Expedição Extremo Oriente

LUGARES CÊNICOS, ARTE, VILAS HISTÓRICAS E CIDADES INTELIGENTES

em 4 janeiro, 2018

Taiwan é um país exuberante, para ser saboreado aos poucos. Engano seria pensar que esta ilha de 36 mil quilômetros quadrados, situada em arquipélago vulcânico, é uma nação de reduzidos atrativos. Não sem motivo recebeu dos portugueses o nome de “Formosa”.

É pouco dedicar apenas uma, duas semanas, para explorar a infinidade de lugares cênicos, templos, ilhas, vilas em regiões montanhosas, costas e uma capital inteligente, como é Taipei. Aliás, na modesta opinião deste viajante de longo prazo, nenhum país merece menos do que um mês de atenção, salvo mínimas ou incontroláveis exceções.

É impressionante descobrir que a apenas poucas dezenas de quilômetros da capital ou de qualquer grande cidade, seja possível encontrar densas florestas, matas preservadas, sendeiros entre as montanhas e rios límpidos, de água verde esmeralda.

Wulai é um exemplo, a menos de 30 quilômetros de Taipei. A região onde viviam isolados os índios Atayal, até o final do século XIX, oferece trilhas, cachoeiras e cascatas, deslumbrantes. Com a metade do país coberta por floresta e 118 rios catalogados pelo governo, há natureza em qualquer direção da ilha. São oito parques nacionais no país.

No entanto, escalar ou subir montanhas pode ser uma tarefa tão burocrática quanto fisicamente exaustiva. Há várias trilhas com entrada controlada, nas mais importantes áreas de preservação. O acesso só é permitido com duas autorizações – do gerenciamento de parques e da polícia. A requisição não pode ser feita pessoalmente, o sistema é pouco prático e o site não é amigável o suficiente.

Algumas caminhadas têm que ser requisitadas com pelo menos dois meses de antecedência. Tanto controle visa reduzir o impacto ambiental e prevenir as emergências. Os tufões são ameaças constantes no país e responsáveis pela destruição massiva de ambientes naturais e edificações, como ocorreu em 2009.

Cansado de tentar obter a permissão online, arrisquei e realizei uma dos melhores hikings da minha vida, sozinho, quase seis quilômetros montanha acima pelo Parque Nacional de Taroko, no leste taiwanês: vegetação densa, paredões formados por penhascos, gargantas e fundos de vale.

Formada pela colisão de duas importantes placas teutônicas, a superfície de Taiwan é composta de inúmeras fissuras das quais emergem, borbulhantes, as águas termais, vulcânicas – sulfurosas, alcalinas, ferrosas ou de lama. Para serem desfrutadas em banhos públicos, resorts, piscinas populares e até ao ar livre, ao sopé de uma montanha. É inacreditável, mas a temperatura da água pode ultrapassar os 45 C.

As vilas históricas são outro espetáculo. As moradias de Lukang foram levantadas acompanhando o curso do rio. Agora, com o canal coberto, as vielas, becos e construções antigas se estendem por curvas, o que transformou o lugar em um labirinto de surpresas e descobertas.

Outra, nos arredores de Taipei, foi transformada em uma comunidade artística. A vila – construída por soldados na década de 40 e conhecida hoje como “colina do tesouro” – combina arquitetura antiga com expressão cultural e comércio compartilhado.

Há quiosques de livros e de artesanato abertos, com o material exposto e a venda baseada na honestidade e na confiança. O interessado avalia o produto e deposita a quantia estipulada numa caixa ou cofrinho. Não há funcionários ou qualquer mecanismo de controle, exceto a consciência do cidadão.

Geralmente são muito honestos e extremamente amigáveis, os taiwaneses. Ainda que o povo se comunique com dificuldade em inglês, normalmente se esforça para partilhar informação, indicar o caminho e colaborar. Fiz o teste de honestidade.

Larguei minha mochila em um parque, debaixo de uma árvore, com pessoas em volta. Virei às costas, saí do campo de visão e fiquei monitorando à distância. Um homem passou do lado, nem ligou. Bateu um vento, a mochila caiu no chão, ninguém fez menção de pegá-la. Muito sossegado.

Repeti a experiência, desta vez do lado de fora do parque, em avenida bem movimentada, junto a um sinaleiro. Alto risco. Homem passou com moto sobre a calçada, bem ao lado, gelei. Não daria para recuperar, havia obstáculos entre mim e a bagagem. Ele poderia simplesmente agarrar a mochila e fugir, o que felizmente não aconteceu. Insisti. Por mais 15 minutos comprovei a honestidade dos taiwaneses, numa cidade de 2,8 milhões de habitantes.

Com a avaliação de um observador leigo na temática do desenvolvimento das nações, considero que são dois os principais aspectos de toda a segurança e civilidade de Taiwan, aliás, de boa parte da Ásia – prosperidade e cultura.

A nação acumulou riqueza na década de 50 com a agricultura de arroz, chá, cânfora e cana-de-açúcar. Porém, a estrutura socioeconômica representava também analfabetismo, mortalidade infantil e baixa expectativa de vida.

Passou a se desenvolver com uma estratégia industrial voltada às exportações, como os demais países apelidados de “Tigres Asiáticos”. Nos anos 60, as empresas familiares eram subcontratadas por fabricantes estrangeiros, fornecedoras de redes internacionais. Assim os produtos “Made in Taiwan” se consolidaram em nosso cotidiano.

