Expedição Extremo Oriente

CARAMUJOS, COBRAS, POLÍCIA E MUITA TRADUÇÃO POR CELULAR

em 4 novembro, 2017

Sabe aquela conversa animada com os amigos, quando queremos compartilhar impressões, trocar informações e novas experiências? Foi assim um dos meus finais de semana aqui na China, só que os novos companheiros não sabiam qualquer palavra fora do idioma deles, o mandarim. Toda a interação se deu baixo aplicativo de tradução – chinês/inglês e vice-versa. Dá para imaginar?

Minha estada, e esta aventura, começaram apartadas dos habituais trajetos de viagem ao país. Do lado de fora da estação de trem era a escuridão, e uma fileira de táxis. Onde estavam as avenidas de acesso, os pontos de ônibus? Com cerca de 400 mil habitantes, nada para os padrões do país, Deqing é uma cidade pequena e sem metrô. Eu deveria estar a uns 10 quilômetros do centro.

Noite jovem, o jeito era recorrer ao táxi, sempre minha última opção de transporte. Taxistas – em muitíssimos países onde tenho andado – superfaturam corridas, tentam levar vantagem, dificilmente falam inglês e, por vezes, ameaçam e até sequestram estrangeiros. Lá se juntou uma rodinha ao meu redor para ler a direção que eu trazia, em chinês, se divertir comigo e negociar o preço, nos dedos.

Sem debate, consegui fazer o motorista ligar e seguir o taxímetro. Essa é a primeira malandragem na carreira dos profissionais desonestos do país. Partir com a bandeira desligada e pedir valor acima do padrão. Muitos dos motoristas chineses berram, como se o idioma asiático fosse invadir os meus ouvidos e assim levar a compreensão ao cérebro. A corrida custou 40 yuans, ou US$5. A viagem de poucos minutos, em trem-bala, saiu por US$2, e nem foi possível atingir a velocidade máxima: 320 km/h.

A prova de que não haveria estrangeiros por perto se deu já na recepção da guest house. A dona me cumprimentou em inglês e esboçou um sorriso internacional. Desatei a falar, mas fui freado pelo gesto com a palma da mão esticada. Ela agarrou o celular e escreveu no aplicativo de tradução, estava para começar uma longa jornada digital.

Cidade do interior é sempre igual, ficamos amigos rapidamente. Saí para jantar, a mulher junto. Sentia-se a minha guia e anfitriã.  No balcão de iguarias, os pratos montados: algo que não identifiquei; casulos de bicho da seda; vegetais insuficientes; peixes caros; alguma coisa que não sei o que era; insetos variados; carne tresnoitada e amanhecida; e um prato que parecia adequado, por US5, minha pedida. Normalmente as sopas ou fritadas de noodles, com legumes e alguma carne de porco, custam entre US$2,50 e 3,50. Comida local é bem barata no país.

Os restaurantes chineses geralmente não oferecem guardanapos. Estou falando dos comedores locais, não de lugares turísticos. A louça fica na mesa, embrulhada em filme plástico. Estava difícil de identificar exatamente qual seria a comida: molho amarelo, várias bolotinhas escuras, de porte médio, algum legume e uma tigela de arroz. Depois de algumas mordidas, reconheci os caramujos da minha infância no quintal. Eram para dar gosto, nada mais. Um pedaço entalou lá pelo molar inferior esquerdo.

Deqing está a uma hora de carro de Moganshan, região de montanhas e vilas ancestrais. Corrida negociada pelo aparato tecnológico, a dona da pousada me deixou na entrada do parque nacional para um dia de caminhada na mata, entre pequenas lagoas, trilhas naturais, algumas pavimentadas, e vilas com casarões em rocha. Natureza forte.

Hora e meia antes do horário marcado para retorno, descobri uma bela floresta de bambu. Entrei, conduzia a um vale. Dali facilmente chegaria a qualquer vilarejo e poderia sair para a entrada do parque. Pelo meu cálculo, estava a uma distância média do ponto de encontro com a mulher da pousada.

Não estava. Descida contínua, trilha interminável, escuridão chegando. Eram quase cinco e meia da tarde e havia marcado às 18h com a pequena empresária do ramo de hospedagem. Meia volta, resolvi retornar ao ponto de partida. Mas onde seria mesmo? Tinha perdido a conexão com o mundo exterior no emaranhado de caminhos tortos.

A experiência ensina que jamais se deve deixar a trilha e ingressar na floresta cerrada. Porém, ao ver ao longe um casebre, diminuta base para corte de bambu, era a minha melhor alternativa. Então me desapeguei da trilha e, raspando a vegetação, alcancei a casinha abandonada. Dali era buscar rastros e pegadas até avistar os primeiros pontos luminosos. Daria para rodar um filme de terror em alguns casarões abandonados.

Suado, cansado e preocupado, encontrava um hotel, dentro do parque. As indicações, por gestos e sinais, mostravam que eu estava exatamente do lado oposto ao meu ponto de encontro. Sentei à mesa do computador, no hotel, para pedir uma carona, paga. Nenhum carro poderia entrar mais na área a partir daquele horário, entendi. Mas se eu esperasse uns 20 minutos, talvez…

Sentei, obediente. Ansioso pela mulher que me aguardava a alguns quilômetros de distância. Um carro estacionou na porta, pediu 40 yuans e depois de rodar algum tempo, entrou em uma vila iluminada. Tudo dentro do parque nacional. Às 19h não era ali que eu deveria estar. Instruções com uma menina que entendia algum inglês, mas, o que me salvou, foram as fotos da entrada do parque, exibidas na minha câmera.

