De Mochila pelas Américas na RPC

Publicado em: 15/05/ 15


 

ESTÚDIO C

Atualizado em 05/05/2015 10h06

‘Comunhão total com a natureza’, diz Ike Weber sobre encontro com urso

O jornalista foi um dos convidados do Estúdio C no último sábado (02/05)

Jéssica CarvalhoRPC

Ike Weker falou sobre chutar o balde no Estúdio C (Foto: Priscila Fiedler/RPC)
Ike Weker falou sobre chutar o balde no Estúdio C (Foto: Priscila Fiedler/RPC)

Não há personagem melhor para falar sobre chutar o balde, tema do Estúdio C que foi ao ar no último sábado (2), que o jornalista Ike Weber. Em 2012, ele era diretor de comunicação da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), mas resolveu pedir demissão e viajar durante 10 meses e meio pelas Américas.

O viajante conheceu 13 países das 3 Américas (Foto: Arquivo pessoal)
O viajante conheceu 13 países das 3 Américas (Foto: Arquivo pessoal)

Sua viagem, que era um sonho antigo, acabou virando uma expedição jornalística, cultural e de aventura. Com pouco dinheiro, ele percorreu 13 países e registrou tudo no blog “De mochila pelas Américas”, na Gazeta do Povo.

Antes da gravação do Estúdio C, nos bastidores, ele relembrou 3 histórias marcantes que viveu no período. Uma das melhores foi a trilha que fez no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos: “Comecei às 14h. Como era verão, o sol se punha perto das 21h. Lá pelas 20h, perdi a trilha e acabei me deparando com um urso negro, que estava a 800 metros de mim. Ele viu que eu não apresentava ameaça, então pude fotografá-lo e tudo mais. Foi um momento de comunhão total com a natureza.”

Encontro com urso negro deixou Ike emocionado (Foto: Arquivo pessoal)
Encontro com urso negro deixou Ike emocionado (Foto: Arquivo pessoal)

No Alasca, ele presenciou algo inusitado: “Estava hospedado num hostel e vi o gerente do estabelecimento dando entrevista para um telejornal local. Descobri que um dia antes, o dono havia sido preso pelo FBI porque estava promovendo excursões de cunho sexual para o Camboja. Foi inacreditável.”

 Já na Colômbia, passou por sua maior dificuldade. “Resolvi fazer uma caminhada de 6 dias pela selva, até a Cidade Perdida. Na volta, comecei a sentir coceira, então tomei um banho de álcool e fui para outra cidade, já que lá não tinha assistência médica. Dois dias depois, consegui acionar o Seguro Saúde e descobri que estava com varicela”, relatou.

Três dias sem sol e alguns remédios mais tarde, ele pode continuar viajando, mas o curioso é que ficou aliviado. “Achei que fosse sarna”, disse, rindo. Esta história também foi contada no Estúdio C.


Aventura pelas Américas

Publicado em: 06/12/ 13

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(Matéria publicada no jornal Gazeta do Povo. Texto e fotos: Ike Weber)

Tomar banho até de álcool, comer pouco e caminhar muito, com mochilas carregadas às costas. Experimentar a vida real e a cultura genuína de comunidades exóticas, conviver com povos indígenas e se deslumbrar com paisagens magníficas. Assim foi De Mochila pelas Américas, uma expedição jornalística, cultural e de aventura que, em pouco mais de 10 meses, percorreu 12 países do continente americano.

O jornalista e aventureiro, Ike Weber, viajou sozinho, por terra e por água, do sul do Peru ao Alaska e regressou percorrendo regiões do Chile e da Argentina. A jornada, que começou em novembro do ano passado, terminou esta semana.

Só de deslocamentos foram 585 horas, o equivalente a praticamente 25 dias ininterruptos, em sistema multimodal de transporte: de ônibus, trem, moto e bicicleta. Cavalgando encostas e subindo montanhas. Navegando por rios, lagos, geleiras e mares, de canoa, caiaque, ferry boat ou barco a motor. Dirigindo em rodovias cênicas, desbravando onde não havia estradas e pegando carona.

