De Mochila pela Ásia

De moto por um país comunista

em 4 fevereiro, 2016
A região é farta em cascatas e rios

A vida em duas rodas é o cotidiano na Ásia

Motocicleta é fundamental para explorar o sudeste asiático

Não consigo enxergar uma viagem pelo sudeste asiático sem pilotar uma motocicleta, de qualquer tipo ou cilindrada. Arrisco dizer que é fundamental rodar em duas rodas para ter alguma profundidade na exploração e mais intensidade na experiência. Foi assim para conhecer o Sul de Laos em um circuito de 10 dias e 700 km pela área rural, próspera em cultivo de café, banana e mandioca. Farta em cascatas, rios e quedas d´água.

Há vacas, porcos, cães e cabras na pista; densa vegetação de selva ao redor; minorias indígenas, em vilas com acessos secundários; mulheres caminhando com cestos às costas. A colheita alternativa de frutas e as peças em palha e metal são vendidas à beira do caminho. Meninas varrem as portas das casas de madeira; crianças acenam da saída da escola; garotos com não muito mais do que oito anos de idade pilotam “scooters” pela rodovia principal.

Mulheres com cestos às costas e minorias indígenas são o cenário do  Sul de Laos

Mulheres com cestos às costas e minorias indígenas são o cenário do Sul de Laos

A infância é livre. Caminha sozinha, pelada e descalça. Ou corre de bicicleta. Da porta do meu bangalô contemplo búfalos tomando banho de rio.

Aqui é mais fácil preservar a pureza infantil

A infância é livre no Laos

O Laos é um país que abriu suas fronteiras recentemente aos estrangeiros. A União Europeia restabeleceu relações comerciais com o país comunista há uma década, mas a nação continua entre as 20 mais pobres do planeta. O capital estrangeiro vinha ingressando, assim como os turistas internacionais, até 2008. Avançavam a construção de hidrelétricas e a exploração de cobre e ouro.

A crise hipotecária norte americana afetou o país, os recursos tomaram outros rumos, enquanto o preço do cobre despencava. Sobrou o oportunismo chinês para se estabelecer junto à melhoria da infraestrutura de transporte do país. Continua como grande produtor de energia, fornecendo eletricidade para os vizinhos Tailândia, Vietnam e China. A moeda do país é o kip na proporção de oito mil para um dólar.

O Laos é uma República Socialista de partido único, os comunistas chegaram ao poder em 1975, após o fim da monarquia e uma guerra civil. O governo proibiu a prática do budismo, o que foi revertido nos anos 90, com certas modificações.

Muitos experimentam a vida monástica temporariamente

Os jovens só se tornam adultos após iniciar uma vida espiritual

Muitos homens experimentam a vida monástica temporariamente, por alguns anos. Os jovens não são considerados adultos antes de iniciarem sua etapa espiritual. E ainda segue sendo um tabu o ato de tocar na cabeça das pessoas, principalmente nas das crianças.

A população reduzida e a geografia montanhosa permitem que o Laos seja um dos países com o ambiente mais preservado da região, ainda que o corte e queima de madeira sejam ameaças atuais. Percebi isso rapidamente, ao rodear selvas abundantes, muito mais densas do que no já devastado Camboja (veja post sobre reserva de elefantes).

A região é farta em cascatas e rios

O Laos é dos países com natureza mais preservada do sudeste asiático

A pobreza, presente, é parte natural do cotidiano. Fui convidado a guardar minha motinho no que seria um depósito da pensão no vilarejo de Tad Lo, às margens do rio. Empurrei a bichinha para dentro e descobri que o espaço era a cozinha. Quanto a isso, nenhuma surpresa, apesar do ambiente degradado e sujo.

O impacto mesmo foi ver um porquinho preto se fartando de restos de comida, com meio corpo dentro da panela, largada no chão. Outro, maior, circulava à procura de sobras. Logo acima, esquecida sobre um balcão, descansava a bandeja com cenoura cortada e alfaces. Possível salada de algum cliente.

Para os laosianos é comum que os animais entrem nas dependências das casas

O porquinho se fartava dentro da panela, na cozinha

Aproveitei a força das cachoeiras de Tad Lao e fiz uma limpeza minuciosa em todas minhas roupas, objetos e equipamentos. Segurei as mochilas e o saco de dormir debaixo da correnteza para afogar ainda algum possível percevejo. Sofri de três ataques severos, espaçados, ao longo desta expedição.

Sofri três ataques de percevejo nesta expedição pela Ásia

Aproveitei a força das cachoeiras para lavar minuciosamente toda a minha bagagem

Esse trajeto foi verdadeiro “easy rider”, seguir sem programação ou agenda definida. Descobrir e desvendar, livre de compromisso. Visitar comunidades onde as mulheres fumam grossos cigarros enrolados em folhas de bananeira e garças partem em revoada no meio das árvores. Parando a fim de interagir e saindo com um mamão enorme de presente.

A expedição pela Ásia é construída por vários pequenos momentos

Parei para conversar e ganhei um desses de presente

No caminho, vi um menino sem olhos. Ele nasceu assim, tadinho. Eu estava registrando o entardecer quando a mulher me chamou para tirar fotografia. Apontou para a outra, com a criança no colo. Fiz a foto e só depois vi o rosto. Triste. Não terá como enxergar as belezas de Laos.

