De Mochila pela Ásia

Os nômades que previram o tsunami

em 30 março, 2016
Um povo sem terra, pátria ou religião

Os Moken são conhecidos como ciganos do mar

Nenhum membro da comunidade Moken que vive na baía das Ilhas Surin morreu no tsunami de 2004

O pio dos pássaros, a lentidão provocada pelo castigo do sol e o burburinho da marola na praia de areias claras exige esforço de imaginação para reconstruir o horror vivido por Khao Lak, no sul da Tailândia, há pouco menos de 12 anos. A orla da região foi das mais atingidas pelo tsunami de 2004 que abarcou 12 países no Oceano Índico, da Indonésia à Somália.

Foram destruídas 430 mil casas

O tsunami matou 230 mil pessoas, em 12 países

Ao todo, as águas do mar mataram 230 mil pessoas, destruíram 430 mil casas, danificaram 100 mil barcos de pesca e apagaram 3,5 mil quilômetros de rodovias. Quase dois milhões de pessoas ficaram desabrigadas. Só em Khao Lak desapareceram 100, dos antigos 143 hotéis e pousadas.

Quase dois milhões de pessoas ficaram desabrigadas

As ondas tinham em torno de 30 metros de altura

Hoje a cena do verão tailandês repete o cotidiano do passado logo antes da tragédia, com ondas de mais de 30 metros de altura. Famílias tomam banho de sol nos resorts, crianças brincam à beira da piscina e aposentados caminham na areia, fugindo do inverno europeu.

Os tsunamis em geral são provocados por terremotos no solo oceânico que movimentam grande massa de água e formam ondas, em todas as direções. As vagas são ligeiras, viajam a 885 km/h, e podem avançar mais de três quilômetros em terra firme. Em águas profundas são pouco perceptíveis. Ganham tamanho quando se chocam com o fundo mais raso das praias.

O tailandês, na foto abaixo, tem 42 anos e estava dormindo em Phuket, a 80 quilômetros de Khao Lak, quando o tsunami chegou. Acordou dentro da água. Teve sorte. A crosta continental de Phuket, menos íngreme, segura o peso das ondas. O tsunami se alastra com mais força em praias longas e rasas, como as de Khao Lak.

O homem teve sorte porque o solo oceânico de Phuket segura o peso das ondas

O tailandês dormia em Phuket quando o tsunami começou

Nenhum membro da comunidade Moken que vive na baía de uma das ilhas Surin morreu no tsunami de 2004. Todos conseguiram fugir e acampar nas colinas, até a água baixar. A sabedoria dos ancestrais os ajudou a prever a catástrofe, eles sabiam que as ondas estavam chegando.

Um povo sem terra, pátria ou religião

A tribo Moken foi perseguida por piratas e escapou dos comerciantes de escravos

A tribo Moken é apelidada de “ciganos do mar” por sua característica nômade e essência livre. Viviam em barcos, no universo marítimo, sem terra ou religião. Foram perseguidos por piratas e caçados por comerciantes de escravos. Resistiram. Com o estreitamento das fronteiras e leis de imigração, terminaram obrigados a se assentar nas costas e ilhas da Tailândia, Myanmar e da Indonésia.

Vivem da pesca e da coleta de frutos e atualmente incrementam a renda vendendo artesanato para os visitantes. Os nativos enxergam melhor debaixo d´água do que a maioria das pessoas, pelo costume e acomodação do foco de visão. No arquipélago de Surin, as crianças vão à uma pequena escola e recebem educação tailandesa.

Os Moken vivem da pesca e da coleta de frutos

Com o estreitamento das fronteiras, a tribo nômade foi obrigada a se assentar na costa do Sudeste Asiático

As ilhas, a 60 quilômetros da costa de Andamán, foram estabelecidas como parque nacional marinho e, portanto, são bem preservadas. Não há estradas, hotéis e nem mesmo trilhas na mata. Apenas duas, das cinco ilhas, podem ser visitadas.

O tsunami do Oceano Índico foi provocado pelo quarto maior terremoto dos últimos 100 anos, 9,1 graus de intensidade. Chegou a alterar o balanço gravitacional do planeta.

Hoje Khao Lak não só tem rotas de fuga, como também mapas nas ruas para indicar a localização dos abrigos, em caso de uma nova ocorrência. O balneário estabeleceu um memorial e criou um museu para guardar a memória do acontecimento. Exibe vídeos chocantes com imagens de fuga e do início das inundações.

Mapas e placas estão espalhados pelo balneário

Khao Lak tem rotas de fuga e abrigos anti-tsunami

A localidade ainda vive a comoção da tragédia. Os coqueiros não oferecem apenas frutos. Dão suporte às homenagens aos que partiram muito cedo, em terras estranhas.

Há famílias que perderam mais de um parente na tragédia

Os coqueiros suportam mais do que o peso de seus frutos

 

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De Mochila pela Ásia

A indústria que massacra a Tailândia

em 20 março, 2016
Os paredões emergem do oceano

Tours, ofertas, pacotes e todo tipo de atração para turistas

Chiang Mai é o principal centro de concentração turística ao Norte da Tailândia

Sob a ótica da descoberta e das viagens, a Tailândia apresenta dois aspectos nitidamente marcados. O das maravilhas naturais, históricas e religiosas e o das multidões e exagerada exploração comercial. É preciso tempo, pesquisa e dedicação para encontrar o mais genuíno da nação.