Foi uma peregrinação por todo o tipo de ambiente urbano e natural, paisagens e acidentes geográficos. O viajante explorou cânions, desertos e selvas; visitou povoados esquecidos pelo desenvolvimento e capitais cosmopolitas; relaxou em praias, rios e baías; escalou montanhas e caminhou ao longo de geleiras. Experimentou elástica amplitude térmica, no decorrer da peregrinação – de áreas geladas, com temperaturas abaixo de 0 C, até regiões de calor extremo, ao redor de 45 C.

A opção foi por desvendar de maneira profunda cada região visitada, o que exigiu de 25 a 30 dias em cada país latino e no Alaska. Para cruzar os Estados Unidos de sul ao norte, sem pressa, pelo velho oeste, o viajante precisou de 45 dias.

A diversidade cultural dos povos e as diferenças no nível de desenvolvimento dos países, permitiu perceber desde a miséria e o sofrimento de países como o Peru (América do Sul), El Salvador e Nicarágua (América Central) à segurança e opulência dos Estados Unidos, realidade mesmo após crise internacional.

A jornada não foi uma viagem de férias ou roteiro turístico, mas sim um trajeto de exploração, de cotidiano econômico e hábitos simples, com refeições, transporte e acomodações singelas. A estada variou geralmente entre hostels – onde o dormitório, banheiro e cozinha são compartilhados -, hotéis espartanos, hospedarias ou pousadas. Algumas noites foram mesmo dentro de ônibus, em barracas ou cabanas de madeira. Exatamente 125 diferentes acomodações, para 307 períodos de sono.

Pelo fato de ser viagem de longa duração, tarefas cotidianas precisaram ser absorvidas, solucionadas ou executadas pelo aventureiro, como a lavagem e a reparação de roupas, as compras de mercado e a preparação de refeições, além do controle de despesas fixas no Brasil e o pagamento de contas.

A atenção com a segurança pessoal permeou boa parte da viagem, especialmente no trajeto das Américas do Sul, Central e do México. As ameaças variavam entre sequestro de viajantes em corridas de táxi, possibilidades de assaltos à mão armada e os riscos naturais, em lugares inóspitos e distantes.

Os desafios foram também provocados, com a prática de esportes radicais e de aventura. Adepto da adrenalina, o aventureiro distribuiu as atividades: montanhismo (Peru); camping e trekking selvagem (Colômbia); “deep board” e escalada (Panamá); vulcanismo e motociclismo (Nicarágua); tirolesa e “parasail” (Costa Rica); cavalgada (México) “mountain bike” e “rafting” (EUA); caiaque (Alaska) e “hiking” em todos os lugares percorridos.

Vínculos passageiros foram estabelecidos e novas amizades, internacionais, iniciadas. Sonho realizado. A trajetória sem planejamento fixo, sem o “último dia de viagem”, livre das proibições impostas pelo limite de tempo, chegou ao fim. O viajante teve que retornar para casa, gratificado, carregando inédita e rica experiência e ainda saboreando a sensação ampla de liberdade. Está nove quilos mais leve.

Histórias de um viajante

Uma expedição de quase um ano de duração permite desenvolver ou exercitar valores como a adaptabilidade e a flexibilidade, além de contabilizar histórias que vão muito mais longe do que a simples diversão e o enriquecimento cultural permitido pela arquitetura, tradições, museus, folclores e culinária de cada país.

A ousadia de uma longa jornada oferece possibilidades diferentes, vivências prazerosas e perigosas, situações cômicas e desagradáveis. Pelo caminho da alegria ou do sofrimento, sempre enriquece a vida do viajante.

Atormentado pelos comichões que não lhe abandonavam o corpo, o jornalista despertou agitado em uma madrugada na Colômbia, após um trekking de uma semana pela selva, onde dormiu em rede e estabeleceu contato com índios da região. Fustigado pela coceira, não hesitou em correr para o banheiro e despejar quase um litro de álcool pelo corpo. Sarna?, pensou. No dia seguinte, atendido às pressas pelo médico, a constatação: havia contraído doença de criança, a varicela.