A nação é um paraíso de cascatas

São inúmeras as belezas naturais de Laos

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De Mochila pela Ásia

Entre vilas e montanhas (3/3)

em 1 dezembro, 2015
É dia de comprar e vender em Sim Hô

É dia de comprar e vender em Sim Hô

As senhoras de diversas etnias descem as montanhas para o mercado de domingo

Invisível no mercado local. Esse é sempre o melhor jeito para se enfronhar na cultura de cada região, pesquisar e fotografar. Nem sempre é possível, pelo meu tipo físico e estatura. Para quem não me conhece, tenho 1,96 m e a maior parte das vezes não logro ficar muito tempo sem chamar a atenção. Desta vez tento e consigo. Passeio, circulo, observo.

Circulo, a princípio sem chamar a atenção

  O mercado tem de tudo: de comida a roupas e quinquilharias

Vejo a negociação de legumes, frutas, roupas, sapatos e quinquilharias no vilarejo de Sim Hô. E principalmente de animais, vivos e mortos. Frangos são desensacados das motocicletas de baixa cilindrada e levados pelo pescoço, ainda vivos, à barraca de venda; porcos são retalhados e comercializados por cortes diversos, tripas ou intestinos; patos desfilam ou aguardam enjaulados até o momento do abate.

Animais vivos e mortos em Sim Hô

Os frangos são transportados em motocicletas até o mercado

É domingo e diversas etnias descem as montanhas para negociar no povoado, quase na fronteira com Laos. Compram e vendem. Inclusive os “Black HMongs”, trajando preto e simbolizando a resistência dos povos das montanhas.

Gosto de viajar com calma e de me aprofundar o máximo possível. Para mim, um mês é o mínimo aceitável para explorar e descobrir razoavelmente um país. Não acredite naquele que diz que conheceu a China porque esteve nas duas principais metrópoles ou que domina a Europa uma vez que visitou os pontos turísticos das principais capitais.

Patos são iguarias para os vietnamitas

Animais vivos e mortos em Sim Rô

Com esse pensamento decidi deixar a cidade turística de Sapa, fundada como estação de verão na época em que o Vietnam era colônia da França, para avançar mais a noroeste. Até agora, os trajetos mais gratificantes foram longe dos espaços muito visitados.

Para eles também são interessantes as fotografias

Depois de um tempo, sou descoberto no mercado e viro atração

No mercado semanal sou descoberto, como sempre pelos mais jovens, e explode a sinfonia de “hellos”. O inglês começa aí e termina em “by, by”. No meio geralmente vem uma sessão de fotos, já que sou raridade na região. As fotografias são tão interessantes para eles quanto para mim. As senhoras mais velhas não gostam. Mostrei a imagem para uma delas que protestou e esfregou o dedo na câmera, tentando apagar o registro.

Subo na moto para regressar e me descubro sem gasolina, depois de 200 km rodados. Um posto fechado e outro sem combustível. Bom tempo se passa enquanto tento perguntar se a gasolina ainda chegaria no mesmo dia.  Gestos, palavras em inglês e mensagens escritas não foram suficientes para a comunicação. Não havia mais aonde ir e sem gasolina teria que ficar mais uma noite no povoado.

O caminhão da petroleira chega antes que eu desista e logo uma fila de motonetas se forma ao redor. Pego a estrada para cumprir parte do trajeto antes do escurecer. Por volta das 17h, chego ao trecho mais acidentado, com queda de barreiras por quilômetros. As fortes intervenções climáticas impedem que a pista seja colocada definitivamente em ordem. Na minha frente um motociclista retirava pedras para abrir caminho.

Foi difícil a comunicação para saber se haveria gasolina ainda naquele dia

O caminhão de gasolina chega bem na hora

Bem na hora da minha passagem, de olho no barranco, duas rochas bastante grandes se projetam encosta abaixo. Com a graça de Deus tive calma e acompanhei o movimento das pedras rolando montanha abaixo, monitorei para ver se meu movimento seria de acelerar ou recuar, de saltar da moto ou avançar pilotando. Tensão geral, quem estava perto correu.

As quedas de barreira são comuns, por conta dos fatores climáticos

O desmoronamento havia ocorrido minutos antes de eu chegar

Acelerei e as pedras pararam antes de atingir a pista, a mim ou meu veículo. Alívio geral. Como aconteceu bem nessa hora? Riscos da viagem, proteção divina. Não, essa não era minha hora de partir. Apenas de regressar a cidade-base e retomar o meu caminho, De Mochila pela Ásia.

 

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China

Cinquenta horas de viagem e já alguns perrengues na China

em 6 novembro, 2015
Os arredores de Pudong International Airport

A China tem muitas particularidades

Arredores de Pudong Airport, Shangai

 

Estou na China. Exatamente após dois dias de viagem ou quase 50 horas de traslados, quatro voos e os primeiros perrengues. De casa embarquei para São Paulo, aguardei por horas, peguei um avião para Nova Iorque, fiz conexão até Seattle, esperei mais um tanto e voei outras 13 horas até Xangai, por sobre o Pacífico. A passagem, claro, saiu baratinha.