Na mesma rota costeira, ao Sul do país, é possível vislumbrar praias belíssimas, sufocadas pela indústria do turismo, e também desfrutar de ilhas bem preservadas e sem urbanizar. Em poucos quilômetros de distância as diferenças são alarmantes e atingem até mesmo o comportamento dos locais. O esquema turístico torna os naturalmente aprazíveis e amistosos tailandeses em comerciantes impacientes e não raramente irritadiços ou mesmo agressivos.

Há muito ainda preservado no Sudeste Asiático

Viagem de longo prazo oferece mais tempo para descobrir lugares lindos, vazios e isolados

A Tailândia recebe anualmente um número de estrangeiros equivalente à população de sua capital, cerca de 10 milhões de habitantes. É fácil alcançar o país – Bangkok é um hub aeroviário – há estrutura e conforto, mais gente falando inglês e menos risco. Isso faz com que lugares que viveram dias de beleza imaculada, na longínqua época do movimento hippie, possam ser comparados hoje a uma Disneyworld em mês de Julho, o pico do movimento no parque temático.

Exemplo disso é Maya Bay na considerada paradisíaca ilha de Ko Phi Phi. O turista padrão salta da capital direto para esse ponto e acredita estar saboreando o máximo da costa de Andamán. Usa seus “paus de selfie” e divide pouco mais de 150 metros de areia com praticamente outras mil almas ingênuas, ansiosas por um retrato e por mostrar onde estiveram ao regressar a casa. Dê uma olhada na foto abaixo e você vai enxergar Copacabana no verão ou o Farol da Barra, em Salvador, em janeiro. Triste.

Mil pessoas em 150 metros de areia

Maya Bay, abarrotada de turistas internacionais, é exemplo da asfixiante indústria do turismo na Tailândia

Exagero? Não se você presenciar um guia local com microfone alardeando a fama do local desde que DiCaprio atuou ali para o filme “A praia”. Jamais combinaria com a paisagem de areias brancas, águas turquesa e monumentais paredões de rocha. Para incrementar o drama, quase uma centena de turistas ia atrás, entusiasmada com a fugaz importância cinematográfica do lugar.

O ápice da estupidez, na minha sincera opinião, foi encontrar um sujeito enchendo garrafinha de água mineral com areia da baía. “Vou mostrar para os amigos um pouquinho de Maya Bay”, deveria pensar, sem qualquer lampejo de consciência ambiental.  A fama só contribuiu para poluir e estragar o – um dia intocado – cenário.

Os paredões emergem do oceano

O Parque Nacional Marinho de Ko Phi Phi, área preservada e com magníficos paredões de rocha

Outro exemplo é a estrutura muito bem montada em Bangkok com a finalidade de movimentar multidões em vans pelos arredores da capital. Os turistas passam horas no veículo entre três ou quatro atrações diferentes, shows com cobras, espetáculos de macacos ou a antinatural oportunidade de se aproximar de um par de tigres dopados. A saída é geralmente da área de Khao San Road, uma área turística de algumas quadras, onde todas as noites os bares tocam conhecidas e antigas canções internacionais para entreter os clientes.

O turismo sem dúvida traz o seu lado positivo: gera empregos, distribui renda e impulsiona o país, o que torna a Tailândia um destino completamente seguro. O que lastimo é o fato de se tornar ferramenta de aculturação de uma nação. Elefantes não nasceram para desenhar, crocodilos não foram criados para se apresentar como animais domésticos e minorias étnicas não existem para representações turísticas ou para pedir esmolas e gorjetas.

Ainda existem no Sudeste da Ásia, e na própria Tailândia, lugares muito interessantes, bem mais autênticos, e paisagens belíssimas a proporcionar experiências enriquecedoras. Posso garantir, após cinco meses desta expedição jornalística, cultural e de aventura – sendo dois só na Tailândia. Porém dá mais trabalho para descobrir e mesmo para chegar; exige mais flexibilidade e senso de adaptação, e, por vezes, surgem perrengues a enfrentar.

Longe do óbvio, perto da natureza

Lugares mais desertos exigem pesquisa, esforço e flexibilidade para visitação e descoberta

Na ilha maravilhosa que descrevi no post passado, acordei de madrugada com um camundongo correndo na cabeceira do meu colchão, sobre o estrado de bambu. Claro que não gosto disso, sou uma pessoa normal, ainda que com certo espírito aventureiro. Mas, faz parte da trajetória.

De qualquer maneira, se cabe aqui alguma sugestão, digo que se esforce, não opte rapidamente pela opção óbvia, comercial e mais fácil, ainda que você prefira o conforto e não seja um viajante de longo prazo. Garanto que vai compensar, e muito. Viajar é diferente de fazer turismo.

A ilha secreta onde estive por uma semana

Vale à pena o esforço para evitar o óbvio e sair do esquema comercial e turístico

 “Travel is like marriage.

The certain way to be wrong
is to think you control it”

John Steinbeck (1902 – 1968)

 

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De Mochila pela Ásia

A ilha perfumada

em 15 março, 2016
A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia

A ilha onde fui descansar é provavelmente a menos explorada da Tailândia

Quebrei as costelas, mudei o roteiro e encontrei o paraíso

Quase certeza, tenho, de que encontrei o paraíso para recuperar minhas três costelas partidas. Decidi continuar a expedição, mesmo após o acidente de moto, há alguns dias. Porém, precisava de um intervalo para recuperação. Mudei o roteiro, o Norte da Tailândia exigiria mais esforço físico, deslocamentos de motocicleta e mudança de hospedagem a cada dois ou três dias. Teria um baixo aproveitamento na exploração da região montanhosa. Desci novamente ao Sul do país.

