Camboja

Desenvolvimento sustentável, golfinhos e um baita desafio (Parte 1/2)

em 7 janeiro, 2016
Jovens na construção, em monastério budista

Jovens na construção, em monastério budista

Jovens estudam, trabalham e se preparam, seguindo preceitos budistas

Quando retornar ao Brasil, acredito que vou sentir falta de ouvir os cumprimentos e acenos das crianças por onde passo, de manhã até à noite. Não são cumprimentos obrigatórios, os garotos ficam excitadíssimos, principalmente quando respondo de imediato.

Antes mesmo de identificar o ponto da gritaria escuto os “hellos” calorosos. Logo aparecem meninos e meninas de dois, três, quatro ou cinco anos esticando a mãozinha e entregando sorrisos, desde bocas banguelas ou já cariadas.

De longe escuto o chamado das crianças

Garotos ficam entusiasmados ao cumprimentar e interagir com viajante estrangeiro

As melhores formas de interagir com uma comunidade local são a pé, adentrando as profundezas dos povoados; de caiaque, remando até as vilas flutuantes; ou então circulando com motocicleta de baixa cilindrada. Desta vez optei pela bicicleta, outra estupenda forma de interação e de transporte.

Faria uma rota de 150 km ao longo do Rio Mekong, um dos maiores do mundo e o mais importante da região, responsável pelo sustento de milhões de pessoas. O Mekong nasce no Tibet corre pela China, forma a fronteira entre Myanmar e Laos, passa pela Tailândia, Camboja até compor um delta de terras férteis no Vietnam.

O Mekong abriga ainda poucos golfinho quase em extinção

Um dos pontos de parada ao longo do rio Mekong, com área de lazer e relaxamento

O primeiro dia de pedalada foi magnífico, os golfinhos surgem perto dos botes à beira do caminho. São da espécie Irrawaddy, seriamente ameaçada de extinção. Estima-se que haja apenas 80 indivíduos vivendo nessa região. Outro peixe importante é o “trey riel” que até deu o nome à moeda do país, o riel.

Cruzei o rio num barco que carregava de tudo e me alojei em uma das quatro vilas da ilha de Ko Phdao. Duas das comunidades – apoiadas por uma Organização Não-Governamental (ONG) da região – passam por um fabuloso programa de desenvolvimento sustentável. Algumas famílias, em sistema de rodízio, acolhem os viajantes e fornecem alimentação. Com orientação, educação e esforço, afugentam a pobreza.

É lutada a vida nas comunidades que vivem nas ilhas do Mekong

O transporte até à ilha é feito em barcos que transportam de tudo e navegam sempre lotados

Neste ponto do Mekong a correnteza é extremamente forte, a água é limpa e os mergulhos, essenciais. Com a chegada da noite, acomodei-me provisoriamente por alguns momentos em meu colchão fino, sobre o piso de madeira, para ver quais seriam os costumes e regras da casa. De pronto uma senhora instalou um ventilador em frente aos meus pés. Em que hotel você já recebeu esse tipo de serviço?

A vila melhora graças a um programa de desenvolvimento sustentável

A primeira casa onde me hospedei era muito simples, mas limpa e com boa comida

Uma segunda mulher descansou uma toalha cor de rosa em frente ao meu cantinho, deitou diversos pratos e ofereceu o jantar. Havia porco com cebola, legumes apimentados, uma tigela cheia de arroz e vários pedaços de abacaxi. Comi, observado pelas senhoras e por dois meninos. Tudo muito limpinho, até com guardanapos.

As instalações indicavam quarto de banho, com caneca plástica, separado do sanitário. Não havia luz elétrica, a pouca energia era fornecida por carga de bateria. Um pequeno altar budista, comum em todas as casas desta parte do mundo, completava o ambiente.

Difícil imaginar o gelo suportando calor do Camboja

Como não há energia, a refrigeração é feita com barras de gelo

Ensinei alongamento para as crianças e interagi com a família à base de mímica e inglês básico, estilo início do Ensino Fundamental. No ano passado, apenas 30 pessoas, de todo o mundo, passaram por aqui, segundo os registros domésticos.

Comunidade simples, ambiente rústico

Os búfalos são usados na lavoura e há criação de pequenos animais para abate

As galinhas para consumo e comércio, o marido trouxe amarradas numa cesta sobre a motinho. Obedecendo ao hábito rural tentei dormir cedo, pelas 21h. O gatinho se instalou junto à minha cabeça para ficar até o amanhecer. Respirei o aroma de madeira queimando e contemplei a noite.

O céu que cobre Ko Phdao tem mais estrelas.

(Continua ainda esta semana, desde que haja boa conexão de internet)

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