Seguimos. Até o motorista sinalizar para eu descer, pedir mais dinheiro e me indicar uma trilha. Ali, no meio do nada, na imensidão escura da mata, como desvendar o caminho para o meu ponto de encontro? O homem subiu comigo. Andamos rápido, morro acima, arfávamos. Lanternas de celular como guias.

Após a subida forte, reconheci algumas construções. Agora caminharia sozinho pela estrada noturna. Mas, depois da segunda curva, alguém no meu encalço gritava, luz do celular à mão. Era o mesmo motorista. Logo agora que estava chegando, reclamaria mais yuans?

Pediu para eu esperar, mostrou luzes com sinais de mão. A polícia? Sim, minuto depois parava a viatura, a mulher da pousada dentro. Preocupada, não tinha simplesmente ido embora, mas acionado socorro. Explicações pelo tradutor. Fotos para os guardas. A polícia capitalizou o “resgate”, agora já devo estar em algum registro ou gráfico de salvamento na China.

No dia seguinte, quando despertei, Lu Mao Dan me aguardava, em trajes de domingo. Estava bonita, acompanhada do marido e do filho. Sairiam comigo, em visita à fazenda de criação de cobras, para uso medicinal.

Antes uma vila de pescadores, Zisiqiao começou a criar serpentes na década de 70. A medicina tradicional chinesa – baseada no uso de vegetais, minerais, ervas, raízes e partes dos animais – aproveita o veneno, a pele e o óleo da cobra. Bom, não é à toa que o réptil aparece no símbolo que representa a Medicina – o bastão de Esculápio.

Nas fazendas, víboras, najas e pítons. Há serpentes ao ar livre, em poços de concreto; guardadas em caixas de madeira, empilhadas uma sobre as outras; e até dezenas ensacadas. Yang Hongchang é um dos precursores da iniciativa na vila. Quando jovem recorreu às cobras para tratar da artrite que ninguém conseguia sarar. A cura se transformou em um negócio.

Com cerca de três milhões de cobras, a região se tornou uma indústria.  Vende para dezenas de companhias farmacêuticas e exporta para a Coreia do Sul e Japão, além de produzir licor para consumo doméstico, bom para o sistema imunológico.

A família não me deixou pagar o almoço na área histórica de Xinshi, vila de canais fluviais e pontes semicirculares. Ainda me convidaram para jantar, regado a forte destilado chinês e longa conversa por plataforma digital, noite adentro.

Para agradecer a amigos tão amáveis, comprei flores e pequenas tortas. Agora você pode imaginar a cena, o único estrangeiro na cidade, com quase dois metros de altura, circulando pelas ruas com um buquê de girassóis. Realmente, não são necessários restaurantes sofisticados e hotéis caros para se divertir muito e viver maravilhosas aventuras no exterior.

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO, E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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A VILA DO TIGRE E DO DRAGÃO

em 29 outubro, 2017

A China é uma combinação de lugares históricos, vilarejos ancestrais, paisagens exuberantes e cidades modernas. Alguns dos cenários mais pitorescos estão na região de Huizhou, na província de Anhui. A região floresceu com a riqueza dos comerciantes de madeira, chá e sal.

A história era severa. Com apenas 13 anos os meninos eram lançados para fora de casa para se envolver no mundo dos negócios. Ficavam ausentes a maior parte do tempo, muitas vezes retornando ao lar apenas uma vez por ano. O resultado foram vilas com edificações esplendorosas, portas esculpidas e janelas entalhadas, pavilhões decorados, bonitos pátios e jardins internos.

Hóngcún é um exemplo. Construída no segundo período da Dinastia Song (960 a 1.279), é um charmoso cenário com pontes, vielas, becos e ruas labirínticas em meio à área rural e montanhosa.

Conta a história que mais tarde a vila foi remodelada, ganhou o formato de um boi. Resultado da consulta a um guru de Feng-Shui, feita por alguns anciãos, fundadores do lugar.  O sistema de canais, ainda em funcionamento, representa as entranhas do animal e o lago, no centro da aldeia, o estômago do bicho.

O estilo arquitetônico da região de Huizhou simboliza bem a classe de mercadores que dominou os vilarejos durante as dinastias Ming e Qing. Muros de pedra, paredes caiadas em branco com cabeças de cavalo nos flancos. Pátios internos iluminados por aberturas retangulares nos telhados. Decoração sofisticada e janelas diminutas – para prevenir ladrões e também para afastar as esposas solitárias das tentações.

Eram ainda obcecados por arcos decorados, construídos por decreto imperial para homenagear algum feito excepcional dos indivíduos. Apesar de ser lugar histórico e declarado como Patrimônio Mundial, pela Unesco, ainda há algumas vivendas nas cercanias, na área rural próxima aos limites do vilarejo. Muitos ainda trabalham no comércio, com a venda de especiarias, carcaças de pato dissecadas e outras iguarias bizarras da China.

Mas, talvez esteja na entrada, um dos pontos mais famosos de Hóngcun. A pequena ponte usada como locação para a cena de abertura do filme “O Tigre e o Dragão” (2000), do diretor Ang Lee. O drama, de artes marciais, é poético e revela outras estupendas paisagens da China como florestas de bamboo e as montanhas de Huangshan. Gravado em mandarim, é obra prima do cinema asiático.

A beleza do lugar atrai, além de visitantes, estudantes de arte, desenhistas e pintores que retratam a paisagem relaxante e inspiradora. Sem dúvida, um ponto alto da expedição Extremo Oriente pela China.

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MULTIDÃO CELEBRA DIA NACIONAL DA CHINA

em 2 outubro, 2017

Quatro e quarenta da madrugada toca o despertar e eu acordo animado, após menos de três horas de sono, e depois de 51 horas de viagem, quatro voos, um trem, um ônibus e breve caminhada até o hostel onde me hospedaria, no coração de Beijing.