O paraíso é uma ilha muito tranquila e rústica, possivelmente uma das menos urbanizadas e exploradas da Tailândia. Não há lojas, hotéis de luxo, rodovias pavimentadas e tampouco carros. Por outro lado, existem macacos, muita mata nativa e uma comunidade local maravilhosa. Lagartixas gigantes, outros répteis e, eventualmente cobras, completam o cenário. É um habitat de pássaros raros e diferentes como o “hornbill”, de corpo preto e branco, penacho e proeminente bico amarelado. Lembra um tucano.

Aqui não há hotéis de luxo, lojas ou rodovias

O paraíso é uma ilha tranquila e isolada no Sul da Tailândia

Lógico, a concepção do Nirvana varia conforme o perfil e a personalidade de cada pessoa. Há os que preferem vida simples e um estilo pé na areia e os que optam por mais conforto e sofisticação. Para mim está mais do que bom o bangalô de bambu, a rede na varanda, o banheiro com ducha manual de água fria e descarga de balde.

A  vida "pé na areia"

Mais que suficiente o meu bangalô de bambu sem ponto de energia e com descarga de balde

Ar condicionado (rs)? Não, não tem nem ventilador. A energia elétrica, de gerador a diesel, é fornecida por poucas horas, quando começa a escurecer. Claro que não há internet e a água vem de poços artesianos. Mas mesmo em março, o mês em que começa a esquentar para valer na Tailândia, a ilha fica razoavelmente fresca, à noite. Oferece brisa suave e cheira a sabonete de frutas ao entardecer.

Tudo chega de barco à ilha

A comunidade local é pequena e extremamente gentil

Fiz um bom esforço para chegar, 35 horas de viagem. Um sacrifício, pelas minhas condições físicas, desde o extremo Norte do país até a costa Sul. Foram nove meios de transporte diferentes, a começar com um táxi compartilhado, chamado aqui de “sörngtäaou” (fala-se “sonteo’) e um trem, em segunda classe, sem cama.

Não conseguia cochilar, com todas as luzes do vagão acesas, o tempo todo. Por vezes o cotovelo do meu vizinho, um professor aposentado de 64 anos, cutucava minhas costelas sadias. Enquanto dormia agarrado à bolsa de corino marrom, o malaio pisava meu pé, incessantemente.

Saltei para o banco de trás e tentei bloquear a luz com os óculos escuros falsificados, sem muito sucesso. Tinha ainda que acomodar as escoriações do braço e dos joelhos, para que não tornassem a abrir. Minha mochila, agora bem magrinha, me acompanhava no compartimento superior. Viu-se livre de roupas, papéis, pequenos objetos, uma excelente jaqueta semi-impermeável e até de alguns medicamentos. Não podia seguir com muito peso, conforme recomendação médica.

O trem atravessou a noite, sempre com as luzes do vagão acesas

Foram 35 horas de viagem e nove diferentes meios de transporte para alcançar meu destino

Cedinho em Bangkok, peguei um trem urbano, uma linha de metrô, caminhei e embarquei em um ônibus de linha até uma das estações rodoviárias da capital. De lá foram mais 12 horas ensanduichado, dormindo à prestação, mais um táxi compartilhado e um barco lento.

Na ilha, os cajus maduros despencam dos galhos das árvores, o mar murmura em sua missão de cobrir e descobrir as rochas, a areia molhada é sedosa sob os pés e os caranguejos multicoloridos fogem desesperados ante a aproximação do viajante. A água do oceano é macia, quente e caudalosa. Salgada, torna-se fácil boiar. Não há muitos mosquitos e pernilongos.

Expedição de longo prazo intercala esforço e relaxamento

Todo aventureiro tem os seus dias de descanso, principalmente depois de vários perrengues

Na primeira noite voltei dentro d´água para meu bangalô. Saí à tardinha, assisti ao maior sol da minha vida finalizar o dia mergulhando no mar, e retornei quase a nado, com a subida da maré. Claro, havia outro caminho pela mata que eu ainda não conhecia. Mas, quer algo mais fascinante do que chegar ao pouso com água até os ombros?

As manifestações da natureza são nossa maior riqueza

Vi o maior sol da minha vida mergulhar no oceano

O toque de recolher no paraíso é às 22h, mas depois disso ainda dá para curtir a escuridão, na vegetação, ou apreciar no céu as estrelas. Não devo revelar o nome desse local sagrado. Não por egoísmo, com o maior prazer dividirei com amigos e pessoas queridas de destino à Tailândia. Porém, simplesmente tornar público uma ilha quase imaculada seria atentar contra a sua pureza. Por enquanto é ótimo recordar do mar que à noite resmungava à minha porta. Se o paraíso não for ali é logo dobrando a esquina, disso estou seguro.

O mar é quente, transparente e caudaloso

À noite o mar resmungava a minha porta

 

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De Mochila pela Ásia

Nem sempre é reto, plano e florido o caminho

em 4 março, 2016
Campos de girassóis na Tailândia

Campos de girassóis na Tailândia

A expedição De Mochila pela Ásia tem sido uma experiência fascinante, mas nem sempre fácil

A expedição De Mochila pela Ásia tem sido uma experiência surpreendente, intensa, profunda, bonita, interessante, mas também difícil. Fascinante, sempre. Tenho me alegrado bastante, sorrido muito e me emocionado. Sempre me divirto, porém, por vezes também sofro.

