Camboja

Desenvolvimento sustentável, golfinhos e um baita desafio (Parte 1/2)

em 7 janeiro, 2016
Jovens na construção, em monastério budista

Jovens na construção, em monastério budista

Jovens estudam, trabalham e se preparam, seguindo preceitos budistas

Quando retornar ao Brasil, acredito que vou sentir falta de ouvir os cumprimentos e acenos das crianças por onde passo, de manhã até à noite. Não são cumprimentos obrigatórios, os garotos ficam excitadíssimos, principalmente quando respondo de imediato.

Antes mesmo de identificar o ponto da gritaria escuto os “hellos” calorosos. Logo aparecem meninos e meninas de dois, três, quatro ou cinco anos esticando a mãozinha e entregando sorrisos, desde bocas banguelas ou já cariadas.

De longe escuto o chamado das crianças

Garotos ficam entusiasmados ao cumprimentar e interagir com viajante estrangeiro

As melhores formas de interagir com uma comunidade local são a pé, adentrando as profundezas dos povoados; de caiaque, remando até as vilas flutuantes; ou então circulando com motocicleta de baixa cilindrada. Desta vez optei pela bicicleta, outra estupenda forma de interação e de transporte.

Faria uma rota de 150 km ao longo do Rio Mekong, um dos maiores do mundo e o mais importante da região, responsável pelo sustento de milhões de pessoas. O Mekong nasce no Tibet corre pela China, forma a fronteira entre Myanmar e Laos, passa pela Tailândia, Camboja até compor um delta de terras férteis no Vietnam.

O Mekong abriga ainda poucos golfinho quase em extinção

Um dos pontos de parada ao longo do rio Mekong, com área de lazer e relaxamento

O primeiro dia de pedalada foi magnífico, os golfinhos surgem perto dos botes à beira do caminho. São da espécie Irrawaddy, seriamente ameaçada de extinção. Estima-se que haja apenas 80 indivíduos vivendo nessa região. Outro peixe importante é o “trey riel” que até deu o nome à moeda do país, o riel.

Cruzei o rio num barco que carregava de tudo e me alojei em uma das quatro vilas da ilha de Ko Phdao. Duas das comunidades – apoiadas por uma Organização Não-Governamental (ONG) da região – passam por um fabuloso programa de desenvolvimento sustentável. Algumas famílias, em sistema de rodízio, acolhem os viajantes e fornecem alimentação. Com orientação, educação e esforço, afugentam a pobreza.

É lutada a vida nas comunidades que vivem nas ilhas do Mekong

O transporte até à ilha é feito em barcos que transportam de tudo e navegam sempre lotados

Neste ponto do Mekong a correnteza é extremamente forte, a água é limpa e os mergulhos, essenciais. Com a chegada da noite, acomodei-me provisoriamente por alguns momentos em meu colchão fino, sobre o piso de madeira, para ver quais seriam os costumes e regras da casa. De pronto uma senhora instalou um ventilador em frente aos meus pés. Em que hotel você já recebeu esse tipo de serviço?

A vila melhora graças a um programa de desenvolvimento sustentável

A primeira casa onde me hospedei era muito simples, mas limpa e com boa comida

Uma segunda mulher descansou uma toalha cor de rosa em frente ao meu cantinho, deitou diversos pratos e ofereceu o jantar. Havia porco com cebola, legumes apimentados, uma tigela cheia de arroz e vários pedaços de abacaxi. Comi, observado pelas senhoras e por dois meninos. Tudo muito limpinho, até com guardanapos.

As instalações indicavam quarto de banho, com caneca plástica, separado do sanitário. Não havia luz elétrica, a pouca energia era fornecida por carga de bateria. Um pequeno altar budista, comum em todas as casas desta parte do mundo, completava o ambiente.

Difícil imaginar o gelo suportando calor do Camboja

Como não há energia, a refrigeração é feita com barras de gelo

Ensinei alongamento para as crianças e interagi com a família à base de mímica e inglês básico, estilo início do Ensino Fundamental. No ano passado, apenas 30 pessoas, de todo o mundo, passaram por aqui, segundo os registros domésticos.

Comunidade simples, ambiente rústico

Os búfalos são usados na lavoura e há criação de pequenos animais para abate

As galinhas para consumo e comércio, o marido trouxe amarradas numa cesta sobre a motinho. Obedecendo ao hábito rural tentei dormir cedo, pelas 21h. O gatinho se instalou junto à minha cabeça para ficar até o amanhecer. Respirei o aroma de madeira queimando e contemplei a noite.

O céu que cobre Ko Phdao tem mais estrelas.

(Continua ainda esta semana, desde que haja boa conexão de internet)

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Camboja

A Primeira Fronteira

em 21 dezembro, 2015
Chegava a hora de deixar o Vietnam e seguir para o Camboja

Chegava a hora de deixar o Vietnam e seguir para o Camboja

Procuro sempre cruzar as fronteiras durante o dia

Quando percebo o peso da mochila sobre os ombros, as costas quentes, o suor escorrendo por debaixo da camiseta e o ar cálido, sinto-me vivo. Feliz. O Vietnam foi fabuloso, mas era hora de partir, seguir explorando outras terras. O visto para 30 dias de permanência expirava justamente naquela data, em meados de Dezembro.

Nem sempre o rito do deslocamento ocorre como o anunciado nos guichês de venda de passagens de ônibus. Normalmente é diferente. Em Hoi An a atendente foi solícita e recomendou comprar bilhete de determinada empresa porque eu iria melhor acomodado no veículo, em função do meu tamanho. A viagem para Nha Trang era noturna e consumiria 12 horas. Acreditei.

Transitei socado no assento do “sleeping bus” sem lugar para enfiar as pernas. Os bancos reclinavam totalmente, até a posição de deitar por completo, mas dos joelhos para baixo o corpo ficava metido num espaço fechado e restrito. A mochila de ataque com dinheiro, documentos, computador e câmera fotográfica, ia acomodada sobre o corpo, por segurança.

