DE MOCHILA NA FNAC

Publicado em: 20/06/ 15

De Mochila pelas Américas foi ao shopping. Ou melhor, à livraria. As histórias, reflexões e relatos de quase um ano pelas três Américas foram apresentados em um bate-papo com clientes da Fnac, amigos e convidados. O convite foi do Centro Cultural da Espanha que também vai abrigar, durante dois meses (26/06 a 28/08/15), a exposição de fotos “Gente das Américas”.


O momento mais difícil da viagem

Publicado em: 01/02/ 13

Sozinho, num hotel imundo. O corpo todo coça em comichões. A cortina que faz às vezes de box é negra de sujeira. A espuma do colchão está mordida e rasgada, dentro do velho estrado de madeira da cama. Coço o corpo com a espuma do sabonete antibacteriano.

A vontade que dá é de rasgar a pele. Ou melhor, de sair do corpo. De pé, no box de cortina imunda, espero e torço pelo efeito milagroso do sabão. O quarto do hotel não tem janela, é abafado e retém o ar pesado.

A cidade de Santa Marta, na costa caribenha, é quente e a praia principal é suja. Melhor do que as ruas, imundas e calorentas. Um líquido sempre escorre pelas vielas, assim como deslizam pela minha memória as lembranças de Salvador. Suja.

Navios imensos aportados, de um lado. Na outra ponta estão estacionados inúmeros vendedores de quinquilharias e artesãos locais. A pele coça enquanto caminho pelos becos antigos. Sonâmbulo, em nada conseguindo me concentrar.

Essa etapa da viagem é pura sobrevivência: conseguir comer, dormir ou refugiar-me. Aguentar o comichão pelo corpo, assistindo as pelotas vermelhas tomando conta da pele. Agonia. Desespero. Recém-saído da clínica para checar se o cóccix não ficara comprometido com a pancada após a queda da rede de dormir, em um dos acampamentos de Teyuna (ler post anterior: caminhada à Cidade Perdida).

Momento mais difícil da viagem. O Caribe não é só um paraíso, agora vivo na entrada do inferno. Melhor ter tomado banho com sabonete e shampoo nesses últimos seis dias de mato, penso, equivocadamente.

Acordo na madrugada para tomar banho de álcool. Funciona. Consigo algumas horas a mais de sono. O quarto, sem janela, parece não querer me libertar. Preciso fugir de Santa Marta.

Em pé, junto à cortina imunda do box, espero o efeito do sabão milagroso enquanto penso na loção poderosa que vai me fazer sentir novamente livre. Vontade de rasgar a pele. Ânsia por fugir do corpo.

A mais difícil organização da mochila até agora. Vontade que dá é de queimar todas as roupas. Tudo sujo, visto a bermuda jeans, também imunda. Por ridículos COP 5 mil (R$ 6,25) prefiro pegar um táxi até o terminal de transportes. Não posso suar.

O micro-ônibus que segue a Cartagena passa antes por Barranquilla, cidade colombiana do Carnaval. Na lombada, homens que querem ser mulheres pedem dinheiro aos motoristas.

As favelas, ao redor, lembram a sarna. O corpo coça, não há tranquilidade. Jogo álcool nas pelotas, escondido dos demais passageiros. A longa experiência como viajante de aventura já me assoprava que não seria fácil. Não é o mesmo que fazer turismo em um resort no nordeste.

Não podendo fugir do corpo, deixo a cidade. Desapareço do banheiro com cortina suja. Longe do quarto sem janela, encontro o médico.

Aliviado, o diagnóstico. Não seriam ácaros, como apostava o vendedor da farmácia. Longe de serem picadas de insetos, como indicava o casal de mexicanos que caminhou comigo pela selva colombiana.

Salvo, não era a maldita sarna. Varicela, constata dr. Camilo, o médico. Doença infantil, que também ataca os adultos. Medicado, agora é descansar e recuperar. Mais difícil é o tratamento em trânsito, de mochila, igual a cachorro sarnento, chutado de um lado a outro, sem lugar fixo para ficar. Vou sair desta, vou superar.