Como agora, com três costelas quebradas, escoriações nos joelhos, braços e mãos e certa perda de rumo. Sim, sofri um acidente de moto, me estrebuchei no asfalto, no centro da Tailândia.

Voei da moto para o asfalto

A princípio imaginei ter sofrido apenas escoriações pelo corpo

A princípio achei que não era grave, o susto e o impacto me deixaram atordoados. Poderia até considerar bobo esse acidente, pelas condições em que o episódio ocorreu. Olha que já estava alugando e viajando de moto há quatro meses, sem qualquer problema.

A primeira falha foi da administração do parque histórico de Kamphoeng Phet, o qual visitava. Colocaram duas lombadas em sequência sem qualquer aviso, pintura ou sinalização. Baixas, mas muito compactas, daquelas bem duras, sabe?

Vinha com algum embalo e passei rápido pela primeira, sem ver. Os objetos assentados em cima da moto saltaram e, no instinto, tentei segurar. Aí foi o meu erro, me desequilibrei, derrapei e fui projetado ao solo.

A moto deslizou no asfalto e eu fui parar com o nariz encostado na segunda lombada, a 20 metros da primeira. Pela adrenalina do momento, parecia que não tinha me machucado muito. Levantei, sacudi a poeira, observei os machucados, ergui e acionei a moto e continuei.

O desequilíbrio repentino foi provocado por duas lombadas em sequência, sem sinalização

A marca no chão foi feita pela moto arrastada na pista

A câmera fotográfica, antes pendurada a um lado do meu corpo, partira. O visor foi deslocado e as imagens apareciam completamente desfocadas. O equipamento, após chocar-se contra o solo, impactou e pressionou meus ossos.

Segui, porém avariado, bem menos concentrado. Ao finalizar o dia, parti para remédio contra a dor e tratamento das feridas, com álcool e pomada antibactericida. Por estar mais desgastado do que o normal, o dia seguinte passei trabalhando no computador e só saí à noite para acompanhar as festividades em homenagem a Buddha.

Quatro dias se passaram, suspendi a medicação e a dor continuava, agora se irradiando pelas costas. Acionei o seguro saúde e fui atendido num hospital de primeira linha, na cidade de Chiang Mai, ao Norte do país. Passei por exames iniciais, fiz uma radiografia e sentei numas 10 cadeiras diferentes até receber o diagnóstico.

Relutei até acionar o seguro e ir ao hospital

Atendimento eficiente no hospital de Chiang Mai

O centro médico está acostumado com pacientes de outros países, tem inclusive um balcão para atendimento internacional, além de profissionais com nível de inglês acima da média. Enquanto esperava, conversei um pouco com um senhor que havia quebrado a perna esquerda, após voar das escadarias da sua pousada.

O mais cômico (ou seria triste) era o fato dele estar sendo acompanhado por uma pessoa exageradamente perfumada e com roupas de gosto duvidoso. Fiquei em dúvida se a criatura com as unhas dos pés tingidas de azul e uma expressão indefinida seria uma prostituta com paupérrima apresentação ou mesmo um travesti. Pode achar estranho, mas não consegui identificar com exatidão.

Na Tailândia é comum alguns homens, principalmente mais jovens, assumirem certos traços da personalidade se fantasiando de mulher. Vi diversos, trabalhando de vestido ou usando “maria-chiquinha” em lojas de conveniência.

A pancada foi forte. Foram danificadas as costelas 5,6 e 9. Não achei pouco, ainda que as fraturas possam ter sido incompletas, ou seja, não saíram do lugar. A dúvida era como continuar agora, para onde ir, o que fazer? Primeiro segui o rito médico e, após a sentença, retirei a medicação na farmácia, instalada no próprio hospital. Serviço eficiente, ao custo de US$115, cobertos pelo seguro viagem.

A câmera fotográfica, consertei antes de começar a tratar as costelas, numa assistência autorizada, por US$22, quase perfeita.

Meu corpo sofreu os primeiros impactos e protegeu o veículo,  que tombou para o outro lado

A scooter sofreu poucas avarias

“Só não pode carregar muito peso”, orienta o médico. E dizer isso logo para um viajante de mochila, sedento por aventuras. Sem dúvida, esse é o momento mais difícil da expedição. Pode soar esquisito, mas sinto as costelas se moverem e estalarem dentro do tronco, principalmente quando deito ou me viro na cama.

O braço e as costelas do lado direito foram mais afetados

As escoriações saram rápido, as fraturas exigem tempo e paciência

Agora, remédios e algum repouso porque a medicação provoca sono. As fraturas, nervosismo e irritação. Dia seguinte visitei um templo. Um não, acho que seis ou sete. Preciso encontrar meu rumo, ainda dói quando respiro profundamente.

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De Mochila pela Ásia

Bangkok, Tailândia

em 1 março, 2016
Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok

São famosos e maravilhosos os imensos templos de Bangkok

A capital da Tailândia venera Buda em todas as formas, estilos e tamanhos

Bangkok é uma cidade para quem dorme cedo e também para quem acorda tarde. Está viva. Há atividades diversificadas nas 24 horas do dia. Cosmopolita, acolhe visitantes do mundo todo, é um importante hub do sudeste asiático com conexões de voos para todos os continentes. Lugar onde o inglês já não é mais uma barreira tão difícil de ser transposta.