Acreditei na conversa da prestativa vendedora de passagens

O assento do ônibus noturno reclinava bastante, mas não havia espaço para minhas pernas

Tive que desenvolver técnicas de acomodação para puxar alguns breves cochilos. Os assentos mais confortáveis, alardeados pela vendedora de passagens, viajaram cobertos por dezenas de mochilas.

Desta vez tive a opção e escolhi atravessar a fronteira de dia. Primeiro porque seria mais cômodo e segundo porque sempre é melhor trocar de país e iniciar a aclimatação quando ainda está claro. As regiões fronteiriças nem sempre são as áreas mais tranquilas e relaxantes, na maior parte do mundo.

Estávamos prontos para o Camboja. Desta vez seguia com meu novo amigo Patrick, um alemão de 33 anos que conheci na Ilha de Cat Ba e que reencontrei outras duas vezes ao longo do percurso pelo Vietnam.

Encontrei o meu novo amigo outras duas vezes no percurso

Conheci o alemão Patrick a caminho da ilha de Cat Ba, no Vietnam

Dentro do ônibus, o ajudante do motorista perguntou se já tínhamos visto, sugeriu alguma ajuda e disse que o carimbo custaria US$35. Pelo que sabíamos o procedimento era automático, na travessia da fronteira, e poderíamos obter facilmente o visto na hora.

Trinta dólares, estava escrito em um grande anúncio, em cima da guarita dos fiscais de fronteira. Trinta e dois dólares, exigiu o funcionário. Fingimos não entender e demos o dinheiro conforme o estipulado na placa. O guarda repetiu o preço, levemente superfaturado, e apontamos para o aviso. “Não, é um visto rápido, expresso, então é mais caro”, justificou.

“Como questionar mais, argumentar com o funcionário que iria conceder ou negar o visto de entrada ao país?” Pagamos os dois dólares a mais – possível propina oficial – e atravessamos. Mais tarde conheci outro alemão obrigado a pagar US$45, em ponto diferente da fronteira.

Bom, os países do sudeste asiático são seguros e acolhedores. No fim considero que é melhor ser sobretaxado em um ou dois dólares por um serviço do que ser assaltado com uma arma na cabeça, risco real em outros países por onde já viajei.

Perfeito, tudo certo, bastaria embarcar e seguir viagem até a capital, Phnom Penh. Mas, onde se encontrava o ônibus? O procedimento foi rápido e em todas as fronteiras que cruzei na expedição anterior, por 13 países das Américas, o veículo simplesmente aguardava todos os passageiros estarem prontos.

Não desta vez. Não na fronteira do Vietnam com o Camboja. O ônibus seguiu, provavelmente como havia dado a entender o ajudante do motorista, quando falou sobre almoço após a travessia da fronteira.

Seguimos a pé, estrada de pó adentro, passando em frente aos primeiros casinos cambojanos, visto ser o jogo liberado no país. A tarde estava quente. Algumas perguntas aos comerciantes da fronteira, mas nenhuma compreensão do idioma britânico. Por isso sempre a escolha de atravessar fronteiras à luz do dia, à noite teria sido arriscado e bem mais complicado.

Meu amigo Patrick e eu saímos caminhando em busca do transporte perdido

O ônibus nos largou na fronteira do Vietnam com o Camboja

Caminhamos, éramos os únicos estrangeiros a bordo, mas por sorte conversamos no ônibus com um local que viajava a negócios. Certamente informaria o motorista da nossa ausência.

Andamos por dois quilômetros até avistar o coletivo vermelho e o sorridente ajudante. “Por que não pegaram um moto-táxi?”, perguntou quando nos viu. Ahrrrggg, Patrick estava preocupado e nervoso. “Teria sido diferente se tivéssemos contratado o serviço de visto dele, por US$35?”. Provavelmente.

Será que o motorista nos aguardaria se tivéssemos contratado seus serviços e do ajudante?

Após dois quilômetros de caminhada, encontramos o ônibus

A primeira impressão do Camboja não foi boa, A capital parecia apenas escura e suja. E é. A falta de iluminação pública é um problema e caminhamos por becos e ruas na noite enegrecida, até encontrar um hostel para nos hospedarmos.

O lixo se acumula pelas ruas da cidade

A primeira impressão de Phnom Penh não foi boa, a capital é escura e suja

Mas Phnom Penh é muito mais do que isso e o país é maravilhoso, apaixonante. Siga comigo e vou contar mais, bem mais.

A capital e o país são apaixonantes

Monumento à Independência do Camboja, obtida em 1953

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De Mochila pela Ásia

As flores de plástico não morrem

em 13 dezembro, 2015
O conflito armado deixou sequelas até as gerações seguintes

O conflito armado deixou sequelas até as gerações seguintes

A Guerra matou pelo menos dois milhões de vietnamitas, além de cambojanos e combatentes do Laos e dos EUA

Não desejava a exploração turística da guerra. Ainda mais de um conflito nacional que tomou proporções gigantescas, repercutiu mundialmente, matou um número impreciso – mas superior a dois milhões – de vietnamitas, além  de outros milhões de combatentes cambojanos e do Laos, e deixou sequelas até hoje em gerações seguintes, como as deformações causadas pelo agente laranja, arma química das mais perigosas e cancerígenas.

Gostaria apenas de sentir um pouco mais o cenário e de ter alguma percepção prática do embate, 40 anos depois de finalizado e do regime socialista ter sido implantado, na nação reunificada. Como sempre faço nos locais que visito, dedico-me a refletir sobre os fatos históricos e a imaginar cenários passados.

Destroços de armamentos bélicos

Foram 20 anos de conflito e várias nações envolvidas

Trinta minutos para compreender a Guerra, disse a guia vietnamita, não exatamente dessa maneira e nem com essas palavras. É difícil vocês me verem em qualquer tour ou excursão, mas nesse caso foi inevitável. Os pontos eram distantes um do outro, talvez um pouco difíceis de encontrar e a região ficava a 90 quilômetros da cidade onde eu estava. Por último, o preço compensava e poderia ter informações adicionais.