Com um inglês mastigado e máscara cobrindo o rosto, o rapaz me apontou a fileira de imigração e consegui um visto de trânsito, válido por 72 horas, na maior tranquilidade e quase nenhuma espera.

Movimento intenso no aeroporto internacional de Pudong

Delegação chinesa em viagem

“Hopes and dreams. Determination”. Foram as primeiras palavras lidas, em inglês, na chegada ao importante centro financeiro mundial. Muito apropriado, é disso que falo ao me lançar a uma expedição ou entregar algumas mensagens em palestras.

O estresse e o aperto da partida me impediram de garantir uma acomodação na cidade mais populosa da China, com pelo menos 24 milhões de habitantes. Sabia da existência de um hotel no próprio aeroporto internacional de Pudon. Custava US$70, a opção mais em conta.

Apesar de internacional, muita gente que trabalho no aeroporto não fala inglês

O aeroporto internacional de Pudong é importante hub aeroviário

Melhor buscar na internet. O Google estava bloqueado num dos mais importantes hubs aeroviários do país, mas consegui acessar um site americano de reservas online e encontrei hospedagens bem econômicas. Todas restritas aos chineses, não aceitavam estrangeiros. Sim, a China tem muitas particularidades.

Outras opções registradas, preferi buscar informação local e confiável, antes de qualquer reserva. No centro destinado a apoiar estrangeiros a moça quis logo se livrar de mim. Boa caminhada, ainda nas dependências do aeroporto, e voltei sem informação ao hotel de “70 bucks”. Consegui que a recepcionista fizesse e me transferisse uma chamada telefônica. Do outro lado, apenas uma linguagem incompreensível.

Encontrei outro quiosque e fui direcionado ao portão onde circulam as vans para os hotéis. Nem sinal do transporte que eu deveria pegar. Fora do desembarque internacional, o inglês já começa a rarear. Um grupo de três jovens simpáticos e prestativos me ofereceu ajuda, acessou sites locais e eu registrei alguns contatos, mas nada frutífero. Achei um balcão de reservas de hospedagem, onde a mímica seria a principal opção. “Fala inglês?”. “A little” e assim pode esperar a comunicação será difícil.

O primeiro caixa automático, do banco oficial da China, recusou meu cartão de débito algumas vezes. O segundo também, sinal preocupante. Usei o cartão reserva, abastecido com menos dinheiro.

Fechei um hotel por US$35 a alguns quilômetros do aeroporto, com transporte incluído. Nada mal. Ou melhor, claro que nada bom o hotel, elevador imundo. Já viu até o elevador ser sujo? O “Eastern Star” tem cheiro de cigarro e toalhas rasgadas, bem ao estilo dessa expedição.

A opção  mais econômica encontrada perto do aeroporto de Pudon

Toalhas do nada estrelado Eastern Star

Acomodação para passar a noite, perto do aeroporto

Dá uma olhada na porta do hotel

O colchão é firme; o chuveiro, quente; então o repouso parecia garantido, ainda que sobre minha cabeça circulassem, barulhentos, os aviões.

Aviões rasgavam o céu dia e noite

Os aviões voavam sobre o hotel em Shangai

Três horas se passaram, desde o desembarque. Pálido, mas feliz, saio para comer. A noite é nublada, as ruas escuras e poucos carros circulam, buzinando forte. A comida típica chinesa é servida num lugar espantosamente limpo. Massa larga com legumes por incríveis dois dólares. Primeiro contato com a Ásia econômica e tradicional.

No primeiro banho em terras orientais, o sabonete líquido de saquinho não foi suficiente para o corpo todo, privilegiei as partes mais sofridas pela viagem. O shampoo desapareceu na vasta cabeleira.

Os aviões rasgavam o espaço e rugiam, furiosamente, madrugada adentro. O som explodia nos ouvidos do exausto viajante. Longe de dizer que foi uma noite aceitável, mas ganhei forças para seguir adiante.

Parto agora para Hong Kong, onde a jornada oficialmente terá início, por terra.

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De Mochila pela Ásia

UMA JORNADA PELA ÁSIA

em 1 novembro, 2015
A expedição, solitária, permite muita reflexão.

A expedição, solitária, permite muita reflexão.

A jornada pela Ásia será cultural, jornalística, de aventura e espiritual (Foto: Ike Weber (com timer).

No princípio é o caos. Não importa se a jornada será de três meses ou de dois anos. Assim foi com a organização da expedição De Mochila pela Ásia que começa esta semana e vai percorrer oito países/regiões do Oriente, ao longo de sete meses.

É preciso estudar e definir o roteiro, levando em consideração prazos, clima e épocas; batalhar apoios e patrocínios; estabelecer a identidade, conceito e comunicação da expedição; fazer “checkups” e tomar vacinas; pesquisar passagens e pontos de início, sempre de olho na variação do dólar; comprar, preparar ou substituir equipamentos e adaptar-se a novas tecnologias; adquirir moeda; solicitar vistos; organizar documentos; contratar seguro saúde; levantar informações e preparar a mochila. E tudo sempre se desdobra em inúmeros detalhes.