Segura, muito segura, a qualquer hora da noite. Cheguei de madrugada, peguei ônibus de linha, desci numa avenida e caminhei de mochila às costas procurando hostel, pensão ou pousada. Com a maior tranquilidade. Há moradores de rua, assim como também há policiamento e muita paz, típico do perfil asiático.

Modernas asiáticas em um dos antigos templos de Bangkok

A cidade é cosmopolita, recebe moradores e visitantes de todo o mundo

A malandragem está com os taxistas, que resistem em usar o taxímetro, e com os motoristas de tuk tuks que superfaturam qualquer pequena corrida. Esses triciclos são a praga do Sudeste Asiático. A Embaixada do Brasil na Tailândia sugere que o visitante evite o tuk tuk porque são muitos os casos em que o motorista não leva o passageiro ao destino e tenta convencê-lo a sair para comprar em lojas onde recebe comissão, entre outras trapaças (leia post sobre tentativa de extorsão em tuk tuk no Laos clicando em http://migre.me/t1yn5).

Bangkok se move. Lenta e rapidamente. Devagar pelos congestionamentos e tráfego pesado. Rápido de trem e metrô. Por água, de barco e com ferry boat. Talvez essa agitação toda tenha absorvido a afabilidade natural dos habitantes. Nas áreas de grande concentração de estrangeiros, os tailandeses se mostram bem impacientes, repelem perguntas e contestações, expõem a face rude da cidade grande.

Há as mais variadas formas de transporte

A cidade se move por terra e por água

A Tailândia é um país que louva a alimentação e em Bangkok você pode comer de tudo: dos pratos típicos e acondimentados à comida do ocidente; de pizza a quitutes de rua; de fast food a insetos e aracnídeos. Provei um escorpião no espeto, tem gosto de… nada, é como casca frita.

É possível encontrar todo tipo de comida na Tailândia

Provei escorpião frito que tem gosto de nada

Sucos de frutas e batidos são diversos. Tudo é saboroso. À parte dos frutos do mar, da típica massa oriental com frango ou camarão; das castanhas e do arroz, há deliciosas sobremesas. Sorvetes servidos na casca de côco ou finos pães com omelete e cobertura de leite condensado, por exemplo.

Os pratos são geralmente muito acondimentados

A comida de rua é farta, variada e barata

Dá para dividir em duas grandes áreas a cidade: a parte da realeza e  lugares históricos e a região moderna. Na primeira estão edifícios religiosos belíssimos, com o Wat Pho, o maior e mais antigo templo da cidade e que abriga a mais completa coleção de estátuas de Buda da Tailândia; e o Grande Palácio, antiga residência dos reis tailandeses. É a cidade que venera Buda – o príncipe transcendido, Sidhartha Gautama – em todas as formas, tipos e tamanhos. Sempre com recato. Se não estiver vestido ou coberto adequadamente, pode emprestar saia ou calça nos guichês de ingresso aos santuários.

Templos e palácios são das maiores atrações na capital

Palácio Real que serviu como residência da monarquia, hoje usado para celebrações especiais

Na parte nova, gigantes centros comerciais e de compra se conectam com hotéis e restaurantes, enquanto passarelas alçam voo sobre avenidas. As ruas mudam de cor segundo a projeção de imensos painéis de neon e de letreiros cinematográficos. Quando as portas dos enormes shoppings centers se abrem, os potentes ares condicionados refrescam até meio quarteirão.

O complexo de compras mais sofisticado reúne três shoppings: Sim Center, Siam Discovery e Siam Paragon, este último com oito andares, dois só para entretenimento. A praça de alimentação tem quiosques especializados em qualquer tipo de comida, oriental e ocidental. As compras são feitas com cartão de débito do shopping, abastecido num quiosque central.

Siam Paragon é dos shoppings mais modernos

Os complexos comerciais são sofisticados e conectados com restaurantes, bares e hotéis

Virou mania construir santuários na frente dos hotéis chiques, depois que edificaram o de Erawan, na época por considerarem que as forças negativas atrasavam a construção do Grande Hotel Hyatt e provocavam acidentes e mortes. Mas foi ali o cenário do atentado que matou moradores e estrangeiros, em agosto do ano passado. É um templo hindu num país essencialmente budista.

Inúmeros santuários foram construídos em frente aos hotéis da cidade moderna

O Santuário de Erawan foi palco de atentado no ano passado

Tem espaço para todo mundo em Bangkok. Espremidas debaixo de pontes, pequenas barraquinhas de comida e tendas de bugigangas coabitam com redes de supermercado, luxuosos restaurantes envidraçados e lojas de marca.

A cidade é tão extraordinária que circulei por duas semanas e ainda poderia ficar mais alguns dias com atividades totalmente diferentes. Há um mercado imenso, só de flores; museus lúdicos e interativos; ginásios com apresentações do real Muay Thai; apresentações de orquestras à beira do rio; imensos bazares e mercado noturnos; e muitos rapazes travestidos de mulher trabalhando no comércio. Com o crescimento da cidade, os antigos canais estão para virar lenda, mas ainda é possível se surpreender com táxis náuticos e barcos grandes, com motores potentes.

O crescimento da capital vai transformando quase que em lenda os estreitos canais

O transporte pelos canais de Bangkok são cada vez mais raros, mas ainda existe

A honestidade local é admirável. Dentro de uma van, na área central da cidade, recebi uma cestinha de plástico com várias moedas e notas de bath, o dinheiro deles. “Coloque o dinheiro na cesta e passe adiante”, explicou-me o rapaz. “Assim, sem recibo?”, confirmei. Depositei os 30 baths, cerca de um dólar, e segui viagem pela cidade. Gratificante.

