De Mochila pela Ásia

De moto por um país comunista

em 4 fevereiro, 2016
A região é farta em cascatas e rios

A vida em duas rodas é o cotidiano na Ásia

Motocicleta é fundamental para explorar o sudeste asiático

Não consigo enxergar uma viagem pelo sudeste asiático sem pilotar uma motocicleta, de qualquer tipo ou cilindrada. Arrisco dizer que é fundamental rodar em duas rodas para ter alguma profundidade na exploração e mais intensidade na experiência. Foi assim para conhecer o Sul de Laos em um circuito de 10 dias e 700 km pela área rural, próspera em cultivo de café, banana e mandioca. Farta em cascatas, rios e quedas d´água.

Há vacas, porcos, cães e cabras na pista; densa vegetação de selva ao redor; minorias indígenas, em vilas com acessos secundários; mulheres caminhando com cestos às costas. A colheita alternativa de frutas e as peças em palha e metal são vendidas à beira do caminho. Meninas varrem as portas das casas de madeira; crianças acenam da saída da escola; garotos com não muito mais do que oito anos de idade pilotam “scooters” pela rodovia principal.

Mulheres com cestos às costas e minorias indígenas são o cenário do  Sul de Laos

Mulheres com cestos às costas e minorias indígenas são o cenário do Sul de Laos

A infância é livre. Caminha sozinha, pelada e descalça. Ou corre de bicicleta. Da porta do meu bangalô contemplo búfalos tomando banho de rio.

Aqui é mais fácil preservar a pureza infantil

A infância é livre no Laos

O Laos é um país que abriu suas fronteiras recentemente aos estrangeiros. A União Europeia restabeleceu relações comerciais com o país comunista há uma década, mas a nação continua entre as 20 mais pobres do planeta. O capital estrangeiro vinha ingressando, assim como os turistas internacionais, até 2008. Avançavam a construção de hidrelétricas e a exploração de cobre e ouro.

A crise hipotecária norte americana afetou o país, os recursos tomaram outros rumos, enquanto o preço do cobre despencava. Sobrou o oportunismo chinês para se estabelecer junto à melhoria da infraestrutura de transporte do país. Continua como grande produtor de energia, fornecendo eletricidade para os vizinhos Tailândia, Vietnam e China. A moeda do país é o kip na proporção de oito mil para um dólar.

O Laos é uma República Socialista de partido único, os comunistas chegaram ao poder em 1975, após o fim da monarquia e uma guerra civil. O governo proibiu a prática do budismo, o que foi revertido nos anos 90, com certas modificações.

Muitos experimentam a vida monástica temporariamente

Os jovens só se tornam adultos após iniciar uma vida espiritual

Muitos homens experimentam a vida monástica temporariamente, por alguns anos. Os jovens não são considerados adultos antes de iniciarem sua etapa espiritual. E ainda segue sendo um tabu o ato de tocar na cabeça das pessoas, principalmente nas das crianças.

A população reduzida e a geografia montanhosa permitem que o Laos seja um dos países com o ambiente mais preservado da região, ainda que o corte e queima de madeira sejam ameaças atuais. Percebi isso rapidamente, ao rodear selvas abundantes, muito mais densas do que no já devastado Camboja (veja post sobre reserva de elefantes).

A região é farta em cascatas e rios

O Laos é dos países com natureza mais preservada do sudeste asiático

A pobreza, presente, é parte natural do cotidiano. Fui convidado a guardar minha motinho no que seria um depósito da pensão no vilarejo de Tad Lo, às margens do rio. Empurrei a bichinha para dentro e descobri que o espaço era a cozinha. Quanto a isso, nenhuma surpresa, apesar do ambiente degradado e sujo.

O impacto mesmo foi ver um porquinho preto se fartando de restos de comida, com meio corpo dentro da panela, largada no chão. Outro, maior, circulava à procura de sobras. Logo acima, esquecida sobre um balcão, descansava a bandeja com cenoura cortada e alfaces. Possível salada de algum cliente.