A década seguinte foi dedicada à modernização, sobretudo dos setores de alta tecnologia e então surgiram o computador pessoal e o desenvolvimento da microeletrônica. O setor têxtil incrementou a qualidade e o de calçados tornou-se grande exportador mundial. Similar ritmo de desenvolvimento alcançou a indústria química, de plásticos e da construção naval. Até meados dos anos 80, Taiwan cresceu a gordos bocados, em torno de 8% ao ano.

No entanto, nos últimos 20 ou 30 anos, muitas empresas taiwanesas se mudaram ou passaram a investir mais na China do que em seu próprio país, atraídas por mão de obra barata e facilidade cultural e de idioma. Atualmente, muitos profissionais deixam o país para trabalhar na indústria chinesa da criatividade e do entretenimento.

Nem tudo é sempre lindo, impecável ou inovador em Taiwan. Boa parte da população vive em conglomerados urbanos abarrotados, em regiões bem diferentes da contemporânea Shanghai ou da moderna Hong Kong, algumas das expressões máximas de desenvolvimento da região, localizadas nas vizinhanças chinesas.

Circular pelo país também é observar construções populares; becos mal iluminados com residências humildes e entulho acumulado; ser transportado em trens lotados e compartilhar da vida simples, principalmente nos eletrizantes mercados diurnos ou noturnos com suas diversidades gastronômica, produtos triviais e entretenimento fugaz.

Paralelamente à conduta pacífica – comum em boa porção da Ásia – o aspecto comportamental dos taiwaneses é marcado pela capacidade de amizades longas, abertas e sinceras. Somada a isso, há a forte influência histórica e tradicional do Confucionismo, do Budismo e do Taoísmo.

O país tem oficialmente 15 mil templos que, além de serem espaços espirituais, exercem a função de centros comunitários. Setenta por cento da população se considera budista ou taoísta. Etnicamente, a maioria esmagadora descende da Dinastia Han, chinesa, com uma parcela reduzida de descendência aborígene.

Um dos períodos destacados da história da nação, ainda com marcas muito visíveis, foi o da colonização japonesa (1895 – 1945). Ferrovias e rodovias foram construídas e conectadas e a indústria, desenvolvida. Por outro lado, indígenas foram exterminados, aculturados ou escravizados e é difícil visitar algum templo ou construção histórica sem ser informado da época em que os lugares foram destruídos pelos japoneses.

Apesar de vários indicadores de qualidade de vida, é uma sociedade assoberbada e sob pressão. Escutei queixas de moradores sobre o ritmo frenético da vida no país. Os adolescentes e jovens, depois do Ensino Fundamental, são massacrados com muitas horas de estudos e intensas tarefas de casa. Não são incomuns os suicídios entre o público de menor idade.

Taiwan é hoje uma região independente, ainda que não de maneira desejada e totalmente reconhecida pela China, que busca a reunificação. Tem governo e regras próprias e exige um visto diferente para entrada no país.

 

A capital, Taipei, é uma cidade internacional com inteligência estabelecida para estimular o desenvolvimento urbano por meio da participação pública e de parcerias público-privadas. Até 2011 abrigou o edifício verde mais elevado do planeta, a “Taipei 101 Tower”, com 508 metros de altura, 101 andares e sistemas inteligentes de reaproveitamento de água, controle elétrico, dos elevadores e de ar condicionado.

Algumas das iniciativas vivenciadas por este viajante estão no campo da mobilidade. Nos arredores da capital, uma ferrovia desativada e uma área abandonada foram transformadas em espaço de entretenimento, convivência e lazer.

Duas ciclovias, um total de 25 quilômetros, se alongam entre jardins, atravessam túneis e se estendem por pontes, sobre rios limpos, onde há moradores pescando. Famílias pedalam ou circulam em total segurança. Propostas semelhantes existem em outras partes da cidade, ao longo de rios e conectando bairros próximos ao centro.

A minha forma de viajar me aproxima muito das comunidades por onde passo, já que busco experimentar os espaços cotidianos dos cidadãos, bem além dos pontos turísticos e das zonas comerciais. Assim comprovei a multiplicidade de áreas públicas destinadas às pessoas, em Taipei e em outras cidades taiwanesas.

São comuns as feiras diversas, os quiosques de comidas e de alimentos orgânicos, os espaços de lazer familiar, as oportunidades para dança e atividades esportivas e os ensaios dos grupos K-pop, influência da cultura sul-coreana.

Em Taiwan os antepassados ainda são adorados, os pais, respeitados, e a democracia segue em consolidação. Uma nação a ser visitada e explorada, vagarosamente.

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Expedição Extremo Oriente

O COTIDIANO DO VIAJANTE E A POUSADA FANTASMA

em 23 novembro, 2017

A minha primeira impressão da Coreia do Sul foi como a da imagem acima – muita poluição visual. Letras, placas, painéis e cartazes cobriam as fachadas dos edifícios, era difícil identificar cada ponto de comércio. Acabava de desembarcar no porto internacional de Incheon, uma viagem de 17 horas de ferry boat, atravessando o Mar Amarelo, desde a China.

