Expedição Extremo Oriente

A VIDA NO PAÍS COMUNISTA (PARTE 2)

em 15 outubro, 2017

“Somos um país comunista, aqui tudo é de graça: casa, saúde e educação”, declarou a guia local, nos meus primeiros dias em terras norte coreanas. Reflexivo, me calei, ainda tentando tocar a realidade com as mãos. Agora poderia sentir um pouco, na prática, essa cotidiano socialista. Longe do dogmatismo teórico ou de poses esquerdistas.

De fato, não se vê miséria em Pyongyang e nem nos arredores, não há moradores de rua, mendigos e o país parece ser perfeitamente seguro.  No entanto, em vilas mais simples e em áreas rurais, a uma distância de três ou quatro horas da capital, mulheres lavam roupas em riachos de águas poluídas. Bom, nada tão diferente assim das regiões pobres do Brasil.

Talvez a maioria das pessoas more em edifícios, os prédios estão em toda parte. Mesmo em áreas isoladas, onde só se vê campos e agricultura, lá está uma construção vertical, por vezes no meio do nada, bem diferente. De longe, os prédios parecem mais bonitos do que de fato se revelam, com a aproximação.

Tudo no cotidiano norte coreano está relacionado à função que se desempenha. Conforme o trabalho se recebe uma casa e um salário, além de uma ração (espécie de cesta básica), a cada duas semanas. Nas fazendas cooperativas ganha-se também cota da produção.

Professores, pesquisadores e cientistas estão melhor instalados, geralmente na área moderna da capital, em construções imponentes. Se tiverem a oportunidade e a sorte, podem passar algum tempo fora do país, em estudo e desenvolvimento técnico-profissional.

A ocupação depende do perfil do sujeito e da conexão familiar. O cidadão pode se candidatar para ser guarda de trânsito ou guia turístico, mas dificilmente alguém de origem rural irá trabalhar na cidade ou conseguir um posto de destaque. É complicado se movimentar para cima, neste sistema. A aposentadoria chega aos 60 anos para homens e aos 54 anos para mulheres, segundo informação de um dos guias coreanos.

A comida é muito barata e a compra de utilidades domésticas, facilitada. Na única oportunidade que tivemos de conhecer um mercado local, adquiri lanche, biscoitos, sucos e refrigerantes por menos de R$10, pagos na moeda local, o Won. Artigos importados vem normalmente da China e do Japão. O câmbio era de 8 mil Wons para US$1.

Carros, porém, são produtos de luxo, pouco acessíveis â população em geral. A maior parte dos veículos pertence ao governo ou às Forças Armadas. Em uma semana no país vi apenas um automóvel de uso particular, indicado pela placa de cor amarela.

De acordo com o guia ocidental, o país reserva 13 hotéis para abrigar estrangeiros. O nosso tinha 47 andares e oito elevadores, um deles, panorâmico. Todos com câmeras de vigilância. Como tudo na Coreia do Norte, os estabelecimentos pertencem ao governo, oficialmente não há propriedade privada.

Apesar disso, veículos britânicos como o jornal The Guardian e a rede de televisão BBC, informam que o país vem implantando reformas voltadas à economia de mercado. Apesar das casas não pertencerem a seus moradores, existe a venda de “direitos de residência”, de acordo com o jornal. Igualmente, há alguns empreendimentos do governo que, na prática, são administrados por gerentes que absorvem a maior parte dos resultados financeiros. Seriam, segundo a imprensa internacional, empresas de ônibus e companhias de carvão, por exemplo. Diferente do que ocorreu na China, as mudanças não são acompanhadas de qualquer abertura política.

Apesar de todo o desenvolvimento armamentista, a tecnologia não é exatamente parte da vida do cidadão. A internet, apesar de existir, não está disponível para pessoas comuns, mas restrita ao governo, diplomatas e a alguns visitantes estrangeiros. Há um sistema de intranet local, usado nas universidades, mas que não se conecta à rede mundial de computadores.

O primeiro serviço de internet móvel (3G), obviamente restrito, foi lançado em associação entre uma empresa egípcia de telecomunicação e estatal coreana. Alguns habitantes usam telefones celulares, mas apenas para efetuar e receber chamadas.

O hotel onde fomos instalados preserva duas cabines telefônicas e um guichê para envio de cartas ou cartões postais. O imenso rádio do quarto não transmite qualquer estação e a área de música da biblioteca pública tem diversos equipamentos, ainda com toca-fitas.

Inevitável não mencionar, a decoração é sempre kitsch, em qualquer lugar. Arcos de flores, lustres esquisitos, maçanetas e acabamentos de gosto duvidoso, mobiliário ultrapassado, vasos entre vidros de portas giratórias. Quadros enormes em espaços gigantescos. Definitivamente os norte coreanos não acreditam em ambientes pequenos.

