ocuparam espaço representativo na história do país. Criadas durante a monarquia absolutista – como defesa contra os interesses colonialistas de países da Europa – foram modernizadas com o passar dos anos, até o estabelecimento de um Ministério de Defesa.

Novas eleições estão previstas para 2017

Os militares governam atualmente a Tailândia

A criatura se voltou contra o criador e os militares derrubaram o sistema monárquico hegemônico em 1932, com apoio de movimentos civis. O rei passou a ter mais um papel de representação, uma figura simbólica. A partir daí as Forças Armadas não deixaram mais de intervir em assuntos políticos. Apenas nos últimos 100 anos a Tailândia sofreu 12 golpes de Estado e teve 17 Constituições.

Ritmo agitado e engarrafamentos na capital Bangkok

Apesar da instabilidade política, a Tailândia segue vida normal

Neste momento não há protestos nas ruas de Bangkok. A capital segue o ritmo do agitado cotidiano, dos engarrafamentos e do movimento de milhões de turistas estrangeiros que visitam o país, principalmente na alta temporada, de novembro a fevereiro.

O palácio é usado atualmente para cerimônias especiais, como a de coroação

O grande palácio divide área com um dos mais importantes templos de Bangkok

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De Mochila pela Ásia

De moto por um país comunista

em 4 fevereiro, 2016
A região é farta em cascatas e rios

A vida em duas rodas é o cotidiano na Ásia

Motocicleta é fundamental para explorar o sudeste asiático

Não consigo enxergar uma viagem pelo sudeste asiático sem pilotar uma motocicleta, de qualquer tipo ou cilindrada. Arrisco dizer que é fundamental rodar em duas rodas para ter alguma profundidade na exploração e mais intensidade na experiência. Foi assim para conhecer o Sul de Laos em um circuito de 10 dias e 700 km pela área rural, próspera em cultivo de café, banana e mandioca. Farta em cascatas, rios e quedas d´água.

Há vacas, porcos, cães e cabras na pista; densa vegetação de selva ao redor; minorias indígenas, em vilas com acessos secundários; mulheres caminhando com cestos às costas. A colheita alternativa de frutas e as peças em palha e metal são vendidas à beira do caminho. Meninas varrem as portas das casas de madeira; crianças acenam da saída da escola; garotos com não muito mais do que oito anos de idade pilotam “scooters” pela rodovia principal.

Mulheres com cestos às costas e minorias indígenas são o cenário do  Sul de Laos

Mulheres com cestos às costas e minorias indígenas são o cenário do Sul de Laos

A infância é livre. Caminha sozinha, pelada e descalça. Ou corre de bicicleta. Da porta do meu bangalô contemplo búfalos tomando banho de rio.

Aqui é mais fácil preservar a pureza infantil

A infância é livre no Laos

O Laos é um país que abriu suas fronteiras recentemente aos estrangeiros. A União Europeia restabeleceu relações comerciais com o país comunista há uma década, mas a nação continua entre as 20 mais pobres do planeta. O capital estrangeiro vinha ingressando, assim como os turistas internacionais, até 2008. Avançavam a construção de hidrelétricas e a exploração de cobre e ouro.

A crise hipotecária norte americana afetou o país, os recursos tomaram outros rumos, enquanto o preço do cobre despencava. Sobrou o oportunismo chinês para se estabelecer junto à melhoria da infraestrutura de transporte do país. Continua como grande produtor de energia, fornecendo eletricidade para os vizinhos Tailândia, Vietnam e China. A moeda do país é o kip na proporção de oito mil para um dólar.

O Laos é uma República Socialista de partido único, os comunistas chegaram ao poder em 1975, após o fim da monarquia e uma guerra civil. O governo proibiu a prática do budismo, o que foi revertido nos anos 90, com certas modificações.

Muitos experimentam a vida monástica temporariamente

Os jovens só se tornam adultos após iniciar uma vida espiritual

Muitos homens experimentam a vida monástica temporariamente, por alguns anos. Os jovens não são considerados adultos antes de iniciarem sua etapa espiritual. E ainda segue sendo um tabu o ato de tocar na cabeça das pessoas, principalmente nas das crianças.

A população reduzida e a geografia montanhosa permitem que o Laos seja um dos países com o ambiente mais preservado da região, ainda que o corte e queima de madeira sejam ameaças atuais. Percebi isso rapidamente, ao rodear selvas abundantes, muito mais densas do que no já devastado Camboja (veja post sobre reserva de elefantes).