Com três milhões de habitantes, Incheon é a terceira maior cidade do país e um hub de transporte do Extremo Oriente, com conexões aeroviárias, marítimas e terrestres. Desde aqui a Coreia se abriu para o mundo, com a instalação do porto industrial, em 1883.

Vieram então o primeiro hotel, o sistema postal, a Igreja Metodista, o mercado de arroz e as companhias internacionais, já presentes na China. Por haver dificuldade de acesso a Seoul, começou, em 1899, a construção da estrada de ferro. No início foi um desastre, as pessoas continuavam buscando transporte em cavalos, barcos, liteiras ou em palanquins.

Por dois dias exploraria a cidade e visitaria os projetos de Cidades Inteligentes instalados na região (você vai ver no próximo post). Para me instalar, levei em conta referências de outros viajantes e o preço, já que a Coreia do Sul é um país mais caro para viajar.

No Sudeste Asiático e na América Latina gastava em média US$30 por dia, tudo incluído: hospedagem, alimentação, água, transporte interno, visitas a museus ou a locais com entrada paga e qualquer custo extra. Faço viagens econômicas, de longo prazo, com despesas inferiores à vida cotidiana no Brasil.

Na China consegui manter a marca, apesar dos locais de visitação – vilas históricas e parques nacionais – geralmente cobrarem ingressos, caros. Na Coreia do Sul o orçamento diário foi ampliado, do contrário passaria fome ou não poderia circular pela nação. Já era previsto.

Em minhas expedições, jornalísticas, culturais e de aventura, sempre há um certo esforço para conhecer tudo, explorar novos lugares e manter o orçamento restrito. Não é a moleza de jantar em restaurantes caros, dormir em hotéis, circular de táxi, contratar guias ou viajar de avião.

O cotidiano do viajante inclui lavagem de roupas e até alguns consertos, como o do meu tênis que estava com a sola despegando. Achei um sapateiro de rua na cidade chinesa de Qingdao, onde esse tipo de ofício segue preservado.

A Better Guest House ficava longe do terminal – duas linhas de metrô, uma de ônibus e mais uma caminhada. Lugar impecável: sala ampla, assoalho brilhando, cozinha organizada, vasilhames distintos para separação do lixo e internet eficiente. Além disso, um bom ponto de partida para conhecer os arredores da cidade, região residencial.

Apesar da Coreia do Sul ser um país pequeno em extensão, 100 mil quilômetros quadrados, e ter população em torno de 50 milhões, é demorado transitar dentro das grandes cidades. Levava mais de hora e meia desde a pousada até o centro de Incheon. Após duas noites, resolvi mudar o pouso.

A guest house seguinte estava perto de importante estação de metrô, economizaria uns 40 minutos por dia. “Siga caminhando após a avenida, você vai ver uma fazenda do lado esquerdo e edifícios à direita”, era a orientação da hospedaria. Um pouco esquisito, mas de fato havia plantações de alfaces e outros vegetais em uma faixa estreita entre um e outro lado da rua. Uma pequena fazenda urbana.

“Toque a campainha, estamos no quinto andar”, explicava o dono. Atendi, mas nada. Uma, duas, três vezes. Esperei. Passaram duas mulheres, de meia idade. Acenaram, puxaram conversa. Nas duas maiores cidades da China – Beijing e Shanghai – isso é muito comum, em tentativas de golpe. As mulheres se aproximam, iniciam conversa e convidam para um chá ou drink. Uma vez dentro do estabelecimento, tem que pagar quando os comparsas apresentam uma conta exorbitante.

Não, não seria o mesmo aqui na Coreia do Sul. Mostraram um vídeo, em português, após perguntar de onde eu vinha. Queriam apenas me converter a alguma religião que falava em “Deus Mulher” e mostrava golfinhos, leões e pinguins.

Voltei a tocar a campainha e resolvi apelar para o vizinho, com gestos e sinais. Pedi por chamada telefônica. Apesar da maioria das pessoas – principalmente das gerações mais novas – estudar inglês nas escolas, são poucos os cidadãos aptos a estabelecer uma conversação fluente no idioma estrangeiro. É mito achar que nos países desenvolvidos todos falam inglês, bem.

O improviso funcionou e logo recebi instruções para entrar na casa. Lá dentro, o caos, lembrei dos acumuladores compulsivos. Meu cantinho era no sótão. O apartamento até poderia ser um daqueles cools de Nova Iorque, conceito “open space”, ambiente de artista. Não fosse a mobília velha, a geladeira cheirando comida vencida e os trastes sem utilidade espalhados.

“Hoje haverá mais um hóspede. Volte a hora que quiser, mas não feche a porta com muita força”, instruía o dono da guest house. “E deixe o pagamento debaixo do travesseiro, quando sair”, finalizou. Pedido diferente, mas cada cultura, uma prática.

Achei que estaria em um lugar de passagem, transitório, mas a cidade de Incheon é surpreendente. O centro antigo combina história, arquitetura, arte, design, entretenimento, parques e área verde, tudo com muito charme. Como sabemos, a cultura ocidental e o vínculo com os Estados Unidos é muito forte na nação.

O general norte americano, Douglas MacArthur, que comandou as forças aliadas no Pacífico, durante a II Guerra Mundial, e apoiou a Coreia do Sul na luta contra o comunismo, ganhou estátua no município. Incheon foi ponto estratégico durante a Guerra da Coreia.