Na chegada à famosa Zona Desmilitarizada (DMZ), situada no Paralelo 17, onde um dia foi a divisa entre os Vietnam do Norte e do Sul, o impacto. Fui abordado por um vendedor de souvenires para lembrar o combate. Aprenderam o marketing com seus rivais de batalha.

Não gostaria de tão exagerada exploração turística do conflito

O insistente vendedor perseguia os visitantes com souvenires da Guerra

Escapei e fui perseguido por outro, armado com uma bandeja onde repousavam símbolos e medalhas militares. Driblei o segundo, me escondendo atrás de um tanque original e ganhei tempo para organizar a tática de visitação. Corri para os túneis, onde, entrincheirados, se escondiam os vietcongs, comunistas do Norte.

Os túneis eram abrigo e refúgio, alguns até moradia

Alguns túneis nunca foram descobertos pelos norte americanos

Um pouco mais tarde iria visitar um deles que serviu de refúgio e de casa para 300 pessoas, em média, durante seis anos e nunca foi descoberto pelos norte-americanos. Plantavam em cima e se refugiavam embaixo. O túnel, de um quilômetro de extensão, três níveis e 13 entradas, tinha covas para armazenar armas, sala de reuniões e precárias estruturas de um lar.

As condições de vida eram precárias na época da Guerra Americana

Muitas famílias moravam nos túneis e plantavam nos arredores

De saída fui novamente cercado pelos mercadores de insígnias. Assim é em importantes centros históricos, no mundo todo. Em Teotihuacán, o complexo arquitetônico e espiritual dos Astecas, no México, é preciso andar em ziguezague para escapar dos vendedores. Apontei a câmera como defesa e recuaram, não gostam de registros fotográficos. Selamos a paz.

Com a pergunta certa, a guia vietnamita revelou as cicatrizes mais profundas das batalhas. Perdeu o avô, sulista, politicamente posicionado ao lado dos americanos, “porque queria proteger sua família”, segundo contou. A Guerra dividiu o povo e o país. Em sua fala, a aversão a qualquer tipo de conflito, dos bélicos aos familiares. Encontrou na função de guia uma maneira de aliviar a dor, ao indicar cenários de tragédias.

Três mil tumbas enfileiradas no cemitério da DMZ

Neste cemitério, a maioria dos combatentes foi enterrada como desconhecidos

O cemitério de ex-combatentes tem três mil tumbas enfileiradas, a maior parte enterrada como desconhecidos. Todas com adornos artificiais. As flores de plástico não morrem.

Homenagem aos combatentes do conflito terminado há 40 anos

As flores de plástico enfeitam todas as tumbas

 

 

 

 

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De Mochila pela Ásia

As Pagodas e a Paz

em 10 dezembro, 2015
Os locais de oração são extremamente adornados

Os locais de oração são extremamente adornados

O dragão é presença constante nos templos e pagodas

Hòa é magro, estatura que não chega a ser mediana, calça 36, talvez 37, e é extremamente simpático e conversador. Exatamente como a grande maioria dos vietnamitas. Difícil distinguir um de outro. Neste caso, a maior diferença é que Hòa fala um bom inglês, bem compreensível. Digo bom para um vietnamita. Com o tempo o viajante se acostuma com o forte sotaque e as palavras um pouco deturpadas na língua inglesa. A interação e as brincadeiras com os habitantes locais são aspectos dos mais divertidos e interessantes da expedição.

Apesar do forte sotaque, o inglês de Hoà é compreensível

Hoà é um vietnamita expansivo e conversador

Estávamos em um bote, Hòa e seu grupo de amigos e familiares, uma marroquina pequena e de quadril largo e eu. Uma mulher conduzia a embarcação. As mulheres remam, os homens saem atrás de algum dinheiro pelos arredores. As montanhas circundam a região, o sol é forte e a água, cristalina.

O complexo de Pagodas está a 70 km de Hanóis e mais uma hora de barco

As mulheres remam, os homens vão atrás de algum dinheiro

Algumas tumbas surgem entrecobertas pela água.

A água invade os túmulos quando o rio está cheio

Algumas tumbas estão ao longo do rio, quase cobertas pela água

A 70 km de Hanói e mais uma hora pelo rio, chegamos ao complexo de 14 Pagodas. Lugar de oração.

O rio é de água cristalina

É maravilhoso o trajeto até as Pagodas

Antes da caminhada, a primeira iguaria bizarra. Parecia um aquário com estranhas criaturas em imersão: ratos, gambás, cobras, corvo e outros bichos que não pude identificar. Licor muito especial, revela o jovem do restaurante. Opa, que tal provar? “Ainda não pode ser servido, fica maturando por três anos”, explica o rapaz.

 

O licor é muito apreciado e descansa por três anos, antes de ser servido

A bizarra iguaria com gambá, cobras, pequenos roedores e um corvo

Início da tarde, a marroquina motivada, cabelos entre o crespo e o liso, segue comigo, montanha acima, pelo calçamento de pedra. Amina é bióloga e trabalha em um laboratório. A densa vegetação cerca a área e sentimos os 30 C sobre as cabeças descobertas. No primeiro templo, em oração, o suor desce das mãos e alcança o solo, pingando desde os cotovelos. Camiseta encharcada. Os olhos sentem o sal do suor.

Os vietnamitas transformam o que desconhecemos em deliciosa comida. A Gai é retirada das árvores, secada e transformada em pequenas tortas escuras. Na subida, outra cena inusitada. Senhoras oferecem descanso pago à frente de grandes ventiladores. Se quiser, o andarilho, ensopado, senta e fica lá, relaxando.

Os vietnamitas transformam muitas folhas em alimento

A Gai é transformada em pequenas tortas escuras

Enfim, a primeira Pagoda, surpreendentemente localizada no interior de uma gruta. Dentre as várias crenças, os budistas pedem pelo sexo dos futuros filhos, conforme a posição escolhida para oração, à direita ou à esquerda do templo.

Aqui os vietnamitas oram até para pedir pelo sexo da criança

O templo está nas profundezas de uma gruta

O aroma de incenso se espalha em Thiên Trú, conhecida como “cozinha do céu”, por estar no vale, entre as montanhas. Conjunto de templos e monastério budista. O lugar é inspirador. O coração é preenchido enquanto o sorriso se alarga. Sim, comigo está Hòa e seu nome significa Paz.