A sociedade é bastante conservadora, os casamentos são normalmente arranjados e a regra é não praticar sexo antes do matrimônio. O divórcio não é ilegal, mas tampouco comum. É evidente o comportamento reservado, tímido e respeitador do povo norte coreano. As crianças são extremamente disciplinadas e agradavelmente inocentes.

Há atitudes impossíveis de se controlar a todo momento e a peraltice é um delas. Estivemos com crianças nas ruas, em áreas de recreação e até em um parque aquático. A gurizada, sempre obediente. Outro mérito do país é a educação artística. Os pequenos são incentivados desde cedo a cantar, dançar e a tocar instrumentos.

Assim como na Ásia, em geral, a gastronomia é, por si só, uma outra viagem, muito saborosa. Maravilhosos churrascos de pato, rabanetes ultra apimentados, conchas na brasa e, claro, bastante arroz e vegetais. A economia estatizada é baseada na agricultura e os produtos industrializados que tive a oportunidade de provar são horríveis: refrigerantes, chocolates e doces em geral.

Há as cervejas e os licores locais, perfeitamente adaptáveis ao nosso paladar, e os pratos típicos e polêmicos, como a sopa de cachorro. Evitei, apesar de estar sempre tentado a novas experiências. Optei pela consciência de preservação, ainda mais conhecendo algumas atrocidades feitas contra os cães, enjaulados em praças públicas, na China.

Entre as especialidades tradicionais está o noodles frio, prato tradicional em casamentos pois simboliza a união eterna. “Quando vai receber o seu noodles frio?”, perguntam os locais, numa alusão à data em que os noivos, ou namorados, pretendem se casar (ou serem casados).

Depois de transitar por três cidades, a visita, para ser completa, precisava percorrer a zona desmilitarizada (DMZ). Essa é a área que separa as duas Coreias, do Norte e do Sul. O corredor, perfeitamente demarcado, tem 257 quilômetros de extensão. Na área estratégica, dois quilômetros para dentro de cada nação, são permitidas apenas armas leves. Apesar de todo o controle, esse é o único local onde fotos com guardas e soldados são permitidas.

A Coreia do Norte fala em reunificação e existe até um monumento em prol do retorno a uma só grande nação. Pela minha ótica – e provavelmente na visão da maioria das pessoas – hoje seria uma missão quase impossível. A Coreia do Sul jamais aceitaria o regime estabelecido em DPRK. Para a Coreia do Norte, abrir as fronteiras e deixar o mundo entrar seria o equivalente a uma bomba em uma comunidade totalmente alheia ao mundo exterior.

(CONTINUA. TERCEIRO CAPÍTULO: A PROPAGANDA E O CULTO POLÍTICO-RELIGIOSO).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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Expedição Extremo Oriente

A ÚLTIMA FRONTEIRA (PARTE 1)

em 10 outubro, 2017

Parecia ter desembarcado em um cenário de filme, com poucos atores. Talvez pelas construções coloridas, em tons suaves, contrastando com os trajes cinzas, marrons, verdes ou azuis, sempre escuros, dos norte coreanos. Talvez pela ausência de publicidade, painéis, placas ou neons, tão comuns na China e no mundo ocidental. À primeira vista, Pyongyang, a capital, é uma cidade de brinquedo.

É muito complexo descrever uma visita à Coreia do Norte, ou República Popular Democrática da Coreia (DPRK), como foi batizada a nação comunista. Comum acreditar em imagem baseada em chavões ou paixões políticas. Nem sempre coincide exatamente com o que me alertavam os amigos ou me escreviam os conhecidos, momentos antes da partida.

Só se entra na Coreia do Norte pela China e, sempre, em grupos organizados, não é possível viajar de forma independente. É necessário contratar um operador autorizado por alguma das agências estatais, no nosso caso a “Korea International Travel Company”.

Não tinha certeza se iria conseguir o visto chinês pela segunda vez em menos de dois anos, já que a condição imposta pelo consulado de São Paulo é a de uma espera de 24 meses, entre um visto de turismo e outro. Por isso organizei minha estada na China com a autorização de trânsito – poderia ficar em Beijing por 72 horas, até a partida à Coreia. O passaporte, devidamente carimbado, me foi devolvido apenas um dia e meio antes de sair do Brasil. A emoção já começava. O visto coreano seria entregue no dia anterior ao início da visita.

Após dois dias em solo asiático, aterrissava no mais fechado país do mundo, cercado de cuidados e orientado sobre a legislação a seguir. Não poderia tirar fotos sem autorização prévia dos guias; nenhuma câmera fotográfica com lentes de mais de 250 mm seria permitida; em todo o trajeto teríamos sempre a companhia de dois guias coreanos e um ocidental; nenhum guia de viagem, livro sobre a Coreia, impresso ou documento religioso entraria no país.