O dia se faz extenso, nas longas expedições. Costumo ficar fora por 10 horas e depois trabalhar por outras quatro ou cinco horas, baixando e organizando fotos e vídeos; escrevendo, postando e respondendo mensagens; pesquisando sobre lugares, trajetos e fazendo algumas reservas; e ainda ajustando algum assunto ou pendência do Brasil.

Regressei às 22h, com ar gelado e o vento uivando atrás da porta do quarto. Tudo deserto, nenhum vestígio de que mais alguém tivesse passado a noite ali. Pensei que ao menos o dono morasse no apartamento.

Procurei câmeras escondidas, parecia estar sendo vigiado, a imaginação voava. Era uma pousada abandonada. Sensação interessante, de mistério, mas também de aconchego, por estar só. Viajar assim é interessante aprendizado, uma maravilhosa vivência.

O ar condicionado não me respeitou e insistiu em lançar ar fresco sobre o meu colchão. A noite seria uma escolha entre me esticar e abrigar os pés com o acolchoado fino e curto.

O dinheiro ainda debaixo do travesseiro.

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Expedição Extremo Oriente

CARAMUJOS, COBRAS, POLÍCIA E MUITA TRADUÇÃO POR CELULAR

em 4 novembro, 2017

Sabe aquela conversa animada com os amigos, quando queremos compartilhar impressões, trocar informações e novas experiências? Foi assim um dos meus finais de semana aqui na China, só que os novos companheiros não sabiam qualquer palavra fora do idioma deles, o mandarim. Toda a interação se deu baixo aplicativo de tradução – chinês/inglês e vice-versa. Dá para imaginar?

Minha estada, e esta aventura, começaram apartadas dos habituais trajetos de viagem ao país. Do lado de fora da estação de trem era a escuridão, e uma fileira de táxis. Onde estavam as avenidas de acesso, os pontos de ônibus? Com cerca de 400 mil habitantes, nada para os padrões do país, Deqing é uma cidade pequena e sem metrô. Eu deveria estar a uns 10 quilômetros do centro.

Noite jovem, o jeito era recorrer ao táxi, sempre minha última opção de transporte. Taxistas – em muitíssimos países onde tenho andado – superfaturam corridas, tentam levar vantagem, dificilmente falam inglês e, por vezes, ameaçam e até sequestram estrangeiros. Lá se juntou uma rodinha ao meu redor para ler a direção que eu trazia, em chinês, se divertir comigo e negociar o preço, nos dedos.

Sem debate, consegui fazer o motorista ligar e seguir o taxímetro. Essa é a primeira malandragem na carreira dos profissionais desonestos do país. Partir com a bandeira desligada e pedir valor acima do padrão. Muitos dos motoristas chineses berram, como se o idioma asiático fosse invadir os meus ouvidos e assim levar a compreensão ao cérebro. A corrida custou 40 yuans, ou US$5. A viagem de poucos minutos, em trem-bala, saiu por US$2, e nem foi possível atingir a velocidade máxima: 320 km/h.

A prova de que não haveria estrangeiros por perto se deu já na recepção da guest house. A dona me cumprimentou em inglês e esboçou um sorriso internacional. Desatei a falar, mas fui freado pelo gesto com a palma da mão esticada. Ela agarrou o celular e escreveu no aplicativo de tradução, estava para começar uma longa jornada digital.

Cidade do interior é sempre igual, ficamos amigos rapidamente. Saí para jantar, a mulher junto. Sentia-se a minha guia e anfitriã.  No balcão de iguarias, os pratos montados: algo que não identifiquei; casulos de bicho da seda; vegetais insuficientes; peixes caros; alguma coisa que não sei o que era; insetos variados; carne tresnoitada e amanhecida; e um prato que parecia adequado, por US5, minha pedida. Normalmente as sopas ou fritadas de noodles, com legumes e alguma carne de porco, custam entre US$2,50 e 3,50. Comida local é bem barata no país.

Os restaurantes chineses geralmente não oferecem guardanapos. Estou falando dos comedores locais, não de lugares turísticos. A louça fica na mesa, embrulhada em filme plástico. Estava difícil de identificar exatamente qual seria a comida: molho amarelo, várias bolotinhas escuras, de porte médio, algum legume e uma tigela de arroz. Depois de algumas mordidas, reconheci os caramujos da minha infância no quintal. Eram para dar gosto, nada mais. Um pedaço entalou lá pelo molar inferior esquerdo.

Deqing está a uma hora de carro de Moganshan, região de montanhas e vilas ancestrais. Corrida negociada pelo aparato tecnológico, a dona da pousada me deixou na entrada do parque nacional para um dia de caminhada na mata, entre pequenas lagoas, trilhas naturais, algumas pavimentadas, e vilas com casarões em rocha. Natureza forte.

Hora e meia antes do horário marcado para retorno, descobri uma bela floresta de bambu. Entrei, conduzia a um vale. Dali facilmente chegaria a qualquer vilarejo e poderia sair para a entrada do parque. Pelo meu cálculo, estava a uma distância média do ponto de encontro com a mulher da pousada.

