Teyuna: sagrada, perdida e escondida na selva da Colômbia (parte II)

Publicado em: 25/01/ 13
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Mil e duzentos degraus de pedra, irregulares, mas perfeitamente talhados, nos separam de Teyuna, a cidade sagrada dos Taironas, escondida na selva da Serra Nevada de Santa Marta, norte da Colômbia. Impressionante saber que o sítio arqueológico ficou por séculos isolado da civilização, desde seu abandono pelos índios, a partir do final do século XVI, até meados dos anos 70, sua descoberta oficial.

No quarto e mais difícil dia de caminhada acordamos no escuro, com os chamados dos guias baquianos, que reverberavam entre tendas, improvisados beliches e redes. A última hora de caminhada representa mais uma boa subida.

Cultura Tairona

A civilização Tairona imperava da costa caribenha até as altas montanhas da Serra, ocupadas desde há 1,8 mil anos. Os mais nobres, mais espiritualizados, ou melhores posicionados hierarquicamente habitavam espaços mais ao alto, isolados pela selva e, portanto, mais seguros. Não era necessária a construção de fortificações.

Com a dificuldade de acesso, ficaram preservados os dois quilômetros quadrados de construção, encontrados por camponeses em 1973, naturalmente após as visitas de alguns saqueadores. A área só foi aberta para caminhantes em 1981.

A entrada da cidade corresponde a uma antiga praça de mercado, onde outros indígenas praticavam escambo de alimentos e objetos. As casas, sempre em formato circular, com base de pedras, estavam mais acima. Um pouco apartado, o canteiro de trabalho e a oficina para moldar as pedras. A lápide com riscos brancos poderia representar a própria cidade ou ser uma carta hidrográfica, dos rios da região.

Para construir casas similares as de seus antecedentes, os índios Kógis usaram cana braba. No teto das cabanas, chamadas “bohios”, as duas pontas simbolizam os picos mais altos da Serra Nevada, atualmente conhecidos pelos nomes de Bolívar, o libertador, e Colón, o descobridor. Com 5.780 metros são as montanhas costeiras mais altas do mundo. Tanto as antigas vivendas Taironas, quanto as atuais cabanas Kógis, são purificadas com fogo, pelos Xamãs, antes de serem habitadas.

Os Taironas eram baixinhos, em torno de 1,60 metros, como também são os colombianos atualmente. Os degraus, igualmente pequenos, são difíceis de pisar para quem calça acima dos 40. As escadas também servem de proteção porque permitem acesso apenas de uma pessoa por vez, com pisar cauteloso.

Aventura real

Mata fechada, insetos e animais cercam Teyuna. Hoje o exército se esconde na selva, acampa no alto da Cidade Perdida e protege o movimento de mochileiros, em torno de 4,5 mil por ano. Felizmente pouco, pelas dificuldades do trajeto.

Oito visitantes foram sequestrados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), em 2003 – israelenses, ingleses, um espanhol e uma alemã.

O bacana de um trekking como esse é que a aventura é real, o viajante tem que se adaptar ao cenário e corresponder. Nada é fabricado. É um passeio absolutamente não turístico, feito com guias pelas condições inóspitas e exigências do governo colombiano e dos próprios indígenas.

Não há acesso além da trilha, a estrutura é como a de um acampamento e o uso de helicópteros na região depende de autorização oficial. Ou seja, você está por sua conta, com apoio do grupo ao qual se unir.

Tomei algumas decisões. Banho, só com água do rio, sem shampoo ou sabonete. Banheiro na mata, ao invés da casinha de madeira fechada. A comida é igual para todos e a água, purificada com soluções ou pastilhas, por garantia. Há porcos de criação na região. Obviamente não há energia elétrica e muito menos sinal de celular. De alguns pontos é possível a comunicação por ondas de rádio.

O ritmo das passadas não importa muito, você precisa encontrar o seu. Se forçar demais, não vai aguentar. Se andar muito devagar, o corpo amolece. A caminhada pode ser feita em quatro, cinco ou seis dias, isso tampouco tem importância.

Cada qual deve buscar seu ponto de auto-superação e o tempo que decide ficar na floresta. Naturalmente um trekking ansioso exige muito, mais muito mesmo do viajante, além de limitar o contato com a selva, novo a cada dia. Há sete anos um senhor não aguentou o esforço e faleceu, após ataque cardíaco.

Nosso grupo voltou vitorioso, ainda que um pouco combalido: dois com forte gripe, dois com problemas nos joelhos e um no estômago. De minha parte, trouxe as costas impactadas para examinar em Santa Marta. Três mulheres, de diferentes idades, voltaram em cima de mulas, possíveis de alugar, a partir de certo ponto do percurso.

Serviço:

Época: prefira o verão, seco (dezembro a março).

Guias: há operadoras em Santa Marta ou Taganga, pontos mais próximos.

Peso: leve só o básico, não mais do que cinco kg de carga na mochila. Saco de dormir é útil.

Preparo: só decida fazer a trilha se estiver realmente preparado, com boa saúde e praticando exercícios regularmente.


7 Comentários

  1. Fernanda Cunha disse:

    Eu simplesmente adorei seu blog, suas postagens foram de muita utilidade, sou do Sesi araucária e minha atual oficina está estudando o seu blog. Parabéns pelo seu trabalho. =D

  2. Daniela Pimenta , Stephany Contijo disse:

    Bom dia, Ike somos do colégio Sesi Londrina, queriamos saber se este local, há algum mito ou alguma historia contada pelos povos que se situam ai.

    • ikeweber disse:

      Conto para vocês a lenda da índia dormida:

      A índia Luba, da tribo dos Guaymies, era de caráter rebelde, herança da raça forte que lutou contra os conquistadores espanhóis. Luba se apoixona por um dos oficiais da Espanha e despreza o guerreiro Yaravi, de sua tribo.

      Desiludido o índio se lança ao vazio, do alto de uma montanha, acompanhado pelo olhar da indiazinha. Transforma-se na Flor do Ar. Luba, atormentada, renuncia ao amor ao conquistador, se perde na mata e morre.

      Conta a lenda que as colinas e as matas cobrem seu corpo, dando forma à montanha. Hoje os contornos se atenuaram um pouco, mas a trilha até à colina, no Valle de Antón, Panamá, é chamada de A Índia Dormida.

  3. Juninho disse:

    Creio com um pouco de esforço, mais não impossível. Acho muito legal essa sua ideia de mostrar um pouco do mundo para as outras pessoa através do seu blog. Sou aluno do SESI-PR Cianorte, e boa sorte nas suas próximas viagens.

  4. Vitória disse:

    Bom Dia,Ike somos do colégio SESI-FESP Curitiba,gostaríamos de saber se tem algum hostel na cidade,pode ser coletivo ou individual.
    Obrigada.

    • ikeweber disse:

      Na selva do Parque Teyuna há acampamentos de selva, sempre coletivos, onde se dorme em redes ou camas improvisadas. Não há hostel e muito menos cidade.

      A cidade mais perto, ponto de saída, é Santa Marta, na costa do Caribe. Aí sim, há todo o tipo de hospedagem, hotéis e hostels.

      Abço e bom trabalho para vocês. Ike.


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