De Mochila pela Ásia

De cara com elefante selvagem na Tailândia

em 21 fevereiro, 2016
Perturbado pelos veículos, o animal ameaçou avançar no carro mais próximo

Perturbado pelos veículos, o animal ameaçou avançar no carro mais próximo

O elefante. que se alimentava à beira da estrada do parque, parou o trânsito

A surpresa estava logo após uma curva da estrada asfaltada que corta o Parque Nacional de Khao Yai, no nordeste da Tailândia. Pilotava minha motinho alugada, como costumeiramente faço para explorar melhor as regiões, sempre de olho na mata, à espreita da vida selvagem. O gigantesco elefante se alimentava da vegetação ao lado da pista e havia bloqueado o tráfego no local.

Por vezes os mamíferos descem da floresta em busca de outros tipos de pastagens e grama e acabam se expondo à civilização. Incomodado com o movimento, ameaçou avançar no carro mais próximo. O motorista do terceiro veículo da fila, apavorado, deu marcha ré por uns 100 metros. A grande maioria das pessoas é muito temerosa em relação a ambientes inóspitos, fenômenos naturais e a animais incomuns.

Entusiasmado, eu já havia parado no estreito acostamento, tinha descido da moto e registrava a cena. O elefante cruzou a estrada e se refugiou na vegetação. O tráfego voltou a fluir. Um carro passou observando, de vidros fechados. Fui atrás do bicho.

É indescritível a sensação de se deparar, de repente, com a vida selvagem

O animal cruzou a pista e se refugiou na floresta

Adoro a vida selvagem, sempre um dos objetivos da expedição. É indescritível a sensação de caminhar por uma floresta e repentinamente avistar uma criatura que povoa o universo de filmes e histórias e está completamente longe do cotidiano urbano da maior parte de nós. Foi assim quando fiquei pertinho de ursos marrons e negros em parques do centro-norte dos Estados Unidos e do Alaska (saiba mais lendo sobre a expedição De Mochila pelas Américas em www.ikeweber.com).

Como observador da natureza, não queria deixar passar a oportunidade. Já havia perdido a pista do primeiro elefante do dia, avistado quando entrava no parque, de manhãzinha.  O Parque Nacional é o mais antigo da Tailândia e um dos três maiores do país, com 2,1 mil quilômetros quadrados de extensão. Abriga flora exótica com duas mil espécies de plantas e fauna variada composta de 300 tipos de pássaros, 70 de mamíferos e 74 espécies de répteis e anfíbios.

Entre os animais estão macacos, veados, porcos espinho e cachorros do mato

O Parque Nacional de Khao Yai abriga 70 espécies de mamíferos

Segui o elefante pela mata, vagarosamente. Procurei não fazer muito ruído, mas era difícil visto que não havia trilha e me enroscava na vegetação e em cipós. Por sorte ele não caminhou para longe, se estabeleceu perto da estrada, sempre comendo. Os elefantes devoram entre 150 e 200 kg de plantas, bambus e pequenos herbívoros diariamente.

Eu estava tremendamente satisfeito com a minha experiência junto aos elefantes em uma reserva natural no Camboja, há pouco menos de dois meses. Na ocasião pude alimentar, acariciar e dar banho nos animais, dentro de um rio com cascata (leia essa história em http://migre.me/t3hMF).

Porém, esses mamíferos haviam sido trazidos de tribos e vilas, um dia tinham sido domesticados. Agora era diferente, o animal era completamente livre e selvagem, nunca conheceu corrente ou foi escravizado para passeios turísticos, trabalho comunitário ou apresentações circenses.

A magia explodia, a aventura estava viva e a adrenalina, presente. Segui afastando os galhos e contemplando o brutamonte, mas era difícil captar imagens, a folhagem dificultava o trabalho. Cheguei muito perto, não mais do que uns 15 metros de distância, estava no que considerei o limite da segurança.

Em janeiro do ano passado houve diversos ataques sequenciais de elefantes no parque, com a destruição de vários carros. Especialistas atribuíram à escassez de alimentos na floresta, ao aumento do número de veículos nas imediações e interior do parque e à maior agressividade dos machos durante o acasalamento.

O elefante de três metros de comprimento e entre três e quatro toneladas de peso parou num ponto onde não havia passagem, e aí me preocupei. Animais selvagens encurralados se tornam agressivos. Olhei em volta na tentativa de ficar atrás de uma árvore, mas nesse ponto não havia troncos suficientemente grandes e fortes para funcionar como barreira natural.

Não havia árvores suficientemente grandes para fazer uma barreira natural

O elefante de três toneladas parou num ponto onde não havia saída

Eu queria fazer apenas uma imagem de frente para o paquiderme e deixaria o local. Não deu tempo. O elefante virou a cabeça, se voltou para mim, sacudiu as orelhas e barriu – esse é o som que eles produzem. Deu dois ou três passos fortes e ameaçou avançar. Se eu tivesse apontado a câmera fotográfica ele dispararia, pude enxergar a continuidade nos olhos do gigante. Cheguei a sentir o atropelamento.

Recuei sem voltar as costas, saltei numa ribanceira e corri para a estrada. Na fuga perdi a tampa da lente e tive pequenas escoriações na perna. O de menos. O elefante desceu para a pista, desta vez era ele quem me perseguia. Uma caminhonete de guarda parque já se aproximava.