Não estava. Descida contínua, trilha interminável, escuridão chegando. Eram quase cinco e meia da tarde e havia marcado às 18h com a pequena empresária do ramo de hospedagem. Meia volta, resolvi retornar ao ponto de partida. Mas onde seria mesmo? Tinha perdido a conexão com o mundo exterior no emaranhado de caminhos tortos.

A experiência ensina que jamais se deve deixar a trilha e ingressar na floresta cerrada. Porém, ao ver ao longe um casebre, diminuta base para corte de bambu, era a minha melhor alternativa. Então me desapeguei da trilha e, raspando a vegetação, alcancei a casinha abandonada. Dali era buscar rastros e pegadas até avistar os primeiros pontos luminosos. Daria para rodar um filme de terror em alguns casarões abandonados.

Suado, cansado e preocupado, encontrava um hotel, dentro do parque. As indicações, por gestos e sinais, mostravam que eu estava exatamente do lado oposto ao meu ponto de encontro. Sentei à mesa do computador, no hotel, para pedir uma carona, paga. Nenhum carro poderia entrar mais na área a partir daquele horário, entendi. Mas se eu esperasse uns 20 minutos, talvez…

Sentei, obediente. Ansioso pela mulher que me aguardava a alguns quilômetros de distância. Um carro estacionou na porta, pediu 40 yuans e depois de rodar algum tempo, entrou em uma vila iluminada. Tudo dentro do parque nacional. Às 19h não era ali que eu deveria estar. Instruções com uma menina que entendia algum inglês, mas, o que me salvou, foram as fotos da entrada do parque, exibidas na minha câmera.

Seguimos. Até o motorista sinalizar para eu descer, pedir mais dinheiro e me indicar uma trilha. Ali, no meio do nada, na imensidão escura da mata, como desvendar o caminho para o meu ponto de encontro? O homem subiu comigo. Andamos rápido, morro acima, arfávamos. Lanternas de celular como guias.

Após a subida forte, reconheci algumas construções. Agora caminharia sozinho pela estrada noturna. Mas, depois da segunda curva, alguém no meu encalço gritava, luz do celular à mão. Era o mesmo motorista. Logo agora que estava chegando, reclamaria mais yuans?

Pediu para eu esperar, mostrou luzes com sinais de mão. A polícia? Sim, minuto depois parava a viatura, a mulher da pousada dentro. Preocupada, não tinha simplesmente ido embora, mas acionado socorro. Explicações pelo tradutor. Fotos para os guardas. A polícia capitalizou o “resgate”, agora já devo estar em algum registro ou gráfico de salvamento na China.

No dia seguinte, quando despertei, Lu Mao Dan me aguardava, em trajes de domingo. Estava bonita, acompanhada do marido e do filho. Sairiam comigo, em visita à fazenda de criação de cobras, para uso medicinal.

Antes uma vila de pescadores, Zisiqiao começou a criar serpentes na década de 70. A medicina tradicional chinesa – baseada no uso de vegetais, minerais, ervas, raízes e partes dos animais – aproveita o veneno, a pele e o óleo da cobra. Bom, não é à toa que o réptil aparece no símbolo que representa a Medicina – o bastão de Esculápio.

Nas fazendas, víboras, najas e pítons. Há serpentes ao ar livre, em poços de concreto; guardadas em caixas de madeira, empilhadas uma sobre as outras; e até dezenas ensacadas. Yang Hongchang é um dos precursores da iniciativa na vila. Quando jovem recorreu às cobras para tratar da artrite que ninguém conseguia sarar. A cura se transformou em um negócio.

Com cerca de três milhões de cobras, a região se tornou uma indústria.  Vende para dezenas de companhias farmacêuticas e exporta para a Coreia do Sul e Japão, além de produzir licor para consumo doméstico, bom para o sistema imunológico.

A família não me deixou pagar o almoço na área histórica de Xinshi, vila de canais fluviais e pontes semicirculares. Ainda me convidaram para jantar, regado a forte destilado chinês e longa conversa por plataforma digital, noite adentro.

Para agradecer a amigos tão amáveis, comprei flores e pequenas tortas. Agora você pode imaginar a cena, o único estrangeiro na cidade, com quase dois metros de altura, circulando pelas ruas com um buquê de girassóis. Realmente, não são necessários restaurantes sofisticados e hotéis caros para se divertir muito e viver maravilhosas aventuras no exterior.

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO, E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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A VILA DO TIGRE E DO DRAGÃO

em 29 outubro, 2017

A China é uma combinação de lugares históricos, vilarejos ancestrais, paisagens exuberantes e cidades modernas. Alguns dos cenários mais pitorescos estão na região de Huizhou, na província de Anhui. A região floresceu com a riqueza dos comerciantes de madeira, chá e sal.

A história era severa. Com apenas 13 anos os meninos eram lançados para fora de casa para se envolver no mundo dos negócios. Ficavam ausentes a maior parte do tempo, muitas vezes retornando ao lar apenas uma vez por ano. O resultado foram vilas com edificações esplendorosas, portas esculpidas e janelas entalhadas, pavilhões decorados, bonitos pátios e jardins internos.

Hóngcún é um exemplo. Construída no segundo período da Dinastia Song (960 a 1.279), é um charmoso cenário com pontes, vielas, becos e ruas labirínticas em meio à área rural e montanhosa.