Mergulhei na escuridão das vielas e ruas estreitas do Hutong, bairro animado da capital, que fervilha até o início da madrugada. Antes do amanhecer, é completamente deserto, mas totalmente seguro. Não sinto saudades do Brasil.

É 1 de Outubro, a data mais importante do calendário Chinês, ao lado do Ano Novo. Comemora-se o dia da República Popular da China, um feriado que dura mais de uma semana e abarrota o país com intensa circulação de pessoas. Todos estão de folga na chamada “Semana de Ouro” e viajam pelo país.

Metrô ainda fechado, buscava um táxi na avenida principal, ao lado de minha nova amiga, a alemã Nina, jovem estudante universitária gordinha e muito simpática. Não gosto de táxis, principalmente em países da Ásia e da América Latina. Os motoristas resistem em usar o taxímetro e costumeiramente querem superfaturar as corridas. Em muitos casos, há inclusive risco de sequestro e assalto, mesmo na China.

Logo ali, um casal chinês parecia tentar o mesmo. Com gestos, sem qualquer palavra, conseguimos nos comunicar e compartilhar o transporte. Um carro negro, acionado por celular, chegava em instantes. Poderia ser um táxi do mercado paralelo. O mais provável era ser de empresa de transporte por aplicativo. A Didi Chuxing comprou a operação da Uber no país em 2016 e anunciou no início deste ano o investimento de US$100 milhões na brasileira 99 Táxi. É o maior aplicativo de transporte urbano da China.

Os arredores da Tiananmen Square já anunciavam a multidão que se preparava para a comemoração oficial. Está entre as 10 maiores praças do mundo com 440 mil metros quadrados (880 m X 500 m). Famosa mundialmente pelos protestos contra o governo e o massacre de civis, em Junho de 1989.

De máscara antipoluição, e sem dizer palavra, a chinesa recusa minha oferta de contribuir com o transporte. Seguimos juntos. O casal não desgrudaria de nós nem um momento, parecia sentir-se responsável pelos estrangeiros. Assim é o povo chinês, tem perfil de bom anfitrião.

Atravessamos o sistema de segurança e afundamos na multidão. Mar de gente. Alguns com patrióticas bandeiras vermelhas, outros com adesivos nas bochechas. Crianças nos ombros dos pais tentando ver o invisível. Oceano de celulares.

Atualmente a celebração é muito simples. Alguns tambores, que escutamos à distância, o hasteamento da bandeira e revoada de pássaros. Apesar da Independência da China ter ocorrido em 21 de Setembro, foi em 1 de Outubro de 1949 a formação do Governo Central, assim esta data é anunciada formalmente como da criação da República Popular da China.

Tudo começa e termina rapidamente, logo após clarear, ainda com neblina incessante. Todos veem pouco. O mais interessante é sentir o pulso da capital, interagir com as pessoas por sorrisos e acenos, registrar o momento, sentir-se comprimido pela massa humana.

Pouco depois da madrugada ter abandonado a praça, guardas dão a ordem de retirada por alto-falante e fazem a multidão se mover. Fácil de compreender. O local permanece bloqueado pelo cordão humano de soldados, com idades a partir dos 14, 15 anos. Impecáveis em suas posturas, são jovens que optaram pela carreira militar.

 

Seguimos nosso caminho, tudo muito fluido e ordenado, apesar do excesso de gente e do hábito chinês de empurrar as pessoas para conquistar espaço ou passagem. Estava na expectativa de como seria chegar ao país em pleno feriado prolongado, apesar de tantos alertas para evitar a “Semana Dourada”.

Sim, os chineses congestionam mesmo as ruas e vão à visitação e às compras. Caminham pelos calçadões, alternam-se entre as lojas de quinquilharias, mercados de rua e as gigantes boutiques com famosas marcas internacionais.

Já havia estado aqui em data festiva, há um ano e meio, na expedição De Mochila pela Ásia. Era o Dia do Trabalho, 1 de Maio.  Sempre divertido, acolhedor e instigante. Pode ser difícil se transportar pelo país, mas, para um mochileiro solitário, não é preciso evitar as multidões na capital da China.

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China

Três momentos em uma grande muralha

em 8 maio, 2016
Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

O paredão passa por área de fazendas

O trecho não restaurado está em terras áridas, na província de Shanxi

O primeiro cenário é da Grande Muralha da China em seu espaço e com características originais, sem ter sido restaurada nos tempos modernos e longe de qualquer atividade comercial ou exploração turística. Está no meio de áridas montanhas, perto de comunidade rural em uma das vilas mais pobres do país, na província de Shanxi, no centro-norte.

A área está mais próxima do que um dia foi a autêntica estrutura militar, na China Imperial. A muralha começou a ser construída há dois mil e duzentos anos, na Dinastia Qin (221 a 207 a.C.), e seguiu em transformação até o período Ming (1.368 a 1.644). A obra é na verdade um conjunto formado por diversas muralhas edificadas separadamente e depois unificadas.

A Grande Muralha começou a ser construída há 2,2 mil anos

A muralha é formada pela unificação de diversos paredões seculares

O tamanho aproximado – segundo o último levantamento de arqueólogos do próprio governo chinês – indica que pode ser de 21 mil quilômetros de extensão. A estimativa de 2009 acusava comprimento de 8.851 quilômetros.

Essa diferença e a falta de exatidão quando à dimensão da obra deve-se ao fato de que boa parte da fortificação foi erguida com terra batida – e não com pedras e tijolos – que desapareceu com o passo dos anos. Outra parte da estrutura deve ter sido utilizada como material de construção em aldeias próximas. Conta a lenda que até ossos de trabalhadores mortos estão entre a argamassa do paredão.