Tive que pular uma ribanceira e correr para a estrada para escapar do elefante

Na fuga, sofri apenas escoriações leves

Alcancei a moto, me virei e ainda consegui documentar o bicho seguindo na minha direção. Vinha sem correr, do contrário eu não teria saído ileso. Desta vez não esperei, ele me esmagaria se saísse em disparada. Senti a adrenalina percorrer o organismo ainda por algum tempo. Eu me sentia vivo, livre e contente.

Por sorte o animal me perseguiu sem correr

Na estrada, o elefante ainda seguiu em minha direção

 

 

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Camboja

Santuário de elefantes

em 20 janeiro, 2016
Sensibilidade e percepção aguçada tem os elefantes

Em vida livre os elefantes chegam aos 100 anos

Caminhei e apreciei cinco elefantes que vivem numa reserva natural em Sen Monorom

Hoje existem apenas 30% da floresta nativa do Camboja. O desmatamento foi provocado pela exploração de madeira e mau uso do solo pelos fazendeiros. Há seis anos, o país tinha cinco centenas de elefantes, entre domesticados e livres. Agora é possível numerar cada indivíduo: são apenas 116 selvagens e 48 domesticados. Muitos desapareceram com a redução da mata, alguns foram levados ao vizinho Vietnam e, outros, forçados a trabalhar e depois mortos na Guerra Civil de Polpot, nos anos 70.

O corte de madeira e o mau uso do solo estão acabando com a selva cambojana

Restam apenas 30% da floresta original do Camboja

Tive a oportunidade de circular pelas áreas agrícolas e caminhar pela borda da floresta. Melhor, pude contemplar cinco elefantes abrigados numa reserva natural de 200 hectares perto de Sen Monorom, no nordeste do país. O espaço é parte de um projeto de conservação da vegetação nativa e preservação dos animais.

A população de elefantes diminuiu de 500 para menos de 170 indivíduos

A reserva tem 200 hectares e a finalidade de conservar a floresta e manter um habitat adequado para os animais

A experiência é única e fascinante. Caminhei com os bichos, alimentei-os com bananas, entregues na tromba ou direto na boca, e entrei no rio com pequenas quedas d´água para lavar o dorso enrugado e a pele grossa dos gigantescos mamíferos. A limpeza ajuda a remover bactérias e previne infecções. Nada de escalar os elefantes, montar é extremamente proibido porque desgasta e estressa os animais. Foi uma experiência autêntica, longe de circos e livres de shows.

Os elefantes se banham nas cascatas e rios da reseerva

A lavagem dos animais é importante para remover bactérias e evitar infecções

Os indivíduos que vivem na reserva são fêmeas e foram comprados na região ao preço médio de US$30 mil. Moon tem entre 35 e 40 anos e furo em uma das orelhas porque trabalhava arrastando cargas de madeira na vila de Oriang.

Na reserva, os elefantes fazem o que tem vontade de fazer, além de comer o dia todo, bambus e plantas nativas. Se não querem ser banhados, não entram no rio e se preferem ir embora, apenas se afastam. Os “mahouts”, responsáveis por guiar e tratar dos animais, garantem a segurança, mas não forçam os bichos.

Na reserva, os bichos vivem livres e tem autonomia para agir e se locomover

Nada de montar nos elefantes, a prática é anti-natural e estressa os animais

Cada um deles pesa entre três e quatro toneladas e come o equivalente a 200 kg por dia. Se estiverem livres, em cenário natural, podem viver mais de 100 anos. Alguns ainda trabalham nas vilas indígenas, ajudando na colheita e no transporte de madeira. Os mamíferos asiáticos são menores do que as espécies africanas.

Todos os indivíduos da reserva são fêmeas

Cada animal pesa entre três e quatro toneladas e come o equivalente a 200 kg por dia

Existem cinco projetos voltados ao abrigo e cuidado de elefantes na região. Muito difícil escolher o mais adequado, há uma guerra ética e comercial entre eles. Todos se intitulam Ongs sem finalidade de lucro e com o propósito de apoiar as comunidades indígenas Bunong.

A vida é pobre e simples nas vilas. As famílias se formam cedo e dão origem há vários filhos, muitos privados de educação. A população cresceu e a comida diminuiu. Todos descem das montanhas com os cestos às costas para vender produtos rurais no mercado do povoado. Vivem com pouca ou nenhuma assistência médica, buscam a cura e a magia na floresta. Enfrentam a malária que atinge em torno de 40 mil pessoas por ano no país.

Os Bunong vendem seus produtos no mercado do povoado

Todos os programas para abrigo e cuidado dos elefantes afirmam que apoiam as comunidades indígenas da região

A reserva que visitei deve ficar intacta ao menos pelos próximos 30 anos, tempo do contrato assinado entre o governo, a Ong e a comunidade étnica. É uma esperança porque em 2014 o Camboja perdeu uma área de floresta quatro vezes maior do que em 2001, segundo levantamento do World Resources Institute, um centro de pesquisas mundial, com sede em Washington. Uma das causas é a indústria de borracha que se desenvolve com força na região do rio Mekong.

O contrato para criar a reserva tem vigência de 30 anos

A esperança é de que a floresta se mantenha intacta, ao menos na área de preservação

Os antigos dizem que se algo errado está para acontecer na comunidade, o elefante é o primeiro a saber.

Sensibilidade e percepção aguçada tem os elefantes

O elefante é sempre o primeiro a saber

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