De Mochila pela Ásia

A indústria que massacra a Tailândia

em 20 março, 2016
Os paredões emergem do oceano

Tours, ofertas, pacotes e todo tipo de atração para turistas

Chiang Mai é o principal centro de concentração turística ao Norte da Tailândia

Sob a ótica da descoberta e das viagens, a Tailândia apresenta dois aspectos nitidamente marcados. O das maravilhas naturais, históricas e religiosas e o das multidões e exagerada exploração comercial. É preciso tempo, pesquisa e dedicação para encontrar o mais genuíno da nação.

Na mesma rota costeira, ao Sul do país, é possível vislumbrar praias belíssimas, sufocadas pela indústria do turismo, e também desfrutar de ilhas bem preservadas e sem urbanizar. Em poucos quilômetros de distância as diferenças são alarmantes e atingem até mesmo o comportamento dos locais. O esquema turístico torna os naturalmente aprazíveis e amistosos tailandeses em comerciantes impacientes e não raramente irritadiços ou mesmo agressivos.

Há muito ainda preservado no Sudeste Asiático

Viagem de longo prazo oferece mais tempo para descobrir lugares lindos, vazios e isolados

A Tailândia recebe anualmente um número de estrangeiros equivalente à população de sua capital, cerca de 10 milhões de habitantes. É fácil alcançar o país – Bangkok é um hub aeroviário – há estrutura e conforto, mais gente falando inglês e menos risco. Isso faz com que lugares que viveram dias de beleza imaculada, na longínqua época do movimento hippie, possam ser comparados hoje a uma Disneyworld em mês de Julho, o pico do movimento no parque temático.

Exemplo disso é Maya Bay na considerada paradisíaca ilha de Ko Phi Phi. O turista padrão salta da capital direto para esse ponto e acredita estar saboreando o máximo da costa de Andamán. Usa seus “paus de selfie” e divide pouco mais de 150 metros de areia com praticamente outras mil almas ingênuas, ansiosas por um retrato e por mostrar onde estiveram ao regressar a casa. Dê uma olhada na foto abaixo e você vai enxergar Copacabana no verão ou o Farol da Barra, em Salvador, em janeiro. Triste.

Mil pessoas em 150 metros de areia

Maya Bay, abarrotada de turistas internacionais, é exemplo da asfixiante indústria do turismo na Tailândia

Exagero? Não se você presenciar um guia local com microfone alardeando a fama do local desde que DiCaprio atuou ali para o filme “A praia”. Jamais combinaria com a paisagem de areias brancas, águas turquesa e monumentais paredões de rocha. Para incrementar o drama, quase uma centena de turistas ia atrás, entusiasmada com a fugaz importância cinematográfica do lugar.

O ápice da estupidez, na minha sincera opinião, foi encontrar um sujeito enchendo garrafinha de água mineral com areia da baía. “Vou mostrar para os amigos um pouquinho de Maya Bay”, deveria pensar, sem qualquer lampejo de consciência ambiental.  A fama só contribuiu para poluir e estragar o – um dia intocado – cenário.

Os paredões emergem do oceano

O Parque Nacional Marinho de Ko Phi Phi, área preservada e com magníficos paredões de rocha

Outro exemplo é a estrutura muito bem montada em Bangkok com a finalidade de movimentar multidões em vans pelos arredores da capital. Os turistas passam horas no veículo entre três ou quatro atrações diferentes, shows com cobras, espetáculos de macacos ou a antinatural oportunidade de se aproximar de um par de tigres dopados. A saída é geralmente da área de Khao San Road, uma área turística de algumas quadras, onde todas as noites os bares tocam conhecidas e antigas canções internacionais para entreter os clientes.

O turismo sem dúvida traz o seu lado positivo: gera empregos, distribui renda e impulsiona o país, o que torna a Tailândia um destino completamente seguro. O que lastimo é o fato de se tornar ferramenta de aculturação de uma nação. Elefantes não nasceram para desenhar, crocodilos não foram criados para se apresentar como animais domésticos e minorias étnicas não existem para representações turísticas ou para pedir esmolas e gorjetas.

Ainda existem no Sudeste da Ásia, e na própria Tailândia, lugares muito interessantes, bem mais autênticos, e paisagens belíssimas a proporcionar experiências enriquecedoras. Posso garantir, após cinco meses desta expedição jornalística, cultural e de aventura – sendo dois só na Tailândia. Porém dá mais trabalho para descobrir e mesmo para chegar; exige mais flexibilidade e senso de adaptação, e, por vezes, surgem perrengues a enfrentar.

