De Mochila pela Ásia

A ilha perfumada

em 15 março, 2016
A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia

A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia

Quebrei as costelas, mudei o roteiro e encontrei o paraíso

Quase certeza, tenho, de que encontrei o paraíso para recuperar minhas três costelas partidas. Decidi continuar a expedição, mesmo após o acidente de moto, há alguns dias. Porém, precisava de um intervalo para recuperação. Mudei o roteiro, o Norte da Tailândia exigiria mais esforço físico, deslocamentos de motocicleta e mudança de hospedagem a cada dois ou três dias. Teria um baixo aproveitamento na exploração da região montanhosa. Desci novamente ao Sul do país.

O paraíso é uma ilha muito tranquila e rústica, possivelmente uma das menos urbanizadas e exploradas da Tailândia. Não há lojas, hotéis de luxo, rodovias pavimentadas e tampouco carros. Por outro lado, existem macacos, muita mata nativa e uma comunidade local maravilhosa. Lagartixas gigantes, outros répteis e, eventualmente cobras, completam o cenário. É um habitat de pássaros raros e diferentes como o “hornbill”, de corpo preto e branco, penacho e proeminente bico amarelado. Lembra um tucano.

Aqui não há hotéis de luxo, lojas ou rodovias

O paraíso é uma ilha tranquila e isolada no Sul da Tailândia

Lógico, a concepção do Nirvana varia conforme o perfil e a personalidade de cada pessoa. Há os que preferem vida simples e um estilo pé na areia e os que optam por mais conforto e sofisticação. Para mim está mais do que bom o bangalô de bambu, a rede na varanda, o banheiro com ducha manual de água fria e descarga de balde.

A  vida "pé na areia"

Mais que suficiente o meu bangalô de bambu sem ponto de energia e com descarga de balde

Ar condicionado (rs)? Não, não tem nem ventilador. A energia elétrica, de gerador a diesel, é fornecida por poucas horas, quando começa a escurecer. Claro que não há internet e a água vem de poços artesianos. Mas mesmo em março, o mês em que começa a esquentar para valer na Tailândia, a ilha fica razoavelmente fresca, à noite. Oferece brisa suave e cheira a sabonete de frutas ao entardecer.

Tudo chega de barco à ilha

A comunidade local é pequena e extremamente gentil

Fiz um bom esforço para chegar, 35 horas de viagem. Um sacrifício, pelas minhas condições físicas, desde o extremo Norte do país até a costa Sul. Foram nove meios de transporte diferentes, a começar com um táxi compartilhado, chamado aqui de “sörngtäaou” (fala-se “sonteo’) e um trem, em segunda classe, sem cama.

Não conseguia cochilar, com todas as luzes do vagão acesas, o tempo todo. Por vezes o cotovelo do meu vizinho, um professor aposentado de 64 anos, cutucava minhas costelas sadias. Enquanto dormia agarrado à bolsa de corino marrom, o malaio pisava meu pé, incessantemente.

Saltei para o banco de trás e tentei bloquear a luz com os óculos escuros falsificados, sem muito sucesso. Tinha ainda que acomodar as escoriações do braço e dos joelhos, para que não tornassem a abrir. Minha mochila, agora bem magrinha, me acompanhava no compartimento superior. Viu-se livre de roupas, papéis, pequenos objetos, uma excelente jaqueta semi-impermeável e até de alguns medicamentos. Não podia seguir com muito peso, conforme recomendação médica.

O trem atravessou a noite, sempre com as luzes do vagão acesas

Foram 35 horas de viagem e nove diferentes meios de transporte para alcançar meu destino

Cedinho em Bangkok, peguei um trem urbano, uma linha de metrô, caminhei e embarquei em um ônibus de linha até uma das estações rodoviárias da capital. De lá foram mais 12 horas ensanduichado, dormindo à prestação, mais um táxi compartilhado e um barco lento.

Na ilha, os cajus maduros despencam dos galhos das árvores, o mar murmura em sua missão de cobrir e descobrir as rochas, a areia molhada é sedosa sob os pés e os caranguejos multicoloridos fogem desesperados ante a aproximação do viajante. A água do oceano é macia, quente e caudalosa. Salgada, torna-se fácil boiar. Não há muitos mosquitos e pernilongos.