A região é farta em cascatas e rios

O Laos é dos países com natureza mais preservada do sudeste asiático

A pobreza, presente, é parte natural do cotidiano. Fui convidado a guardar minha motinho no que seria um depósito da pensão no vilarejo de Tad Lo, às margens do rio. Empurrei a bichinha para dentro e descobri que o espaço era a cozinha. Quanto a isso, nenhuma surpresa, apesar do ambiente degradado e sujo.

O impacto mesmo foi ver um porquinho preto se fartando de restos de comida, com meio corpo dentro da panela, largada no chão. Outro, maior, circulava à procura de sobras. Logo acima, esquecida sobre um balcão, descansava a bandeja com cenoura cortada e alfaces. Possível salada de algum cliente.

Para os laosianos é comum que os animais entrem nas dependências das casas

O porquinho se fartava dentro da panela, na cozinha

Aproveitei a força das cachoeiras de Tad Lao e fiz uma limpeza minuciosa em todas minhas roupas, objetos e equipamentos. Segurei as mochilas e o saco de dormir debaixo da correnteza para afogar ainda algum possível percevejo. Sofri de três ataques severos, espaçados, ao longo desta expedição.

Sofri três ataques de percevejo nesta expedição pela Ásia

Aproveitei a força das cachoeiras para lavar minuciosamente toda a minha bagagem

Esse trajeto foi verdadeiro “easy rider”, seguir sem programação ou agenda definida. Descobrir e desvendar, livre de compromisso. Visitar comunidades onde as mulheres fumam grossos cigarros enrolados em folhas de bananeira e garças partem em revoada no meio das árvores. Parando a fim de interagir e saindo com um mamão enorme de presente.

A expedição pela Ásia é construída por vários pequenos momentos

Parei para conversar e ganhei um desses de presente

No caminho, vi um menino sem olhos. Ele nasceu assim, tadinho. Eu estava registrando o entardecer quando a mulher me chamou para tirar fotografia. Apontou para a outra, com a criança no colo. Fiz a foto e só depois vi o rosto. Triste. Não terá como enxergar as belezas de Laos.

A nação é um paraíso de cascatas

São inúmeras as belezas naturais de Laos

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De Mochila pela Ásia

Trapaça barata na terra de verdes arrozais

em 26 janeiro, 2016
Entrava no terceiro país da expedição pela Ásia

Entrava no terceiro país da expedição pela Ásia

O Laos é terra de verdes arrozais

As tentativas de trapaças e o superfaturamento, principalmente de serviços, estão sempre presentes nos países do sudeste asiático. Após 30 dias no Camboja, parti rumo ao Laos, o terceiro país da expedição De Mochila pela Ásia.

De Tsung Treng, comprei passagem até a maior das ilhas do Mekong, ao sul de Laos, uma região de grande arquipélago fluvial. A combinação de transporte para chegar a esse tipo de lugar é muitas vezes complexo, há deslocamentos por terra e por água e mudanças de veículos impossíveis de serem entendidas por um estrangeiro.

Paguei US$15 para sair do povoado Cambojano e ser entregue em Do Khong, do outro lado do rio, um preço normal para os padrões locais. Como sempre, optei pelo lugar mais remoto, mais distante, menos frequentado ou visitado.

Do primeiro veículo, surpreendentemente novinho, me fizeram descer e entrar numa van velha, apenas com viajantes locais. Normal, faz parte da combinação de transporte que só eles conseguem compreender.

Comprei passagem para chegar até ilha isolada em arquipélago fluvial

Era complexa a combinação de transportes para atravessar a fronteira

Na fronteira, cruzei os dedos. Meu visto estava vencido e tinha receio de ser punido de forma financeiramente mais severa do que o normal. Por sorte paguei apenas US$4 dólares de multa pelo dia extra. Outros US$3 todos os estrangeiros pagavam pelo selo de saída, uma taxa que ninguém sabia se era legal ou apenas uma “propina oficial”.  Na aduana laosiana, o preço correto pelo visto, US$30, mais US$2 pelo selo do país.