Longe do óbvio, perto da natureza

Lugares mais desertos exigem pesquisa, esforço e flexibilidade para visitação e descoberta

Na ilha maravilhosa que descrevi no post passado, acordei de madrugada com um camundongo correndo na cabeceira do meu colchão, sobre o estrado de bambu. Claro que não gosto disso, sou uma pessoa normal, ainda que com certo espírito aventureiro. Mas, faz parte da trajetória.

De qualquer maneira, se cabe aqui alguma sugestão, digo que se esforce, não opte rapidamente pela opção óbvia, comercial e mais fácil, ainda que você prefira o conforto e não seja um viajante de longo prazo. Garanto que vai compensar, e muito. Viajar é diferente de fazer turismo.

A ilha secreta onde estive por uma semana

Vale à pena o esforço para evitar o óbvio e sair do esquema comercial e turístico

 “Travel is like marriage.

The certain way to be wrong
is to think you control it”

John Steinbeck (1902 – 1968)

 

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De Mochila pela Ásia

Bangkok, Tailândia

em 1 março, 2016
Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok

São famosos e maravilhosos os imensos templos de Bangkok

A capital da Tailândia venera Buda em todas as formas, estilos e tamanhos

Bangkok é uma cidade para quem dorme cedo e também para quem acorda tarde. Está viva. Há atividades diversificadas nas 24 horas do dia. Cosmopolita, acolhe visitantes do mundo todo, é um importante hub do sudeste asiático com conexões de voos para todos os continentes. Lugar onde o inglês já não é mais uma barreira tão difícil de ser transposta.

Segura, muito segura, a qualquer hora da noite. Cheguei de madrugada, peguei ônibus de linha, desci numa avenida e caminhei de mochila às costas procurando hostel, pensão ou pousada. Com a maior tranquilidade. Há moradores de rua, assim como também há policiamento e muita paz, típico do perfil asiático.

Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok

A cidade é cosmopolita, recebe moradores e visitantes de todo o mundo

A malandragem está com os taxistas, que resistem em usar o taxímetro, e com os motoristas de tuk tuks que superfaturam qualquer pequena corrida. Esses triciclos são a praga do Sudeste Asiático. A Embaixada do Brasil na Tailândia sugere que o visitante evite o tuk tuk porque são muitos os casos em que o motorista não leva o passageiro ao destino e tenta convencê-lo a sair para comprar em lojas onde recebe comissão, entre outras trapaças (leia post sobre tentativa de extorsão em tuk tuk no Laos clicando em http://migre.me/t1yn5).

Bangkok se move. Lenta e rapidamente. Devagar pelos congestionamentos e tráfego pesado. Rápido de trem e metrô. Por água, de barco e com ferry boat. Talvez essa agitação toda tenha absorvido a afabilidade natural dos habitantes. Nas áreas de grande concentração de estrangeiros, os tailandeses se mostram bem impacientes, repelem perguntas e contestações, expõem a face rude da cidade grande.

Há as mais variadas formas de transporte

A cidade se move por terra e por água

A Tailândia é um país que louva a alimentação e em Bangkok você pode comer de tudo: dos pratos típicos e acondimentados à comida do ocidente; de pizza a quitutes de rua; de fast food a insetos e aracnídeos. Provei um escorpião no espeto, tem gosto de… nada, é como casca frita.

É possível encontrar todo tipo de comida na Tailândia

Provei escorpião frito que tem gosto de nada

Sucos de frutas e batidos são diversos. Tudo é saboroso. À parte dos frutos do mar, da típica massa oriental com frango ou camarão; das castanhas e do arroz, há deliciosas sobremesas. Sorvetes servidos na casca de côco ou finos pães com omelete e cobertura de leite condensado, por exemplo.

Os pratos são geralmente muito acondimentados

A comida de rua é farta, variada e barata

Dá para dividir em duas grandes áreas a cidade: a parte da realeza e  lugares históricos e a região moderna. Na primeira estão edifícios religiosos belíssimos, com o Wat Pho, o maior e mais antigo templo da cidade e que abriga a mais completa coleção de estátuas de Buda da Tailândia; e o Grande Palácio, antiga residência dos reis tailandeses. É a cidade que venera Buda – o príncipe transcendido, Sidhartha Gautama – em todas as formas, tipos e tamanhos. Sempre com recato. Se não estiver vestido ou coberto adequadamente, pode emprestar saia ou calça nos guichês de ingresso aos santuários.