Para os laosianos é comum que os animais entrem nas dependências das casas

O porquinho se fartava dentro da panela, na cozinha

Aproveitei a força das cachoeiras de Tad Lao e fiz uma limpeza minuciosa em todas minhas roupas, objetos e equipamentos. Segurei as mochilas e o saco de dormir debaixo da correnteza para afogar ainda algum possível percevejo. Sofri de três ataques severos, espaçados, ao longo desta expedição.

Sofri três ataques de percevejo nesta expedição pela Ásia

Aproveitei a força das cachoeiras para lavar minuciosamente toda a minha bagagem

Esse trajeto foi verdadeiro “easy rider”, seguir sem programação ou agenda definida. Descobrir e desvendar, livre de compromisso. Visitar comunidades onde as mulheres fumam grossos cigarros enrolados em folhas de bananeira e garças partem em revoada no meio das árvores. Parando a fim de interagir e saindo com um mamão enorme de presente.

A expedição pela Ásia é construída por vários pequenos momentos

Parei para conversar e ganhei um desses de presente

No caminho, vi um menino sem olhos. Ele nasceu assim, tadinho. Eu estava registrando o entardecer quando a mulher me chamou para tirar fotografia. Apontou para a outra, com a criança no colo. Fiz a foto e só depois vi o rosto. Triste. Não terá como enxergar as belezas de Laos.

A nação é um paraíso de cascatas

São inúmeras as belezas naturais de Laos

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De Mochila pela Ásia

Entre vilas e montanhas (3/3)

em 1 dezembro, 2015
É dia de comprar e vender em Sim Hô

É dia de comprar e vender em Sim Hô

As senhoras de diversas etnias descem as montanhas para o mercado de domingo

Invisível no mercado local. Esse é sempre o melhor jeito para se enfronhar na cultura de cada região, pesquisar e fotografar. Nem sempre é possível, pelo meu tipo físico e estatura. Para quem não me conhece, tenho 1,96 m e a maior parte das vezes não logro ficar muito tempo sem chamar a atenção. Desta vez tento e consigo. Passeio, circulo, observo.

Circulo, a princípio sem chamar a atenção

  O mercado tem de tudo: de comida a roupas e quinquilharias

Vejo a negociação de legumes, frutas, roupas, sapatos e quinquilharias no vilarejo de Sim Hô. E principalmente de animais, vivos e mortos. Frangos são desensacados das motocicletas de baixa cilindrada e levados pelo pescoço, ainda vivos, à barraca de venda; porcos são retalhados e comercializados por cortes diversos, tripas ou intestinos; patos desfilam ou aguardam enjaulados até o momento do abate.

Animais vivos e mortos em Sim Hô

Os frangos são transportados em motocicletas até o mercado

É domingo e diversas etnias descem as montanhas para negociar no povoado, quase na fronteira com Laos. Compram e vendem. Inclusive os “Black HMongs”, trajando preto e simbolizando a resistência dos povos das montanhas.

Gosto de viajar com calma e de me aprofundar o máximo possível. Para mim, um mês é o mínimo aceitável para explorar e descobrir razoavelmente um país. Não acredite naquele que diz que conheceu a China porque esteve nas duas principais metrópoles ou que domina a Europa uma vez que visitou os pontos turísticos das principais capitais.

Patos são iguarias para os vietnamitas

Animais vivos e mortos em Sim Rô

Com esse pensamento decidi deixar a cidade turística de Sapa, fundada como estação de verão na época em que o Vietnam era colônia da França, para avançar mais a noroeste. Até agora, os trajetos mais gratificantes foram longe dos espaços muito visitados.

Para eles também são interessantes as fotografias

Depois de um tempo, sou descoberto no mercado e viro atração

No mercado semanal sou descoberto, como sempre pelos mais jovens, e explode a sinfonia de “hellos”. O inglês começa aí e termina em “by, by”. No meio geralmente vem uma sessão de fotos, já que sou raridade na região. As fotografias são tão interessantes para eles quanto para mim. As senhoras mais velhas não gostam. Mostrei a imagem para uma delas que protestou e esfregou o dedo na câmera, tentando apagar o registro.