O lugar é inspirador

Esta Pagoda é conhecida como “cozinha do céu”, por estar no vale, entre as montanhas

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De Mochila pela Ásia

De saída com a mochila. Ou, como escapei de uma armadilha

em 6 dezembro, 2015
Rodo pela periferia e arredores das grandes cidades

Rodo pela periferia e arredores das grandes cidades

As motos de baixa cilindrada são a melhor maneira de circular pelo Vietnam

Dez e trinta da manhã e eu pilotava a motinho alugada em direção a algumas tumbas de antigos imperadores do Vietnam, nos arredores de Hué, centro cultural, histórico e intelectual do país. Em um semáforo às margens do Rio do Perfume – dos raros pontos onde realmente o tráfego para quando a luz está vermelha – uma senhora, beirando os 45 anos, emparelha ao meu lado.

Retira a máscara antipoluição, hábito que os vietnamitas herdaram da vizinha China, e, simpaticamente, pergunta para onde vou e de onde sou. Não me surpreendi com a abordagem, acostumado que estava à expansividade e conversa fácil da população local. Aonde quer que vá o diálogo se repete.

“As tumbas estão a um quilômetro da minha casa, apenas me siga”, disse. No quarto do hotel havia estudado detalhadamente as direções e avenidas para chegar ao sítio histórico, a 12 quilômetros da cidade. Porém, habituado a me perder por aí, não seria demasiado um reforço na orientação.

Sigo a motociclista, como já havia feito outras vezes, ao longo da expedição. Três quadras mais e ela pergunta o meu nome, se apresenta, indaga quanto tempo ficarei na cidade, enfim, entabula uma conversação. Nada diferente do que vem ocorrendo cotidianamente.

“Deve estar querendo me acompanhar até as tumbas para oferecer serviço de guia”, imaginei. Nesse caso, apenas recusarei a oferta e continuarei o trajeto sozinho, do jeito que normalmente faço. Prefiro ir só para sentir os locais, deixar a imaginação liberta e circular, despreocupado com horários ou com a presença de outras pessoas.

A mulher pilotava vagarosamente a Scooter branca, com receio de que eu me distanciasse, e fazia gracejos sempre que podia. Num primeiro momento cheguei a pensar que já a conhecia de algum restaurante ou mesmo de passagem, da rua, talvez do comércio local. Os asiáticos parecem muito semelhantes uns aos outros, mas estava claro que não.

A situação parecia um pouco estranha, exagerada, até. “Don´t worry”, largou. Ora, por que eu deveria me preocupar se nada deveria estar errado? Minha percepção, já bem forte, indicava que não era uma atitude comum, de ajuda.

De qualquer forma, sozinha não teria como me causar qualquer dano. Bem humorado e até me divertindo, decidi deixar a situação seguir adiante. Ainda que com atenção e cautela.

Seria imaginação ou estaria nos seguindo o carro branco com quatro sujeitos grandes? Chegávamos à periferia, as ruas estreitavam e o movimento diminuía. O carro passa. A mulher entra à direita, numa rua secundária, desliga a moto e acode com a mão para que eu pare ao lado. Percebo que ela olha de relance para a casa do outro lado da rua. A porta está aberta e, sentado, um gordão conversa com outras pessoas, fora do alcance da minha vista.

As ruas se tornaram mais estreitas e com menos circulação de pessoas

Pilotamos até a periferia de Hué, centro histórico do país

A senhora acena para eu estacionar ao lado dela e olha para a ignição da minha motocicleta. Conheço o truque de arrancar a chave do veículo para a vítima ficar inerte, sem ação e não fugir. “Mapa, mapa”, diz, um pouco afobada. Por que precisava de mapa se morava a um quilômetro das tumbas e conhecia a região? A evidência era de uma manobra para momentaneamente me distrair.

Não estaciono, circulo devagar, e mantenho todo o quadro no meu campo de visão. “Don´t worry”, repete. As palavras sentenciaram que havia algo muito errado. Antes só desconfiado, agora realmente tinha que me preocupar. A circunstância chegara ao limite da minha segurança.

O movimento era bem menor quando a mulher estacionou e pediu para eu parar ao lado

Viramos em uma rua de pouco movimento, nos arredores da cidade

Avanço alguns metros, faço a volta e, de cima da moto e ainda no controle do ambiente, agradeço e digo que meu caminho é mesmo outro e acelero. A vietnamita já está fora da moto e parece mais ansiosa e desapontada.

Pode ter sido fantasia da minha parte, crimes violentos e assaltos armados não são comuns no país, mas acredito que escapei de um golpe. Poderia acontecer qualquer coisa: outras pessoas me abordarem repentinamente para arrancar a mochila e a câmera fotográfica enquanto a mulher se fazia de vítima; um convite para pedir indicações na casa e receber voz de assalto; ou mesmo a tentativa de um sequestro relâmpago.

Creio que a opção menos provável seria ela ter olhado o mapa, dado alguma orientação e dito “by, by”. Nunca vou saber. À distância, curvo o pescoço para trás, a mulher regressava pela mesma rua que entrou. Acredito que frustrada e muito provavelmente bem longe de casa.

Refletindo bem agora, um dia depois do ocorrido, tenho praticamente a certeza de que me safei mesmo de uma armadilha.

 

São raros os casos de crime violento no país

O Vietnam, de um modo geral, é um país bastante seguro

 

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De Mochila pela Ásia

Entre vilas e montanhas (3/3)

em 1 dezembro, 2015
É dia de comprar e vender em Sim Hô

É dia de comprar e vender em Sim Hô

As senhoras de diversas etnias descem as montanhas para o mercado de domingo

Invisível no mercado local. Esse é sempre o melhor jeito para se enfronhar na cultura de cada região, pesquisar e fotografar. Nem sempre é possível, pelo meu tipo físico e estatura. Para quem não me conhece, tenho 1,96 m e a maior parte das vezes não logro ficar muito tempo sem chamar a atenção. Desta vez tento e consigo. Passeio, circulo, observo.