A preparação exige cuidados com documentos, vacinas, vistos e equipamentos (Foto; Ike Weber).

A preparação exige cuidados com documentos, vacinas, vistos e equipamentos (Foto; Ike Weber).

 

 

Essa não é uma viagem de férias, turismo ou de descanso. É de exploração, de busca e de documentação. Uma jornada jornalística, cultural e de aventura.

O mais complexo é preparar o que fica: a microempresa, os negócios familiares, as contas e finanças e, principalmente, as relações afetivas.

Nos momentos finais, a vida cotidiana gruda na psique, no corpo e nos minutos para te impedir de seguir adiante. Pessoas queridas apresentam agendas de última hora ou transmitem, inconscientemente, uma vibração que tenta conter o avanço. Talvez, para os casais ou grupos de amigos que viajam juntos seja mais fácil. Eu sigo só, de mochila e em sistema multimodal de transporte, sempre por terra e por água, sem voos.

Quem sabe, quando se tem vinte e poucos anos e nenhum compromisso, seja mais simples. Acabo de completar 49 anos, vivo uma eterna negociação conjugal, deixo filha e pai quase nonagenário e, apesar de toda a minha dedicação à família, sinto que a vida pessoal e os sonhos devem ser realizados. Do contrário, seria perder minha alma.

Quando se parte sozinho, tendo laços íntimos na origem, a força para o primeiro arranque tem que ser maior. Em algumas horas, hercúlea, até.

Sinto dor de cabeça leve, mas constante. Após ler a tomografia o médico disse que vou precisar de nova cirurgia no nariz. As sinusites terão que ser administradas ao longo do percurso, sob abruptas variações térmicas.

“As pessoas sabem das cervejas que você toma, mas desconhecem os perrengues por que passa”, sintetizou com precisão o amigo e treinador Marcelo Barreto, campeão mundial de Taekwondo e faixa preta em várias modalidades.

As longas jornadas permitem a descoberta de lindos cenários (Foto: Ike Weber).

As longas jornadas permitem a descoberta de lindos cenários (Foto: Ike Weber).

A preparação é um teste de esforço e paciência. As horas passam mais rápido, o trânsito fica mais crítico, o corpo apresenta cansaço. As tarefas são vencidas em sequência, mas a lista de pendências só faz aumentar.

Já enfrentei isso tudo, antes de outra expedição de longo porte. Há dois anos percorri as três Américas, do sul do Peru ao centro-norte do Alaska. A vivência de um ano está relatada no livro recém-lançado “De Mochila pelas Américas – Histórias, Reflexões e Experiências” (www.ikeweber.com).

O livro De Mochila pelas Américas está disponível na Fnac e nas Livrarias Curitiba (Arte: Ju Scheller).

O livro De Mochila pelas Américas está disponível na Fnac e nas Livrarias Curitiba (Arte: Ju Scheller).

Enfim, logo mais chegará o embarque. E uma vez em solo oriental, vou conviver com uma cultura totalmente diferente. Rica e diversificada.

Seguramente, as experiências serão variadas. A região conserva história; apresenta desenvolvimento econômico, mas também governos autocráticos; ousa na culinária; revela cenários estupendos; preserva ritos milenários e templos magníficos. É mestra na espiritualidade.

Vou com luta e sigo com fé. Aqui neste espaço pretendo te contar sobre novas aventuras. Espero que você me acompanhe, que siga comigo.

Até breve.

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De Mochila pelas Américas

De Mochila pelas Américas na RPC

em 15 maio, 2015


 

ESTÚDIO C

Atualizado em 05/05/2015 10h06

‘Comunhão total com a natureza’, diz Ike Weber sobre encontro com urso

O jornalista foi um dos convidados do Estúdio C no último sábado (02/05)

Jéssica CarvalhoRPC

Ike Weker falou sobre chutar o balde no Estúdio C (Foto: Priscila Fiedler/RPC)
Ike Weker falou sobre chutar o balde no Estúdio C (Foto: Priscila Fiedler/RPC)

Não há personagem melhor para falar sobre chutar o balde, tema do Estúdio C que foi ao ar no último sábado (2), que o jornalista Ike Weber. Em 2012, ele era diretor de comunicação da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), mas resolveu pedir demissão e viajar durante 10 meses e meio pelas Américas.

O viajante conheceu 13 países das 3 Américas (Foto: Arquivo pessoal)
O viajante conheceu 13 países das 3 Américas (Foto: Arquivo pessoal)

Sua viagem, que era um sonho antigo, acabou virando uma expedição jornalística, cultural e de aventura. Com pouco dinheiro, ele percorreu 13 países e registrou tudo no blog “De mochila pelas Américas”, na Gazeta do Povo.

Antes da gravação do Estúdio C, nos bastidores, ele relembrou 3 histórias marcantes que viveu no período. Uma das melhores foi a trilha que fez no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos: “Comecei às 14h. Como era verão, o sol se punha perto das 21h. Lá pelas 20h, perdi a trilha e acabei me deparando com um urso negro, que estava a 800 metros de mim. Ele viu que eu não apresentava ameaça, então pude fotografá-lo e tudo mais. Foi um momento de comunhão total com a natureza.”