Positivamente surpreso ficou o viajante quando desceu do ônibus interno no Parque Nacional de Denali, no Alaska, para uma caminhada na floresta de tundra, sem trilhas demarcadas. Do alto de uma montanha avistou um urso cinzento, com dois filhotes. Ávido pelo contato com a vida selvagem, arriscou. Apenas com a câmera fotográfica em punho seguiu lentamente na direção dos animais. Chegou a 500 metros da família que se alimentava de frutos silvestres. Era como viver dentro de um filme, só a natureza, os animais soltos e o risco de ataque.

Experiência mais estafante o andarilho enfrentou no Equador. Seguro de que o motorista iria se lembrar de avisá-lo para descer, relaxou no ônibus, trajeto noturno entre dois povoados. Ao notar que a duração prevista para a viagem já havia terminado, há algum tempo, resolveu questionar. O motorista se confundiu e desembarcou o aventureiro em um ponto parecido. Única diferença foi que era no meio da imensidão e escuridão dos vulcões equatorianos. Nenhuma acomodação, nenhuma luz, nenhuma comida nas proximidades. A caminhada para lugar algum foi finalizada com sorte.  O jornalista encontrou hotelzinho de beira de estrada para passar a noite e retomar o trajeto na manhã seguinte.

Ike Weber é jornalista, viajante e fotógrafo. 

 O projeto teve o patrocínio do Colégio Sesi e do Grupo Schultz/Vital Card e apoio de divulgação da rádio CBN Curitiba e do jornal Gazeta do Povo.


Cenas de uma vitória (I)

Publicado em: 15/09/ 13

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Despedida do viajante (péra, pessoal, ainda não acabou…)

Eu consegui!

Cumpri minha jornada, realizei minha peregrinação. Viajei por 10 países/regiões das três Américas, sozinho, por terra, em uma expedição jornalística, cultural e de aventura.

Trafeguei de ônibus, trem e de moto. Singrei águas geladas do Alaska e naveguei por rios, baixo calor escaldante da Nicarágua ou de chuva inclemente na Costa Rica.

Remei junto a geleiras e descendo corredeiras. Pedalei nas mais famosas trilhas de mountain bike do mundo. Circulei de ferry, canoa e barco a motor.

Cavalguei encostas montanhosas no México. Dirigi por rodovias cênicas, nos Estados Unidos, e passei por onde não havia estradas, ao longo do caminho. Peguei carona nas Américas Central e do Sul.

Descobri e explorei todo tipo de ambiente natural: montanhas, praias, baías, geleiras, desertos, cânions, lagos, rios, selvas. Passei frio e calor. Enfrentei sol, neve, ventos e tempestade de areia. Visitei capitais, cidades, povoados e lugarejos.

Abriguei-me em 120 acomodações diferentes, dos mais variados tipos, de barraca a hotéis.

Foram 552 horas de viagem até agora, o equivalente a 23 dias ininterruptos. Ainda não contabilizei os quilômetros, o que farei já na volta ao Brasil, depois de percorrer mais um ou dois países sul-americanos. Mas já adianto que foram milhares – por terra, água e, quando não era possível, por ar.

Conheci pessoas, talvez tenha iniciado vínculos, fiz amizades. Foram espanhóis, austríacos, alemães, peruanos, canadenses, americanos, mexicanos, chineses, ingleses, salvadorenhos, australianos, franceses, colombianos, suíços, ucranianos.

Ri, sorri, sofri e superei. Diverti-me, irritei-me e surpreendi-me. Alegrei-me e chorei.  De emoção.

Pratiquei esportes de aventura: rafting, escalada, cavalgada, mountain bike, parasail, hiking, trekking, camping, snorkeling, tirolesa e até descida de vulcão, em prancha.

E caminhei.

Caminhei muito, em todos os países. Para me maravilhar com paisagens naturais e tesouros culturais. Para avançar profundamente na natureza selvagem. Para conhecer comunidades urbanas, rurais, de praia e de montanha.

Caminhei para aprender e refletir. Para mudar, porque nada é estático, fixo, definitivo. Caminhei para longe. Caminhei para perto de mim.