Deixei o Camboja com o visto vencido

Trinta dólares e recebia o visto de um mês de permanência no Laos

De volta à van, o motorista dirige mais uns cinco ou seis quilômetros e acena para eu descer. Disse que eu deveria seguir de tuk-tuk, aquele triciclo motorizado com cabine para transporte de passageiros. Já desci desconfiado. Ainda haveria um barco para eu tomar e o meu bilhete – apenas um pedaço de papel de outro país – me dava direto a chegar ao destino final.

O motorista da van e o do riquixá negociaram por algum tempo e o transporte foi quitado. Vi o laosiano reclamar e pedir mais dinheiro porque seria longe o ponto onde teria que me deixar. O valor extra, que não me parecia ser assim tão extraordinário, foi entregue.

A indicação de saúde é para que os viajantes estrangeiros tomem medicação preventiva

Cartaz na fronteira do Camboja com o Laos orienta sobre cuidados com a malária

Até o momento, quase dois meses e meio de viagem, não havia embarcado em qualquer tuk-tuk. Sempre me desloquei a pé ou por conta, de bicicleta e de moto, algumas poucas vezes de ônibus ou de moto táxi. Os tuk-tuks são geralmente mais caros e, em determinados centros, tem péssima fama.

Alguns quilômetros adiante o motorista para e desliga a motocicleta. Diz que a viagem estava paga apenas até aquele ponto e que eu deveria seguir de táxi dali por diante. Na hora, não entendi. Ele repetiu que teria que pagar mais US$3 se fosse continuar com ele e outros US$6 por um barco para atravessar o rio. Eu estava surpreso. Questionei. Ele reafirmou, com a moto desligada.

Não acreditei, argumentei, ele insistiu e ficamos assim algum tempo. Mostrei o tíquete pago, ele reclamou dos cambojanos e confirmou que só seguiria por um valor extra. Eu estava estupefato, havia pagado US$15 e o bilhete comprovava, mas como argumentar, se não tratei com aquele sujeito, já havia cruzado a fronteira e estava em um outro país?

Os tuk tuk gozam de má fama em muitas localidades

Minha primeira viagem de tuk tuk no sudeste asiático já foi objeto de malandragem

Ainda tentava entender se a pilantragem era do homem do triciclo ou se o esquema de transporte do Camboja havia falhado. Levantei e, firme, garanti que não pagaria nada mais por aquela viagem. Na hora não pensava em qualquer ato de força, estava apenas imaginando se teria que saltar e pegar uma carona, ou caminhar.

Não fazia ideia de onde estava ou se havia logo um rio para cruzar. Acabara de ingressar numa terra desconhecida. O fato é que não daria dinheiro para aquele motorista e deixei isso bem claro.

O motorista se intimidou e retrocedeu. Disse que estávamos a mais de 10 km de distância, ligou a moto e seguimos viagem. Ainda não acreditava na malandragem que ele havia tentado.

Um quilômetro adiante reduziu a marcha e, acenando com a cabeça e sorrindo, disse: “Ok, então mais dois dólares, certo?”. Reafirmei, ainda mais forte, minha posição. O veículo prosseguiu e eu não fazia ideia se rodávamos rumo ao destino certo ou o que tramava aquele estafador.

Búfalo toma banho no Rio Mekong

Búfalo toma banho no Rio Mekong

Cruzamos uma ponte e percebi que havia uma alternativa de caminho, sem barco para cruzar o rio. Pelas placas acompanhei a chegada ao lugar imaginado, o sujeito me deixou certinho no centro da comunidade fluvial, sem a menor demonstração de vergonha, desculpas ou arrependimento.

Finalmente chegava ao Laos, onde os arrozais são mais verdes e o Rio Mekong escorre em coloração turquesa.

 

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Camboja

Santuário de elefantes

em 20 janeiro, 2016
Sensibilidade e percepção aguçada tem os elefantes

Em vida livre os elefantes chegam aos 100 anos

Caminhei e apreciei cinco elefantes que vivem numa reserva natural em Sen Monorom

Hoje existem apenas 30% da floresta nativa do Camboja. O desmatamento foi provocado pela exploração de madeira e mau uso do solo pelos fazendeiros. Há seis anos, o país tinha cinco centenas de elefantes, entre domesticados e livres. Agora é possível numerar cada indivíduo: são apenas 116 selvagens e 48 domesticados. Muitos desapareceram com a redução da mata, alguns foram levados ao vizinho Vietnam e, outros, forçados a trabalhar e depois mortos na Guerra Civil de Polpot, nos anos 70.