Encontro com urso negro deixou Ike emocionado (Foto: Arquivo pessoal)
Encontro com urso negro deixou Ike emocionado (Foto: Arquivo pessoal)

No Alasca, ele presenciou algo inusitado: “Estava hospedado num hostel e vi o gerente do estabelecimento dando entrevista para um telejornal local. Descobri que um dia antes, o dono havia sido preso pelo FBI porque estava promovendo excursões de cunho sexual para o Camboja. Foi inacreditável.”

 Já na Colômbia, passou por sua maior dificuldade. “Resolvi fazer uma caminhada de 6 dias pela selva, até a Cidade Perdida. Na volta, comecei a sentir coceira, então tomei um banho de álcool e fui para outra cidade, já que lá não tinha assistência médica. Dois dias depois, consegui acionar o Seguro Saúde e descobri que estava com varicela”, relatou.

Três dias sem sol e alguns remédios mais tarde, ele pode continuar viajando, mas o curioso é que ficou aliviado. “Achei que fosse sarna”, disse, rindo. Esta história também foi contada no Estúdio C.

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De Mochila pelas Américas

Aventura pelas Américas

em 6 dezembro, 2013

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(Matéria publicada no jornal Gazeta do Povo. Texto e fotos: Ike Weber)

Tomar banho até de álcool, comer pouco e caminhar muito, com mochilas carregadas às costas. Experimentar a vida real e a cultura genuína de comunidades exóticas, conviver com povos indígenas e se deslumbrar com paisagens magníficas. Assim foi De Mochila pelas Américas, uma expedição jornalística, cultural e de aventura que, em pouco mais de 10 meses, percorreu 12 países do continente americano.

O jornalista e aventureiro, Ike Weber, viajou sozinho, por terra e por água, do sul do Peru ao Alaska e regressou percorrendo regiões do Chile e da Argentina. A jornada, que começou em novembro do ano passado, terminou esta semana.

Só de deslocamentos foram 585 horas, o equivalente a praticamente 25 dias ininterruptos, em sistema multimodal de transporte: de ônibus, trem, moto e bicicleta. Cavalgando encostas e subindo montanhas. Navegando por rios, lagos, geleiras e mares, de canoa, caiaque, ferry boat ou barco a motor. Dirigindo em rodovias cênicas, desbravando onde não havia estradas e pegando carona.

Foi uma peregrinação por todo o tipo de ambiente urbano e natural, paisagens e acidentes geográficos. O viajante explorou cânions, desertos e selvas; visitou povoados esquecidos pelo desenvolvimento e capitais cosmopolitas; relaxou em praias, rios e baías; escalou montanhas e caminhou ao longo de geleiras. Experimentou elástica amplitude térmica, no decorrer da peregrinação – de áreas geladas, com temperaturas abaixo de 0 C, até regiões de calor extremo, ao redor de 45 C.

A opção foi por desvendar de maneira profunda cada região visitada, o que exigiu de 25 a 30 dias em cada país latino e no Alaska. Para cruzar os Estados Unidos de sul ao norte, sem pressa, pelo velho oeste, o viajante precisou de 45 dias.

A diversidade cultural dos povos e as diferenças no nível de desenvolvimento dos países, permitiu perceber desde a miséria e o sofrimento de países como o Peru (América do Sul), El Salvador e Nicarágua (América Central) à segurança e opulência dos Estados Unidos, realidade mesmo após crise internacional.

A jornada não foi uma viagem de férias ou roteiro turístico, mas sim um trajeto de exploração, de cotidiano econômico e hábitos simples, com refeições, transporte e acomodações singelas. A estada variou geralmente entre hostels – onde o dormitório, banheiro e cozinha são compartilhados -, hotéis espartanos, hospedarias ou pousadas. Algumas noites foram mesmo dentro de ônibus, em barracas ou cabanas de madeira. Exatamente 125 diferentes acomodações, para 307 períodos de sono.

Pelo fato de ser viagem de longa duração, tarefas cotidianas precisaram ser absorvidas, solucionadas ou executadas pelo aventureiro, como a lavagem e a reparação de roupas, as compras de mercado e a preparação de refeições, além do controle de despesas fixas no Brasil e o pagamento de contas.

A atenção com a segurança pessoal permeou boa parte da viagem, especialmente no trajeto das Américas do Sul, Central e do México. As ameaças variavam entre sequestro de viajantes em corridas de táxi, possibilidades de assaltos à mão armada e os riscos naturais, em lugares inóspitos e distantes.

Os desafios foram também provocados, com a prática de esportes radicais e de aventura. Adepto da adrenalina, o aventureiro distribuiu as atividades: montanhismo (Peru); camping e trekking selvagem (Colômbia); “deep board” e escalada (Panamá); vulcanismo e motociclismo (Nicarágua); tirolesa e “parasail” (Costa Rica); cavalgada (México) “mountain bike” e “rafting” (EUA); caiaque (Alaska) e “hiking” em todos os lugares percorridos.