Circulo, a princípio sem chamar a atenção

  O mercado tem de tudo: de comida a roupas e quinquilharias

Vejo a negociação de legumes, frutas, roupas, sapatos e quinquilharias no vilarejo de Sim Hô. E principalmente de animais, vivos e mortos. Frangos são desensacados das motocicletas de baixa cilindrada e levados pelo pescoço, ainda vivos, à barraca de venda; porcos são retalhados e comercializados por cortes diversos, tripas ou intestinos; patos desfilam ou aguardam enjaulados até o momento do abate.

Animais vivos e mortos em Sim Hô

Os frangos são transportados em motocicletas até o mercado

É domingo e diversas etnias descem as montanhas para negociar no povoado, quase na fronteira com Laos. Compram e vendem. Inclusive os “Black HMongs”, trajando preto e simbolizando a resistência dos povos das montanhas.

Gosto de viajar com calma e de me aprofundar o máximo possível. Para mim, um mês é o mínimo aceitável para explorar e descobrir razoavelmente um país. Não acredite naquele que diz que conheceu a China porque esteve nas duas principais metrópoles ou que domina a Europa uma vez que visitou os pontos turísticos das principais capitais.

Patos são iguarias para os vietnamitas

Animais vivos e mortos em Sim Rô

Com esse pensamento decidi deixar a cidade turística de Sapa, fundada como estação de verão na época em que o Vietnam era colônia da França, para avançar mais a noroeste. Até agora, os trajetos mais gratificantes foram longe dos espaços muito visitados.

Para eles também são interessantes as fotografias

Depois de um tempo, sou descoberto no mercado e viro atração

No mercado semanal sou descoberto, como sempre pelos mais jovens, e explode a sinfonia de “hellos”. O inglês começa aí e termina em “by, by”. No meio geralmente vem uma sessão de fotos, já que sou raridade na região. As fotografias são tão interessantes para eles quanto para mim. As senhoras mais velhas não gostam. Mostrei a imagem para uma delas que protestou e esfregou o dedo na câmera, tentando apagar o registro.

Subo na moto para regressar e me descubro sem gasolina, depois de 200 km rodados. Um posto fechado e outro sem combustível. Bom tempo se passa enquanto tento perguntar se a gasolina ainda chegaria no mesmo dia.  Gestos, palavras em inglês e mensagens escritas não foram suficientes para a comunicação. Não havia mais aonde ir e sem gasolina teria que ficar mais uma noite no povoado.

O caminhão da petroleira chega antes que eu desista e logo uma fila de motonetas se forma ao redor. Pego a estrada para cumprir parte do trajeto antes do escurecer. Por volta das 17h, chego ao trecho mais acidentado, com queda de barreiras por quilômetros. As fortes intervenções climáticas impedem que a pista seja colocada definitivamente em ordem. Na minha frente um motociclista retirava pedras para abrir caminho.

Foi difícil a comunicação para saber se haveria gasolina ainda naquele dia

O caminhão de gasolina chega bem na hora

Bem na hora da minha passagem, de olho no barranco, duas rochas bastante grandes se projetam encosta abaixo. Com a graça de Deus tive calma e acompanhei o movimento das pedras rolando montanha abaixo, monitorei para ver se meu movimento seria de acelerar ou recuar, de saltar da moto ou avançar pilotando. Tensão geral, quem estava perto correu.

As quedas de barreira são comuns, por conta dos fatores climáticos

O desmoronamento havia ocorrido minutos antes de eu chegar

Acelerei e as pedras pararam antes de atingir a pista, a mim ou meu veículo. Alívio geral. Como aconteceu bem nessa hora? Riscos da viagem, proteção divina. Não, essa não era minha hora de partir. Apenas de regressar a cidade-base e retomar o meu caminho, De Mochila pela Ásia.

 

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Entre vilas e montanhas (2/3)

em 26 novembro, 2015

O tráfego se organiza a lenta velocidade

Pilotar uma moto nas estradas sinuosas do Vietnam é divertido, mas pode ser perigoso

Pelas montanhas do Vietnam seguia de motocicleta o viajante, com um estranho à garupa. Acabara de conhecer o húngaro, vegano, de fala mansa. Sandor é pintor. Artista, não pintor de parede, e mora na Tailândia há 23 anos.

A moto é uma scooter, como as “vespinhas” que conhecemos aí no Brasil. O encontro se dera alguns minutos antes, quando estava de partida para povoados distantes. Sandor tinha se instalado no mesmo dormitório do albergue vietnamita e perguntava sobre a região. Pediu carona para as cascatas e logo estávamos conversando, entre uma curva e outra.

Fácil conhecer gente nova em longas expedições

Conheci Sandor e poucos minutos depois já saíamos juntos pela estrada

Plantações de arroz e vistas espetaculares

Belas paisagens de montanha, ao longo da estrada

Pilotar uma moto nas estradas do Vietnam é por vezes arriscado, porém, de maneira geral o tráfico se organiza em meio ao caos. Na sinuosa estrada de Sapa a Sin Hô a velocidade padrão é lenta, entre 40 km e 60 km. Excelente para admirar as montanhas, as cachoeiras, os rios, as plantações de arroz e os pequeníssimos povoados agrícolas. Aqui, o espantalho em meio ao milharal usa chapéu em forma de cone, típico do país.

As jornada segue em looping com curvas de 180 graus. O máximo que atingi com a motinho foi 80 km, fora das curvas sequenciais. O perigo fica por conta dos caminhões, desinibidos, a ocupar as duas faixas da pista; de outras motonetas que surgem em qualquer encruzilhada ou despontam do nada para entrar na estrada. Outra opção de risco é ser atravessado por algo acoplado à motocicletas que trafegam na direção oposta. Pode ser um pedaço de cano, uma carga de madeira ou mesmo imensos latões ou móveis. Tudo é transportado em cima das magrelas motorizadas.