O corte de madeira e o mau uso do solo estão acabando com a selva cambojana

Restam apenas 30% da floresta original do Camboja

Tive a oportunidade de circular pelas áreas agrícolas e caminhar pela borda da floresta. Melhor, pude contemplar cinco elefantes abrigados numa reserva natural de 200 hectares perto de Sen Monorom, no nordeste do país. O espaço é parte de um projeto de conservação da vegetação nativa e preservação dos animais.

A população de elefantes diminuiu de 500 para menos de 170 indivíduos

A reserva tem 200 hectares e a finalidade de conservar a floresta e manter um habitat adequado para os animais

A experiência é única e fascinante. Caminhei com os bichos, alimentei-os com bananas, entregues na tromba ou direto na boca, e entrei no rio com pequenas quedas d´água para lavar o dorso enrugado e a pele grossa dos gigantescos mamíferos. A limpeza ajuda a remover bactérias e previne infecções. Nada de escalar os elefantes, montar é extremamente proibido porque desgasta e estressa os animais. Foi uma experiência autêntica, longe de circos e livres de shows.

Os elefantes se banham nas cascatas e rios da reseerva

A lavagem dos animais é importante para remover bactérias e evitar infecções

Os indivíduos que vivem na reserva são fêmeas e foram comprados na região ao preço médio de US$30 mil. Moon tem entre 35 e 40 anos e furo em uma das orelhas porque trabalhava arrastando cargas de madeira na vila de Oriang.

Na reserva, os elefantes fazem o que tem vontade de fazer, além de comer o dia todo, bambus e plantas nativas. Se não querem ser banhados, não entram no rio e se preferem ir embora, apenas se afastam. Os “mahouts”, responsáveis por guiar e tratar dos animais, garantem a segurança, mas não forçam os bichos.

Na reserva, os bichos vivem livres e tem autonomia para agir e se locomover

Nada de montar nos elefantes, a prática é anti-natural e estressa os animais

Cada um deles pesa entre três e quatro toneladas e come o equivalente a 200 kg por dia. Se estiverem livres, em cenário natural, podem viver mais de 100 anos. Alguns ainda trabalham nas vilas indígenas, ajudando na colheita e no transporte de madeira. Os mamíferos asiáticos são menores do que as espécies africanas.

Todos os indivíduos da reserva são fêmeas

Cada animal pesa entre três e quatro toneladas e come o equivalente a 200 kg por dia

Existem cinco projetos voltados ao abrigo e cuidado de elefantes na região. Muito difícil escolher o mais adequado, há uma guerra ética e comercial entre eles. Todos se intitulam Ongs sem finalidade de lucro e com o propósito de apoiar as comunidades indígenas Bunong.

A vida é pobre e simples nas vilas. As famílias se formam cedo e dão origem há vários filhos, muitos privados de educação. A população cresceu e a comida diminuiu. Todos descem das montanhas com os cestos às costas para vender produtos rurais no mercado do povoado. Vivem com pouca ou nenhuma assistência médica, buscam a cura e a magia na floresta. Enfrentam a malária que atinge em torno de 40 mil pessoas por ano no país.

Os Bunong vendem seus produtos no mercado do povoado

Todos os programas para abrigo e cuidado dos elefantes afirmam que apoiam as comunidades indígenas da região

A reserva que visitei deve ficar intacta ao menos pelos próximos 30 anos, tempo do contrato assinado entre o governo, a Ong e a comunidade étnica. É uma esperança porque em 2014 o Camboja perdeu uma área de floresta quatro vezes maior do que em 2001, segundo levantamento do World Resources Institute, um centro de pesquisas mundial, com sede em Washington. Uma das causas é a indústria de borracha que se desenvolve com força na região do rio Mekong.

O contrato para criar a reserva tem vigência de 30 anos

A esperança é de que a floresta se mantenha intacta, ao menos na área de preservação

Os antigos dizem que se algo errado está para acontecer na comunidade, o elefante é o primeiro a saber.

Sensibilidade e percepção aguçada tem os elefantes

O elefante é sempre o primeiro a saber

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Camboja

Desenvolvimento sustentável, golfinhos e um baita desafio (Parte 1/2)

em 7 janeiro, 2016
Jovens na construção, em monastério budista

Jovens na construção, em monastério budista

Jovens estudam, trabalham e se preparam, seguindo preceitos budistas

Quando retornar ao Brasil, acredito que vou sentir falta de ouvir os cumprimentos e acenos das crianças por onde passo, de manhã até à noite. Não são cumprimentos obrigatórios, os garotos ficam excitadíssimos, principalmente quando respondo de imediato.