Caminhei para me perder e para me encontrar.

Você acompanhou boa parte desta caminhada. Com a coletânea de imagens acima poderá rememorar alguns momentos, comprovar e até se divertir com a transformação física do viajante.

A mudança interna é íntima, talvez demonstrada futuramente em contatos ou relacionamentos. A bagagem volta mais leve. Ou mais repleta, dependendo da ótica.

Se fosse experimentar tudo o que passei nos últimos meses, apenas em viagens de férias, levaria pelo menos uma década.

Cumpri um objetivo. Atingi uma meta pessoal. Realizei um dos meus muitos sonhos. Para poder continuar a sonhar.

 

Ike Weber


Aventura do viajante

Publicado em: 17/08/ 13

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Crônica 

A cobra, de escamas negras e pontos coloridos, rasteja ligeira à minha frente, cruza o caminho, toma impulso e se embrenha de uma vez na vegetação rasteira. Logo abaixo, o riacho de águas congelantes serpenteia a mata e, sob o brilho do sol, se contorce ao longo do vale.

Pequenos insetos, semelhantes a grilos, assumem a forma de borboletas amarelas para produzir sons metálicos enquanto voam, parece que aturdidos. O barulho desperta a recordação das disputas infantis de “bolimbolachos”, nos anos 70.

O brinquedo, um cordão com duas bolinhas significativamente duras, que fazíamos se chocar repetidamente, foi proibido em algum momento da década de 80.

Caminho só, 20 quilômetros mata adentro. As estatísticas dizem que 99% dos visitantes do Parque Nacional de Yellowstone não avançam mais do que três quilômetros pela floresta.

Tenho que cuidar dos répteis, na trilha, e acompanhar, ao longe, os grandes mamíferos: bisontes, elkes, veados. As pegadas confirmam presença de bichos grandes. O volumoso excremento é bem maior do que o pé de um adulto.

Irrompe a sensação de estar atravessando o sonho de criança, enfrentando a floresta, espingarda de ferro à mão à procura de caça. A fantasia ultrapassa a barreira da imaginação e atinge a realidade.

Vaga pela lembrança a obra juvenil “A cabana na grande floresta”, da antiga Edições de Ouro, livro de cabeceira da meninice.

Yellowstone tem um das maiores e mais diversificadas populações de vida selvagem do planeta. O mágico é que não dá para saber qual será o próximo cenário à frente ou qual animal pode aparecer.

A paisagem naturalmente se modifica: de vales para florestas; de rios a lagos e riachos; montanhas.

O trajeto oferece constantes pistas inesperadas da vida selvagem: ossadas de mamíferos já devorados, coelhos alvoroçados, bisontes solitários.

Apuro o ouvido. Caminho só.

Soube de um aparelho que serve para contar passos. Diz que para não nos enquadramos na categoria de sedentários temos que dar 10 mil passadas por dia. Seria interessante saber quanto caminhei nesses quase nove meses de expedição.

Teria que atar o aparelho ao corpo, antes de levantar, e só iria me livrar dele à noite, antes de dormir. Não, prefiro a liberdade do vagar sem rumo, ao controle da tecnologia.

Caminho em silêncio, contrariando a orientação dos guarda-parques de circular em grupos, batendo palmas e fazendo barulho. Sem qualquer tipo de proteção, fabrico curto e pontiagudo cajado, de eficácia mais psicológica do que física.

A água transparente do riacho raso faz doer pés e pernas, apesar de eu estar acostumado com temperaturas congelantes.

Adiante, o encontro, fortuito, que poderia significar a preservação de uma vida. Neste caso, a minha vida. Ter me deparado com o grupo de três pesquisadores de espécies selvagens foi momento interessante.

Curioso o fato de um deles ter me encontrado em outra das incontáveis trilhas do parque nacional, dias atrás, e ter me reconhecido. Deixei o cartão da expedição. Sai com um spray contra ataque de urso atado à cintura.

Meu único medo me encontra em uma área descampada: perder a trilha. Ando por vários minutos tentando decifrar o caminho, disfarçado em meio à vegetação rala do vale.

