De Mochila pela Ásia

Os nômades que previram o tsunami

em 30 março, 2016
Um povo sem terra, pátria ou religião

Os Moken são conhecidos como ciganos do mar

Nenhum membro da comunidade Moken que vive na baía das Ilhas Surin morreu no tsunami de 2004

O pio dos pássaros, a lentidão provocada pelo castigo do sol e o burburinho da marola na praia de areias claras exige esforço de imaginação para reconstruir o horror vivido por Khao Lak, no sul da Tailândia, há pouco menos de 12 anos. A orla da região foi das mais atingidas pelo tsunami de 2004 que abarcou 12 países no Oceano Índico, da Indonésia à Somália.

Foram destruídas 430 mil casas

O tsunami matou 230 mil pessoas, em 12 países

Ao todo, as águas do mar mataram 230 mil pessoas, destruíram 430 mil casas, danificaram 100 mil barcos de pesca e apagaram 3,5 mil quilômetros de rodovias. Quase dois milhões de pessoas ficaram desabrigadas. Só em Khao Lak desapareceram 100, dos antigos 143 hotéis e pousadas.

Quase dois milhões de pessoas ficaram desabrigadas

As ondas tinham em torno de 30 metros de altura

Hoje a cena do verão tailandês repete o cotidiano do passado logo antes da tragédia, com ondas de mais de 30 metros de altura. Famílias tomam banho de sol nos resorts, crianças brincam à beira da piscina e aposentados caminham na areia, fugindo do inverno europeu.

Os tsunamis em geral são provocados por terremotos no solo oceânico que movimentam grande massa de água e formam ondas, em todas as direções. As vagas são ligeiras, viajam a 885 km/h, e podem avançar mais de três quilômetros em terra firme. Em águas profundas são pouco perceptíveis. Ganham tamanho quando se chocam com o fundo mais raso das praias.

O tailandês, na foto abaixo, tem 42 anos e estava dormindo em Phuket, a 80 quilômetros de Khao Lak, quando o tsunami chegou. Acordou dentro da água. Teve sorte. A crosta continental de Phuket, menos íngreme, segura o peso das ondas. O tsunami se alastra com mais força em praias longas e rasas, como as de Khao Lak.

O homem teve sorte porque o solo oceânico de Phuket segura o peso das ondas

O tailandês dormia em Phuket quando o tsunami começou

Nenhum membro da comunidade Moken que vive na baía de uma das ilhas Surin morreu no tsunami de 2004. Todos conseguiram fugir e acampar nas colinas, até a água baixar. A sabedoria dos ancestrais os ajudou a prever a catástrofe, eles sabiam que as ondas estavam chegando.

Um povo sem terra, pátria ou religião

A tribo Moken foi perseguida por piratas e escapou dos comerciantes de escravos

A tribo Moken é apelidada de “ciganos do mar” por sua característica nômade e essência livre. Viviam em barcos, no universo marítimo, sem terra ou religião. Foram perseguidos por piratas e caçados por comerciantes de escravos. Resistiram. Com o estreitamento das fronteiras e leis de imigração, terminaram obrigados a se assentar nas costas e ilhas da Tailândia, Myanmar e da Indonésia.

Vivem da pesca e da coleta de frutos e atualmente incrementam a renda vendendo artesanato para os visitantes. Os nativos enxergam melhor debaixo d´água do que a maioria das pessoas, pelo costume e acomodação do foco de visão. No arquipélago de Surin, as crianças vão à uma pequena escola e recebem educação tailandesa.

Os Moken vivem da pesca e da coleta de frutos

Com o estreitamento das fronteiras, a tribo nômade foi obrigada a se assentar na costa do Sudeste Asiático

As ilhas, a 60 quilômetros da costa de Andamán, foram estabelecidas como parque nacional marinho e, portanto, são bem preservadas. Não há estradas, hotéis e nem mesmo trilhas na mata. Apenas duas, das cinco ilhas, podem ser visitadas.

O tsunami do Oceano Índico foi provocado pelo quarto maior terremoto dos últimos 100 anos, 9,1 graus de intensidade. Chegou a alterar o balanço gravitacional do planeta.

Hoje Khao Lak não só tem rotas de fuga, como também mapas nas ruas para indicar a localização dos abrigos, em caso de uma nova ocorrência. O balneário estabeleceu um memorial e criou um museu para guardar a memória do acontecimento. Exibe vídeos chocantes com imagens de fuga e do início das inundações.

Mapas e placas estão espalhados pelo balneário

Khao Lak tem rotas de fuga e abrigos anti-tsunami

A localidade ainda vive a comoção da tragédia. Os coqueiros não oferecem apenas frutos. Dão suporte às homenagens aos que partiram muito cedo, em terras estranhas.

Há famílias que perderam mais de um parente na tragédia

Os coqueiros suportam mais do que o peso de seus frutos

 

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