Antes mesmo de identificar o ponto da gritaria escuto os “hellos” calorosos. Logo aparecem meninos e meninas de dois, três, quatro ou cinco anos esticando a mãozinha e entregando sorrisos, desde bocas banguelas ou já cariadas.

De longe escuto o chamado das crianças

Garotos ficam entusiasmados ao cumprimentar e interagir com viajante estrangeiro

As melhores formas de interagir com uma comunidade local são a pé, adentrando as profundezas dos povoados; de caiaque, remando até as vilas flutuantes; ou então circulando com motocicleta de baixa cilindrada. Desta vez optei pela bicicleta, outra estupenda forma de interação e de transporte.

Faria uma rota de 150 km ao longo do Rio Mekong, um dos maiores do mundo e o mais importante da região, responsável pelo sustento de milhões de pessoas. O Mekong nasce no Tibet corre pela China, forma a fronteira entre Myanmar e Laos, passa pela Tailândia, Camboja até compor um delta de terras férteis no Vietnam.

O Mekong abriga ainda poucos golfinho quase em extinção

Um dos pontos de parada ao longo do rio Mekong, com área de lazer e relaxamento

O primeiro dia de pedalada foi magnífico, os golfinhos surgem perto dos botes à beira do caminho. São da espécie Irrawaddy, seriamente ameaçada de extinção. Estima-se que haja apenas 80 indivíduos vivendo nessa região. Outro peixe importante é o “trey riel” que até deu o nome à moeda do país, o riel.

Cruzei o rio num barco que carregava de tudo e me alojei em uma das quatro vilas da ilha de Ko Phdao. Duas das comunidades – apoiadas por uma Organização Não-Governamental (ONG) da região – passam por um fabuloso programa de desenvolvimento sustentável. Algumas famílias, em sistema de rodízio, acolhem os viajantes e fornecem alimentação. Com orientação, educação e esforço, afugentam a pobreza.

É lutada a vida nas comunidades que vivem nas ilhas do Mekong

O transporte até à ilha é feito em barcos que transportam de tudo e navegam sempre lotados

Neste ponto do Mekong a correnteza é extremamente forte, a água é limpa e os mergulhos, essenciais. Com a chegada da noite, acomodei-me provisoriamente por alguns momentos em meu colchão fino, sobre o piso de madeira, para ver quais seriam os costumes e regras da casa. De pronto uma senhora instalou um ventilador em frente aos meus pés. Em que hotel você já recebeu esse tipo de serviço?

A vila melhora graças a um programa de desenvolvimento sustentável

A primeira casa onde me hospedei era muito simples, mas limpa e com boa comida

Uma segunda mulher descansou uma toalha cor de rosa em frente ao meu cantinho, deitou diversos pratos e ofereceu o jantar. Havia porco com cebola, legumes apimentados, uma tigela cheia de arroz e vários pedaços de abacaxi. Comi, observado pelas senhoras e por dois meninos. Tudo muito limpinho, até com guardanapos.

As instalações indicavam quarto de banho, com caneca plástica, separado do sanitário. Não havia luz elétrica, a pouca energia era fornecida por carga de bateria. Um pequeno altar budista, comum em todas as casas desta parte do mundo, completava o ambiente.

Difícil imaginar o gelo suportando calor do Camboja

Como não há energia, a refrigeração é feita com barras de gelo

Ensinei alongamento para as crianças e interagi com a família à base de mímica e inglês básico, estilo início do Ensino Fundamental. No ano passado, apenas 30 pessoas, de todo o mundo, passaram por aqui, segundo os registros domésticos.

Comunidade simples, ambiente rústico

Os búfalos são usados na lavoura e há criação de pequenos animais para abate

As galinhas para consumo e comércio, o marido trouxe amarradas numa cesta sobre a motinho. Obedecendo ao hábito rural tentei dormir cedo, pelas 21h. O gatinho se instalou junto à minha cabeça para ficar até o amanhecer. Respirei o aroma de madeira queimando e contemplei a noite.

O céu que cobre Ko Phdao tem mais estrelas.

(Continua ainda esta semana, desde que haja boa conexão de internet)

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