Nunca fui escoteiro, mas desde cedo acampava em lugares isolados, sem qualquer estrutura. De criança aprendi que quando perdemos o caminho o melhor é retroceder, tentar achar o rastro inicial, do ponto onde paramos.

Difícil. Assaltava-me a preocupação de estar seguindo floresta adentro. Pior, percebia que o longo dia de verão dava mostras de cansaço. O sol já escorria por detrás das montanhas de pinus.

Na procura da trilha, encontro o sonho.

Foco a vista e maravilhado confirmo a presença do grande urso negro, empurrando o corpanzil pela mata. Não estava a mais do que 700 metros de distância. Sentiu minha presença, mas não avançou.

No imenso vale eram só o urso e eu, a quase 10 quilômetros da estrada que corta o parque. Outra vez o conselho oficial: quando vir um urso, não corra. Ele chega a 50 km por hora.

Não nos alteramos, mantivemos o curso. Admiração e respeito mútuos. Segui com a expectativa – e ao mesmo tempo o receio – de presenciar uma caçada selvagem durante o tempo do meu regresso. O cair da tarde é hora do despertar desses mamíferos que passam dos dois metros de comprimento e chegam a pesar 350 quilos.

Enxergo a mais ao escurecer, a penumbra desperta formas amedrontadoras na vegetação. O búfalo gigante, pastando, parece bicho selvagem a correr em minha direção. O rugido da madeira seca me faz dar um pulo à frente.

Quando o sol me deixou, segui com a lua, que formava um semicírculo perfeito e alaranjado, no céu escuro. Colho então mais um cajado, seco, e inicio o retumbar que ecoa pela floresta. Senhor da trilha.

Nenhum sinal da estrada, apenas barulhos da noite e alguns tropeções em pedras e raízes. Direciono o facho da lanterna em busca de olhos faiscantes na escuridão. A presença apenas de um domesticável veado.

Caminho, pés úmidos. Não perdi mais a trilha, nem usei o spray de pimenta. Mas me senti tremendamente mais confortável de poder tê-lo preso na cinta.

O céu começa a exibir estrelas quando atinjo a rodovia. Passa das dez da noite.


Aventura na Cordilheira Branca

Publicado em: 09/12/ 12

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Sou um andarilho, diria meu amigo Edson Walker, viajante de longa data. Caminhei por sete horas, 17 quilômetros, circundando montanhas, atravessando matas, cruzando rios e subindo picos até a extraordinária lagoa 69, paraíso de águas verdes em meio à Cordilheira Branca, no Parque Nacional de Huascarán.

A jornada começou cedo, logo às 6h da manhã, com o corpo cravado no banco da van, os joelhos travados no assento da frente, de onde assistia ao constante vai e vem da porta para a entrada e saída de passageiros. As “chicken vans” se assemelham aos “chicken buses”, veículos que transportam de tudo: pacotes, malas, pneus, produção agrícola e até gente, sempre muita gente.

Logo no desembarque havia uma sendo carregada com três sacos cheios de porquinhos da índia, vivos. Sim, aqui no Peru esses bichos são criados para abate. Os motoristas literalmente correm atrás do dinheiro, fazem viagens arriscadas, acelerando sempre e ultrapassando na mais estreita oportunidade.

Dois coletivos depois, duas horas e meia e 85 quilômetros mais tarde, desço em Cebollapampa, para o início da caminhada, que imaginava suave.

A lenta subida foi se acentuando enquanto admirava cascatas e plantas nativas, passou ao nível médio até se transformar em puro aclive de montanha. O ar gelado limpava os pulmões da habitual poluição dos centros urbanos peruanos e esfriava rapidamente o suor.

Fui só, para refletir e contemplar a natureza. A presença dos picos nevados em contraste com a queda de água límpida me levou à emoção e me trouxe as lágrimas. Sim, é possível chorar de alegria, não apenas pelo afeto ou vitória conquistada, mas pelo simples fato de estar ali, imerso entre montanhas e vales, ao pisar pedras e mato.

Ao lado da lagoa, no alto da Cordilheira, não chove, neva. Deixei que os demais viajantes saíssem para ficar só, na companhia da natureza. Assim converso com Deus.