Boa parte desapareceu ou foi aproveitada em aldeias vizinhas

O material utilizado era variado, de terra e barro à pedras e tijolos

A altura é variável, em média 7,5 metros. Sempre se imaginou que a barreira começou a ser levantada para proteger os antigos impérios das tribos vizinhas, vindas do Norte. No entanto, historiadores acreditam que a dinastia Qin não corria grande perigo quando a obra foi iniciada, seria então uma preparação para ameaças futuras.

Centenas de milhares de homens foram recrutadas para o trabalho, entre soldados, camponeses e prisioneiros. Como primeiro unificador da China, Qin Shi huang começou a conectar a muralha, ampliada depois pelos sucessivos reinos.

A Grande Muralha da China era intercalada por milhares de torres de observação e vigia. De cada ponto os guardas observavam a movimentação e estabeleciam comunicação por fumaça, fogo e bandeiras. Transpor a muralha até poderia ser possível, mas sem muita rapidez, e nunca a cavalo. Apesar do tamanho e da vigilância, a imensa parede não conteve o avanço mongol, a partir do século XIII, e sua consequente dominação.

Desde as torres, a comunicação era feita com fumaça e bandeiras

O paredão era composto de várias torres de vigia para reforçar a segurança

O segundo cenário é de Badaling, um dos mais importantes trechos da Grande Muralha, totalmente restaurado e com quase quatro quilômetros abertos ao trânsito de visitantes. É sem dúvida o ponto mais turístico da edificação, com áreas de restaurantes, lojas de souvenires, hotéis e multidões diárias de turistas.

Badaling é área restaurada e famosa

No trecho mais turístico, multidões abarrotam as paredes da muralha

Foi restaurada nos anos 50 e reconstruída na década de 80, a 70 quilômetros de Beijing, a capital chinesa. Optei por conhecer esse trecho para vivenciar o contraste entre as duas distintas partes da mesma muralha.

A terceira imagem é de trecho restaurado, porém absolutamente tranquilo. Em hiking sobre o paredão é possível se afastar facilmente dos grupos de turistas, em sua grande maioria chineses, pouco dados ao esforço físico ou caminhadas em trajetos íngremes e longas distâncias.

Os chineses não são dados a esforço físico

Após meia hora de caminhada é possível se ver livre das multidões de turistas

O paredão é tão impressionante que se acreditava possível o avistamento desde a lua, ou por astronautas em órbita da Terra, o que depois foi desmistificado.

Em média, a parede tem 7,5 metros de altura

É mito dizer que a Grande Muralha é visível desde o espaço

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China

O Feriado do Trabalho na China

em 1 maio, 2016
A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Essa talvez seja a maior praça do mundo

A Praça da Paz Celestial é centro de visitação bem procurado no Dia do Trabalho

É normalmente moroso se movimentar em Beijing, a capital da China. Porém, nada complicado, apesar do tamanho e de seus 22 milhões de habitantes. A metrópole tem um eficiente sistema de transporte público que inclui 15 linhas de metrô, o que torna possível ir a qualquer parte da cidade por baixo da terra. São Paulo, outra cidade gigante e com densidade demográfica semelhante, oferece apenas cinco linhas de transporte subterrâneo.

É eficiente o sistema de transporte público da capital

O metrô de Beijing conta com 15 linhas que cobrem toda a cidade

O cotidiano é de filas, ruas cheias e estações de metrô, ônibus e de trem, sempre movimentadas. Nada passa perto, no entanto, das multidões do Dia do Trabalho, um dos três grandes feriados do calendário chinês. Os outros dois são o Dia Nacional, em primeiro de Outubro, e o Ano Novo Chinês, em Fevereiro.

O feriado do Dia do Trabalho é uma festa de confraternização, mas principalmente de passeio para os chineses. Acostumados a curtos períodos de férias, é nas datas festivas que ganham as ruas ou se deslocam pelo país. As filas, sempre grandes, aumentam consideravelmente. Dobram quarteirões para pegar ônibus até a região da Grande Muralha. Transformam-se em ondas de gente nos pontos turísticos.

Os pontos turísticos ficam abarrotados no Dia do Trabalho

Multidão atravessa um dos portões da Cidade Proibida

Para caminhar em meio à massa é preciso tranquilidade e paciência. Necessário saber ocupar cada espaço vago a sua frente. O povo é extremamente pacífico e, diferente de boa parte dos latinos, jamais cria confusão. Em um mês viajando pela China não vi qualquer manifestação de agressão física ou verbal. No entanto, a maioria é pouco educada, empurra, não respeita fila e tem pouca consideração com os demais. Não fazem por mal, é a cartilha da sobrevivência no país mais populoso do mundo.

Escolhi um dos dias mais congestionados para visitar a principal atração da China, a Cidade Proibida. Bem, não foi exatamente uma escolha, no dia anterior os ingressos estavam esgotados. O número de visitantes é limitado a 80 mil pessoas por dia, o que pode não significar muito em um país com 1,4 bilhão de pessoas.

No interior dos pavilhões e praças, as multidões se dissipam

Depois de vencer as ondas humanas, é possível encontrar sossego na Cidade Proibida

Saí às 10 h da manhã do meu hostel e demorei uma hora para entrar na atração, após pegar duas linhas de metrô e vencer todos os procedimentos: área de segurança, centro de visitantes, centro de serviço e portões de acesso. Isso porque havia comprado meu ingresso antecipadamente, pela internet. Ainda bem que o lugar é imenso e no interior das praças, palácios e pavilhões, as multidões se dissipam.

A Praça da Paz Celestial é ponto central no feriado do trabalho. Além de circular pela possivelmente maior praça pública do mundo, com 440 mil metros quadrados, os chineses apreciam as construções em estilo soviético e, principalmente, a formação e marcha das guardas governamentais. Tian´anmén, como é chamado o local, é o centro simbólico do universo chinês, concebido pelo controverso líder nacionalista Mao Tse Tung para projetar o Partido Comunista.