Vínculos passageiros foram estabelecidos e novas amizades, internacionais, iniciadas. Sonho realizado. A trajetória sem planejamento fixo, sem o “último dia de viagem”, livre das proibições impostas pelo limite de tempo, chegou ao fim. O viajante teve que retornar para casa, gratificado, carregando inédita e rica experiência e ainda saboreando a sensação ampla de liberdade. Está nove quilos mais leve.

Histórias de um viajante

Uma expedição de quase um ano de duração permite desenvolver ou exercitar valores como a adaptabilidade e a flexibilidade, além de contabilizar histórias que vão muito mais longe do que a simples diversão e o enriquecimento cultural permitido pela arquitetura, tradições, museus, folclores e culinária de cada país.

A ousadia de uma longa jornada oferece possibilidades diferentes, vivências prazerosas e perigosas, situações cômicas e desagradáveis. Pelo caminho da alegria ou do sofrimento, sempre enriquece a vida do viajante.

Atormentado pelos comichões que não lhe abandonavam o corpo, o jornalista despertou agitado em uma madrugada na Colômbia, após um trekking de uma semana pela selva, onde dormiu em rede e estabeleceu contato com índios da região. Fustigado pela coceira, não hesitou em correr para o banheiro e despejar quase um litro de álcool pelo corpo. Sarna?, pensou. No dia seguinte, atendido às pressas pelo médico, a constatação: havia contraído doença de criança, a varicela.

Positivamente surpreso ficou o viajante quando desceu do ônibus interno no Parque Nacional de Denali, no Alaska, para uma caminhada na floresta de tundra, sem trilhas demarcadas. Do alto de uma montanha avistou um urso cinzento, com dois filhotes. Ávido pelo contato com a vida selvagem, arriscou. Apenas com a câmera fotográfica em punho seguiu lentamente na direção dos animais. Chegou a 500 metros da família que se alimentava de frutos silvestres. Era como viver dentro de um filme, só a natureza, os animais soltos e o risco de ataque.

Experiência mais estafante o andarilho enfrentou no Equador. Seguro de que o motorista iria se lembrar de avisá-lo para descer, relaxou no ônibus, trajeto noturno entre dois povoados. Ao notar que a duração prevista para a viagem já havia terminado, há algum tempo, resolveu questionar. O motorista se confundiu e desembarcou o aventureiro em um ponto parecido. Única diferença foi que era no meio da imensidão e escuridão dos vulcões equatorianos. Nenhuma acomodação, nenhuma luz, nenhuma comida nas proximidades. A caminhada para lugar algum foi finalizada com sorte.  O jornalista encontrou hotelzinho de beira de estrada para passar a noite e retomar o trajeto na manhã seguinte.

Ike Weber é jornalista, viajante e fotógrafo. 

 O projeto teve o patrocínio do Colégio Sesi e do Grupo Schultz/Vital Card e apoio de divulgação da rádio CBN Curitiba e do jornal Gazeta do Povo.

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De Mochila pelas Américas

Cenas de uma vitória (II)

em 22 setembro, 2013

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Agradecimento do viajante (agora sim, pessoal, é o fim deste sonho)

A expedição De Mochila pelas Américas termina esta semana, com descobertas no Rio Grande do Sul. Já escutou algo sobre Mostardas? É povoado-base para percorrer o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, área de preservação, sem estrutura turística ou centro de visitantes. É dos mais importantes refúgios de aves migratórias da América do Sul, recebe espécies de ambos os hemisférios. Para explorar a região é preciso de um 4 x 4 ou de muita ousadia. É onde finalizo a jornada, a bordo de um Novo Uno.

Acabo de completar 10 meses de viagem. Antes de encerrar, deixo registrado aqui alguns agradecimentos. Começo pelos meus patrocinadores, que deram suporte para este empreendimento. O Colégio Sesi – com o qual mobilizamos milhares de estudantes de segundo grau, em oficinas de aprendizado – e o Grupo Schultz/Vital Card.

Agradeço à Rádio CBN Curitiba, grande parceira de divulgação, que registrou a jornada com entrevistas ao vivo, ao longo do percurso, e ao jornal Gazeta do Povo, que abrigou o blog em sua página na internet. Assim como a todos os veículos de imprensa, jornalistas e colaboradores, de Curitiba e do interior, que publicaram a respeito desta trajetória.

Gostaria de agradecer especialmente a você, leitor, amigo, colega, colaborador, participante indireto desses momentos. Tudo aqui postado, documentado em imagens ou em textos, sempre teve como objetivo chegar a você, para levar alguma inspiração e compartilhar experiências, histórias e informações. Este blog não teria sentido sem a sua leitura, a sua curtida e os seus comentários.

Agradeço aos meus verdadeiros amigos e familiares, que se mantiveram em contato comigo, na torcida por este grande sucesso. Agora sei ainda mais quem são essas pessoas e o que representam na minha vida. Assim como sou grato aos que me receberam, acolheram e apoiaram ao longo deste caminho, em cada país visitado.

Ao final, o agradecimento mais importante: a minha esposa, a designer gráfica Juliana Scheller, que compreendeu a importância deste sonho e soube esperar (im)pacientemente pelo meu regresso. Ela é também a responsável pela identidade visual da expedição.