O antigo e o contemporâneo coabitam a capital

Mulheres em trajes tribais vendem artesanato em área turística de Bangkok

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De Mochila pela Ásia

De cara com elefante selvagem na Tailândia

em 21 fevereiro, 2016
Perturbado pelos veículos, o animal ameaçou avançar no carro mais próximo

Perturbado pelos veículos, o animal ameaçou avançar no carro mais próximo

O elefante. que se alimentava à beira da estrada do parque, parou o trânsito

A surpresa estava logo após uma curva da estrada asfaltada que corta o Parque Nacional de Khao Yai, no nordeste da Tailândia. Pilotava minha motinho alugada, como costumeiramente faço para explorar melhor as regiões, sempre de olho na mata, à espreita da vida selvagem. O gigantesco elefante se alimentava da vegetação ao lado da pista e havia bloqueado o tráfego no local.

Por vezes os mamíferos descem da floresta em busca de outros tipos de pastagens e grama e acabam se expondo à civilização. Incomodado com o movimento, ameaçou avançar no carro mais próximo. O motorista do terceiro veículo da fila, apavorado, deu marcha ré por uns 100 metros. A grande maioria das pessoas é muito temerosa em relação a ambientes inóspitos, fenômenos naturais e a animais incomuns.

Entusiasmado, eu já havia parado no estreito acostamento, tinha descido da moto e registrava a cena. O elefante cruzou a estrada e se refugiou na vegetação. O tráfego voltou a fluir. Um carro passou observando, de vidros fechados. Fui atrás do bicho.

É indescritível a sensação de se deparar, de repente, com a vida selvagem

O animal cruzou a pista e se refugiou na floresta

Adoro a vida selvagem, sempre um dos objetivos da expedição. É indescritível a sensação de caminhar por uma floresta e repentinamente avistar uma criatura que povoa o universo de filmes e histórias e está completamente longe do cotidiano urbano da maior parte de nós. Foi assim quando fiquei pertinho de ursos marrons e negros em parques do centro-norte dos Estados Unidos e do Alaska (saiba mais lendo sobre a expedição De Mochila pelas Américas em www.ikeweber.com).

Como observador da natureza, não queria deixar passar a oportunidade. Já havia perdido a pista do primeiro elefante do dia, avistado quando entrava no parque, de manhãzinha.  O Parque Nacional é o mais antigo da Tailândia e um dos três maiores do país, com 2,1 mil quilômetros quadrados de extensão. Abriga flora exótica com duas mil espécies de plantas e fauna variada composta de 300 tipos de pássaros, 70 de mamíferos e 74 espécies de répteis e anfíbios.

Entre os animais estão macacos, veados, porcos espinho e cachorros do mato

O Parque Nacional de Khao Yai abriga 70 espécies de mamíferos

Segui o elefante pela mata, vagarosamente. Procurei não fazer muito ruído, mas era difícil visto que não havia trilha e me enroscava na vegetação e em cipós. Por sorte ele não caminhou para longe, se estabeleceu perto da estrada, sempre comendo. Os elefantes devoram entre 150 e 200 kg de plantas, bambus e pequenos herbívoros diariamente.

Eu estava tremendamente satisfeito com a minha experiência junto aos elefantes em uma reserva natural no Camboja, há pouco menos de dois meses. Na ocasião pude alimentar, acariciar e dar banho nos animais, dentro de um rio com cascata (leia essa história em http://migre.me/t3hMF).

Porém, esses mamíferos haviam sido trazidos de tribos e vilas, um dia tinham sido domesticados. Agora era diferente, o animal era completamente livre e selvagem, nunca conheceu corrente ou foi escravizado para passeios turísticos, trabalho comunitário ou apresentações circenses.

A magia explodia, a aventura estava viva e a adrenalina, presente. Segui afastando os galhos e contemplando o brutamonte, mas era difícil captar imagens, a folhagem dificultava o trabalho. Cheguei muito perto, não mais do que uns 15 metros de distância, estava no que considerei o limite da segurança.

Em janeiro do ano passado houve diversos ataques sequenciais de elefantes no parque, com a destruição de vários carros. Especialistas atribuíram à escassez de alimentos na floresta, ao aumento do número de veículos nas imediações e interior do parque e à maior agressividade dos machos durante o acasalamento.

O elefante de três metros de comprimento e entre três e quatro toneladas de peso parou num ponto onde não havia passagem, e aí me preocupei. Animais selvagens encurralados se tornam agressivos. Olhei em volta na tentativa de ficar atrás de uma árvore, mas nesse ponto não havia troncos suficientemente grandes e fortes para funcionar como barreira natural.

Não havia árvores suficientemente grandes para fazer uma barreira natural

O elefante de três toneladas parou num ponto onde não havia saída

Eu queria fazer apenas uma imagem de frente para o paquiderme e deixaria o local. Não deu tempo. O elefante virou a cabeça, se voltou para mim, sacudiu as orelhas e barriu – esse é o som que eles produzem. Deu dois ou três passos fortes e ameaçou avançar. Se eu tivesse apontado a câmera fotográfica ele dispararia, pude enxergar a continuidade nos olhos do gigante. Cheguei a sentir o atropelamento.