Saudações em sinal de respeito aos líderes do país eram fortemente recomendadas; perguntas mais delicadas ou questionamentos políticos deveriam ser submetidos primeiramente ao guia ocidental e conversas com os locais poderiam ocorrer, brevemente e em locais específicos; mapas e GPS teriam que ser deletados dos celulares.

Seria necessário, ainda, assinar um acordo relacionado à publicação de imagens, vídeos e textos sobre o país. Conteúdos para mídias sociais e blogs pessoais foram permitidos. Jornalistas em cobertura de imprensa, só com autorização especial.

À primeira vista as recomendações acima, e outras sugestões de comportamento, me soaram um tanto bizarras. Porém, circulando pelo mundo, aprendi que é preciso ter a mente aberta e a sensibilidade para aceitar as particularidades, os costumes, as restrições e até mesmo as imposições de cada país.

Tudo aceito, estava preparado para um mergulho em uma cultura absolutamente distinta da ocidental, tão mitificada e, dificilmente compreendida. Não se trata apenas de uma nação de mísseis, disposta a guerrear contra os Estados Unidos. Sim, eles detestam o governo norte americano, mas dizem nada ter contra o povo do país.

Demorei alguns dias para entender melhor a satisfação que sentem pelo desenvolvimento bélico. Não sem me chocar antes, diante do impacto provocado pelas imagens em um telão gigantesco, instalado atrás de inocentes crianças entre oito e 10 anos de idade, cantando doces melodias em apresentação artística.

Sim, aconteceu, de fato. Ao ver tanta propaganda institucional pelas ruas e na mesma tela do teatro, eu pensava, minutos antes da cantoria: “impossível os mísseis aparecerem por aqui, bem neste momento”. Mas lá estavam eles, bombas projetadas aos céus, enquanto a piazada se alternava, talentosa, entre os vocais e diferentes instrumentos musicais.

Para os moradores de DPRK os pesados armamentos são motivos de orgulho. “A nação é poderosa, capaz de se defender de qualquer ameaça de superpotências”, assim acreditam, dessa maneira pensam e deste modo foram educados. “Não se trata de querer matar pessoas, mas de ser capaz de autodefesa”, explica o gentil e comunicativo guia australiano.

Havia tensão na chegada ao aeroporto. Provocada mais pelo temor de certos turistas, como o jovem Alex, inglês de 25 anos que depois se confessou aterrorizado ao passar pelos sistemas de controle. Após colocar a mala na esteira de raio-X, o rapaz errou o trajeto e simplesmente foi de encontro com o fiscal, duas vezes seguidas.

Nervosismo talvez decorrente de haver mais policiais do que passageiros no desembarque. Alguns marchando lá fora. Um guarda se aproximou do estrangeiro que filmava a chegada e pediu que apagasse todos os registros. Prontamente obedecido. Não tive problemas, minha mochila sequer foi aberta, apenas foram separados os equipamentos eletrônicos – laptop, câmera fotográfica e celular.

Difícil também é conhecer com exatidão a vida local e distinguir a realidade do cenário apresentado aos estrangeiros. Passei por áreas rurais, estive em lugares públicos, observei gente nas ruas, visitei uma fábrica de vidro e até uma fazenda de produção cooperativa. Dava para perceber o cotidiano em movimento, de forma crível e espontânea. Pessoas caminhando para o trabalho sobre calçadas impecavelmente limpas, ou se deslocando em bicicletas pelas ciclovias. Imensas avenidas com pouco trânsito e construções modernas.

Outros momentos, no entanto, pareciam ter sido construídos somente para os viajantes que chegavam e encontravam uma plateia de teatro lotada de gente, em plena quarta-feira à tarde. Ou grupos de estudantes de inglês, na biblioteca, aguardando para interagir com os estrangeiros.

Seja como for, os principais mitos, histórias e temores são diferentes do que estamos habituados a escutar. Alguns, simplesmente não existem. É o caso da proibição de fotografar o país. Algumas áreas tem restrições severas, caso de alfândega, aeroporto e certos palácios e espaços do governo.

De resto é viável registrar o país, nas mais diversas formas. A maior parte das pessoas é arredia, não gosta de ser fotografada. No entanto, uma aproximação cautelosa e delicada pode tornar possível o registro.  Seja como for, entre o real e o imaginário, sem dúvida uma viagem à Coreia do Norte é uma experiência única, extraordinária e surpreendente.

(CONTINUA. SEGUNDO CAPÍTULO: A VIDA NO PAIS COMUNISTA).

(POR FAVOR, INFORMAR O INTERESSE ANTES DE QUALQUER REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL DESTE CONTEÚDO E SEMPRE CITAR A FONTE).

 

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