A movimentação da guarda governamental atrai a atenção dos chineses

Guarda em formação na Praça da Paz Celestial

Na história recente, a Praça da Paz Celestial ficou marcada pelo massacre promovido pelo próprio governo, ao reprimir com força os protestos contra o regime político. Liderada por estudantes, em 1989, a manifestação pacífica se opunha ao regime e à situação econômica da época. A imagem que correu o mundo foi a do desconhecido invadindo a praça e se postando em frente aos tanques de guerra. Foi considerado uma das pessoas mais influentes do século XX, pela revista americana Time.

A praça ficou negativamente famosa pelo massacre de 1989

Um dos portais voltados para a Praça da Paz Celestial destaca o rosto do líder Mao Tse Tung

Ainda que cansativa, é única a experiência de estar na capital da China numa data tão importante e movimentada. Talvez um momento para se vivenciar apenas uma vez na vida.

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China

O pintor, a calígrafa e o caçador de relíquias

em 24 abril, 2016
A partir dos anos 50 os caracteres foram simplificados

A partir dos anos 50 os caracteres foram simplificados

A caligrafia chinesa existe em cinco diferentes estilos

Entramos na loja para admirar a caligrafia chinesa, uma das inúmeras expressões artísticas do país. Como estrangeiro, fui repentinamente convidado para um chá pelo dono do estabelecimento, um pintor local. Ali mesmo, em uma mesa instalada entre livros, pinturas, papéis e caracteres Han. Não estava só, toda a conversa foi traduzida pelo meu novo amigo chinês, Shunyao Jin, um jovem estudante de Ciências da Computação da província de Shandóng.

A filha do artista praticava a arte de desenhar os caracteres que historicamente existem em cinco diferentes estilos. A caligrafia chinesa é um sistema de origem remota, talvez perdido no tempo. Confúcio fazia referência à escrita antes de 2.000 a.C. Cada sinograma representa um conceito, por isso a comunicação é chamada de logográfica – e não mais ideográfica – já que não simboliza uma ideia concreta. Entre os anos 50 e 60 os caracteres foram simplificados, com a redução do número de traços.

A filha do pintor praticava a arte da escrita

A caligrafia da China é de origem remota

O pintor é especialista em figuras chinesas e cenas possíveis de serem vistas em templos budistas pelo país. A maior característica da arte nessa parte do mundo é o uso do traço. A força da expressão está na energia das pinceladas e na inserção de pontos.

As tonalidades variam conforme a densidade da tinta, preparada com barra sólida e água. Orgulhoso, o artista mostra recortes de jornal que divulgam seu talento e me presenteia com belos caracteres que significam uma conexão entre a China e meu país.

O diferencial da arte está nos traços e pontos

O artista, especialista em pinturas chinesas, ao lado de algumas de suas obras

O chá foi servido em uma cerimônia tradicional, mas cotidiana, simples. As diminutas xícaras recebem a bebida uma primeira vez, mas o chá é jogado fora, sobre uma estátua de madeira em forma de sapo. Serve para a limpeza dos utensílios. A bebida só é ingerida a partir do segundo ciclo, quando o sabor está mais refinado. As rodadas são sucessivas, a pequena xícara não fica vazia. O bule descansa sobre um delicado fogareiro. Tudo é arte no país.

Participei de cerimônia simples, mas simbólica

A primeira rodada de chá é descartada sobre estátua de madeira, em forma de sapo

Jin, como vamos chamar o meu amigo a partir de agora, é o exemplo da nova geração que compõe a ascendente classe média da China. Veio de boa família, estudou na melhor universidade da sua região e está aprendendo inglês por conta. Em dois meses começa a trabalhar na IBM, em Beijing, e pelo que suas capacidades indicam, seguramente terá uma carreira ascendente. Metade de seus colegas de classe já está fora do país, estudando ou trabalhando.

O estudante se forma e já começa a trabalhar na IBM, em dois meses

Jin é exemplo de jovem da classe média ascendente na China

O caçador de relíquias – amigo do pintor e também convidado para o bate papo – viaja pela China há pelo menos 20 anos. Busca tesouros da cultura ancestral para vender em sua loja, vizinha ao lugar onde apreciamos o chá. Especialmente peças em jade. A conversa flui entre temas como pinturas e suas representações, costumes do Brasil e as próximas Olimpíadas, do Rio de Janeiro.

As xícaras não descansam vazias. No princípio, a erva era cultivada para uso medicinal. Nos templos, os monges usavam o chá para ensinar o respeito pela natureza, a humildade e transmitir paz.

A conversa gira em torno das artes, da China e do Brasil

O chá é servido constantemente durante a conversa, em diminutas xícaras

Hoje estou vivenciando valores como esses, no contato com o povo chinês. São afáveis, amigáveis e extremamente hospitaleiros. São experiências assim que busco quando me atiro pelo mundo. Autênticas, muito além da visitação turística.

Desenhos assim são vistos também nos templos

Na energia das pinceladas, a alma da pintura chinesa

 

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China

Templo de Shaolin, onde nasceu o Kung Fu

em 19 abril, 2016
A região conserva a magia

Primeiro a concentração para buscar força interna

O Kung Fu combina disciplina, técnica, concentração, flexibilidade e precisão

O primeiro passo, fundamental, é a concentração. A interiorização para captar força interna. Segundos depois o balão, instalado atrás de uma parede de vidro, é estourado com um prego. A velocidade e a precisão do movimento fazem com que o vidro não se rompa. O prego produz apenas um pequeno estilhaço e um furo, suficientes para atingir e explodir a bexiga de borracha.