Nesses últimos dias a viagem será registrada apenas no twitter – @ikeweber. Continue acompanhando, participando.

A expedição De Mochila pelas Américas termina. O sonho se concretiza. A vontade de seguir sonhando e realizando continua. Sempre. Muito obrigado.

 

Ike Weber

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De Mochila pelas Américas

Cenas de uma vitória (I)

em 15 setembro, 2013

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Despedida do viajante (péra, pessoal, ainda não acabou…)

Eu consegui!

Cumpri minha jornada, realizei minha peregrinação. Viajei por 10 países/regiões das três Américas, sozinho, por terra, em uma expedição jornalística, cultural e de aventura.

Trafeguei de ônibus, trem e de moto. Singrei águas geladas do Alaska e naveguei por rios, baixo calor escaldante da Nicarágua ou de chuva inclemente na Costa Rica.

Remei junto a geleiras e descendo corredeiras. Pedalei nas mais famosas trilhas de mountain bike do mundo. Circulei de ferry, canoa e barco a motor.

Cavalguei encostas montanhosas no México. Dirigi por rodovias cênicas, nos Estados Unidos, e passei por onde não havia estradas, ao longo do caminho. Peguei carona nas Américas Central e do Sul.

Descobri e explorei todo tipo de ambiente natural: montanhas, praias, baías, geleiras, desertos, cânions, lagos, rios, selvas. Passei frio e calor. Enfrentei sol, neve, ventos e tempestade de areia. Visitei capitais, cidades, povoados e lugarejos.

Abriguei-me em 120 acomodações diferentes, dos mais variados tipos, de barraca a hotéis.

Foram 552 horas de viagem até agora, o equivalente a 23 dias ininterruptos. Ainda não contabilizei os quilômetros, o que farei já na volta ao Brasil, depois de percorrer mais um ou dois países sul-americanos. Mas já adianto que foram milhares – por terra, água e, quando não era possível, por ar.

Conheci pessoas, talvez tenha iniciado vínculos, fiz amizades. Foram espanhóis, austríacos, alemães, peruanos, canadenses, americanos, mexicanos, chineses, ingleses, salvadorenhos, australianos, franceses, colombianos, suíços, ucranianos.

Ri, sorri, sofri e superei. Diverti-me, irritei-me e surpreendi-me. Alegrei-me e chorei.  De emoção.

Pratiquei esportes de aventura: rafting, escalada, cavalgada, mountain bike, parasail, hiking, trekking, camping, snorkeling, tirolesa e até descida de vulcão, em prancha.

E caminhei.

Caminhei muito, em todos os países. Para me maravilhar com paisagens naturais e tesouros culturais. Para avançar profundamente na natureza selvagem. Para conhecer comunidades urbanas, rurais, de praia e de montanha.

Caminhei para aprender e refletir. Para mudar, porque nada é estático, fixo, definitivo. Caminhei para longe. Caminhei para perto de mim.

Caminhei para me perder e para me encontrar.

Você acompanhou boa parte desta caminhada. Com a coletânea de imagens acima poderá rememorar alguns momentos, comprovar e até se divertir com a transformação física do viajante.

A mudança interna é íntima, talvez demonstrada futuramente em contatos ou relacionamentos. A bagagem volta mais leve. Ou mais repleta, dependendo da ótica.

Se fosse experimentar tudo o que passei nos últimos meses, apenas em viagens de férias, levaria pelo menos uma década.

Cumpri um objetivo. Atingi uma meta pessoal. Realizei um dos meus muitos sonhos. Para poder continuar a sonhar.

 

Ike Weber

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De Mochila pelas Américas

O momento mais difícil da viagem

em 1 fevereiro, 2013

Sozinho, num hotel imundo. O corpo todo coça em comichões. A cortina que faz às vezes de box é negra de sujeira. A espuma do colchão está mordida e rasgada, dentro do velho estrado de madeira da cama. Coço o corpo com a espuma do sabonete antibacteriano.

A vontade que dá é de rasgar a pele. Ou melhor, de sair do corpo. De pé, no box de cortina imunda, espero e torço pelo efeito milagroso do sabão. O quarto do hotel não tem janela, é abafado e retém o ar pesado.

A cidade de Santa Marta, na costa caribenha, é quente e a praia principal é suja. Melhor do que as ruas, imundas e calorentas. Um líquido sempre escorre pelas vielas, assim como deslizam pela minha memória as lembranças de Salvador. Suja.

Navios imensos aportados, de um lado. Na outra ponta estão estacionados inúmeros vendedores de quinquilharias e artesãos locais. A pele coça enquanto caminho pelos becos antigos. Sonâmbulo, em nada conseguindo me concentrar.

Essa etapa da viagem é pura sobrevivência: conseguir comer, dormir ou refugiar-me. Aguentar o comichão pelo corpo, assistindo as pelotas vermelhas tomando conta da pele. Agonia. Desespero. Recém-saído da clínica para checar se o cóccix não ficara comprometido com a pancada após a queda da rede de dormir, em um dos acampamentos de Teyuna (ler post anterior: caminhada à Cidade Perdida).