Conta a história que mais tarde a vila foi remodelada, ganhou o formato de um boi. Resultado da consulta a um guru de Feng-Shui, feita por alguns anciãos, fundadores do lugar.  O sistema de canais, ainda em funcionamento, representa as entranhas do animal e o lago, no centro da aldeia, o estômago do bicho.

O estilo arquitetônico da região de Huizhou simboliza bem a classe de mercadores que dominou os vilarejos durante as dinastias Ming e Qing. Muros de pedra, paredes caiadas em branco com cabeças de cavalo nos flancos. Pátios internos iluminados por aberturas retangulares nos telhados. Decoração sofisticada e janelas diminutas – para prevenir ladrões e também para afastar as esposas solitárias das tentações.

Eram ainda obcecados por arcos decorados, construídos por decreto imperial para homenagear algum feito excepcional dos indivíduos. Apesar de ser lugar histórico e declarado como Patrimônio Mundial, pela Unesco, ainda há algumas vivendas nas cercanias, na área rural próxima aos limites do vilarejo. Muitos ainda trabalham no comércio, com a venda de especiarias, carcaças de pato dissecadas e outras iguarias bizarras da China.

Mas, talvez esteja na entrada, um dos pontos mais famosos de Hóngcun. A pequena ponte usada como locação para a cena de abertura do filme “O Tigre e o Dragão” (2000), do diretor Ang Lee. O drama, de artes marciais, é poético e revela outras estupendas paisagens da China como florestas de bamboo e as montanhas de Huangshan. Gravado em mandarim, é obra prima do cinema asiático.

A beleza do lugar atrai, além de visitantes, estudantes de arte, desenhistas e pintores que retratam a paisagem relaxante e inspiradora. Sem dúvida, um ponto alto da expedição Extremo Oriente pela China.

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO, E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

 

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A VIDA NO PAÍS COMUNISTA (PARTE 2)

em 15 outubro, 2017

“Somos um país comunista, aqui tudo é de graça: casa, saúde e educação”, declarou a guia local, nos meus primeiros dias em terras norte coreanas. Reflexivo, me calei, ainda tentando tocar a realidade com as mãos. Agora poderia sentir um pouco, na prática, essa cotidiano socialista. Longe do dogmatismo teórico ou de poses esquerdistas.

De fato, não se vê miséria em Pyongyang e nem nos arredores, não há moradores de rua, mendigos e o país parece ser perfeitamente seguro.  No entanto, em vilas mais simples e em áreas rurais, a uma distância de três ou quatro horas da capital, mulheres lavam roupas em riachos de águas poluídas. Bom, nada tão diferente assim das regiões pobres do Brasil.

Talvez a maioria das pessoas more em edifícios, os prédios estão em toda parte. Mesmo em áreas isoladas, onde só se vê campos e agricultura, lá está uma construção vertical, por vezes no meio do nada, bem diferente. De longe, os prédios parecem mais bonitos do que de fato se revelam, com a aproximação.

Tudo no cotidiano norte coreano está relacionado à função que se desempenha. Conforme o trabalho se recebe uma casa e um salário, além de uma ração (espécie de cesta básica), a cada duas semanas. Nas fazendas cooperativas ganha-se também cota da produção.

Professores, pesquisadores e cientistas estão melhor instalados, geralmente na área moderna da capital, em construções imponentes. Se tiverem a oportunidade e a sorte, podem passar algum tempo fora do país, em estudo e desenvolvimento técnico-profissional.

A ocupação depende do perfil do sujeito e da conexão familiar. O cidadão pode se candidatar para ser guarda de trânsito ou guia turístico, mas dificilmente alguém de origem rural irá trabalhar na cidade ou conseguir um posto de destaque. É complicado se movimentar para cima, neste sistema. A aposentadoria chega aos 60 anos para homens e aos 54 anos para mulheres, segundo informação de um dos guias coreanos.

A comida é muito barata e a compra de utilidades domésticas, facilitada. Na única oportunidade que tivemos de conhecer um mercado local, adquiri lanche, biscoitos, sucos e refrigerantes por menos de R$10, pagos na moeda local, o Won. Artigos importados vem normalmente da China e do Japão. O câmbio era de 8 mil Wons para US$1.

Carros, porém, são produtos de luxo, pouco acessíveis â população em geral. A maior parte dos veículos pertence ao governo ou às Forças Armadas. Em uma semana no país vi apenas um automóvel de uso particular, indicado pela placa de cor amarela.

De acordo com o guia ocidental, o país reserva 13 hotéis para abrigar estrangeiros. O nosso tinha 47 andares e oito elevadores, um deles, panorâmico. Todos com câmeras de vigilância. Como tudo na Coreia do Norte, os estabelecimentos pertencem ao governo, oficialmente não há propriedade privada.

Apesar disso, veículos britânicos como o jornal The Guardian e a rede de televisão BBC, informam que o país vem implantando reformas voltadas à economia de mercado. Apesar das casas não pertencerem a seus moradores, existe a venda de “direitos de residência”, de acordo com o jornal. Igualmente, há alguns empreendimentos do governo que, na prática, são administrados por gerentes que absorvem a maior parte dos resultados financeiros. Seriam, segundo a imprensa internacional, empresas de ônibus e companhias de carvão, por exemplo. Diferente do que ocorreu na China, as mudanças não são acompanhadas de qualquer abertura política.