Recuei sem voltar as costas, saltei numa ribanceira e corri para a estrada. Na fuga perdi a tampa da lente e tive pequenas escoriações na perna. O de menos. O elefante desceu para a pista, desta vez era ele quem me perseguia. Uma caminhonete de guarda parque já se aproximava.

Tive que pular uma ribanceira e correr para a estrada para escapar do elefante

Na fuga, sofri apenas escoriações leves

Alcancei a moto, me virei e ainda consegui documentar o bicho seguindo na minha direção. Vinha sem correr, do contrário eu não teria saído ileso. Desta vez não esperei, ele me esmagaria se saísse em disparada. Senti a adrenalina percorrer o organismo ainda por algum tempo. Eu me sentia vivo, livre e contente.

Por sorte o animal me perseguiu sem correr

Na estrada, o elefante ainda seguiu em minha direção

 

 

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De Mochila pela Ásia

Que rei sou eu

em 12 fevereiro, 2016
A atual morada da realeza foi transferida para a parte Norte da cidade

A atual morada da realeza foi transferida para a parte Norte da cidade

O grande palácio, em Bangkok, antiga residência da família real

Surpreso, mostrei meus respeitos ao rei. Sim, estava no cinema em Bangkok quando exibiram na tela um aviso e começaram a entoar uma música sentimental, seguida de ilustrações, algumas dramáticas. Era o hino real da Tailândia. O pequeno público presente na imensa sala do Siam Paragon, sofisticado shopping center da capital, se colocou de pé por aqueles instantes. Divertido, obedeci.

Descobri mais tarde que não se levantar para a execução do hino é crime de Lesa-Majestade, previsto no Código Penal e passível de prisão que varia de três a cinco anos. A lei não é flexibilizada para estrangeiros.

Ainda que a Tailândia ter deixado de ser uma monarquia absoluta há quase um século, a figura do rei está por toda parte em Bangkok: em grandes avenidas, em lojas, nas casas ou, é claro, em gigantes painéis nos prédios públicos. Apesar de já estar com 88 anos e a saúde debilitada, o rei Bhumibol, ou Rama IX, aparece sempre mais jovem nas imagens.

O rei sempre aparece mais jovem nas imagens

A imagem do rei da Tailândia está em toda parte

O monarca ganhou o respeito do povo e tem autoridade moral. É visto como uma figura paternal que atuou com sabedoria em momentos de crise. Possivelmente a crença budista, predominante no país, faça com que seja venerado como semideus.

Chamado publicamente de “O Grande”, é o indivíduo que há mais tempo reina no planeta, desde 1946. Considerado o rei mais rico do mundo, ele cumpre função social e financia diversos projetos de desenvolvimento em áreas rurais do país. A revista Forbes estimou a fortuna da realeza em US$30 bilhões, em 2011.

O rei da Tailândia está com 88 anos

Painéis imensos estampam a figura do monarca, que há mais tempo reina no mundo

Um dia depois, aconteceu novamente. Exatamente às seis da tarde eu estava atravessando uma passarela, no centro da cidade, quando vi todo mundo parado. Estranhei, não me parecia ponto de transporte. Todos congelados, como num filme de ficção científica ou em uma novela de Saramago.

De súbito, escutei a canção, trazida pelo vento. Era o hino novamente. Algumas pessoas me olhavam, parei ao lado de um casal. Depois perguntei o que acontecia para que me confirmasse o que já imaginava. Todos os dias a capital para no final da tarde para reverenciar o rei. Não é uma lei, disseram, apenas questão de respeito.

Hoje o país tem uma estrutura política em que o primeiro-ministro é o chefe de governo enquanto que o rei é chefe de Estado, o que se denomina uma monarquia constitucional. O poder executivo está atualmente nas mãos do Exército e o país não superou a instabilidade desde o golpe militar de 2006, apoiado pela realeza. Leva algum tempo para entender toda a agitação política e institucional da última década.

O lugar é coalhado de visitantes do mundo inteiro

Guarda em frente ao grande palácio, em Bangkok

Nos últimos 10 anos, uma nova Constituição foi promulgada; eleições gerais com a vitória dos oposicionistas foram realizadas; a primeira ministra eleita foi deposta e indiciada; novo ministro ocupou interinamente o posto de chefe do Estado; outro golpe foi dado pelos militares em 2014, com lei marcial, toque de recolher e censura; a nova Constituição foi suspensa, exceto o capítulo sobre a monarquia; os militares prometeram e depois adiaram novas eleições gerais; e, por fim, talvez o país compareça às urnas no ano que vem.

O julgamento da ex-primeira-ministra tailandesa, Yingluck Shinawatra, acabou de começar em Bangkok, em meados de janeiro. Em um movimento considerado político, ela foi acusada de negligência num programa de cultivo de arroz. O processo deve levar todo este ano, as alegações da defesa estão previstas apenas para novembro.

A junta militar é acusada de tentar afastar definitivamente do cenário político a família de Shinawatra, vitoriosa nas últimas eleições nacionais. Ela é irmã do também deposto ex-primeiro-ministro Thaksin, exilado no Reino Unido desde o golpe de 2006.

As Forças Armadas, formadas pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, sempre ocuparam espaço representativo na história do país. Criadas durante a monarquia absolutista – como defesa contra os interesses colonialistas de países da Europa – foram modernizadas com o passar dos anos, até o estabelecimento de um Ministério de Defesa.