Expedição de longo prazo intercala esforço e relaxamento

Todo aventureiro tem os seus dias de descanso, principalmente depois de vários perrengues

Na primeira noite voltei dentro d´água para meu bangalô. Saí à tardinha, assisti ao maior sol da minha vida finalizar o dia mergulhando no mar, e retornei quase a nado, com a subida da maré. Claro, havia outro caminho pela mata que eu ainda não conhecia. Mas, quer algo mais fascinante do que chegar ao pouso com água até os ombros?

As manifestações da natureza são nossa maior riqueza

Vi o maior sol da minha vida mergulhar no oceano

O toque de recolher no paraíso é às 22h, mas depois disso ainda dá para curtir a escuridão, na vegetação, ou apreciar no céu as estrelas. Não devo revelar o nome desse local sagrado. Não por egoísmo, com o maior prazer dividirei com amigos e pessoas queridas de destino à Tailândia. Porém, simplesmente tornar público uma ilha quase imaculada seria atentar contra a sua pureza. Por enquanto é ótimo recordar do mar que à noite resmungava à minha porta. Se o paraíso não for ali é logo dobrando a esquina, disso estou seguro.

O mar é quente, transparente e caudaloso

À noite o mar resmungava a minha porta

 

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Camboja

Ensaio sensorial

em 29 dezembro, 2015
Viajar é experiência sensorial

Viajar é experiência sensorial

Os barcos desenham sua própria imagem no oceano

O ano parou por alguns dias, antes de terminar, e a viagem foi transformada em uma experiência profundamente sensorial. Algo mais apurado do que normalmente vivemos em nossos cotidianos. Junto à natureza, em uma ilha pequena e isolada do litoral do Camboja, é possível perceber mais profundamente os sentidos os quais nem sempre valorizamos como deveríamos.

Uma jornada por lugares encantadores sempre é visual. Os barcos desenham seus próprios contornos na superfície da água e o céu muda de cor, talvez orientado pelos coqueiros que apontam para o alto. O oceano se aquieta para revelar enormes pedras redondas a dividir espaço com corais coloridos. O sol se despede ao mesmo tempo em que a lua, cheia, transforma a noite em um novo amanhecer.

Dia e noite é bonito de se ver

O sol se despede e a lua cheia dá início a uma nova linda etapa

Isso convida as pessoas a estarem abertas e provavelmente mais afetivas. Éramos uma dezena de pessoas, representando distintas regiões do planeta, à mesa para o jantar de Natal. Conosco estava Kaspar, originário da terra de Santa Claus, como um duende representante de Papai Noel.

Nada diferente da comida habitual do lugar: frutos do mar grelhados ou ao molho de côco, com a mais conceituada pimenta do mundo, originária de Kampot. Sim, experiência degustativa, não só pela comida, mas também por sentir durante todo o dia a água do mar na boca ou o sal dos campos de extração na ponta da língua.

E  que água salgada...

Dia todo com a água salgada na boca

A prática é tátil, ao esfregar a areia grossa com fragmentos de conchas nas mãos, sentir o sol a aquecer a pele e a água a refrescar o corpo. Ou o caminhar descalço por dias, com as pedras cutucando a planta dos pés. Alisar a madeira que dá forma às embarcações e sustenta os bangalôs, rústicos, apenas cobertura de palha com cama e tina de água..

Lugar acolhedor

Os bangalôs de madeira são acomodações rústicas

São relaxantes dias assim quando qualquer atividade simples pode se estender por horas sem deixar de ser prazerosa, embalada pelo aroma das plantas, o forte odor das algas ou o cheiro do vento. A vivência é auditiva quando estoura a pequena marola na praia, os pássaros pisam sobre os telhados e as crianças de almas livres explodem em saborosas gargalhadas.

Precisamos de pouco para viver

Nada além de uma cama, uma cobertura de palha e uma tina com água

Viajar é vida e cura a alma de qualquer mal. Aonde esta ilha se esconde será o meu pequeno segredo do caminho.

O por do sol é espetáculo diário no Camboja

Mais um dia feliz

 

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