Momento mais difícil da viagem. O Caribe não é só um paraíso, agora vivo na entrada do inferno. Melhor ter tomado banho com sabonete e shampoo nesses últimos seis dias de mato, penso, equivocadamente.

Acordo na madrugada para tomar banho de álcool. Funciona. Consigo algumas horas a mais de sono. O quarto, sem janela, parece não querer me libertar. Preciso fugir de Santa Marta.

Em pé, junto à cortina imunda do box, espero o efeito do sabão milagroso enquanto penso na loção poderosa que vai me fazer sentir novamente livre. Vontade de rasgar a pele. Ânsia por fugir do corpo.

A mais difícil organização da mochila até agora. Vontade que dá é de queimar todas as roupas. Tudo sujo, visto a bermuda jeans, também imunda. Por ridículos COP 5 mil (R$ 6,25) prefiro pegar um táxi até o terminal de transportes. Não posso suar.

O micro-ônibus que segue a Cartagena passa antes por Barranquilla, cidade colombiana do Carnaval. Na lombada, homens que querem ser mulheres pedem dinheiro aos motoristas.

As favelas, ao redor, lembram a sarna. O corpo coça, não há tranquilidade. Jogo álcool nas pelotas, escondido dos demais passageiros. A longa experiência como viajante de aventura já me assoprava que não seria fácil. Não é o mesmo que fazer turismo em um resort no nordeste.

Não podendo fugir do corpo, deixo a cidade. Desapareço do banheiro com cortina suja. Longe do quarto sem janela, encontro o médico.

Aliviado, o diagnóstico. Não seriam ácaros, como apostava o vendedor da farmácia. Longe de serem picadas de insetos, como indicava o casal de mexicanos que caminhou comigo pela selva colombiana.

Salvo, não era a maldita sarna. Varicela, constata dr. Camilo, o médico. Doença infantil, que também ataca os adultos. Medicado, agora é descansar e recuperar. Mais difícil é o tratamento em trânsito, de mochila, igual a cachorro sarnento, chutado de um lado a outro, sem lugar fixo para ficar. Vou sair desta, vou superar.

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De Mochila pelas Américas

Aventura na Cordilheira Branca

em 9 dezembro, 2012

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Sou um andarilho, diria meu amigo Edson Walker, viajante de longa data. Caminhei por sete horas, 17 quilômetros, circundando montanhas, atravessando matas, cruzando rios e subindo picos até a extraordinária lagoa 69, paraíso de águas verdes em meio à Cordilheira Branca, no Parque Nacional de Huascarán.

A jornada começou cedo, logo às 6h da manhã, com o corpo cravado no banco da van, os joelhos travados no assento da frente, de onde assistia ao constante vai e vem da porta para a entrada e saída de passageiros. As “chicken vans” se assemelham aos “chicken buses”, veículos que transportam de tudo: pacotes, malas, pneus, produção agrícola e até gente, sempre muita gente.

Logo no desembarque havia uma sendo carregada com três sacos cheios de porquinhos da índia, vivos. Sim, aqui no Peru esses bichos são criados para abate. Os motoristas literalmente correm atrás do dinheiro, fazem viagens arriscadas, acelerando sempre e ultrapassando na mais estreita oportunidade.

Dois coletivos depois, duas horas e meia e 85 quilômetros mais tarde, desço em Cebollapampa, para o início da caminhada, que imaginava suave.

A lenta subida foi se acentuando enquanto admirava cascatas e plantas nativas, passou ao nível médio até se transformar em puro aclive de montanha. O ar gelado limpava os pulmões da habitual poluição dos centros urbanos peruanos e esfriava rapidamente o suor.

Fui só, para refletir e contemplar a natureza. A presença dos picos nevados em contraste com a queda de água límpida me levou à emoção e me trouxe as lágrimas. Sim, é possível chorar de alegria, não apenas pelo afeto ou vitória conquistada, mas pelo simples fato de estar ali, imerso entre montanhas e vales, ao pisar pedras e mato.

Ao lado da lagoa, no alto da Cordilheira, não chove, neva. Deixei que os demais viajantes saíssem para ficar só, na companhia da natureza. Assim converso com Deus.

No retorno solitário, minha absoluta falta de direção me joga para fora da trilha principal. Estava perdido na mata, de um parque que se estende por 160 quilômetros e tem outros 20 quilômetros de largura. Por descuido atravessei dois pequenos riachos fora do caminho e tudo que encontrei foram trechos de mato amassado pelo gado. O vale serve para pastoreio.

A questão era colocar foco e manter sempre a tranquilidade, como se ensina para os que se estão a ponto de afogar-se. Perto das 16h precisava achar o caminho antes que escurecesse, o que admito, não foi assim tão difícil.

Na dúvida entre subir para onde eu avistava o que poderia ser um sendeiro, já com pouco fôlego, ou descer, para perto do rio, fiquei com a segunda opção. Cortei caminho escalando um barranco e encontrei novamente a trilha, com as botas e calça molhadas pela umidade da vegetação.

Meu último esforço: juntar-me ao rio, molhar o rosto e provar da água pura do vale. Consegui carona para chegar ao povoado de Yungay e de lá pegar a van para Huaráz. Estava há 48 horas à base de lanche, sem uma refeição completa.

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