Apesar de todo o desenvolvimento armamentista, a tecnologia não é exatamente parte da vida do cidadão. A internet, apesar de existir, não está disponível para pessoas comuns, mas restrita ao governo, diplomatas e a alguns visitantes estrangeiros. Há um sistema de intranet local, usado nas universidades, mas que não se conecta à rede mundial de computadores.

O primeiro serviço de internet móvel (3G), obviamente restrito, foi lançado em associação entre uma empresa egípcia de telecomunicação e estatal coreana. Alguns habitantes usam telefones celulares, mas apenas para efetuar e receber chamadas.

O hotel onde fomos instalados preserva duas cabines telefônicas e um guichê para envio de cartas ou cartões postais. O imenso rádio do quarto não transmite qualquer estação e a área de música da biblioteca pública tem diversos equipamentos, ainda com toca-fitas.

Inevitável não mencionar, a decoração é sempre kitsch, em qualquer lugar. Arcos de flores, lustres esquisitos, maçanetas e acabamentos de gosto duvidoso, mobiliário ultrapassado, vasos entre vidros de portas giratórias. Quadros enormes em espaços gigantescos. Definitivamente os norte coreanos não acreditam em ambientes pequenos.

A sociedade é bastante conservadora, os casamentos são normalmente arranjados e a regra é não praticar sexo antes do matrimônio. O divórcio não é ilegal, mas tampouco comum. É evidente o comportamento reservado, tímido e respeitador do povo norte coreano. As crianças são extremamente disciplinadas e agradavelmente inocentes.

Há atitudes impossíveis de se controlar a todo momento e a peraltice é um delas. Estivemos com crianças nas ruas, em áreas de recreação e até em um parque aquático. A gurizada, sempre obediente. Outro mérito do país é a educação artística. Os pequenos são incentivados desde cedo a cantar, dançar e a tocar instrumentos.

Assim como na Ásia, em geral, a gastronomia é, por si só, uma outra viagem, muito saborosa. Maravilhosos churrascos de pato, rabanetes ultra apimentados, conchas na brasa e, claro, bastante arroz e vegetais. A economia estatizada é baseada na agricultura e os produtos industrializados que tive a oportunidade de provar são horríveis: refrigerantes, chocolates e doces em geral.

Há as cervejas e os licores locais, perfeitamente adaptáveis ao nosso paladar, e os pratos típicos e polêmicos, como a sopa de cachorro. Evitei, apesar de estar sempre tentado a novas experiências. Optei pela consciência de preservação, ainda mais conhecendo algumas atrocidades feitas contra os cães, enjaulados em praças públicas, na China.

Entre as especialidades tradicionais está o noodles frio, prato tradicional em casamentos pois simboliza a união eterna. “Quando vai receber o seu noodles frio?”, perguntam os locais, numa alusão à data em que os noivos, ou namorados, pretendem se casar (ou serem casados).

Depois de transitar por três cidades, a visita, para ser completa, precisava percorrer a zona desmilitarizada (DMZ). Essa é a área que separa as duas Coreias, do Norte e do Sul. O corredor, perfeitamente demarcado, tem 257 quilômetros de extensão. Na área estratégica, dois quilômetros para dentro de cada nação, são permitidas apenas armas leves. Apesar de todo o controle, esse é o único local onde fotos com guardas e soldados são permitidas.

A Coreia do Norte fala em reunificação e existe até um monumento em prol do retorno a uma só grande nação. Pela minha ótica – e provavelmente na visão da maioria das pessoas – hoje seria uma missão quase impossível. A Coreia do Sul jamais aceitaria o regime estabelecido em DPRK. Para a Coreia do Norte, abrir as fronteiras e deixar o mundo entrar seria o equivalente a uma bomba em uma comunidade totalmente alheia ao mundo exterior.

(CONTINUA. TERCEIRO CAPÍTULO: A PROPAGANDA E O CULTO POLÍTICO-RELIGIOSO).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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Expedição Extremo Oriente

A ÚLTIMA FRONTEIRA (PARTE 1)

em 10 outubro, 2017

Parecia ter desembarcado em um cenário de filme, com poucos atores. Talvez pelas construções coloridas, em tons suaves, contrastando com os trajes cinzas, marrons, verdes ou azuis, sempre escuros, dos norte coreanos. Talvez pela ausência de publicidade, painéis, placas ou neons, tão comuns na China e no mundo ocidental. À primeira vista, Pyongyang, a capital, é uma cidade de brinquedo.

É muito complexo descrever uma visita à Coreia do Norte, ou República Popular Democrática da Coreia (DPRK), como foi batizada a nação comunista. Comum acreditar em imagem baseada em chavões ou paixões políticas. Nem sempre coincide exatamente com o que me alertavam os amigos ou me escreviam os conhecidos, momentos antes da partida.

Só se entra na Coreia do Norte pela China e, sempre, em grupos organizados, não é possível viajar de forma independente. É necessário contratar um operador autorizado por alguma das agências estatais, no nosso caso a “Korea International Travel Company”.