A técnica é demonstrada por um aluno do Centro de Treinamento Wushu que mantém grupo educacional com escolas de nível fundamental, médio e até faculdade para interessados na prática do Kung Fu. Está localizado ao lado do tradicional Templo de Shaolin, onde surgiu a modalidade, na província de Hénán, no centro da China.

A arte marcial é praticada na China a partir dos quatro ou cinco anos de idade

O centro de treinamento para a prática de Kung Fu está ao lado do Templo de Shaolin

A história conta que o monge indiano Batuo (Bodhidarma), primeiro responsável pelo templo, criou um conjunto de exercícios para manter a saúde e a vitalidade dos demais monges, ao redor dos anos 500. Era preciso ter boa condição física para os exercícios de meditação, com o corpo imóvel por longos períodos. Baseada em movimentos de diversos animais e insetos, o sistema se tornou uma arte marcial difundida em todo o mundo.

A apresentação continua de forma impressionante, no centro de treinamento. Outro aluno encosta duas lanças pontiagudas na superfície do corpo entre a garganta e o peito e pressiona as lâminas até que se dobrem. O esforço e o sacrifício estão na essência do Kung Fu.

Disciplina é um dos valores da arte marcial

A apresentação de Kung Fu mostra técnicas impressionantes e a luta com armas brancas

O primeiro aluno de Batuo conquistou essa posição provando sua capacidade de entrega, devoção e persistência. Nevava muito quando o monge Huike se postou frente ao abrigo onde meditava Batuo. Pediu para se tornar um discípulo, mas ouviu que se neve vermelha caísse do céu esse pedido seria atendido. Huike cortou seu próprio braço, o esquerdo, e avermelhou a neve ao redor. Tornou-se o primeiro seguidor do mestre.

É por esse motivo que alguns monges do Templo de Shaolin, quando se inclinam em reverência, sustentam em posição de oração apenas a mão direita. O braço esquerdo segue descansando, ao lado do corpo, como simbolismo e respeito ao monge-primeiro discípulo.

O lugar conserva a paz e a inspiração

O Templo de Shaolin, onde o Kung Fu nasceu, baseado em movimentos de animais e insetos

O Templo de Shaolin está aninhado no vale formado entre as montanhas Song, local sagrado e origem da civilização chinesa. Ao redor há outras construções históricas, na área antigamente conhecida como “Centro do Céu e da Terra”. Infelizmente o templo foi alvo de ataques e destruição em guerras internas na China. O último incêndio, em 1928, exigiu a reconstrução de várias áreas e edificações.

Além da história, são impressionantes e reais as marcas deixadas pelos monges, nos pavilhões de treinamento. O solo afundado reflete a dinâmica, ilustra a persistência e comprova a exigência e a disciplina requeridas para a prática da modalidade marcial. A depressão no chão foi provocada pelos movimentos intensos com os pés. Árvores seculares estão furadas por dedos, após repetitivos impactos.

As árvores seculares mostram as marcas do treinamento

Os buracos nas árvores foram formados pelo impacto dos dedos

De todo o país – e por vezes do exterior – chegam jovens interessados no internato para treinamento. Há várias outras escolas fora dos arredores do templo, nos centros urbanos mais próximos. Boa parte dos alunos vem de famílias mais pobres e recebem uma oportunidade de estudo e de desenvolvimento físico, intelectual e emocional. Muitos foram premiados em competições, outras dezenas seguiram carreira militar ou na polícia.

O aprendizado é árduo e exige muita flexibilidade

Alunos de todas as regiões da China vêm treinar nos arredores de Shaolin

Apesar da multidão de chineses que visita o local, diariamente, o templo de Shaolin não recebe muitos estrangeiros e ainda preserva a atmosfera de paz e inspiração. O lugar continua mágico. O Kung Fu ainda é parte da alma da China.

A região conserva a magia

O Kung Fu está na alma da China

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China

A maior metrópole do mundo antigo

em 11 abril, 2016
Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

O imperador Qin ordenou a construção da força armada para proteção no além

Os soldados guardam o mausoléu do primeiro unificador da China

Até hoje os guerreiros guardam o mausoléu do primeiro unificador da China. Qin Shi Huang horrorizava-se com a ideia de que os espíritos dos inimigos derrotados estivessem aguardando por ele no além. Ou talvez imaginasse que continuaria a governar após a morte. Os soldados entrincheirados seguem em formação militar, só que agora descobertos.

Foi recente e por acaso. Apenas em 1974, agricultores locais encontraram os primeiros vestígios das estátuas em terracota, ao cavar um poço em busca de água. Eram oito mil, escondidas em três zonas diferentes, cinco metros baixo terra, desde o final do século III a. C.. A maior zona escavada tem 14 mil metros quadrados. É uma das mais importantes revelações arqueológicas do planeta.

A descoberta foi por acaso, apenas em 1974

Oito mil estátuas em terracota estavam escondidas a cinco metros debaixo da terra

Cada peça foi criada em tamanho natural, cada soldado com uma feição diferente. Guerreiros, arqueiros, membros da infantaria em posição de tiro, além de outras centenas de cavalos e carruagens. Após ser modelada e queimada em forno, cada figura recebia camada de laca, para aumentar a durabilidade, e era colorida. Com o tempo e a exposição foram perdendo a tintura.

Os soldados tem tamanho natural

É uma das maiores descobertas arqueológicas do planeta

Estima-se que 700 mil operários e artesãos trabalharam na elaboração do conjunto de esculturas, por quase 40 anos. Surpreendente é imaginar que quase dois séculos antes do Brasil ter sido descoberto já havia tão elaborada manifestação artística na China.

Tudo tão extraordinário e surpreendente como é o país. Dentro da tumba supõe-se que corriam rios de mercúrio. Evidência atestada pela contaminação do solo na área, conforme detectaram cientistas. Por segurança, o mausoléu continua coberto por montanha de terra e ainda não está sendo explorado.