Subo na moto para regressar e me descubro sem gasolina, depois de 200 km rodados. Um posto fechado e outro sem combustível. Bom tempo se passa enquanto tento perguntar se a gasolina ainda chegaria no mesmo dia.  Gestos, palavras em inglês e mensagens escritas não foram suficientes para a comunicação. Não havia mais aonde ir e sem gasolina teria que ficar mais uma noite no povoado.

O caminhão da petroleira chega antes que eu desista e logo uma fila de motonetas se forma ao redor. Pego a estrada para cumprir parte do trajeto antes do escurecer. Por volta das 17h, chego ao trecho mais acidentado, com queda de barreiras por quilômetros. As fortes intervenções climáticas impedem que a pista seja colocada definitivamente em ordem. Na minha frente um motociclista retirava pedras para abrir caminho.

Foi difícil a comunicação para saber se haveria gasolina ainda naquele dia

O caminhão de gasolina chega bem na hora

Bem na hora da minha passagem, de olho no barranco, duas rochas bastante grandes se projetam encosta abaixo. Com a graça de Deus tive calma e acompanhei o movimento das pedras rolando montanha abaixo, monitorei para ver se meu movimento seria de acelerar ou recuar, de saltar da moto ou avançar pilotando. Tensão geral, quem estava perto correu.

As quedas de barreira são comuns, por conta dos fatores climáticos

O desmoronamento havia ocorrido minutos antes de eu chegar

Acelerei e as pedras pararam antes de atingir a pista, a mim ou meu veículo. Alívio geral. Como aconteceu bem nessa hora? Riscos da viagem, proteção divina. Não, essa não era minha hora de partir. Apenas de regressar a cidade-base e retomar o meu caminho, De Mochila pela Ásia.

 

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Entre vilas e montanhas (1/3)

em 22 novembro, 2015
A comunidade está assentada em área rural, ao Norte do país.

A comunidade está assentada em área rural, ao Norte do país.

Ma Mai e a mãe, etnia HMong

Não tenho certeza se o nome de Ma Mai se escreve com esta grafia. Ela tampouco soube me dizer. Aos 22 anos, casada e com dois filhos, nunca frequentou escola. Não sabe ler ou escrever. Esperta, aprendeu inglês melhor do que muitos habitantes da capital, Hanói. Ajuda a família com a venda de artesanato em uma cidade pequena, em meio às montanhas do Norte do Vietnam. Foi ali que nos encontramos e combinamos a minha estada, por dois dias, na casa dela, na área rural, junto à vila de Lao Tsai.

Ma Mai usa os cabelos constantemente presos, desde que casou, aos 15 anos. Homens casam aos 18. É o costume da etnia Hmong, grupo étnico originário da China e assentado também em regiões montanhosas de alguns países do sudeste asiático.

O trajeto de 10 km, a pé, até a vila, foi marcado por extensas plantações de arroz, búfalos e rios. A etnia vive da agricultura de subsistência e de pequenos animais, basicamente galinhas. Para ocasiões especiais, como o Ano Novo, preparam porcos gigantes e fabricam incensos especiais.

Animais frequentes na zona rural do Norte Vietnamita

Búfalos são usados no cultivo do arroz

Comunidade se alimenta basicamente de arroz

Plantação de arroz nas encostas das montanhas

 

 

 

 

 

 

 

A alimentação é à base de porco, galinha e arroz

Alguns porcos são engordados para ocasião especial

A comunidade é pobre, a casa de Ma Mai é muito simples. A construção inteira exibe frestas e o chão é de barro. Sob o mesmo teto precário ela disse que vivem oito pessoas, mas cada vez havia mais gente lá dentro. À noite contei 11 crianças. Após muito arroz e legumes, reparti chocolate com todos. O filho mais novo de Ma Mai gostou de mim e vivia me perseguindo. O menor, só de camisetinha, faz xixi ao lado da minha cama. Aviso a “recepção” (rsss) e a criança é retirada. O xixi permanece.

