Aventura pelas Américas

Publicado em: 06/12/ 13

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(Matéria publicada no jornal Gazeta do Povo. Texto e fotos: Ike Weber)

Tomar banho até de álcool, comer pouco e caminhar muito, com mochilas carregadas às costas. Experimentar a vida real e a cultura genuína de comunidades exóticas, conviver com povos indígenas e se deslumbrar com paisagens magníficas. Assim foi De Mochila pelas Américas, uma expedição jornalística, cultural e de aventura que, em pouco mais de 10 meses, percorreu 12 países do continente americano.

O jornalista e aventureiro, Ike Weber, viajou sozinho, por terra e por água, do sul do Peru ao Alaska e regressou percorrendo regiões do Chile e da Argentina. A jornada, que começou em novembro do ano passado, terminou esta semana.

Só de deslocamentos foram 585 horas, o equivalente a praticamente 25 dias ininterruptos, em sistema multimodal de transporte: de ônibus, trem, moto e bicicleta. Cavalgando encostas e subindo montanhas. Navegando por rios, lagos, geleiras e mares, de canoa, caiaque, ferry boat ou barco a motor. Dirigindo em rodovias cênicas, desbravando onde não havia estradas e pegando carona.

Foi uma peregrinação por todo o tipo de ambiente urbano e natural, paisagens e acidentes geográficos. O viajante explorou cânions, desertos e selvas; visitou povoados esquecidos pelo desenvolvimento e capitais cosmopolitas; relaxou em praias, rios e baías; escalou montanhas e caminhou ao longo de geleiras. Experimentou elástica amplitude térmica, no decorrer da peregrinação – de áreas geladas, com temperaturas abaixo de 0 C, até regiões de calor extremo, ao redor de 45 C.

A opção foi por desvendar de maneira profunda cada região visitada, o que exigiu de 25 a 30 dias em cada país latino e no Alaska. Para cruzar os Estados Unidos de sul ao norte, sem pressa, pelo velho oeste, o viajante precisou de 45 dias.

A diversidade cultural dos povos e as diferenças no nível de desenvolvimento dos países, permitiu perceber desde a miséria e o sofrimento de países como o Peru (América do Sul), El Salvador e Nicarágua (América Central) à segurança e opulência dos Estados Unidos, realidade mesmo após crise internacional.

A jornada não foi uma viagem de férias ou roteiro turístico, mas sim um trajeto de exploração, de cotidiano econômico e hábitos simples, com refeições, transporte e acomodações singelas. A estada variou geralmente entre hostels – onde o dormitório, banheiro e cozinha são compartilhados -, hotéis espartanos, hospedarias ou pousadas. Algumas noites foram mesmo dentro de ônibus, em barracas ou cabanas de madeira. Exatamente 125 diferentes acomodações, para 307 períodos de sono.

Pelo fato de ser viagem de longa duração, tarefas cotidianas precisaram ser absorvidas, solucionadas ou executadas pelo aventureiro, como a lavagem e a reparação de roupas, as compras de mercado e a preparação de refeições, além do controle de despesas fixas no Brasil e o pagamento de contas.

A atenção com a segurança pessoal permeou boa parte da viagem, especialmente no trajeto das Américas do Sul, Central e do México. As ameaças variavam entre sequestro de viajantes em corridas de táxi, possibilidades de assaltos à mão armada e os riscos naturais, em lugares inóspitos e distantes.

Os desafios foram também provocados, com a prática de esportes radicais e de aventura. Adepto da adrenalina, o aventureiro distribuiu as atividades: montanhismo (Peru); camping e trekking selvagem (Colômbia); “deep board” e escalada (Panamá); vulcanismo e motociclismo (Nicarágua); tirolesa e “parasail” (Costa Rica); cavalgada (México) “mountain bike” e “rafting” (EUA); caiaque (Alaska) e “hiking” em todos os lugares percorridos.

Vínculos passageiros foram estabelecidos e novas amizades, internacionais, iniciadas. Sonho realizado. A trajetória sem planejamento fixo, sem o “último dia de viagem”, livre das proibições impostas pelo limite de tempo, chegou ao fim. O viajante teve que retornar para casa, gratificado, carregando inédita e rica experiência e ainda saboreando a sensação ampla de liberdade. Está nove quilos mais leve.

Histórias de um viajante

Uma expedição de quase um ano de duração permite desenvolver ou exercitar valores como a adaptabilidade e a flexibilidade, além de contabilizar histórias que vão muito mais longe do que a simples diversão e o enriquecimento cultural permitido pela arquitetura, tradições, museus, folclores e culinária de cada país.

A ousadia de uma longa jornada oferece possibilidades diferentes, vivências prazerosas e perigosas, situações cômicas e desagradáveis. Pelo caminho da alegria ou do sofrimento, sempre enriquece a vida do viajante.

Atormentado pelos comichões que não lhe abandonavam o corpo, o jornalista despertou agitado em uma madrugada na Colômbia, após um trekking de uma semana pela selva, onde dormiu em rede e estabeleceu contato com índios da região. Fustigado pela coceira, não hesitou em correr para o banheiro e despejar quase um litro de álcool pelo corpo. Sarna?, pensou. No dia seguinte, atendido às pressas pelo médico, a constatação: havia contraído doença de criança, a varicela.

Positivamente surpreso ficou o viajante quando desceu do ônibus interno no Parque Nacional de Denali, no Alaska, para uma caminhada na floresta de tundra, sem trilhas demarcadas. Do alto de uma montanha avistou um urso cinzento, com dois filhotes. Ávido pelo contato com a vida selvagem, arriscou. Apenas com a câmera fotográfica em punho seguiu lentamente na direção dos animais. Chegou a 500 metros da família que se alimentava de frutos silvestres. Era como viver dentro de um filme, só a natureza, os animais soltos e o risco de ataque.

Experiência mais estafante o andarilho enfrentou no Equador. Seguro de que o motorista iria se lembrar de avisá-lo para descer, relaxou no ônibus, trajeto noturno entre dois povoados. Ao notar que a duração prevista para a viagem já havia terminado, há algum tempo, resolveu questionar. O motorista se confundiu e desembarcou o aventureiro em um ponto parecido. Única diferença foi que era no meio da imensidão e escuridão dos vulcões equatorianos. Nenhuma acomodação, nenhuma luz, nenhuma comida nas proximidades. A caminhada para lugar algum foi finalizada com sorte.  O jornalista encontrou hotelzinho de beira de estrada para passar a noite e retomar o trajeto na manhã seguinte.

Ike Weber é jornalista, viajante e fotógrafo. 

 O projeto teve o patrocínio do Colégio Sesi e do Grupo Schultz/Vital Card e apoio de divulgação da rádio CBN Curitiba e do jornal Gazeta do Povo.