O fim do mundo para os porquinhos-da-índia

Publicado em: 23/12/ 12


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As imagens impactantes são rotina no pequeno povoado de Gualaceo, a 25 km de Cuenca, no Equador. Prato típico equatoriano, o “cuy”, para nós porquinho-da-índia, é assado na brasa e servido no espeto no Mercado 25 de Junho, Meca do comércio local.

Outra iguaria é o porco assado por inteiro, do rabo à cabeça, e oferecido com batatas cozidas, milho e um molho a vinagrete, com muita cebola. As assadeiras do “chancho” formam uma fila na praça de alimentação.

O mercado movimenta a comunidade nos finais de semana e vende de tudo. Os peixes parecem pendurados em um varal. A carne é alçada aos balcões de madeira e expostas ao toque do freguês. Os frangos dão a impressão que espernearam até morrer, com as pernas espetadas para cima.

O menino, que me fez companhia no delicioso almoço, agradece o presente do Brasil, um bottom com a foto de uma onça pintada. Homenagem recebida com louvor, após comer todo o porco com batatas.


Aventura na Cordilheira Branca

Publicado em: 09/12/ 12

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Sou um andarilho, diria meu amigo Edson Walker, viajante de longa data. Caminhei por sete horas, 17 quilômetros, circundando montanhas, atravessando matas, cruzando rios e subindo picos até a extraordinária lagoa 69, paraíso de águas verdes em meio à Cordilheira Branca, no Parque Nacional de Huascarán.

A jornada começou cedo, logo às 6h da manhã, com o corpo cravado no banco da van, os joelhos travados no assento da frente, de onde assistia ao constante vai e vem da porta para a entrada e saída de passageiros. As “chicken vans” se assemelham aos “chicken buses”, veículos que transportam de tudo: pacotes, malas, pneus, produção agrícola e até gente, sempre muita gente.

Logo no desembarque havia uma sendo carregada com três sacos cheios de porquinhos da índia, vivos. Sim, aqui no Peru esses bichos são criados para abate. Os motoristas literalmente correm atrás do dinheiro, fazem viagens arriscadas, acelerando sempre e ultrapassando na mais estreita oportunidade.

Dois coletivos depois, duas horas e meia e 85 quilômetros mais tarde, desço em Cebollapampa, para o início da caminhada, que imaginava suave.

A lenta subida foi se acentuando enquanto admirava cascatas e plantas nativas, passou ao nível médio até se transformar em puro aclive de montanha. O ar gelado limpava os pulmões da habitual poluição dos centros urbanos peruanos e esfriava rapidamente o suor.

Fui só, para refletir e contemplar a natureza. A presença dos picos nevados em contraste com a queda de água límpida me levou à emoção e me trouxe as lágrimas. Sim, é possível chorar de alegria, não apenas pelo afeto ou vitória conquistada, mas pelo simples fato de estar ali, imerso entre montanhas e vales, ao pisar pedras e mato.

Ao lado da lagoa, no alto da Cordilheira, não chove, neva. Deixei que os demais viajantes saíssem para ficar só, na companhia da natureza. Assim converso com Deus.

No retorno solitário, minha absoluta falta de direção me joga para fora da trilha principal. Estava perdido na mata, de um parque que se estende por 160 quilômetros e tem outros 20 quilômetros de largura. Por descuido atravessei dois pequenos riachos fora do caminho e tudo que encontrei foram trechos de mato amassado pelo gado. O vale serve para pastoreio.

A questão era colocar foco e manter sempre a tranquilidade, como se ensina para os que se estão a ponto de afogar-se. Perto das 16h precisava achar o caminho antes que escurecesse, o que admito, não foi assim tão difícil.

Na dúvida entre subir para onde eu avistava o que poderia ser um sendeiro, já com pouco fôlego, ou descer, para perto do rio, fiquei com a segunda opção. Cortei caminho escalando um barranco e encontrei novamente a trilha, com as botas e calça molhadas pela umidade da vegetação.

Meu último esforço: juntar-me ao rio, molhar o rosto e provar da água pura do vale. Consegui carona para chegar ao povoado de Yungay e de lá pegar a van para Huaráz. Estava há 48 horas à base de lanche, sem uma refeição completa.