Templos e palácios são das maiores atrações na capital

Palácio Real que serviu como residência da monarquia, hoje usado para celebrações especiais

Na parte nova, gigantes centros comerciais e de compra se conectam com hotéis e restaurantes, enquanto passarelas alçam voo sobre avenidas. As ruas mudam de cor segundo a projeção de imensos painéis de neon e de letreiros cinematográficos. Quando as portas dos enormes shoppings centers se abrem, os potentes ares condicionados refrescam até meio quarteirão.

O complexo de compras mais sofisticado reúne três shoppings: Sim Center, Siam Discovery e Siam Paragon, este último com oito andares, dois só para entretenimento. A praça de alimentação tem quiosques especializados em qualquer tipo de comida, oriental e ocidental. As compras são feitas com cartão de débito do shopping, abastecido num quiosque central.

Siam Paragon é dos shoppings mais modernos

Os complexos comerciais são sofisticados e conectados com restaurantes, bares e hotéis

Virou mania construir santuários na frente dos hotéis chiques, depois que edificaram o de Erawan, na época por considerarem que as forças negativas atrasavam a construção do Grande Hotel Hyatt e provocavam acidentes e mortes. Mas foi ali o cenário do atentado que matou moradores e estrangeiros, em agosto do ano passado. É um templo hindu num país essencialmente budista.

Inúmeros santuários foram construídos em frente aos hotéis da cidade moderna

O Santuário de Erawan foi palco de atentado no ano passado

Tem espaço para todo mundo em Bangkok. Espremidas debaixo de pontes, pequenas barraquinhas de comida e tendas de bugigangas coabitam com redes de supermercado, luxuosos restaurantes envidraçados e lojas de marca.

A cidade é tão extraordinária que circulei por duas semanas e ainda poderia ficar mais alguns dias com atividades totalmente diferentes. Há um mercado imenso, só de flores; museus lúdicos e interativos; ginásios com apresentações do real Muay Thai; apresentações de orquestras à beira do rio; imensos bazares e mercado noturnos; e muitos rapazes travestidos de mulher trabalhando no comércio. Com o crescimento da cidade, os antigos canais estão para virar lenda, mas ainda é possível se surpreender com táxis náuticos e barcos grandes, com motores potentes.

O crescimento da capital vai transformando quase que em lenda os estreitos canais

O transporte pelos canais de Bangkok são cada vez mais raros, mas ainda existe

A honestidade local é admirável. Dentro de uma van, na área central da cidade, recebi uma cestinha de plástico com várias moedas e notas de bath, o dinheiro deles. “Coloque o dinheiro na cesta e passe adiante”, explicou-me o rapaz. “Assim, sem recibo?”, confirmei. Depositei os 30 baths, cerca de um dólar, e segui viagem pela cidade. Gratificante.

O antigo e o contemporâneo coabitam a capital

Mulheres em trajes tribais vendem artesanato em área turística de Bangkok

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De Mochila pela Ásia

Que rei sou eu

em 12 fevereiro, 2016
A atual morada da realeza foi transferida para a parte Norte da cidade

A atual morada da realeza foi transferida para a parte Norte da cidade

O grande palácio, em Bangkok, antiga residência da família real

Surpreso, mostrei meus respeitos ao rei. Sim, estava no cinema em Bangkok quando exibiram na tela um aviso e começaram a entoar uma música sentimental, seguida de ilustrações, algumas dramáticas. Era o hino real da Tailândia. O pequeno público presente na imensa sala do Siam Paragon, sofisticado shopping center da capital, se colocou de pé por aqueles instantes. Divertido, obedeci.

Descobri mais tarde que não se levantar para a execução do hino é crime de Lesa-Majestade, previsto no Código Penal e passível de prisão que varia de três a cinco anos. A lei não é flexibilizada para estrangeiros.

Ainda que a Tailândia ter deixado de ser uma monarquia absoluta há quase um século, a figura do rei está por toda parte em Bangkok: em grandes avenidas, em lojas, nas casas ou, é claro, em gigantes painéis nos prédios públicos. Apesar de já estar com 88 anos e a saúde debilitada, o rei Bhumibol, ou Rama IX, aparece sempre mais jovem nas imagens.