A estrada serpenteia as montanhas

Curvas de 180 graus na pista sinuosa

Fiz minha barbeiragem ao cruzar a pista para estacionar no acostamento oposto e quase desequilibrei um sujeito, na outra mão. Um porquinho preto e peludo deu o troco e chispou na minha frente. Delicado também quando os búfalos – tratados como vacas e com grandes sinos no pescoço – decidem bloquear o trânsito. Mas, no Vietnam é assim.  Felizmente o dia estava claro, o céu azul e a estrada, seca.

As crianças também se divertem com os animais

Búfalos, tratados como vacas, por vezes bloqueiam a pista

Chego a Lai Chau para ficar ainda mais surpreso. A cidade abriga a sede administrativa do governo e é espetacularmente estruturada com avenidas largas, lindos lagos artificiais e amplas calçadas. Só não há gente pelas ruas, ao menos não num sábado à tarde. Bizarro. A capital, Hanói, com bem menos espaço, é fervilhante, não cabe mais ninguém no espaço urbano.

Lai Chau tem ótima infraestrutura, mas quase não há gente

Avenidas imensas na cidade pouco povoada

A partir daqui mais difícil se comunicar. Apenas dizem “no, no, no…”. Ou então, sorridentes, “hello, hello…”. Entrei no único local que me pareceu servir comida e o garoto dentuço disse que só havia porco. Sem problema, respondi. A conversa se dá por texto no celular. “Está aprendendo inglês e só sabe ler e escrever, com pouca compreensão oral”, pensei. Fui descobrir depois que usava um aplicativo para tradução, digitava em vietnamita e me mostrava as frases em inglês.

O rapaz traduzia o diálogo no celular

O garoto se comunicava comigo por mensagem de texto

“Quanto custa a refeição que não sei bem qual será?”, perguntei, não literalmente dessa maneira. “Free”, respondeu o menino, magro e de óculos. Sim, apesar de ser um restaurante, só a família estava comendo àquela hora e me trouxeram grande tigela com sopa de arroz e pedações de porco. Comi três cumbucas cheias e saí agradecido, sem nada desembolsar. Povo hospitaleiro.

Curvas e rios depois, pergunto na estrada sobre Sim Hô. As pessoas fazem questão de responder e dar indicações. Mas no idioma deles. Num posto de gasolina o rapaz falou e falou em vietnamita. Só me serviu o gesto para seguir em frente e logo entrar à esquerda. Adiante filha e mãe me guiaram até à cidade.

À noite circulo pelas ruas escuras, povoado sem turistas ou atrativos, além dos mercados típicos de domingo. Encontro um bazar local e logo viro a atração, todos se divertem com a diferença de altura e querem registrar em fotos. Não só me liberaram a entrada para a feira, sem custo, como fizeram questão que eu participasse do evento. Um senhor, eufórico, agarrou uma anã e trouxe para perto de mim, como comparação. Lembrei-me do triste drama “O Homem Elefante”.

Participo do mercado de domingo no povoado. Vou relatar as curiosidades e mostrar incríveis imagens no último post desta trilogia. A porta do quarto do hotel tem impressionantes 3,5 metros de altura. A cama, dura como pau, recorda a casa de Ma Mai, em Lao Tsai.

 

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De Mochila pela Ásia

Entre vilas e montanhas (1/3)

em 22 novembro, 2015
A comunidade está assentada em área rural, ao Norte do país.

A comunidade está assentada em área rural, ao Norte do país.

Ma Mai e a mãe, etnia HMong

Não tenho certeza se o nome de Ma Mai se escreve com esta grafia. Ela tampouco soube me dizer. Aos 22 anos, casada e com dois filhos, nunca frequentou escola. Não sabe ler ou escrever. Esperta, aprendeu inglês melhor do que muitos habitantes da capital, Hanói. Ajuda a família com a venda de artesanato em uma cidade pequena, em meio às montanhas do Norte do Vietnam. Foi ali que nos encontramos e combinamos a minha estada, por dois dias, na casa dela, na área rural, junto à vila de Lao Tsai.

Ma Mai usa os cabelos constantemente presos, desde que casou, aos 15 anos. Homens casam aos 18. É o costume da etnia Hmong, grupo étnico originário da China e assentado também em regiões montanhosas de alguns países do sudeste asiático.

O trajeto de 10 km, a pé, até a vila, foi marcado por extensas plantações de arroz, búfalos e rios. A etnia vive da agricultura de subsistência e de pequenos animais, basicamente galinhas. Para ocasiões especiais, como o Ano Novo, preparam porcos gigantes e fabricam incensos especiais.

Animais frequentes na zona rural do Norte Vietnamita

Búfalos são usados no cultivo do arroz

Comunidade se alimenta basicamente de arroz

Plantação de arroz nas encostas das montanhas

 

 

 

 

 

 

 

A alimentação é à base de porco, galinha e arroz

Alguns porcos são engordados para ocasião especial

A comunidade é pobre, a casa de Ma Mai é muito simples. A construção inteira exibe frestas e o chão é de barro. Sob o mesmo teto precário ela disse que vivem oito pessoas, mas cada vez havia mais gente lá dentro. À noite contei 11 crianças. Após muito arroz e legumes, reparti chocolate com todos. O filho mais novo de Ma Mai gostou de mim e vivia me perseguindo. O menor, só de camisetinha, faz xixi ao lado da minha cama. Aviso a “recepção” (rsss) e a criança é retirada. O xixi permanece.

Vida muito simples e pobre na Comunidade HMong

Estrutura precária e higiene deficiente

As crianças ficaram curiosas a respeito do viajante

À noite havia 11 crianças na casa, algumas fugiram da foto

Caminhei muito pelos arredores, deslumbrado com os lugares mais altos do país. Tive a sorte de presenciar uma autêntica cerimônia Hmong, rito em homenagem aos mortos. Patas imensas e pretas de porcos descansavam sobre folhas de bananeira. Os homens jogavam grãos de arroz por cima e bebiam muito de pequenas copas. A maioria estava bastante excitada ou emocionada, alguns chorosos. Outros caíam de bêbados.