No retorno solitário, minha absoluta falta de direção me joga para fora da trilha principal. Estava perdido na mata, de um parque que se estende por 160 quilômetros e tem outros 20 quilômetros de largura. Por descuido atravessei dois pequenos riachos fora do caminho e tudo que encontrei foram trechos de mato amassado pelo gado. O vale serve para pastoreio.

A questão era colocar foco e manter sempre a tranquilidade, como se ensina para os que se estão a ponto de afogar-se. Perto das 16h precisava achar o caminho antes que escurecesse, o que admito, não foi assim tão difícil.

Na dúvida entre subir para onde eu avistava o que poderia ser um sendeiro, já com pouco fôlego, ou descer, para perto do rio, fiquei com a segunda opção. Cortei caminho escalando um barranco e encontrei novamente a trilha, com as botas e calça molhadas pela umidade da vegetação.

Meu último esforço: juntar-me ao rio, molhar o rosto e provar da água pura do vale. Consegui carona para chegar ao povoado de Yungay e de lá pegar a van para Huaráz. Estava há 48 horas à base de lanche, sem uma refeição completa.


Cañón del Colca 1

Publicado em: 28/11/ 12

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A beleza e a grandiosidade

Paz, beleza, grandiosidade. Algumas palavras para expressar um pouco do que é o Cañón del Colca, um dos maiores cânions do mundo, a cinco horas de Arequipa, no sul do Peru.

Região árida, onde não chove de março a meados de dezembro, reduto de condores, que encerra segredos Incas e plantas medicinais. Lugar de magia e de descentes dos antigos quéchuas, habitantes das montanhas.

A parte mais alta, onde há circulação de pessoas, chega a quase cinco mil metros. No fundo do vale, abismos de até quatro mil metros de profundidade. Ao redor, montanhas míticas e uma forte energia.

Apenas 200 pessoas vivem dentro do cânion, em sete pequenos povoados. Em alguns deles, escolas que ensinam entre seis e 15 alunos. A população envelheceu, mas continua saudável e ativa. Os jovens partiram para se formar na cidade grande. A seca aumentou, a fruticultura, principal fonte de renda, enfraqueceu. Hoje, além de algum escambo, entra algum dinheiro dos andarilhos, em busca de aventura.

No meio da trilha, o túmulo de um ancião, morto enquanto caminhava, aos 92 anos de idade. No alto da subida, a triste lembrança da estudante brasileira falecida em agosto deste ano, quando caiu com a mula penhasco abaixo.

Em toda parte, porém, a beleza, a aridez, a magia e a grandiosidade.

 


Cañón del Colca 3

Publicado em: 28/11/ 12

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A rústica estrutura

Em um lugar como esse não há espaço para frescuras. Os mochileiros já sabem disso. Quando esquecem, são lembrados pelas cabanas com paredes de adobe, tetos de palha e pisos de pedra. Se resistem, têm de enfrentar banheiros sem porta ou com pequenos anteparos de junco. As cozinhas, melhor não comentar.

Tudo isso é parte da aventura, é parte da emoção e do contato com a natureza. Acostumado a tomar banhos frios em Curitiba, não me assustei com a ducha de água fresca. Nem sempre é assim. Naturalmente desprovidos de energia elétrica, as comunidades locais tem aquecimento solar, usado basicamente para esquentar a água.

Jantar à luz de velas, nas cabanas, iluminação com nossas lanternas. Melhor do que acampar. Apaguei na primeira noite, pelo desgaste desmedido e a parca alimentação.

Energizado pelo lugar, pouco consegui descansar na segunda noite. O ronco da cama ao lado contribuiu. Sim, não se tratava de um albergue, mas os espaços são todos compartilhados.

No quesito higiene pessoal, o pior era conseguir lavar as mãos. Recorria a sabão em pó, encontrado nos tanques comunitários. Logicamente os banhos foram da forma mais natural possível: só com água.

Tudo muito bonito, muito natural. Na cama do jovem casal de alemães, poucas cabanas adiante, a companhia de um escorpião.