A escavação na área das estátuas segue, paciente e minuciosamente. Deve haver mais tesouros históricos na região. Até porque a tumba do primeiro imperador da dinastia Qin está a dois quilômetros de distância do ponto onde há a maior concentração de soldados terracota. O que pode haver no meio desse caminho?

O trabalho é minucioso e detalhado

As escavações da área continuam, pode haver mais tesouros enterrados

As estátuas dos guerreiros estão nos arredores da cidade que já foi a maior e mais moderna metrópole do mundo antigo: Xi`An, capital da província de Shaanxi, no centro-norte da China. A cidade começou a ganhar importância há três mil anos e até o século X foi o coração político do país.

Terra de mercadores, guerreiros, poetas e imperadores

Xi´An, no centro-norte da China, já foi a principal cidade do mundo antigo

Terra de imperadores, poetas, guerreiros, monges e mercadores, era o início da famosa Rota da Seda que seguia por sete mil quilômetros ao oeste, no sentido da Europa e do Norte da África, cruzando regiões centrais da Ásia e áreas do Mediterrâneo. Dentre as cidades amuralhadas da China é a que tem os paredões mais intactos. Está rodeada por grossas paredes desde 1370, período da dinastia Ming.

Esse é outro espetáculo. Caminhando no topo das muralhas de 12 metros de altura, é possível se encantar com o antigo e o moderno, sem conflito. Ainda melhor, o contemporâneo e o ancestral se misturam de maneira delicada e até poética.

Os paredões têm 12 metros de altura

A cidade é rodeada por muralhas bem preservadas

As construções seculares são ladeadas por novas edificações, de estilo arquitetônico tradicional, decoradas por luzes e alimentadas por neon. Templos, vários museus e portais coabitam com galerias, edifícios e shoppings centers. Marcas famosas em vitrines estupendas espiam vendedores de comida e ambulantes de quinquilharias. A cidade é um retângulo perfeito, o que facilita a localização e o deslocamento, principalmente a pé.

A cidade é moderna e tem 6,5 milhões de habitantes

Hoje Xi`An está entre as maiores e mais importantes metrópoles da China

Hoje, com cerca de 6,5 milhões de habitantes, Xi´An voltou a ter uma posição de destaque no cenário cultural, educacional e industrial e está entre as principais megacidades da China. Os soldados terracota continuam guardando a tumba de seu governante e unificador. Em paz e em silêncio.

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China

Pouco inglês. Muito coração

em 13 novembro, 2015

Com algum inglês e muita mímica é possível  se comunicar bem

Hong Kong é terra de gente prestativa e honesta

Muh-Chieh Yu ia a Hong Kong a trabalho quando, no avião, me viu estudando o pesado guia sobre a China. Com inglês um pouco rústico, mas extremamente afável, puxou conversa, comentou sobre Hong Kong e transmitiu sua percepção sobre o sudeste asiático. Tinha visitado Myanmar e a Tailândia.

Antes do nosso desembarque me cedeu dois cartões para uso principalmente no transporte público, mas também útil em lojas de conveniência, supermercados e redes de “fast food”.

O cartão pode ser usado em lojas de conveniência e supermercados

O Octopus Card serve principalmente para o transporte público

Não satisfeito, Muh-Chieh entregou algumas notas de dólares de Hong Kong. Isso mesmo, me deu dinheiro. Ao todo, entre crédito nos cartões e moeda em espécie, o equivalente a US$40 ou R$80. Incrível, não? Algum desconhecido, alguma vez, já te deu dinheiro? Assim, do nada?

Sim, isso pode acontecer em Hong Kong, terra de gente prestativa, simpática, educada e honesta. Digna, eu diria. Não, não falo assim porque ganhei algum dinheiro que me ajudou já na saída, para pegar o trem, e reduziu o meu custo diário na cidade. Mas, sim, porque atitudes benevolentes podem acontecer a qualquer momento em Hong Kong. Talvez até à meia noite, na rua ou em alguma estação de metrô. A região é muitíssimo segura e relaxante, ainda mais para nós, brasileiros.

Apesar de movimentada, Hong Kong não provoca estresse

A região é segura e relaxante

Está vendo a carteira aí da foto abaixo? Ficou no chão, por um bom tempo, sem ser tocada, no meio da multidão. Foi olhada, observada, admirada, mas nunca apanhada e nem pisada. Fiquei acompanhando o seu destino e, quando me afastei um pouco, um senhor gritou para me chamar, achando serem meus os documentos.

No Brasil, uma vez meu celular caiu e em segundos não o vi mais

A carteira ficou um bom tempo sem ser tocada

Como comparação, uma vez derrubei o celular no centro de Curitiba e, assim que me dei conta, em poucos instantes me virei e voltei para buscar, mas nada mais vi. Aqui, algum tempo passou até uma família chinesa juntar a carteira e seguir adiante.

Visitava o Tang Hall, num caminho ancestral, ao ser abordado por Eric, um jovem muito bem vestido que começou a fazer perguntas sobre minha presença ali e de como conheci o lugar. A princípio parecia ser um guia, oferecendo serviços, algo bastante normal em vários países que visitei. Comentários, conversa, novas perguntas. Seria uma pesquisa? Respondi e inquiri sobre o trabalho dele, se estava ligado a turismo, mas não. Preparado para armadilhas do sudeste asiático e experimentado com a expedição de quase um ano pelas Américas, sempre desconfio.

Qual nada, era apenas um jovem gentil, gerente de indústria automotiva transferido para iniciar trabalho nos arredores. Descreveu alguns simbolismos da China, queria dar dicas da cidade e sugeriu que eu telefonasse, caso precisasse de algo.