Era um dia especial na comunidade HMong

Aglomeração para celebração dos mortos

Patas de porco e muito álcool na cerimônia

Muitos homens emocionados, alguns chorosos

O cachorro de pelo claro circulava a mesa antes do jantar, seguido pelo gatinho preto. A panela de arroz fervente foi colocada ao solo. Seria a mesma que a madrasta de Ma Mai lavava no córrego imundo, ao lado da casa? Sim, não há saneamento básico e as condições de higiene são precárias. O córrego é de água escura e retém lixo.

Alguns turistas e outros viajantes também se hospedam na vila, mas em situação bem diferente, em casas preparadas para recebê-los, com mesas, cadeiras, camas e até sofás. Nesses casos há alguma comodidade, higiene básica e estrutura para alimentação. Esta minha experiência foi distinta pelo fato de ter sido abrigado e me adaptado ao cotidiano e à realidade de uma família Hmong muito simples, autêntica, de minguada existência. Ao longo das minhas aventuras já fiquei em barracos, acampei na selva e me hospedei em todo tipo de lugar, inclusive casas abandonadas, mas esta foi uma experiência única.

O comércio de artesanato é uma das poucas fontes de renda da comunidade

O comércio de artesanato é uma das poucas fontes de renda da comunidade

Contei 14 pessoas ao redor da TV, após a comida. Ninguém manifestava qualquer movimento para banho e Ma Mai não demostrou interesse ao ser perguntada onde eu poderia escovar os dentes. Alguns meninos apenas olharam com curiosidade. Um dos principais dentes da boca de Ma Mai é de ouro.

A lua era crescente e o céu, estrelado. Tudo era muito simples, mas eu estava feliz. Acomodei-me cedo, mas só consegui dormir depois que ajustei a jaqueta impermeável de forma a proteger melhor os ossos do quadril. Já era madrugada quando relaxei na minha cama de tábuas. A manta, originalmente curta, foi encolhendo ao longo da noite. A friagem acudia das imperfeições da madeira e golpeava as canelas. De manhã, chegava aos joelhos.

A coberta curta parece que encolheu ao longo da noite

Era dura minha cama feita de tábuas

A casa despertou tremendamente cedo, com forte movimento, antes das cinco da madrugada. Barulho de água sugeria banho. “Onde seria?”, perguntei à Ma Mai quando levantei. Ela jogou uma quantidade de água quente na bacia e o restante, frio, veio de uma caixa de alvenaria, instalada ao final da cozinha. Atirou um trapo lá dentro e sugeriu que me lavasse, ao lado do fogão. Naturalmente não havia fogão, mas sim um espaço para panelas sobre o fogo à lenha, no chão.

A água vinha de caixa d´água ao lado do fogão

O banho era de bacia, ao lado das panelas

Recusei o arroz do café da manhã e optei apenas pelos ovos. Saímos para seis horas de caminhada, atravessando outras vilas e visitando outra etnia. Mais arroz, desta vez com aquele macarrão bem fininho e, para beber, água quente. O retorno à cidade foi caminhada puxada e rápida de sete quilômetros. Mais da metade com aclive forte, montanha acima, sem terreno plano.

Regressei. O xixi da criança havia secado ao lado da minha cama. Até agora não descobri onde era o banheiro.

 

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Hong Kong

Hong Kong é moderna e desenvolvida. Ops, nem tanto…

em 9 novembro, 2015
É uma das regiões mais densamente habitadas do planeta.

É uma das regiões mais densamente habitadas do planeta.

A cidade cresceu para o alto.

Tudo é feito em Hong Kong. Lembro bem dos brinquedos de plástico da infância, na década de 70. Se você experimentou a vida nessa época, ou mesmo antes disso, vai se recordar das pistolas de água, das lanternas metalizadas ou coloridas, dos primeiros autoramas ou das câmeras fotográficas com flash quadrado que ia queimando aos poucos.

Os flashes iam queimando com o uso

As câmeras tinham flash quadrados removíveis

Pistolas d`água lembra a infância dos anos 70

A indústria de brinquedos surgiu na década de 40

Ao longo de uma história de dominação britânica, guerras mundiais e invasão japonesa, a região se industrializou e começou a exportar para o mundo lampiões e lanternas, brinquedos, produtos de plástico, relógios e muito mais plástico.

Aqui se vive bem e se paga por isso. Hong Kong é uma cidade desenvolvida, cosmopolita e muito interessante. Fala-se um pouco mais inglês do que no restante do país.

Por ter pouco espaço e ser uma das áreas de maior densidade demográfica do mundo, cresceu para o alto. É vertical, riscada por arranha-céus e conectada por galerias, shopping e centros comerciais e de escritórios.

A cidade ocupa boas posições nos rankings da ONU de qualidade de vida

Prédios imensos, fachadas espelhadas e neons brilhando à noite.

Está entre no topo da cadeia alimentar em diversas classificações internacionais: Ìndice de Desenvolvimento Humano; Qualidade de Vida; Percepção da Corrupção; Expectativa de Vida.

Segura e amigável, permite caminhadas a qualquer hora, com uma câmera ao pescoço e muita tranquilidade. E, o melhor de tudo, sem assédio. A única abordagem, ainda assim delicada, é para a venda de produtos piratas.

Um dos maiores centros financeiros internacionais, Hong Kong não para, está em constante renovação.

Difícil encontrar alguém sem emprego ou sem teto, pelas ruas

Hong Kong está sempre em obras

Naturalmente é cara. Mais do que o restante da China. Bem mais do que o sudeste asiático. Uma acomodação minúscula – com cama e diminuto banheiro – custa US$30. O céu também é o limite para os preços dos hotéis chiquinhos. Cobram fácil US$600 e lotam. Olha só onde eu fiquei.

A hospedagem mais barata custa US$30

O minúsculo quarto onde se hospeda o viajante

Cidade inteligente, HK construiu sistema de transporte excelente e de larga capilaridade. Abasteça um cartão e use nos trens, metros, ônibus, bondes e até no secular ferry boat. Ainda assim pode haver longas filas. Há muita gente. São sete milhões de habitantes em 1,1 mil quilômetros quadrados. O Brasil tem 8,5 milhões de km.