Não tinha certeza se iria conseguir o visto chinês pela segunda vez em menos de dois anos, já que a condição imposta pelo consulado de São Paulo é a de uma espera de 24 meses, entre um visto de turismo e outro. Por isso organizei minha estada na China com a autorização de trânsito – poderia ficar em Beijing por 72 horas, até a partida à Coreia. O passaporte, devidamente carimbado, me foi devolvido apenas um dia e meio antes de sair do Brasil. A emoção já começava. O visto coreano seria entregue no dia anterior ao início da visita.

Após dois dias em solo asiático, aterrissava no mais fechado país do mundo, cercado de cuidados e orientado sobre a legislação a seguir. Não poderia tirar fotos sem autorização prévia dos guias; nenhuma câmera fotográfica com lentes de mais de 250 mm seria permitida; em todo o trajeto teríamos sempre a companhia de dois guias coreanos e um ocidental; nenhum guia de viagem, livro sobre a Coreia, impresso ou documento religioso entraria no país.

Saudações em sinal de respeito aos líderes do país eram fortemente recomendadas; perguntas mais delicadas ou questionamentos políticos deveriam ser submetidos primeiramente ao guia ocidental e conversas com os locais poderiam ocorrer, brevemente e em locais específicos; mapas e GPS teriam que ser deletados dos celulares.

Seria necessário, ainda, assinar um acordo relacionado à publicação de imagens, vídeos e textos sobre o país. Conteúdos para mídias sociais e blogs pessoais foram permitidos. Jornalistas em cobertura de imprensa, só com autorização especial.

À primeira vista as recomendações acima, e outras sugestões de comportamento, me soaram um tanto bizarras. Porém, circulando pelo mundo, aprendi que é preciso ter a mente aberta e a sensibilidade para aceitar as particularidades, os costumes, as restrições e até mesmo as imposições de cada país.

Tudo aceito, estava preparado para um mergulho em uma cultura absolutamente distinta da ocidental, tão mitificada e, dificilmente compreendida. Não se trata apenas de uma nação de mísseis, disposta a guerrear contra os Estados Unidos. Sim, eles detestam o governo norte americano, mas dizem nada ter contra o povo do país.

Demorei alguns dias para entender melhor a satisfação que sentem pelo desenvolvimento bélico. Não sem me chocar antes, diante do impacto provocado pelas imagens em um telão gigantesco, instalado atrás de inocentes crianças entre oito e 10 anos de idade, cantando doces melodias em apresentação artística.

Sim, aconteceu, de fato. Ao ver tanta propaganda institucional pelas ruas e na mesma tela do teatro, eu pensava, minutos antes da cantoria: “impossível os mísseis aparecerem por aqui, bem neste momento”. Mas lá estavam eles, bombas projetadas aos céus, enquanto a piazada se alternava, talentosa, entre os vocais e diferentes instrumentos musicais.

Para os moradores de DPRK os pesados armamentos são motivos de orgulho. “A nação é poderosa, capaz de se defender de qualquer ameaça de superpotências”, assim acreditam, dessa maneira pensam e deste modo foram educados. “Não se trata de querer matar pessoas, mas de ser capaz de autodefesa”, explica o gentil e comunicativo guia australiano.

Havia tensão na chegada ao aeroporto. Provocada mais pelo temor de certos turistas, como o jovem Alex, inglês de 25 anos que depois se confessou aterrorizado ao passar pelos sistemas de controle. Após colocar a mala na esteira de raio-X, o rapaz errou o trajeto e simplesmente foi de encontro com o fiscal, duas vezes seguidas.

Nervosismo talvez decorrente de haver mais policiais do que passageiros no desembarque. Alguns marchando lá fora. Um guarda se aproximou do estrangeiro que filmava a chegada e pediu que apagasse todos os registros. Prontamente obedecido. Não tive problemas, minha mochila sequer foi aberta, apenas foram separados os equipamentos eletrônicos – laptop, câmera fotográfica e celular.

Difícil também é conhecer com exatidão a vida local e distinguir a realidade do cenário apresentado aos estrangeiros. Passei por áreas rurais, estive em lugares públicos, observei gente nas ruas, visitei uma fábrica de vidro e até uma fazenda de produção cooperativa. Dava para perceber o cotidiano em movimento, de forma crível e espontânea. Pessoas caminhando para o trabalho sobre calçadas impecavelmente limpas, ou se deslocando em bicicletas pelas ciclovias. Imensas avenidas com pouco trânsito e construções modernas.

Outros momentos, no entanto, pareciam ter sido construídos somente para os viajantes que chegavam e encontravam uma plateia de teatro lotada de gente, em plena quarta-feira à tarde. Ou grupos de estudantes de inglês, na biblioteca, aguardando para interagir com os estrangeiros.

Seja como for, os principais mitos, histórias e temores são diferentes do que estamos habituados a escutar. Alguns, simplesmente não existem. É o caso da proibição de fotografar o país. Algumas áreas tem restrições severas, caso de alfândega, aeroporto e certos palácios e espaços do governo.

De resto é viável registrar o país, nas mais diversas formas. A maior parte das pessoas é arredia, não gosta de ser fotografada. No entanto, uma aproximação cautelosa e delicada pode tornar possível o registro.  Seja como for, entre o real e o imaginário, sem dúvida uma viagem à Coreia do Norte é uma experiência única, extraordinária e surpreendente.

(CONTINUA. SEGUNDO CAPÍTULO: A VIDA NO PAIS COMUNISTA).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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