O rei sempre aparece mais jovem nas imagens

A imagem do rei da Tailândia está em toda parte

O monarca ganhou o respeito do povo e tem autoridade moral. É visto como uma figura paternal que atuou com sabedoria em momentos de crise. Possivelmente a crença budista, predominante no país, faça com que seja venerado como semideus.

Chamado publicamente de “O Grande”, é o indivíduo que há mais tempo reina no planeta, desde 1946. Considerado o rei mais rico do mundo, ele cumpre função social e financia diversos projetos de desenvolvimento em áreas rurais do país. A revista Forbes estimou a fortuna da realeza em US$30 bilhões, em 2011.

O rei da Tailândia está com 88 anos

Painéis imensos estampam a figura do monarca, que há mais tempo reina no mundo

Um dia depois, aconteceu novamente. Exatamente às seis da tarde eu estava atravessando uma passarela, no centro da cidade, quando vi todo mundo parado. Estranhei, não me parecia ponto de transporte. Todos congelados, como num filme de ficção científica ou em uma novela de Saramago.

De súbito, escutei a canção, trazida pelo vento. Era o hino novamente. Algumas pessoas me olhavam, parei ao lado de um casal. Depois perguntei o que acontecia para que me confirmasse o que já imaginava. Todos os dias a capital para no final da tarde para reverenciar o rei. Não é uma lei, disseram, apenas questão de respeito.

Hoje o país tem uma estrutura política em que o primeiro-ministro é o chefe de governo enquanto que o rei é chefe de Estado, o que se denomina uma monarquia constitucional. O poder executivo está atualmente nas mãos do Exército e o país não superou a instabilidade desde o golpe militar de 2006, apoiado pela realeza. Leva algum tempo para entender toda a agitação política e institucional da última década.

O lugar é coalhado de visitantes do mundo inteiro

Guarda em frente ao grande palácio, em Bangkok

Nos últimos 10 anos, uma nova Constituição foi promulgada; eleições gerais com a vitória dos oposicionistas foram realizadas; a primeira ministra eleita foi deposta e indiciada; novo ministro ocupou interinamente o posto de chefe do Estado; outro golpe foi dado pelos militares em 2014, com lei marcial, toque de recolher e censura; a nova Constituição foi suspensa, exceto o capítulo sobre a monarquia; os militares prometeram e depois adiaram novas eleições gerais; e, por fim, talvez o país compareça às urnas no ano que vem.

O julgamento da ex-primeira-ministra tailandesa, Yingluck Shinawatra, acabou de começar em Bangkok, em meados de janeiro. Em um movimento considerado político, ela foi acusada de negligência num programa de cultivo de arroz. O processo deve levar todo este ano, as alegações da defesa estão previstas apenas para novembro.

A junta militar é acusada de tentar afastar definitivamente do cenário político a família de Shinawatra, vitoriosa nas últimas eleições nacionais. Ela é irmã do também deposto ex-primeiro-ministro Thaksin, exilado no Reino Unido desde o golpe de 2006.

As Forças Armadas, formadas pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, sempre ocuparam espaço representativo na história do país. Criadas durante a monarquia absolutista – como defesa contra os interesses colonialistas de países da Europa – foram modernizadas com o passar dos anos, até o estabelecimento de um Ministério de Defesa.

Novas eleições estão previstas para 2017

Os militares governam atualmente a Tailândia

A criatura se voltou contra o criador e os militares derrubaram o sistema monárquico hegemônico em 1932, com apoio de movimentos civis. O rei passou a ter mais um papel de representação, uma figura simbólica. A partir daí as Forças Armadas não deixaram mais de intervir em assuntos políticos. Apenas nos últimos 100 anos a Tailândia sofreu 12 golpes de Estado e teve 17 Constituições.

Ritmo agitado e engarrafamentos na capital Bangkok

Apesar da instabilidade política, a Tailândia segue vida normal

Neste momento não há protestos nas ruas de Bangkok. A capital segue o ritmo do agitado cotidiano, dos engarrafamentos e do movimento de milhões de turistas estrangeiros que visitam o país, principalmente na alta temporada, de novembro a fevereiro.

O palácio é usado atualmente para cerimônias especiais, como a de coroação

O grande palácio divide área com um dos mais importantes templos de Bangkok

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