O povo de Hong Kong conversa em qualquer interesse oculto

O jovem Eric se aproximou com perguntas. Só queria ajudar

Assim é em Hong Kong, se arranham o inglês, as pessoas sempre ajudam. Na rua, muitas vezes desviam do próprio caminho para colocar o viajante no rumo certo.
Talvez tenha sido a influência da centenária dominação Britânica, ou então o forte desenvolvimento. Acredito que a qualidade de vida contribui para a gentileza. E há muito bem estar por aqui. Em um bairro distante, não turístico, duas operárias enchiam quatro sacolas plásticas com chás, sucos e diversas bebidas industrializadas, provavelmente para colegas de trabalho da obra. Não perguntei a respeito. Sei que elas tampouco conseguiriam responder. É muito bacana essa condição de vida, existe distribuição de renda, a população em geral tem poder aquisitivo.

Muito positiva essa distribuição de renda e qualidade de vida

As operárias saíram com sacolas cheias de sucos e produtos industrializados

Em Hong Kong as pessoas interagem com respeito e sem interesses ocultos, dá muita vontade de aprofundar as conversas, solidificar relacionamentos. Ao partir também vou fazer a minha parte e entregar para outros viajantes os cartões de transporte. Inclusive com algum crédito.

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Hong Kong

Hong Kong é moderna e desenvolvida. Ops, nem tanto…

em 9 novembro, 2015
É uma das regiões mais densamente habitadas do planeta.

É uma das regiões mais densamente habitadas do planeta.

A cidade cresceu para o alto.

Tudo é feito em Hong Kong. Lembro bem dos brinquedos de plástico da infância, na década de 70. Se você experimentou a vida nessa época, ou mesmo antes disso, vai se recordar das pistolas de água, das lanternas metalizadas ou coloridas, dos primeiros autoramas ou das câmeras fotográficas com flash quadrado que ia queimando aos poucos.

Os flashes iam queimando com o uso

As câmeras tinham flash quadrados removíveis

Pistolas d`água lembra a infância dos anos 70

A indústria de brinquedos surgiu na década de 40

Ao longo de uma história de dominação britânica, guerras mundiais e invasão japonesa, a região se industrializou e começou a exportar para o mundo lampiões e lanternas, brinquedos, produtos de plástico, relógios e muito mais plástico.

Aqui se vive bem e se paga por isso. Hong Kong é uma cidade desenvolvida, cosmopolita e muito interessante. Fala-se um pouco mais inglês do que no restante do país.

Por ter pouco espaço e ser uma das áreas de maior densidade demográfica do mundo, cresceu para o alto. É vertical, riscada por arranha-céus e conectada por galerias, shopping e centros comerciais e de escritórios.

A cidade ocupa boas posições nos rankings da ONU de qualidade de vida

Prédios imensos, fachadas espelhadas e neons brilhando à noite.

Está entre no topo da cadeia alimentar em diversas classificações internacionais: Ìndice de Desenvolvimento Humano; Qualidade de Vida; Percepção da Corrupção; Expectativa de Vida.

Segura e amigável, permite caminhadas a qualquer hora, com uma câmera ao pescoço e muita tranquilidade. E, o melhor de tudo, sem assédio. A única abordagem, ainda assim delicada, é para a venda de produtos piratas.

Um dos maiores centros financeiros internacionais, Hong Kong não para, está em constante renovação.

Difícil encontrar alguém sem emprego ou sem teto, pelas ruas

Hong Kong está sempre em obras

Naturalmente é cara. Mais do que o restante da China. Bem mais do que o sudeste asiático. Uma acomodação minúscula – com cama e diminuto banheiro – custa US$30. O céu também é o limite para os preços dos hotéis chiquinhos. Cobram fácil US$600 e lotam. Olha só onde eu fiquei.

A hospedagem mais barata custa US$30

O minúsculo quarto onde se hospeda o viajante

Cidade inteligente, HK construiu sistema de transporte excelente e de larga capilaridade. Abasteça um cartão e use nos trens, metros, ônibus, bondes e até no secular ferry boat. Ainda assim pode haver longas filas. Há muita gente. São sete milhões de habitantes em 1,1 mil quilômetros quadrados. O Brasil tem 8,5 milhões de km.

O barco dá uma visão da moderna Ilha de Hong Kong

O Star Ferry opera em Hong Kong desde o século XIX

Por ser uma região administrativa especial, a Cidade-Estado tem autonomia, livre comércio, um sistema político distinto da China Continental e um Poder Judiciário independente.

O ruim é que aqui a internet também é controlada. Menos do que em Shangai, mas há dificuldades, fato que atrasou a publicação deste post. Estava com dificuldade para visualizar minhas primeiras fotos e fiz contato com meu amigo Lucas, no Brasil.

Usando esses programas que só os hackers conhecem, ele acessou minha máquina à distância. Por poucos minutos tentou ajudar. Logo perdemos o áudio de contato. Depois o sistema de controle do governo chinês o expulsou do aplicativo e Lucas perdeu o monitoramento do meu computador. Fiquei só, lutando contra a tecnologia e o acesso vigiado. Nesse ponto prevalece a antiguidade.

A terra com um dos maiores PIBs per capita do mundo é também de fortes contrastes. Coexistem o antigo e o contemporâneo, o luxo e o tradicional. Ao lado de construções seculares e fachadas espelhadas, estão prédios mais velhos e feios, barracas de comida e lojas de medicinas chinesas. Íngremes ladeiras espremidas entre restaurantes finos.

Hong Kong é uma terra de contrastes

Restaurantes e lojas sofisticadas coexistem com barracas de venda de medicina tradicional

A história não foi engolida e é isso que torna o lugar charmoso e rico.

 

“Hong Kong is where East meets West and high meets low”.

 

 

 

 

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