Expedição Extremo Oriente

CARAMUJOS, COBRAS, POLÍCIA E MUITA TRADUÇÃO POR CELULAR

em 4 novembro, 2017

Sabe aquela conversa animada com os amigos, quando queremos compartilhar impressões, trocar informações e novas experiências? Foi assim um dos meus finais de semana aqui na China, só que os novos companheiros não sabiam qualquer palavra fora do idioma deles, o mandarim. Toda a interação se deu baixo aplicativo de tradução – chinês/inglês e vice-versa. Dá para imaginar?

Minha estada, e esta aventura, começaram apartadas dos habituais trajetos de viagem ao país. Do lado de fora da estação de trem era a escuridão, e uma fileira de táxis. Onde estavam as avenidas de acesso, os pontos de ônibus? Com cerca de 400 mil habitantes, nada para os padrões do país, Deqing é uma cidade pequena e sem metrô. Eu deveria estar a uns 10 quilômetros do centro.

Noite jovem, o jeito era recorrer ao táxi, sempre minha última opção de transporte. Taxistas – em muitíssimos países onde tenho andado – superfaturam corridas, tentam levar vantagem, dificilmente falam inglês e, por vezes, ameaçam e até sequestram estrangeiros. Lá se juntou uma rodinha ao meu redor para ler a direção que eu trazia, em chinês, se divertir comigo e negociar o preço, nos dedos.

Sem debate, consegui fazer o motorista ligar e seguir o taxímetro. Essa é a primeira malandragem na carreira dos profissionais desonestos do país. Partir com a bandeira desligada e pedir valor acima do padrão. Muitos dos motoristas chineses berram, como se o idioma asiático fosse invadir os meus ouvidos e assim levar a compreensão ao cérebro. A corrida custou 40 yuans, ou US$5. A viagem de poucos minutos, em trem-bala, saiu por US$2, e nem foi possível atingir a velocidade máxima: 320 km/h.

A prova de que não haveria estrangeiros por perto se deu já na recepção da guest house. A dona me cumprimentou em inglês e esboçou um sorriso internacional. Desatei a falar, mas fui freado pelo gesto com a palma da mão esticada. Ela agarrou o celular e escreveu no aplicativo de tradução, estava para começar uma longa jornada digital.

Cidade do interior é sempre igual, ficamos amigos rapidamente. Saí para jantar, a mulher junto. Sentia-se a minha guia e anfitriã.  No balcão de iguarias, os pratos montados: algo que não identifiquei; casulos de bicho da seda; vegetais insuficientes; peixes caros; alguma coisa que não sei o que era; insetos variados; carne tresnoitada e amanhecida; e um prato que parecia adequado, por US5, minha pedida. Normalmente as sopas ou fritadas de noodles, com legumes e alguma carne de porco, custam entre US$2,50 e 3,50. Comida local é bem barata no país.

Os restaurantes chineses geralmente não oferecem guardanapos. Estou falando dos comedores locais, não de lugares turísticos. A louça fica na mesa, embrulhada em filme plástico. Estava difícil de identificar exatamente qual seria a comida: molho amarelo, várias bolotinhas escuras, de porte médio, algum legume e uma tigela de arroz. Depois de algumas mordidas, reconheci os caramujos da minha infância no quintal. Eram para dar gosto, nada mais. Um pedaço entalou lá pelo molar inferior esquerdo.

Deqing está a uma hora de carro de Moganshan, região de montanhas e vilas ancestrais. Corrida negociada pelo aparato tecnológico, a dona da pousada me deixou na entrada do parque nacional para um dia de caminhada na mata, entre pequenas lagoas, trilhas naturais, algumas pavimentadas, e vilas com casarões em rocha. Natureza forte.

Hora e meia antes do horário marcado para retorno, descobri uma bela floresta de bambu. Entrei, conduzia a um vale. Dali facilmente chegaria a qualquer vilarejo e poderia sair para a entrada do parque. Pelo meu cálculo, estava a uma distância média do ponto de encontro com a mulher da pousada.

Não estava. Descida contínua, trilha interminável, escuridão chegando. Eram quase cinco e meia da tarde e havia marcado às 18h com a pequena empresária do ramo de hospedagem. Meia volta, resolvi retornar ao ponto de partida. Mas onde seria mesmo? Tinha perdido a conexão com o mundo exterior no emaranhado de caminhos tortos.