Vida muito simples e pobre na Comunidade HMong

Estrutura precária e higiene deficiente

As crianças ficaram curiosas a respeito do viajante

À noite havia 11 crianças na casa, algumas fugiram da foto

Caminhei muito pelos arredores, deslumbrado com os lugares mais altos do país. Tive a sorte de presenciar uma autêntica cerimônia Hmong, rito em homenagem aos mortos. Patas imensas e pretas de porcos descansavam sobre folhas de bananeira. Os homens jogavam grãos de arroz por cima e bebiam muito de pequenas copas. A maioria estava bastante excitada ou emocionada, alguns chorosos. Outros caíam de bêbados.

Era um dia especial na comunidade HMong

Aglomeração para celebração dos mortos

Patas de porco e muito álcool na cerimônia

Muitos homens emocionados, alguns chorosos

O cachorro de pelo claro circulava a mesa antes do jantar, seguido pelo gatinho preto. A panela de arroz fervente foi colocada ao solo. Seria a mesma que a madrasta de Ma Mai lavava no córrego imundo, ao lado da casa? Sim, não há saneamento básico e as condições de higiene são precárias. O córrego é de água escura e retém lixo.

Alguns turistas e outros viajantes também se hospedam na vila, mas em situação bem diferente, em casas preparadas para recebê-los, com mesas, cadeiras, camas e até sofás. Nesses casos há alguma comodidade, higiene básica e estrutura para alimentação. Esta minha experiência foi distinta pelo fato de ter sido abrigado e me adaptado ao cotidiano e à realidade de uma família Hmong muito simples, autêntica, de minguada existência. Ao longo das minhas aventuras já fiquei em barracos, acampei na selva e me hospedei em todo tipo de lugar, inclusive casas abandonadas, mas esta foi uma experiência única.

O comércio de artesanato é uma das poucas fontes de renda da comunidade

O comércio de artesanato é uma das poucas fontes de renda da comunidade

Contei 14 pessoas ao redor da TV, após a comida. Ninguém manifestava qualquer movimento para banho e Ma Mai não demostrou interesse ao ser perguntada onde eu poderia escovar os dentes. Alguns meninos apenas olharam com curiosidade. Um dos principais dentes da boca de Ma Mai é de ouro.

A lua era crescente e o céu, estrelado. Tudo era muito simples, mas eu estava feliz. Acomodei-me cedo, mas só consegui dormir depois que ajustei a jaqueta impermeável de forma a proteger melhor os ossos do quadril. Já era madrugada quando relaxei na minha cama de tábuas. A manta, originalmente curta, foi encolhendo ao longo da noite. A friagem acudia das imperfeições da madeira e golpeava as canelas. De manhã, chegava aos joelhos.

A coberta curta parece que encolheu ao longo da noite

Era dura minha cama feita de tábuas

A casa despertou tremendamente cedo, com forte movimento, antes das cinco da madrugada. Barulho de água sugeria banho. “Onde seria?”, perguntei à Ma Mai quando levantei. Ela jogou uma quantidade de água quente na bacia e o restante, frio, veio de uma caixa de alvenaria, instalada ao final da cozinha. Atirou um trapo lá dentro e sugeriu que me lavasse, ao lado do fogão. Naturalmente não havia fogão, mas sim um espaço para panelas sobre o fogo à lenha, no chão.

A água vinha de caixa d´água ao lado do fogão

O banho era de bacia, ao lado das panelas

Recusei o arroz do café da manhã e optei apenas pelos ovos. Saímos para seis horas de caminhada, atravessando outras vilas e visitando outra etnia. Mais arroz, desta vez com aquele macarrão bem fininho e, para beber, água quente. O retorno à cidade foi caminhada puxada e rápida de sete quilômetros. Mais da metade com aclive forte, montanha acima, sem terreno plano.

Regressei. O xixi da criança havia secado ao lado da minha cama. Até agora não descobri onde era o banheiro.

 

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