O barco dá uma visão da moderna Ilha de Hong Kong

O Star Ferry opera em Hong Kong desde o século XIX

Por ser uma região administrativa especial, a Cidade-Estado tem autonomia, livre comércio, um sistema político distinto da China Continental e um Poder Judiciário independente.

O ruim é que aqui a internet também é controlada. Menos do que em Shangai, mas há dificuldades, fato que atrasou a publicação deste post. Estava com dificuldade para visualizar minhas primeiras fotos e fiz contato com meu amigo Lucas, no Brasil.

Usando esses programas que só os hackers conhecem, ele acessou minha máquina à distância. Por poucos minutos tentou ajudar. Logo perdemos o áudio de contato. Depois o sistema de controle do governo chinês o expulsou do aplicativo e Lucas perdeu o monitoramento do meu computador. Fiquei só, lutando contra a tecnologia e o acesso vigiado. Nesse ponto prevalece a antiguidade.

A terra com um dos maiores PIBs per capita do mundo é também de fortes contrastes. Coexistem o antigo e o contemporâneo, o luxo e o tradicional. Ao lado de construções seculares e fachadas espelhadas, estão prédios mais velhos e feios, barracas de comida e lojas de medicinas chinesas. Íngremes ladeiras espremidas entre restaurantes finos.

Hong Kong é uma terra de contrastes

Restaurantes e lojas sofisticadas coexistem com barracas de venda de medicina tradicional

A história não foi engolida e é isso que torna o lugar charmoso e rico.

 

“Hong Kong is where East meets West and high meets low”.

 

 

 

 

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China

Cinquenta horas de viagem e já alguns perrengues na China

em 6 novembro, 2015
Os arredores de Pudong International Airport

A China tem muitas particularidades

Arredores de Pudong Airport, Shangai

 

Estou na China. Exatamente após dois dias de viagem ou quase 50 horas de traslados, quatro voos e os primeiros perrengues. De casa embarquei para São Paulo, aguardei por horas, peguei um avião para Nova Iorque, fiz conexão até Seattle, esperei mais um tanto e voei outras 13 horas até Xangai, por sobre o Pacífico. A passagem, claro, saiu baratinha.

Com um inglês mastigado e máscara cobrindo o rosto, o rapaz me apontou a fileira de imigração e consegui um visto de trânsito, válido por 72 horas, na maior tranquilidade e quase nenhuma espera.

Movimento intenso no aeroporto internacional de Pudong

Delegação chinesa em viagem

“Hopes and dreams. Determination”. Foram as primeiras palavras lidas, em inglês, na chegada ao importante centro financeiro mundial. Muito apropriado, é disso que falo ao me lançar a uma expedição ou entregar algumas mensagens em palestras.

O estresse e o aperto da partida me impediram de garantir uma acomodação na cidade mais populosa da China, com pelo menos 24 milhões de habitantes. Sabia da existência de um hotel no próprio aeroporto internacional de Pudon. Custava US$70, a opção mais em conta.

Apesar de internacional, muita gente que trabalho no aeroporto não fala inglês

O aeroporto internacional de Pudong é importante hub aeroviário

Melhor buscar na internet. O Google estava bloqueado num dos mais importantes hubs aeroviários do país, mas consegui acessar um site americano de reservas online e encontrei hospedagens bem econômicas. Todas restritas aos chineses, não aceitavam estrangeiros. Sim, a China tem muitas particularidades.

Outras opções registradas, preferi buscar informação local e confiável, antes de qualquer reserva. No centro destinado a apoiar estrangeiros a moça quis logo se livrar de mim. Boa caminhada, ainda nas dependências do aeroporto, e voltei sem informação ao hotel de “70 bucks”. Consegui que a recepcionista fizesse e me transferisse uma chamada telefônica. Do outro lado, apenas uma linguagem incompreensível.

Encontrei outro quiosque e fui direcionado ao portão onde circulam as vans para os hotéis. Nem sinal do transporte que eu deveria pegar. Fora do desembarque internacional, o inglês já começa a rarear. Um grupo de três jovens simpáticos e prestativos me ofereceu ajuda, acessou sites locais e eu registrei alguns contatos, mas nada frutífero. Achei um balcão de reservas de hospedagem, onde a mímica seria a principal opção. “Fala inglês?”. “A little” e assim pode esperar a comunicação será difícil.

O primeiro caixa automático, do banco oficial da China, recusou meu cartão de débito algumas vezes. O segundo também, sinal preocupante. Usei o cartão reserva, abastecido com menos dinheiro.

Fechei um hotel por US$35 a alguns quilômetros do aeroporto, com transporte incluído. Nada mal. Ou melhor, claro que nada bom o hotel, elevador imundo. Já viu até o elevador ser sujo? O “Eastern Star” tem cheiro de cigarro e toalhas rasgadas, bem ao estilo dessa expedição.

A opção  mais econômica encontrada perto do aeroporto de Pudon

Toalhas do nada estrelado Eastern Star

Acomodação para passar a noite, perto do aeroporto

Dá uma olhada na porta do hotel

O colchão é firme; o chuveiro, quente; então o repouso parecia garantido, ainda que sobre minha cabeça circulassem, barulhentos, os aviões.

Aviões rasgavam o céu dia e noite

Os aviões voavam sobre o hotel em Shangai

Três horas se passaram, desde o desembarque. Pálido, mas feliz, saio para comer. A noite é nublada, as ruas escuras e poucos carros circulam, buzinando forte. A comida típica chinesa é servida num lugar espantosamente limpo. Massa larga com legumes por incríveis dois dólares. Primeiro contato com a Ásia econômica e tradicional.

No primeiro banho em terras orientais, o sabonete líquido de saquinho não foi suficiente para o corpo todo, privilegiei as partes mais sofridas pela viagem. O shampoo desapareceu na vasta cabeleira.

Os aviões rasgavam o espaço e rugiam, furiosamente, madrugada adentro. O som explodia nos ouvidos do exausto viajante. Longe de dizer que foi uma noite aceitável, mas ganhei forças para seguir adiante.

Parto agora para Hong Kong, onde a jornada oficialmente terá início, por terra.

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