A preparação (final)

Publicado em: 21/11/ 12

 

PREPARAÇÃO 4 – OS DETALHES

 

Nunca deixe o varejo para a última hora, ele pode consumir um tempo tremendo e gerar muito desgaste dias ou horas antes da partida. Se isto acontecer, dou uma dica antes de bater o desespero. Faça um novo “check list”, de emergência, apenas com o que é essencial para a sua viagem. Exclua o que pode ser resolvido no retorno ou mesmo durante o trajeto e esqueça. Organize o check list com o tempo que vai dedicar para cada atividade emergencial. Ex: Das 15h às 18h arrumar a mochila, das 18h às 19h organizar documentos etc. Isso ajuda a aliviar a tensão e garantir que o essencial será feito.

Não estou carregando celular, como forma de comunicação, nesta expedição. Primeiro porque é caro, muito caro, falar pelo aparelho de um país para outro, pagando a conta no Brasil. Depois porque como estarei conectado, posso me comunicar por Skype ou outras ferramentas gratuitas. E, por final, porque não gostaria de estar em um ponto afastado do planeta e receber uma ligação telefônica. Sem graça, não é?

Sem dúvida uma grande expedição é feita de um sem número de detalhes e a preparação de tudo requer dedicação e cautela. Recomendo trabalhar uma relação inicial de tudo o que precisa ser feito, organizada por áreas: documentação e vistos; roteiro, pesquisa, guias e mapas; equipamentos; tecnologia e comunicação; saúde; orçamento e dinheiro; apoios e parcerias; assuntos domésticos.

Fiz o meu primeiro “check list” no final de junho e, ao longo de toda a preparação, recorri a ele frequentemente para encaixar as tarefas profissionais com as ações que poderiam ser realizadas antecipadamente. Mesmo assim muito ficou para a semana final e foi extremamente angustiante. Alguma coisa tive que deixar para trás

A documentação é um dos primeiros passos: passaporte, vistos e demais documentos. Optei por expedir a carteira internacional do albergue da juventude, considerando que farei uma viagem econômica. A permissão internacional para dirigir é recomendável, mas não obrigatória. Nas Américas, você pode alugar um carro com a carteira de motorista brasileira, se for o caso.

Acho que todo viajante, seja turístico ou aventureiro, deveria ter sempre três documentos atualizados: o passaporte, o visto americano e a vacina contra febre amarela. Já comentei em posts anteriores sobre saúde, roteiro e alguns outros temas da preparação.

Os equipamentos dependem muito do teu tipo de viagem. No meu caso fiz a opção natural de viajar o mais leve possível, transportando materiais básicos como saco de dormir, guias, medicamentos e roupas adequadas a qualquer clima e locar os itens específicos antes de cada atividade.

Hoje deixo aqui uma dica básica, que para mim parecia óbvia, mas que descobri que não é – a compra de moeda estrangeira. Muitos viajantes acham que essa transação é sempre igual, ou fixa. O conselho é negociar a cotação, sempre. Aqueles poucos centavos que você barganha na casa de câmbio pode significar muito dinheiro ao fechar a conta. Na minha primeira operação para esta expedição, o dólar era oferecido a R$ 2,21. Comprei por R$ 2,14 e obtive uma economia bem significativa.

 


O QUE ANTECEDE A SAÍDA

Publicado em: 20/11/ 12

 

A tensão é tremenda a poucas horas da partida. É preciso grande esforço para ficar concentrado e manter o foco em cada atividade que ainda falta realizar. O excesso de tarefas, na última hora, empurra para a dispersão e abre espaço para o nervosismo. Sim, sempre há muito o que fazer e as mochilas ainda estão longe de serem fechadas. Permaneço, há uma semana, plugado nos 330 v.

As emoções se confundem: ansiedade para que tudo seja concluído a tempo; aperto pela despedida, principalmente da minha esposa,Juliana, que se esforça para segurar as lágrimas; receio pelas situações adversas que realmente existem em cenários críticos e a imensa surpresa do momento ter chegado. Antes parecia que faltava tanto tempo…