A experiência ensina que jamais se deve deixar a trilha e ingressar na floresta cerrada. Porém, ao ver ao longe um casebre, diminuta base para corte de bambu, era a minha melhor alternativa. Então me desapeguei da trilha e, raspando a vegetação, alcancei a casinha abandonada. Dali era buscar rastros e pegadas até avistar os primeiros pontos luminosos. Daria para rodar um filme de terror em alguns casarões abandonados.

Suado, cansado e preocupado, encontrava um hotel, dentro do parque. As indicações, por gestos e sinais, mostravam que eu estava exatamente do lado oposto ao meu ponto de encontro. Sentei à mesa do computador, no hotel, para pedir uma carona, paga. Nenhum carro poderia entrar mais na área a partir daquele horário, entendi. Mas se eu esperasse uns 20 minutos, talvez…

Sentei, obediente. Ansioso pela mulher que me aguardava a alguns quilômetros de distância. Um carro estacionou na porta, pediu 40 yuans e depois de rodar algum tempo, entrou em uma vila iluminada. Tudo dentro do parque nacional. Às 19h não era ali que eu deveria estar. Instruções com uma menina que entendia algum inglês, mas, o que me salvou, foram as fotos da entrada do parque, exibidas na minha câmera.

Seguimos. Até o motorista sinalizar para eu descer, pedir mais dinheiro e me indicar uma trilha. Ali, no meio do nada, na imensidão escura da mata, como desvendar o caminho para o meu ponto de encontro? O homem subiu comigo. Andamos rápido, morro acima, arfávamos. Lanternas de celular como guias.

Após a subida forte, reconheci algumas construções. Agora caminharia sozinho pela estrada noturna. Mas, depois da segunda curva, alguém no meu encalço gritava, luz do celular à mão. Era o mesmo motorista. Logo agora que estava chegando, reclamaria mais yuans?

Pediu para eu esperar, mostrou luzes com sinais de mão. A polícia? Sim, minuto depois parava a viatura, a mulher da pousada dentro. Preocupada, não tinha simplesmente ido embora, mas acionado socorro. Explicações pelo tradutor. Fotos para os guardas. A polícia capitalizou o “resgate”, agora já devo estar em algum registro ou gráfico de salvamento na China.

No dia seguinte, quando despertei, Lu Mao Dan me aguardava, em trajes de domingo. Estava bonita, acompanhada do marido e do filho. Sairiam comigo, em visita à fazenda de criação de cobras, para uso medicinal.

Antes uma vila de pescadores, Zisiqiao começou a criar serpentes na década de 70. A medicina tradicional chinesa – baseada no uso de vegetais, minerais, ervas, raízes e partes dos animais – aproveita o veneno, a pele e o óleo da cobra. Bom, não é à toa que o réptil aparece no símbolo que representa a Medicina – o bastão de Esculápio.

Nas fazendas, víboras, najas e pítons. Há serpentes ao ar livre, em poços de concreto; guardadas em caixas de madeira, empilhadas uma sobre as outras; e até dezenas ensacadas. Yang Hongchang é um dos precursores da iniciativa na vila. Quando jovem recorreu às cobras para tratar da artrite que ninguém conseguia sarar. A cura se transformou em um negócio.

Com cerca de três milhões de cobras, a região se tornou uma indústria.  Vende para dezenas de companhias farmacêuticas e exporta para a Coreia do Sul e Japão, além de produzir licor para consumo doméstico, bom para o sistema imunológico.

A família não me deixou pagar o almoço na área histórica de Xinshi, vila de canais fluviais e pontes semicirculares. Ainda me convidaram para jantar, regado a forte destilado chinês e longa conversa por plataforma digital, noite adentro.

Para agradecer a amigos tão amáveis, comprei flores e pequenas tortas. Agora você pode imaginar a cena, o único estrangeiro na cidade, com quase dois metros de altura, circulando pelas ruas com um buquê de girassóis. Realmente, não são necessários restaurantes sofisticados e hotéis caros para se divertir muito e viver maravilhosas aventuras no exterior.

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO, E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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