Novas eleições estão previstas para 2017

Os militares governam atualmente a Tailândia

A criatura se voltou contra o criador e os militares derrubaram o sistema monárquico hegemônico em 1932, com apoio de movimentos civis. O rei passou a ter mais um papel de representação, uma figura simbólica. A partir daí as Forças Armadas não deixaram mais de intervir em assuntos políticos. Apenas nos últimos 100 anos a Tailândia sofreu 12 golpes de Estado e teve 17 Constituições.

Ritmo agitado e engarrafamentos na capital Bangkok

Apesar da instabilidade política, a Tailândia segue vida normal

Neste momento não há protestos nas ruas de Bangkok. A capital segue o ritmo do agitado cotidiano, dos engarrafamentos e do movimento de milhões de turistas estrangeiros que visitam o país, principalmente na alta temporada, de novembro a fevereiro.

O palácio é usado atualmente para cerimônias especiais, como a de coroação

O grande palácio divide área com um dos mais importantes templos de Bangkok

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De Mochila pela Ásia

UMA JORNADA PELA ÁSIA

em 1 novembro, 2015
A expedição, solitária, permite muita reflexão.

A expedição, solitária, permite muita reflexão.

A jornada pela Ásia será cultural, jornalística, de aventura e espiritual (Foto: Ike Weber (com timer).

No princípio é o caos. Não importa se a jornada será de três meses ou de dois anos. Assim foi com a organização da expedição De Mochila pela Ásia que começa esta semana e vai percorrer oito países/regiões do Oriente, ao longo de sete meses.

É preciso estudar e definir o roteiro, levando em consideração prazos, clima e épocas; batalhar apoios e patrocínios; estabelecer a identidade, conceito e comunicação da expedição; fazer “checkups” e tomar vacinas; pesquisar passagens e pontos de início, sempre de olho na variação do dólar; comprar, preparar ou substituir equipamentos e adaptar-se a novas tecnologias; adquirir moeda; solicitar vistos; organizar documentos; contratar seguro saúde; levantar informações e preparar a mochila. E tudo sempre se desdobra em inúmeros detalhes.

A preparação exige cuidados com documentos, vacinas, vistos e equipamentos (Foto; Ike Weber).

A preparação exige cuidados com documentos, vacinas, vistos e equipamentos (Foto; Ike Weber).

 

 

Essa não é uma viagem de férias, turismo ou de descanso. É de exploração, de busca e de documentação. Uma jornada jornalística, cultural e de aventura.

O mais complexo é preparar o que fica: a microempresa, os negócios familiares, as contas e finanças e, principalmente, as relações afetivas.

Nos momentos finais, a vida cotidiana gruda na psique, no corpo e nos minutos para te impedir de seguir adiante. Pessoas queridas apresentam agendas de última hora ou transmitem, inconscientemente, uma vibração que tenta conter o avanço. Talvez, para os casais ou grupos de amigos que viajam juntos seja mais fácil. Eu sigo só, de mochila e em sistema multimodal de transporte, sempre por terra e por água, sem voos.

Quem sabe, quando se tem vinte e poucos anos e nenhum compromisso, seja mais simples. Acabo de completar 49 anos, vivo uma eterna negociação conjugal, deixo filha e pai quase nonagenário e, apesar de toda a minha dedicação à família, sinto que a vida pessoal e os sonhos devem ser realizados. Do contrário, seria perder minha alma.

Quando se parte sozinho, tendo laços íntimos na origem, a força para o primeiro arranque tem que ser maior. Em algumas horas, hercúlea, até.

Sinto dor de cabeça leve, mas constante. Após ler a tomografia o médico disse que vou precisar de nova cirurgia no nariz. As sinusites terão que ser administradas ao longo do percurso, sob abruptas variações térmicas.

“As pessoas sabem das cervejas que você toma, mas desconhecem os perrengues por que passa”, sintetizou com precisão o amigo e treinador Marcelo Barreto, campeão mundial de Taekwondo e faixa preta em várias modalidades.

As longas jornadas permitem a descoberta de lindos cenários (Foto: Ike Weber).

As longas jornadas permitem a descoberta de lindos cenários (Foto: Ike Weber).

A preparação é um teste de esforço e paciência. As horas passam mais rápido, o trânsito fica mais crítico, o corpo apresenta cansaço. As tarefas são vencidas em sequência, mas a lista de pendências só faz aumentar.

Já enfrentei isso tudo, antes de outra expedição de longo porte. Há dois anos percorri as três Américas, do sul do Peru ao centro-norte do Alaska. A vivência de um ano está relatada no livro recém-lançado “De Mochila pelas Américas – Histórias, Reflexões e Experiências” (www.ikeweber.com).

O livro De Mochila pelas Américas está disponível na Fnac e nas Livrarias Curitiba (Arte: Ju Scheller).

O livro De Mochila pelas Américas está disponível na Fnac e nas Livrarias Curitiba (Arte: Ju Scheller).

Enfim, logo mais chegará o embarque. E uma vez em solo oriental, vou conviver com uma cultura totalmente diferente. Rica e diversificada.

Seguramente, as experiências serão variadas. A região conserva história; apresenta desenvolvimento econômico, mas também governos autocráticos; ousa na culinária; revela cenários estupendos; preserva ritos milenários e templos magníficos. É mestra na espiritualidade.

Vou com luta e sigo com fé. Aqui neste espaço pretendo te contar sobre novas aventuras. Espero que você me acompanhe, que siga comigo.

Até breve.

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